quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Manuel de los Ríos, o escravo que encontrou a liberdade a serviço de Maria

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo do Irmão Mario Chiarapini, FSC


Não há correntes ou prisões que possam condicionar a liberdade de um espírito livre. As pessoas interiormente livres jamais se submeterão a ninguém, a menos que queiram. Esta era, enfim, a personalidade de Manuel Costa de los Ríos, o escravo cabo-verdiano, conhecido como ‘Negro Manuel’, que, por batismo e amor à Virgem Santíssima, tornou-se um homem interior e socialmente livre. Com a capacidade de tomar decisões — prerrogativa fundamental dos que são realmente livres —, após sofrer violência, ser acorrentado e escravizado pelos homens, decidiu voluntariamente colocar-se ao serviço da Virgem Maria.

Escravizado aos 25 anos

Manuel era um jovem negro, nascido em 1604, em Cabo Verde, possivelmente na ilha de Santiago, então colônia portuguesa e triste encruzilhada do tráfico de escravos, entre o continente africano e a América do Sul. Este tipo de comércio humano marcou vergonhosamente a história da humanidade : homens e mulheres eram arrancados de seus entes queridos e de seu torrão natal, em condições desumanas, e levados acorrentados como escravos para outros países. Os principais portos eram Guiné (Costa dos Rios), Angola, Ilhas de Cabo Verde e Ilha de São Tomé, no Golfo da Guiné. Os principais destinos foram Colômbia, Ilhas do Caribe, México, Venezuela e Brasil.

Aos 25 anos, ‘Manuel Negro’ foi preso em Cabo Verde, vendido e levado para Recife, Pernambuco, e provavelmente passado por Cartagena das Índias (Colômbia), onde passou por sofrimentos indizíveis e profunda humilhação. Após a quarentena, ele e todos os demais escravos foram leiloados, publicamente, e comprados pelo capitão português, Andrés Juan, contrabandista que também havia cumprido pena de prisão por tráfico ilícito. Ele, porém, sempre tratou Manuel com grande humanidade.

Batizado no dia de Natal de 1629

Em seu novo país, Manuel foi batizado na noite de Natal de 1629, recebendo o nome de Manuel Costa de los Ríos (uma referência aos rios Gâmbia e Senegal), talvez porque aquela costa africana era lugar de origem da maioria dos escravos, que embarcaram com ele. No entanto, no testamento que o Capitão Andrés Juan deixou ao seu amigo e protetor, Bernabé González Filiano, quando estava doente, constava, entre outras coisas, ‘vinte e nove escravos negros, homens e mulheres, jovens e velhos, entre os quais Manuel de Cabo Verde, casado com a crioula Beatriz’. Logo, ‘Manuel Negro’ era cabo-verdiano.

Mudança de Vida

Ao receber o batismo, como escravo, Manuel sentiu-se uma pessoa diferente. Em virtude do sacramento, como um ‘homem novo em Cristo’, ele começou a ter uma visão diferente da vida e de seus semelhantes, que não eram mais considerados inimigos ou senhores, mas irmãos. Sua nova identidade como cristão deu-lhe a oportunidade de ver tudo o que lhe acontecia sob uma nova perspectiva. Com seu próprio dono, que não o considerava mais escravo, mas um confidente, estabeleceu-se uma relação de colaboração e confiança. Esta profunda transformação deu-se pelo fato de Manuel viver na graça de Cristo e por Cristo. Sua fé simples e genuína permitiu-lhe ter uma visão diferente do mundo, das pessoas e dos acontecimentos, com a pureza dos olhos de uma criança.

Viagem com duas estátuas da Virgem Maria

Após poucos meses do seu batismo, o Capitão Andrés Juan zarpou com seu navio (um patacho ou brigantina) para levar ao seu amigo, Antonio Farías de Sáa, uma estátua de terracota da Virgem Maria, que havia encomendado para a Capela que queria construir, em sua propriedade em Sumampa, região de Santiago del Estero. O capitão português levou, inclusive, duas estátuas para que seu amigo pudesse escolher. Então, o capitão partiu, levando consigo o escravo Manuel, classificado como ‘escravo doméstico’, que se tornou seu homem de confiança. Embarcaram no seu patacho San Andrés e, em poucos dias (21 de março de 1630), chegaram ao porto da Santíssima Trindade de Buenos Aires. Logo que desembarcaram, Andrés Juan foi obrigado a mudar seus planos, provavelmente por motivos de saúde ou de compromissos imprevistos. Assim, encarregou seu fiel ajudante Manuel a tarefa de entregar ao seu amigo, por via terrestre, as duas estátuas de terracota da Virgem Maria, uma que representava a Imaculada Conceição e a outra a Virgem da Consolação com o Menino Jesus nos braços.

‘Milagre da carroça’ no Rio Luján

No segundo dia de marcha, no início de maio de 1630, o grupo liderado por Manuel chegou ao Rio Luján, a 67 quilômetros de Buenos Aires. Às margens do rio, os bois que puxavam a carroça, com as imagens da Virgem, pararam repentinamente e se recusaram a continuar, apesar de várias tentativas. Todos os esforços foram em vão. Na tentativa de aliviar o peso da carroça, começaram a descarregar alguns itens. Uma das duas caixas, que continha as imagens da Virgem, foi removida. Assim, os bois retomaram o caminho. A caixa continha a imagem da Virgem Imaculada. Manuel interpretou o evento, mais tarde chamado de ‘Milagre da carroça’, como desejo da Virgem de parar naquele local. Daí, o escravo procurou uma casa próxima e encontrou uma mais apropriada : a do Padre Dom Diego Rosendo de Oramas. Então, deixou ali a estátua da Imaculada Virgem Maria, após construir um pequeno altar para colocá-la. A outra estátua, como previsto, foi levada para Sumampa, para a fazenda de Antonio Farías de Sáa.

Manuel, livre, mas a serviço da Virgem Maria

Mais tarde, Manuel perguntou ao seu novo senhor, talvez Bernabé Gonzalez Filiano, a quem Andrés Juan o havia vendido, se podia dedicar sua vida a Luján, tornando-se servo da Virgem Maria. Desde então, ‘Manuel Negro’ tornou-se um homem ‘livre’ dos demais homens, fazendo-se ‘escravo’ da Imaculada Virgem Maria, à qual consagrou sua vida. Alguns historiadores levantam a hipótese de que, na época do milagre da carroça, Manuel já se encontrava na fazenda de Gonzalez Filiano, onde trabalhou como empregado doméstico no rancho, perto do rio Luján. Ali, junto com os demais escravos, tornou-se testemunha ocular do milagre. Assim teve início a devoção à Virgem de Luján, à medida que a notícia se espalhava rapidamente. Numerosos peregrinos começaram a afluir ao local. Manuel começou lentamente a recuperar a sua dignidade, embora ainda carregasse, em seu corpo e alma, as marcas indeléveis de uma história humilhante, compartilhada com tantos outros seres humanos, que haviam sido presos e levados como escravos por todo o continente americano.

Casamento com Beatriz

Durante aquele período, Manuel conheceu e se apaixonou por Beatriz, uma jovem crioula, que também era escrava em uma família, e com ela se casou, provavelmente em 1638. Beatriz foi uma esposa fiel até à morte, em 1670, comprometendo-se com seu marido para manter vivo o culto à Santíssima Virgem. Manuel, que foi o guardião exclusivo da Virgem de Luján, costumava dizer : ‘Não tenho outra Senhora além da Virgem’. Como sacristão, ele zelava de seu culto e da lâmpada que iluminava a estátua. Um de seus biógrafos escreveu : ‘Ele havia dedicado todo o seu coração de escravo à Virgem de Luján, seu tesouro e verdadeira Senhora. Ele permaneceu por cerca de quarenta anos, servindo a sua única e amada Senhora, com muita paz e alegria’.

Guardião da estátua

A família de Oramas construiu uma capela à Padroeira Virgem Negra, para a qual muitos fiéis faziam peregrinações de várias partes do país, entre 1630 e 1674. Com o tempo, a propriedade ficou abandonada, enquanto o criado Manuel continuava a ser o guarda da pequena estátua da Virgem.

Desde então, teve início uma série de eventos inexplicáveis, considerados milagrosos, como o desaparecimento da imagem. Pensavam que havia sido roubada por Manuel, mas ela voltou para seu antigo oratório, junto com Manuel. Assim, decidiram fazer uma procissão que contou com a presença de autoridades civis e eclesiásticas. Desta forma, Manuel voltou  a ser, novamente, o guardião da imagem e o fluxo de peregrinos e devotos aumentou notavelmente.

Cuidado dos enfermos

Manuel tornou-se amigo de muitos doentes, que começaram a afluir a Luján para invocar a Virgem Maria. Ele próprio os ungia com o óleo da lâmpada, que ardia continuamente diante da imagem, que causava inúmeras curas. Um dos seus primeiros biógrafos escreveu : ‘Sua simplicidade inocente era tamanha que, às vezes, tratava a Virgem Santíssima com extrema familiaridade’. Manuel faleceu em 1686, aos 82 anos, e foi sepultado perto do altar-mor da Virgem Maria.

Mensagem contra a escravidão de todos os tempos

Esta história do escravo Manuel foi, certamente, fascinante, pois livre da escravidão dos homens, colocou-se a serviço da Virgem Maria. Mas, o que a história deste escravo africano, proveniente do arquipélago de Cabo Verde, pode nos ensinar? Certamente, pode servir-nos de exemplo de santidade, sobretudo, em nossos dias, marcados, dramaticamente, pelo fenômeno da escravidão. A figura do escravo Manuel, o Negrito da Virgem, pode se tornar um modelo e um alerta para a sociedade. Ele pode ser considerado um santo padroeiro das vítimas e uma referência ideal para a implementação de políticas de combate ao fenômeno da escravidão, em nível internacional. Pode ser também um apelo para reconhecer o valor de cada ser humano, sobretudo dos mais frágeis, diante do tráfico de mulheres e crianças forçadas ao trabalho forçado e à prostituição.

Milhões de escravos no mundo

Em seu relatório anual, intitulado ‘Pequenos escravos invisíveis’, a organização ‘Save the Children’ afirma que 50 milhões de pessoas são vítimas das novas formas de escravidão, das quais 12 milhões de menores, obrigados ao trabalho forçado e à exploração sexual, um ato de violência brutal e sem precedentes por parte dos novos traficantes de escravos, que destroem a vida de meninos e meninas, adolescentes e jovens. E o mais trágico é que os números de tal fenômeno aumentam sempre mais, exacerbados por emergências globais como a crise climática, guerras e migração, com o consequente aumento da pobreza e da vulnerabilidade familiar. Os fluxos migratórios, em particular, alimentam, inevitavelmente, o tráfico de pessoas e várias formas de exploração e abusos sexuais. Proteger os mais vulneráveis, como crianças, adolescentes e mulheres — muitas vezes jovens mães, — deve ser uma prioridade para a sociedade e para a Igreja.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-11/manuel-de-los-rios-escravo-liberdade-negro-manuel-cabo-verde-26.html

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

No fio da história “Maria conservava estas coisas no seu coração” (Lc 2, 19)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Dom Ruberval Monteiro, OSB

Mosteiro da  Ressurreição, PR [1]


Uma imagem que fala sempre

Frequentemente se pensa que as imagens sejam ‘decoração’ de uma igreja, um mosteiro, de uma casa, de qualquer espaço. Ao contrário, todos os elementos são uma continua comunicação : nada é neutro! Mesmo o vazio das paredes brancas provoca um efeito, nem sempre positivo, sobre nós, filhos do ‘menos é mais’. Os primeiros cristãos usaram abundantemente imagens para comunicar seus conteúdos simbólicos intraduzíveis em conceitos. Uma falsa teoria muito difusa fez crer que os preceitos aniônicos da tradição hebraica teriam impedido os primeiros cristãos de usar imagens. Ao contrário, estudos sérios [2] e descobertas arqueológicas mostraram como, no período grego romano dos primeiros séculos de nossa era, onde a comunicação era feita por imagens, sejam hebreus como cristãos, influenciados pelos primeiros, usaram-nas a serviço de sua fé e culto [3], e transmitiram um acesso experiencial, não teórico, ao mistério inefável. Neste pequeno artigo veremos um modulo iconográfico usado por todo o primeiro milênio e ainda bastante válido.

O sarcófago Pignatta (s. V), que se encontra em Ravena, traz em seu lado mais curto a figura primitiva de uma esplêndida anunciação : Maria é retratada sentada em um tipo de trono à esquerda, quase completamente envolvida por um manto amplo, e está engajada na arte de tecer um fio levantado na vertical. Diante dela, à direita, o anjo chega ligeiramente inclinado em pé na direção do centro, com asas majestosas que lhe criam como que uma mandala; sua mão direita parece ter portado um rolo de pergaminho ou um bastão de viajante (as figuras são muito deterioradas) e aponta na direção da mão levantada de Maria, enquanto sua esquerda vai na direção do amplo cesto de vime que contém a lã tingida de púrpura. O braço direito da Virgem foi perdido, mas restou o sinal da mão em movimento horizontal na direção do anjo.


A Virgem que fia a lã

Esta iconografia inspira-se na tradição apócrifa onde Maria, à chegada do anjo Gabriel, estava fiando lã para tecer o novo véu do Templo de Jerusalém :

Algum tempo depois, houve um concílio de sacerdotes e eles disseram : ‘Devemos fazer uma tenda para o templo do Senhor’. E o sumo sacerdote ordenou : ‘Chamem-me donzelas imaculadas da tribo de Davi’. (...) Mas o sumo sacerdote lembrou-se da jovem Maria, que também era da tribo de Davi e era impecável aos olhos de Deus. Os criados foram buscá-la também. Deixaram-nos todos entrar no Templo do Senhor, e o sumo sacerdote lhes falou : «Lançai a sorte sobre quem girará o ouro e amianto, linho fino, seda, jacinto, escarlate e púrpura». Maria foi tocada com a púrpura e escarlate, e ela os tomou e voltou para sua casa. (...) Enquanto isso, Maria, tomando a lã escarlate, girava e fazia o fio.

Um dia Maria pegou o cântaro e saiu para tirar água, e eis que uma voz disse : ‘Salve, ó cheia de graça! O Senhor está convosco, benditas sois vós entre as mulheres’. Ela olhou ao redor, à esquerda e à direita, de onde vinha a voz. E quando ela ficou toda trêmula, ela foi para casa, abaixou o jarro e pegou a lã purpura, sentou-se em seu banquinho e o fiou. (...) Maria terminou de trabalhar a púrpura e escarlate e lá trouxe para o padre. E o sacerdote a abençoou com estas palavras : ‘Maria, o Senhor Deus glorificou o teu nome, e serás abençoada por todas as gerações da terra’ [4].

Este fio aparece com muita frequência na arte bizantina ocidental e oriental, e somente após a Idade Média esse detalhe desaparecerá da iconografia ocidental enquanto permanece na bizantina. A pergunta que vem à mente é sobre as razões desse detalhe não bíblico e qual é o significado de sua repetição. A referência ao texto dos apócrifos não é suficiente para justificar a representação, uma vez que a arte cristã primitiva não tenta mostrar como as coisas foram no passado (visão histórica), mas seu significado no presente.

Havia muito conteúdo em torno a este pequeno sinal. A lã fiada é um gesto muito antigo para a humanidade : as diferentes fibras de lã se unem em um único fio, graças ao fuso e ao gesto delicado de dedos que controlam a quantidade de fibras para criar uniformidade, e que, pouco a pouco, será enrolado no rolo. Esta atividade, muito comum às mulheres do antigo mundo pré-industrial, tem sido entendida desde os primeiros séculos pelos cristãos como um estupendo símbolo do mistério da Encarnação, no qual, no sagrado movimento redondo do giro do fuso, a matéria humana, no ventre da Virgem Maria, torna-se Verbo de Deus, feito carne. Ela segura na mão o fio púrpura imperial que teceu : seu trabalho agora será tornar-se «o tear da carne de Deus», de acordo com a metáfora de São Proclo de Constantinopla (+447). Sobre o Mistério da Encarnação podemos expressar-nos somente com símbolos, pois as palavras e os conceitos humanos são incapazes. Sobre este fato, papa Bento XVI bem se expressou :

O evangelista Lucas repete várias vezes que Nossa Senhora meditava silenciosamente sobre esses acontecimentos extraordinários em que Deus a havia envolvido. «Maria guardou estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). O verbo grego usado symbállousa significa literalmente «montar» e sugere um grande mistério a ser descoberto aos poucos [5].

A iconografia do fiar, na Idade Média ocidental, dará lugar a uma outra imagem muito semelhante ao gesto artesanal de criar um fio : a salmodia! Maria tem o saltério em suas mãos e «une» Palavra e vida. Esta «junção» faz-nos compreender que o mistério da Encarnação não é apenas algo que aconteceu uma vez no tempo, mas continua na duração da vida, tanto a da Virgem Maria, da Igreja, quanto da nossa, ao longo do ano litúrgico que nos ensina a juntar - sem excluir nada - todas as fibras da nossa história pessoal, comunitária e eclesial, para criar um fio que entrará na peça única diante do Sancta Sanctorum. A cortina ou véu simboliza a revelação de um mistério oculto [6], o limiar da eternidade.

O trabalho artesanal de fiar «simbolicamente» os eventos históricos com os salmos, profetas, evangelho, continua o trabalho que fizeram os Padres da Igreja, tecendo com sua contribuição, a história da Salvação, nos confins entre o já/agora e o ainda não.

O giro do tempo litúrgico nos unifica em seres humanos integrados em si mesmos e com os outros, na urdidura de uma história que supera nosso entendimento, à medida que o tempo avança. Celebrar as festas litúrgicas com atenção, cuidado e amor é sempre uma forma de sair de nós mesmos e nos deixarmos levar para fora de nós mesmos, para contextualizar nosso próprio caminho pessoal em um contexto mais amplo e, portanto, ainda mais verdadeiro. Toda vez que celebramos uma festa ou uma simples hora litúrgica, bem como a recitação de orações que marcam a virada dos dias em nossas vidas, experimentamos fazer parte de um projeto superior aos nossos sentimentos, emoções, desejos e frustrações. ‘A liturgia tem um valor terapêutico para tudo que, em nós, corre o risco de nos fazer-nos voltar para nós mesmos, fechando para a vida possibilidades de expansão e crescimento’ [7].

A iconografia da anunciação primitiva e medieval revela-se, na luz da grande Tradição, um símbolo eficaz para contemplar o Mistério cristológico em si mesmo, assim como um método para uma participação ativa na celebração litúrgica, verdadeiro serviço divino à nossa unificação, como e com o Corpo de Cristo. Afinal, seguindo a imagem simbólica, o divino fiador é Ele mesmo!

 

[1]   Professor de linguagem simbólica, arte e liturgia no Pontifício Instituto Litúrgico de Santo Anselmo, em Roma.

[2]   A. GRABAR, « Recherches sur les sources juives de l’art paléochrétien I », Cahiers Archéologiques XI, Paris, 1969, 58-71 ; A. GRABAR, Le vie della creazione nell’iconografia cristiana. Milan 1983, 5.

[3]   Cf. P. PRIGENT, L’image dans le judaïsme du IIe au VIe siècles, Labour et Fides, Genève, 1991, 23-42.

[4]   « Protovangelo di Giacomo » (X-XII), in Apocrifi del Nuovo Testamento, a cura di MORALDI, L., Unione Tipografico, Torino, 1971, 77-78.

[5]   Benoît XVI, Homilia para a Missa na Solenidade de Maria SS.ma Mãe de Deus e no 41º Dia Mundial da Paz, 01.01.2008.

[6]   H. PAPASTAVROUP, Le voile, symbole de l’Incarnation - Contribution à une étude sémantique, Cahiers archéologiques 41, Paris 1993, 141-168.

[7]   M. SEMERARO, La messa quotidiana, julho, EDB, Bolonha, 2015, 308.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/125


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Finados e santidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Dom Carlos José  de Oliveira,

Bispo de Apucarana, PR

 

‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá’ (Jo 11,18)

Ao nos aproximarmos do final do Ano Litúrgico, teremos duas celebrações importantes nos dois primeiros dias do mês de novembro : a solenidade de Todos os Santos e o Dia de Finados. Ambas, ligadas à vida de santidade e à morada eterna que está reservada na Pátria Celeste aos que creem no Cristo Morto e Ressuscitado para nossa salvação. ‘Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor’ (Heb 12, 14).

A solenidade de Todos Santos recorda que somos chamados a uma vida de santidade, coerência e fé, com base nos ensinamentos de Jesus e da Igreja. Inúmeros são os santos e santas na morada celeste. Muitos conhecemos pelo nome, porém, a maioria deles, embora não saibamos o nome, estão na Glória, contemplando a face da Trindade, ao lado da Virgem Maria e de São José. Fomos criados por Deus para a vida e não para a morte, tanto que fomos resgatados pelo Sangue Precioso do Filho, derramado para que pudéssemos, um dia, contemplá-Lo e adorá-Lo em verdade.

Todos os batizados têm em si a graça necessária para viver em santidade e alcançar, pelos méritos de Cristo, a Glória do Céu. Buscar o caminho da santidade e vivê-la no dia a dia é um desafio que pode ser vencido pela fé e perseverança da oração, da vivência dos sacramentos e da escuta e prática da Palavra. A Pátria Celeste é para todos os que, de livre vontade, escolhem viver em Cristo e para Cristo. Para sermos santos no céu, é preciso passar pela morte. A morte é a separação física do homem com a terra, e é, pelos méritos da Morte e Ressurreição de Cristo, que se dá nossa entrada na vida eterna. Essa entrada na eternidade pode ser ao lado do Pai ou na ausência eterna de seu Amor. Isso depende também de nosso comportamento, de nossas ações e de nossa fé em Cristo Jesus.

Temos as regras para caminhar com Cristo na terra, e essas regras são os Mandamentos Sagrados e a Santa Palavra de Deus, que nos ensina a buscarmos uma vida de santidade, para vivermos como santos no Céu. Muitos Santos e Santas da nossa Igreja encontraram, em vida, o verdadeiro sentido para a morte e, com isso, aprenderam a viver bem sua vida terrena, na esperança e na certeza de que a morte os levaria aos céus. É pela fé na ressurreição de Cristo que encontramos o sentido da morte, pois Jesus a venceu e nos abriu as portas do Céu. A Mãe Igreja, ao relembrar os fiéis defuntos, convoca seus filhos a se confrontarem com o enigma da morte.

O dia de Finados suscita questionamentos e várias interpretações : muitos pensam que não há o que fazer pelos que já morreram, pois acreditam que a morte é o fim de tudo. Para outros, ainda, é um dia trágico, pois, de certa forma, antecipa a cada ano o que seremos todos, um dia. Mas, graças a Deus, para muitos, é um dia de esperança e comunhão com quem amamos e continuamos a amar, apesar de termos perdido sua presença física neste mundo chamado de vale de lágrimas.

É importante e salutar enfeitar os túmulos, levar flores, acender velas e, mais importante ainda é oferecer o sacrifício da Missa em sufrágio das almas de nossos entes queridos. Sempre pensamos que quem amamos e morre, imediatamente está na Glória de Deus, mas a Igreja nos confirma categoricamente a existência do Purgatório, onde se encontram os que necessitam de purificação, em virtudes das faltas cometidas. Nosso corpo perece e morre para a vida nesta terra, mas a alma vive eternamente e nossas orações podem atingi-las. Ao rezar pelas pessoas que não estão mais presentes no meio de nós, quem sabe, se nesse dia, graças às nossas preces e orações, elas não alcancem a necessária purificação e entrem, definitivamente na Pátria Celeste? O nosso Deus é ‘o Deus dos vivos, e não dos mortos’ (Lc 20,38).

A celebração do dia de Finados é uma oportunidade para fazermos uma reflexão sobre a vida. Ela terminará para todos nós aqui neste mundo, é apenas uma questão de tempo. Além disso, para a eternidade não poderemos levar nada de material. Levaremos apenas o bem que tivermos feito para nós e para os outros. Logo, deve ser uma tomada de consciência de que ser feliz e viver bem não quer dizer acumular tesouros, prazeres ou glórias, mas fazer o bem e preparar uma vida eterna com Deus. Que a Virgem Maria e São José intercedam por nós!

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.cnbb.org.br/finados-e-santidade/

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

As grandes civilizações africanas - A evangelização da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

Durante séculos a missão africana viveu em estreita dependência das potências colonizadoras, sobretudo, aquelas que eram consideradas católicas como Portugal, França e Bélgica. Junto a isso se cona também uma dependência quase que total do trabalho missionário das congregações religiosas, com a ausência de uma Igreja local mais estruturada.

Quando chegamos ao século XIX a missão católica já estava melhor estruturada e alguns fatos vieram alavancar o trabalho missionário, especialmente nos países localizados abaixo do Deserto do Saara, onde a concorrência com o islamismo era bem menor.

Nesse sentido merece destaque a criação dos primeiros Vicariatos Apostólicos com a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide, onde se destaca o trabalho do cardeal redentorista Van Rossun, braço direito do Papa Pio XI para o campo da evangelização.

A publicação de diversas Encíclicas missionárias por diversos papas, sobretudo, a Fidei Donun (1957) do Papa Pio XII abre os olhos da Igreja para o trabalho Missionário.

Entre fins do século XIX e primeiras décadas do século XX se dá a criação das primeiras circunscrições eclesiásticas, com a nomeação de bispos para os territórios de missão.

A evangelização na África

Sudão

Em 1846, o Papa Gregório XVI criou o Vicariato Apostólico da África Central que abrangia uma imensa região, da Guiné até o Nilo, com sede em Cartum. Foram feitas cinco expedições tentando atingir o centro de missão em 1846,1857,1862 e 1867. Aqui o destaque fica com São Daniel Comboni (+1881), fundador da Congregação dos filhos do Sagrado Coração e do Instituto Pias Madres da Negritude. 

Etiópia

A expedição missionária de Justino de Jacobis realizada em 1838 converteu os monofisitas, mais por motivos econômicos do que religiosos. Entre 1839-41 De Jacobis viveu como monge, conquistando a confiança do povo e das autoridades. Em 1849, foi sagrado bispo, mas a partir de 1855 veio a perseguição contra os católicos. De Jacobis morre em 1860.

Outros destaques desta área missionária ficam com Guilherme Massaia (+1889), frade capuchinho nomeado cardeal em 1884 e com o cardeal Lavigerie e a fundação dos padres brancos

Uganda

Com o Papa Pio IX o cardeal Lavigerie foi nomeado delegado apostólico para a África Equatorial e em 1879, os padres brancos atingiram a Uganda, em Entebe, mas foram expulsos em 1882, por motivos políticos, sendo chamados de volta em 1885.

Desta área missionária merecem destaque São Carlos Lwanga e seus companheiros mártires. Hoje 36% da população ugandense professa a fé católica.

Madagascar

A colonização e a penetração católica aconteceram de forma paralela. A primeira expedição aconteceu em 1855, com o jesuíta Finaz. Aqui, porém, as dificuldades foram muitas com perseguições e massacres.

Depois da guerra Franco-Malgache, Madagascar se tornou um protetorado francês e colônia em 1896. Apesar da luta com o governo francês pela escola, o desenvolvimento foi bem continuado.

Congo

O rei Leopoldo II criou o Estado livre do Congo, lutando contra as pretensões de ingleses, franceses, portugueses e dos escravistas árabes, mas ele submeteu o Congo a um duro regime de escravidão e exploração.

O método missionário conhecido como ″Fermes Chapelles’, uma espécie de missão agrícola com escolas profissionais para jovens foi bem aceito no princípio, mas depois sofreu bastante críticas. Entre 1904 e 1906 ocorreu uma campanha de acusação contra as missões católicas e elogios ao governo de Leopoldo II. A polêmica voltou em 1911, com o Congo sendo anexado à Bélgica. Com isso, as missões não puderam ser continuadas.

Avaliação da metodologia missionária

Aos poucos as missões se tornaram menos dependentes dos velhos regimes coloniais, com amplas vantagens, devido a isenção frente aos colonizadores que passara a ser criticados pela Igreja em vista de alguns métodos brutais utilizados.

Também de tornou de grande importância a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide pelo estímulo à ação missionaria com impulso dado à criação dos Vicariatos apostólicos e independência da Santa Sé na nomeação dos bispos.

Dois problemas, porém, ainda continuam :  o pouco respeito à cultura local e a dificuldade de transformar as missões em Igrejas locais. Nesse sentido, a Encíclica Maximum Illud de Bento XV (1919) destacou cinco pontos globais em relação às missões : Condenação do Feudalismo Colonial e da não colaboração, a necessidade de colaboração entre as diversas missões, a urgência de se formar um clero autóctone, a condenação do nacionalismo dos missionários e a valorização da língua e da cultura local.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-evangelizacao.html


domingo, 25 de outubro de 2026

Liturgia monástica: O grande “hoje” de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Ex-presidente da AIM


As poucas reflexões propostas aqui pretendem ser um convite para escolher viver hoje como o dia mais importante e real que nos é dado. Hoje, como todos os dias, tudo acontece pela força e verdade dos seres e das coisas, desde que nossas vidas estejam dispostas a acolhê-los. Como se sabe, a liturgia destaca esse ‘hodie’, esse presente que nos faz entrar no dia sem fim de Deus.

Essa proposta é feita pensando em todos aqueles que, hoje, como todos os dias desde a criação dos seres humanos, têm sede de ser, de viver, de compreender, de compartilhar, de amar, de existir intensamente em uma humanidade que clama por sua sede e desejo, sem realmente saber quais podem ser o objeto e o modo.

Primeiro, colocaremos a questão da escuta diária : ‘Hoje, se ouvirdes a minha voz’; depois a do alimento diário : ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’, e finalmente nos voltaremos para o Dia de Deus, o dia além dos dias, o dia prometido e tão desejado.

‘Hoje, se ouvirdes a minha voz,  não permitais que se endureçam vossos corações’ (Sl 94)

Este versículo do salmo é citado no início da Regra de São Bento :

‘Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo : ‘Já é hora de nos levantarmos do sono’. E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações’, (Sl 94, 8). E em outro lugar : ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas’ (Ap 2, 7). E o que ele diz? ‘Vinde, meus filhos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor’ (Sl 33, 12). ‘Correi enquanto tendes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos apanhem’ (Jo 12, 35).’ (Pról. 8-13).

O salmo 94 é ou era cantado todos os dias no início do Ofício de Vigílias na liturgia beneditina : é por excelência o salmo invitatório, o salmo que convida à oração com suas diferentes partes.

Primeiramente, um apelo geral ao louvor : ‘Vinde, exultemos de alegria pelo Senhor, aclamemos o Rochedo que nos salva! Avancemos para Ele com ações de graças! A Ele, nossos cânticos e aclamações!’ [1]. Em seguida, uma ação de graças pela obra da criação : ‘Ele é o grande Deus, o Senhor, o Rei, maior do que todos os deuses! Em Sua mão, as profundezas da terra; também a Ele pertencem os cumes das montanhas.  A Ele o mar, pois foi Ele que o fez, e os continentes que Suas mãos modelaram.’ Antes mesmo de ser reconhecido como o Criador de todas as coisas, o Senhor é confessado como o Deus único, o Deus grande acima de todas as grandezas, de todas as alturas. É por isso que Ele pode segurar em Sua mão todos os elementos criados, das profundezas da terra aos cumes das montanhas, em toda a extensão dos mares e continentes.

Depois, uma oração agradecida pela obra da salvação em relação direta com a caminhada no deserto e as maravilhas ali realizadas pela mão do Senhor. Esta oração é acompanhada de um convite ao arrependimento, garantia da verdadeira ação de graças : ‘Vinde, inclinemo-nos, prostremo-nos! Adoremos o Senhor que nos fez! Sim, Ele é nosso Deus, e nós somos o povo que Ele conduz, o rebanho guiado por Sua mão... Não endureçais vossos corações como no deserto, como no dia da revolta e do desafio, quando vossos pais me desafiaram e provocaram, apesar de terem visto o que fiz!’ Esta ação de graças pela redenção e este apelo ao arrependimento estão ligados a uma nova confissão de fé : ‘Ele é nosso Deus, e nós somos o povo que Ele conduz...’.

Por fim, o salmo termina com uma evocação da promessa feita por Deus ao homem de compartilhar Sua vida em Seu repouso eterno, no último sábado, se o coração humano não se desviar, com uma nova referência ao pecado de Israel no deserto : ‘Quarenta anos, suportei essa geração; eu disse : ‘É um povo de coração desviado; eles não querem saber dos meus caminhos’. Por isso, jurei na minha ira : ‘Jamais entrarão na terra do meu repouso!’’.

No meio desse conjunto, surge o versículo citado por São Bento : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações!’. Portanto, neste salmo, há a dimensão da memória, a da promessa e a que dá sentido a ambas, a da atualidade cotidiana. Esta é uma das chaves da espiritualidade cristã. São Bento, seguindo a tradição monástica, é um comentarista particularmente notável.

Do que se trata? Trata-se de viver cada dia acordado. Cada manhã e cada instante do dia são um chamado feito pela voz de Deus. Este chamado só pode ser percebido por aqueles que estão atentos a ele. Aqueles que abrem os olhos e os ouvidos de seus corações para ver e ouvir ‘o que o olho não viu, o ouvido não ouviu, o que Deus preparou para aqueles que O amam’ (1 Cor 2, 9 citado por RB 4, 77). O que pode nos tornar infelizes nesta vida é estar aprisionado na ilusão dos sentidos externos. Se vejo apenas com meus olhos físicos, se ouço apenas com os ouvidos do meu corpo, ainda não vi nem ouvi nada que possa me permitir saborear a verdadeira vida.

A cada dia, a cada segundo, através dos seres e das coisas criadas, nos é dada a totalidade da existência. No entanto, muitas vezes, estamos dormindo e só sonhamos. É urgente, constantemente urgente, acordar, levantar, ressuscitar e começar a ouvir : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações’. Este é um dos propósitos essenciais do Evangelho. Para poder ouvir, o coração precisa ser tocado, convertido, circuncidado. É preciso reler a este respeito o discurso da montanha no início do Evangelho de São Mateus. Desde o primeiro versículo do Prólogo, São Bento nos convida : ‘Escuta, inclina o ouvido do seu coração’ (Prol. 1).

Ao comentar o versículo citado do Salmo 94, a epístola aos Hebreus atualiza de maneira especialmente forte nossa relação com a Palavra de Deus, que o homem recebe para colocar em prática, a fim de poder saborear um dia o descanso de Deus: ‘Viva é a Palavra de Deus, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até o ponto de divisão entre a alma e o espírito, entre as articulações e a medula, e pode julgar os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura invisível diante dela, mas tudo está nu e descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas’ (Hb 4, 12-13). Nossa vida está totalmente orientada para essa perspectiva do hoje da Palavra que ocorre em nossas vidas humanas para que possamos dizer com Cristo : ‘Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos esta passagem da Escritura’ (Lc 4, 21)?

 ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’ (Mt 6, 11; Lc 11, 3)

Não basta inclinar o ouvido do coração e não o endurecer para ouvir o chamado do Senhor por meio de Sua Palavra diária; é também necessário aceitar receber o que o Senhor providencia para nós diariamente, de acordo com Sua vontade.

É bom aqui fazer referência à experiência de Israel no deserto. O Senhor providencia gratuitamente para a fome de Seu povo, enviando durante a noite ‘uma camada de orvalho ao redor do acampamento’. Essa camada de orvalho, uma vez evaporada pela manhã, revela na superfície do solo algo pequeno e granuloso. ‘Este é o pão que o Senhor vos deu para comer. Eis o que o Senhor ordenou : Cada um recolha conforme o que pode comer’. E Moisés lhes disse : ‘Que ninguém guarde nada para o dia seguinte’; ‘Eles recolhiam a cada manhã, cada um conforme o que podia comer, e quando o sol esquentava, aquilo derretia’ (cf. Ex 16, 13-21). O alimento diário do maná descido do céu é, portanto, um elemento-chave da espiritualidade do hoje proposto por Deus ao Seu povo.

O Evangelho de São Mateus faz um belo comentário sobre este dom do céu :

‘Não vos inquieteis pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. [...] Portanto, não vos inquieteis, dizendo : o que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? [...] Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados. A cada dia basta o seu próprio mal’ (Mt 6, 25-34).

Será que devemos levar esses textos ao pé da letra? Não, isso não é suficiente, é necessário interpretá-los. Mas também é indispensável saber viver essa entrega diária com o abandono de uma fé sempre a ser renovada. Está claro que nossa busca raramente é, em primeiro lugar, pelo Reino de Deus, e é isso que apresenta um problema. Se, como os israelitas no deserto, quisermos fazer provisões de maná, se quisermos acumular o dom de Deus, se não aceitarmos receber diariamente apenas os dons que nos são necessários, não poderemos realizar a vida de Deus neste mundo.

O discurso sobre o Pão da Vida apresenta o cumprimento desse sinal do maná. Cristo nos revela que Ele mesmo é o Pão da Vida. ‘Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram; este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém dele comer, viverá eternamente’ (Jo 6, 49-51).

Nosso único verdadeiro alimento cotidiano é Cristo, dado para que o mundo tenha vida. Recebemos isso em Sua palavra ruminada e na oração, no pão da Eucaristia e nos sacramentos, bem como na comunhão fraterna.

Assim, ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’ só pode ser compreendido plenamente nessa relação diariamente renovada com Cristo entregue. É assim que podemos buscar o Reino e Sua justiça, é assim que podemos nos contentar com o alimento cotidiano.

Toda a vida de Cristo é assim, como relata São Lucas à sua maneira : ‘Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir’ (4, 21); após a cura do paralítico, as testemunhas exclamam : ‘Hoje, vimos prodígios’ (5, 26). ‘Eis que expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia serei consumado! Mas hoje, amanhã e no dia seguinte, devo seguir meu caminho, pois não é conveniente que um profeta pereça fora de Jerusalém’ (13, 32-33). ‘Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa... Hoje, a salvação chegou nesta casa...’ (19, 5-9).

Assim, é possível nos interrogar a respeito de nosso alimento diário. Estamos realmente recebendo Cristo em primeiro lugar para cumprir a vontade de Deus, ou estamos nos preocupando com um acúmulo completamente supérfluo que não podemos levar para o túmulo? Nossa vida está sob o sinal primário da Eucaristia, com todas as suas dimensões espiritual, pessoal, comunitária e social, ou é algo particularmente vão? Aceitar receber o alimento cotidiano do Cristo é aceitar que nossos planos imediatos sejam desviados e vivê-los alegremente seguindo Jesus que sobe a Jerusalém em direção ao Seu Êxodo.

São Bento prescreve ao abade lembrar este ensinamento do Evangelho, para que não esqueça ‘não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que está escrito : ‘Buscai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo’’ (RB 2, 33-35).

O Dia do Senhor

Mas o hoje real na vida dos crentes é o grande hoje de Deus que se estende por toda a história e muito além. De fato, para o Senhor, ‘mil anos são como um dia’ (Sl 89), e ‘mais vale um dia nos átrios do Senhor que mil em minha morada’ (Sl 83, 11). Este hoje de Deus é o da Sua vinda permanente. O Senhor não cessa de vir, Ele visita a Sua criação, dirige-lhe a palavra, encarna-se nela, promete a Sua vinda gloriosa quando Cristo for tudo em todos.

Assim, a Revelação bíblica está pontuada pela proclamação deste hoje de Deus que se manifesta constantemente na vida dos homens : ‘Houve uma tarde, houve uma manhã, o primeiro dia’ (Gn 1,5); ‘Este é o dia que o Senhor fez’ (Sl 117, 24); ‘Naquele dia...’ incessantemente proclamado nos profetas; esta expressão não visa necessariamente uma projeção no futuro, é um anúncio do dia de hoje, onde cada um é chamado a escolher entre a vida e a morte (cf. Deuteronômio). O Evangelho de São Lucas abre-se com o anúncio da Boa Nova : ‘Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador’ (Lc 2, 11), e conclui com a promessa : ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’ (Lc 23, 43).

Mas o que expressa melhor este grande dia de Deus é o hoje da celebração litúrgica. Na liturgia latina, hodie ressoa como uma esperança extraordinária ao longo de todo o ano. O hodie mais famoso é o de Natal : ‘Hodie Christus natus est…’ – ‘Hoje, Cristo nasceu para nós; hoje, o Salvador apareceu; hoje os anjos cantam na terra, os arcanjos se alegram; hoje os justos exultam, dizendo : ‘Glória a Deus nas alturas’’ (antífona do Magnificat das II Vésperas de Natal). Essa antífona encontra sua preparação no ofício da Vigília de Natal, onde é anunciado o hoje da revelação : ‘Hoje sabereis que o Senhor virá, e amanhã vereis a sua glória’. Podemos adicionar a essa antífona de Natal a da Epifania : ‘Hodie caelesti sponso’ – ‘Hoje, a Igreja se uniu ao seu Esposo celeste, pois Cristo a lavou de seus pecados no Jordão; os Magos correm com seus presentes para as núpcias reais, e os convivas se alegram com a água transformada em vinho’ (antífona do Benedictus das Laudes da Epifania). A antífona do Magnificat das II Vésperas  retoma esse tema : ‘Hoje, a estrela guiou os Magos até o presépio; hoje, a água se transformou em vinho no festim nupcial; hoje, no Jordão, Cristo quis ser batizado por João, para nos salvar’. No mesmo espírito, a antífona do Magnificat das II Vésperas de Pentecostes anuncia o Mistério atualizado neste dia : ‘Hoje se completaram os dias de Pentecostes; hoje, o Espírito Santo apareceu aos discípulos sob a forma de fogo e derramou sobre eles dons misteriosos; ele os enviou pelo mundo para pregar e testemunhar. Aqueles que crerem e forem batizados serão salvos’. No meio de tudo isso, há obviamente o domingo de Páscoa e o Tempo Pascal, onde ressoa o ‘Haec dies quam fecit Dominus’ tirado do Salmo 117, 24, o salmo pascal por excelência : ‘Este é o dia que o Senhor fez, exultemos e alegremo-nos nele’. Este dia é o Dia dos dias : o verdadeiro hoje da vida divina. Algumas antífonas marianas recentes (8 de dezembro, 11 de fevereiro) retomaram esse tema, e a liturgia beneditina o aplicou a São Bento, Santa Escolástica e São Mauro. O domingo é o grande Dia do Senhor, ao mesmo tempo o primeiro dia da criação, assim como da redenção na ressurreição de Cristo, e o oitavo dia, dia além dos dias, dia de Deus transfigurando todas as coisas, dia de sua vinda. O sacramental do domingo é verdadeiramente de grande importância para a expressão da vida de Cristo. Devemos desenvolver em cada uma de nossas vidas uma espiritualidade deste cotidiano que é o hoje de Deus. É o dia do nascimento, é o dia do começo, do recomeço, é o dia da ressurreição e é também o hoje da eternidade, o dia em que as aparências desaparecem para dar lugar à realidade, o dia do discernimento, que é outro nome para o julgamento.

Ao cantar os mistérios no hoje, a liturgia faz com que eles se realizem aqui como figura. Os fiéis tornam-se assim contemporâneos dos mistérios celebrados, que tomaram forma num dia do tempo e que estão sempre atuais. Este é o verdadeiro sentido do memorial cristão.

Um velho monge de nosso mosteiro, falecido há alguns anos, viveu a última parte de sua vida na convicção de que cada manhã era domingo, e como era sacristão, ele preparava diariamente tudo o que era necessário para a liturgia dominical. Claro, esse monge idoso tinha perdido um pouco o juízo, a menos que, na verdade, tenhamos sido nós que a perdemos, e ele, nessa candura, a tenha recuperado após cerca de setenta anos de vida monástica.

Um monge do deserto do Egito, no século IV, repetia a si mesmo toda manhã : ‘Hoje, eu começo’. Que este começo nunca deixe de habitar nossa ação : assim iremos, nas palavras de Gregório de Nissa, ‘de começo em começo, por começos que não têm fim’, e é assim que chegaremos ao dia sem declínio que Deus nos oferece já em figura.

Conclusão

Não basta estabelecer alguns princípios de análise; é igualmente necessário derivar deles consequências concretas.

Será que realmente ouviremos o chamado que ressoa em nossos ouvidos vindo de Deus? Teremos o coração suficientemente receptivo para entrar no hoje da Palavra? Estamos verdadeiramente nos perguntando se estamos mantendo contato com a Palavra divina de alguma forma (leituras bíblicas e espirituais, oração, meditação, ruminação, lectio divina)? Será que nosso hoje é o advento de Deus em nós e ao nosso redor, procurando e chamando Seu operário de maneiras sempre inesperadas? Faremos da nossa vida um companheirismo cotidiano? Como partilhar o Pão de Deus com irmãos e irmãs? Como receber o maná, que é o verdadeiro Pão da Vida? É evidente que, quando sabemos que metade dos habitantes do nosso planeta morre de fome, realmente nos perguntamos onde está a oração : ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’; há, então, impossibilidade de nos tornarmos discípulos na travessia do deserto deste mundo?

Finalmente, como nossa vida testemunha o Dia além dos dias? Sabemos relativizar os bens imediatos para nos entregarmos a Deus, com a coragem de um trabalho incansável, mas desprovido da preocupação de nos promovermos? O dia de Deus é sempre um dia de julgamento, onde somos desnudados para sermos verdadeiramente o que devemos ser : simples criaturas, simples servos que se reconhecem como filhos de Deus para a eternidade. Aí está o nosso tesouro, e ‘onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração’ (Mt 6, 21).

‘Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos, passemo-lo na alegria’ (Sl 117, 24).

[1] As citações dos salmos são provenientes da tradução do saltério pelos monges de Ligugé, publicada em ‘Le Psautier de Ligugé’, edições Saint-Léger, 2019.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/125