sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Igreja ajuda mulheres acusadas de bruxarias

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 Mulheres de Papua-Nova Guiné
*Artigo da Vatican News

‘A ‘caça às bruxas’ causa vítimas e a Igreja em Papua-Nova Guiné não aceita a situação. Não é uma prática limitada aos livros de história da Idade Média, mas um fenômeno que ainda afeta certas áreas da grande ilha da Nova Guiné no Oceano Pacífico. A crença na bruxaria ainda é generalizada e gera atos de violência ou mesmo o assassinato de pessoas, em sua maioria mulheres, acusadas de lançar uma maldição sobre alguém da comunidade.

O caso de três mulheres torturadas e salvas por milagre no distrito de Mendi, no dia da última Páscoa, com a acusação de ‘sanguma’ (como é chamada a bruxaria na língua local), voltou a chamar a atenção contra uma prática que na província do Planalto Meridional (Southern Highlands) já causou no último ano doze vítimas e outras 76 mulheres acusadas, espancadas e que conseguiram escapar de linchamento. ‘As três mulheres estão se recuperando da tortura física, mas o trauma que sofreram está longe de ser curado’, explica a irmã Lorena Jenal, missionária franciscana suíça, que há mais de trinta anos é encarregada de acolher e proteger as mulheres acusadas de bruxaria. ‘Muitas mulheres foram enforcadas, torturadas e mortas em aldeias remotas da província, mas com frequência as notícias não chegam até nós e as famílias permanecem em silêncio por medo de represálias’, relata a irmã. ‘Deve ser feito alguma coisa para encorajar as famílias das mulheres acusadas a se apresentarem e denunciar o abuso e a violência sofridos’, acrescentou relatando o firme compromisso de sua comunidade.

Intervenção da Igreja

As religiosas dedicam-se a encontrar casas seguras para abrigar mães e mulheres assustadas que fugiram de ameaças, intimidações e espancamentos. ‘Não é apenas dever das instituições ajudá-las. É dever moral de todos proteger as próprias mães e irmãs e combater os problemas e superstições ligados à bruxaria’, observou a irmã Jenal, relatando a próxima abertura de uma ‘Casa da Esperança’, um lugar seguro, dedicado às vítimas da violência, onde as mulheres podem receber cuidados médicos, ter acolhida, proteção.

Precisamente com a intenção de oferecer sua contribuição de forma pacífica e não violenta, a irmã Jenal organizou uma marcha com os fiéis locais, com cantos e orações, até o lugar onde as três mulheres foram torturadas, com a intenção de ‘oferecer a paz e o perdão que o Senhor Ressuscitado deu a seus discípulos’, e lançar um apelo sincero ‘para pôr fim às acusações de bruxaria e violência de todo tipo’. A iniciativa, relatou a mulher religiosa, despertou muita emoção entre a população local.

O frade capuchinho mons. Donald Francis Lippert, que dirige a diocese de Mendi, capital da província de Southern Highlands, reconhece que o problema é grave e endêmico na sociedade indígena, no entanto observa que ‘estas práticas não fazem realmente parte de nossa cultura ancestral’. ‘Os que torturam e matam mulheres acusadas de bruxaria são culpados de um crime’, disse monsenhor Lippert, falando à comunidade no primeiro Dia Internacional contra a acusação de bruxaria, e enfatizando a urgência de acabar com a impunidade. ‘Os ataques a pessoas suspeitas de praticar magia negra só cessarão quando os agressores forem presos e condenados’. ‘Continuamos nossos esforços para rezar e agir juntos para acabar com essa violência absurda’, concluiu o bispo.

Resposta do governo e da Igreja

A questão é que o governo de Papua Nova Guiné parece ter subestimado este fenômeno. Em 2013, após um escândalo internacional que atingiu o país, causado pelos assassinatos de mulheres consideradas ‘bruxas’, o parlamento aboliu a lei de bruxaria que remontava a 1971. Essa lei dividia a bruxaria em ‘boa’ e ‘’ e considerava uma circunstância atenuante, nos casos de assassinato de uma pessoa que fosse suspeita de ser uma bruxa. De acordo com o missionário católico verbita Franco Zocca, que esteve em missão em Papua e professor no Instituto Melanesian de Goroka, na luta contra as crenças e práticas de bruxaria a contribuição da Igreja  – quase dois milhões de católicos, cerca de 27% da população  – é crucial, mas é necessária uma ‘resposta nacional’.

O missionário lembra : ‘Como aconteceu na Europa séculos atrás, as acusações contra supostos bruxos só cessaram depois que descobertas científicas e médicas explicaram as causas naturais de doenças ou epidemias. Com base nessa experiência, as Igrejas podem ajudar a erradicar as crenças esotéricas. Quando se trata de crenças, na verdade a teologia tem um papel importante a desempenhar’. ‘A fé no poder de Jesus Cristo’, aponta o missionário, ‘é o antídoto mais poderoso para combater as crenças demoníacas’.’



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