sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Finados e santidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Dom Carlos José  de Oliveira,

Bispo de Apucarana, PR

 

‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá’ (Jo 11,18)

Ao nos aproximarmos do final do Ano Litúrgico, teremos duas celebrações importantes nos dois primeiros dias do mês de novembro : a solenidade de Todos os Santos e o Dia de Finados. Ambas, ligadas à vida de santidade e à morada eterna que está reservada na Pátria Celeste aos que creem no Cristo Morto e Ressuscitado para nossa salvação. ‘Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor’ (Heb 12, 14).

A solenidade de Todos Santos recorda que somos chamados a uma vida de santidade, coerência e fé, com base nos ensinamentos de Jesus e da Igreja. Inúmeros são os santos e santas na morada celeste. Muitos conhecemos pelo nome, porém, a maioria deles, embora não saibamos o nome, estão na Glória, contemplando a face da Trindade, ao lado da Virgem Maria e de São José. Fomos criados por Deus para a vida e não para a morte, tanto que fomos resgatados pelo Sangue Precioso do Filho, derramado para que pudéssemos, um dia, contemplá-Lo e adorá-Lo em verdade.

Todos os batizados têm em si a graça necessária para viver em santidade e alcançar, pelos méritos de Cristo, a Glória do Céu. Buscar o caminho da santidade e vivê-la no dia a dia é um desafio que pode ser vencido pela fé e perseverança da oração, da vivência dos sacramentos e da escuta e prática da Palavra. A Pátria Celeste é para todos os que, de livre vontade, escolhem viver em Cristo e para Cristo. Para sermos santos no céu, é preciso passar pela morte. A morte é a separação física do homem com a terra, e é, pelos méritos da Morte e Ressurreição de Cristo, que se dá nossa entrada na vida eterna. Essa entrada na eternidade pode ser ao lado do Pai ou na ausência eterna de seu Amor. Isso depende também de nosso comportamento, de nossas ações e de nossa fé em Cristo Jesus.

Temos as regras para caminhar com Cristo na terra, e essas regras são os Mandamentos Sagrados e a Santa Palavra de Deus, que nos ensina a buscarmos uma vida de santidade, para vivermos como santos no Céu. Muitos Santos e Santas da nossa Igreja encontraram, em vida, o verdadeiro sentido para a morte e, com isso, aprenderam a viver bem sua vida terrena, na esperança e na certeza de que a morte os levaria aos céus. É pela fé na ressurreição de Cristo que encontramos o sentido da morte, pois Jesus a venceu e nos abriu as portas do Céu. A Mãe Igreja, ao relembrar os fiéis defuntos, convoca seus filhos a se confrontarem com o enigma da morte.

O dia de Finados suscita questionamentos e várias interpretações : muitos pensam que não há o que fazer pelos que já morreram, pois acreditam que a morte é o fim de tudo. Para outros, ainda, é um dia trágico, pois, de certa forma, antecipa a cada ano o que seremos todos, um dia. Mas, graças a Deus, para muitos, é um dia de esperança e comunhão com quem amamos e continuamos a amar, apesar de termos perdido sua presença física neste mundo chamado de vale de lágrimas.

É importante e salutar enfeitar os túmulos, levar flores, acender velas e, mais importante ainda é oferecer o sacrifício da Missa em sufrágio das almas de nossos entes queridos. Sempre pensamos que quem amamos e morre, imediatamente está na Glória de Deus, mas a Igreja nos confirma categoricamente a existência do Purgatório, onde se encontram os que necessitam de purificação, em virtudes das faltas cometidas. Nosso corpo perece e morre para a vida nesta terra, mas a alma vive eternamente e nossas orações podem atingi-las. Ao rezar pelas pessoas que não estão mais presentes no meio de nós, quem sabe, se nesse dia, graças às nossas preces e orações, elas não alcancem a necessária purificação e entrem, definitivamente na Pátria Celeste? O nosso Deus é ‘o Deus dos vivos, e não dos mortos’ (Lc 20,38).

A celebração do dia de Finados é uma oportunidade para fazermos uma reflexão sobre a vida. Ela terminará para todos nós aqui neste mundo, é apenas uma questão de tempo. Além disso, para a eternidade não poderemos levar nada de material. Levaremos apenas o bem que tivermos feito para nós e para os outros. Logo, deve ser uma tomada de consciência de que ser feliz e viver bem não quer dizer acumular tesouros, prazeres ou glórias, mas fazer o bem e preparar uma vida eterna com Deus. Que a Virgem Maria e São José intercedam por nós!

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.cnbb.org.br/finados-e-santidade/

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

As grandes civilizações africanas - A evangelização da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

Durante séculos a missão africana viveu em estreita dependência das potências colonizadoras, sobretudo, aquelas que eram consideradas católicas como Portugal, França e Bélgica. Junto a isso se cona também uma dependência quase que total do trabalho missionário das congregações religiosas, com a ausência de uma Igreja local mais estruturada.

Quando chegamos ao século XIX a missão católica já estava melhor estruturada e alguns fatos vieram alavancar o trabalho missionário, especialmente nos países localizados abaixo do Deserto do Saara, onde a concorrência com o islamismo era bem menor.

Nesse sentido merece destaque a criação dos primeiros Vicariatos Apostólicos com a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide, onde se destaca o trabalho do cardeal redentorista Van Rossun, braço direito do Papa Pio XI para o campo da evangelização.

A publicação de diversas Encíclicas missionárias por diversos papas, sobretudo, a Fidei Donun (1957) do Papa Pio XII abre os olhos da Igreja para o trabalho Missionário.

Entre fins do século XIX e primeiras décadas do século XX se dá a criação das primeiras circunscrições eclesiásticas, com a nomeação de bispos para os territórios de missão.

A evangelização na África

Sudão

Em 1846, o Papa Gregório XVI criou o Vicariato Apostólico da África Central que abrangia uma imensa região, da Guiné até o Nilo, com sede em Cartum. Foram feitas cinco expedições tentando atingir o centro de missão em 1846,1857,1862 e 1867. Aqui o destaque fica com São Daniel Comboni (+1881), fundador da Congregação dos filhos do Sagrado Coração e do Instituto Pias Madres da Negritude. 

Etiópia

A expedição missionária de Justino de Jacobis realizada em 1838 converteu os monofisitas, mais por motivos econômicos do que religiosos. Entre 1839-41 De Jacobis viveu como monge, conquistando a confiança do povo e das autoridades. Em 1849, foi sagrado bispo, mas a partir de 1855 veio a perseguição contra os católicos. De Jacobis morre em 1860.

Outros destaques desta área missionária ficam com Guilherme Massaia (+1889), frade capuchinho nomeado cardeal em 1884 e com o cardeal Lavigerie e a fundação dos padres brancos

Uganda

Com o Papa Pio IX o cardeal Lavigerie foi nomeado delegado apostólico para a África Equatorial e em 1879, os padres brancos atingiram a Uganda, em Entebe, mas foram expulsos em 1882, por motivos políticos, sendo chamados de volta em 1885.

Desta área missionária merecem destaque São Carlos Lwanga e seus companheiros mártires. Hoje 36% da população ugandense professa a fé católica.

Madagascar

A colonização e a penetração católica aconteceram de forma paralela. A primeira expedição aconteceu em 1855, com o jesuíta Finaz. Aqui, porém, as dificuldades foram muitas com perseguições e massacres.

Depois da guerra Franco-Malgache, Madagascar se tornou um protetorado francês e colônia em 1896. Apesar da luta com o governo francês pela escola, o desenvolvimento foi bem continuado.

Congo

O rei Leopoldo II criou o Estado livre do Congo, lutando contra as pretensões de ingleses, franceses, portugueses e dos escravistas árabes, mas ele submeteu o Congo a um duro regime de escravidão e exploração.

O método missionário conhecido como ″Fermes Chapelles’, uma espécie de missão agrícola com escolas profissionais para jovens foi bem aceito no princípio, mas depois sofreu bastante críticas. Entre 1904 e 1906 ocorreu uma campanha de acusação contra as missões católicas e elogios ao governo de Leopoldo II. A polêmica voltou em 1911, com o Congo sendo anexado à Bélgica. Com isso, as missões não puderam ser continuadas.

Avaliação da metodologia missionária

Aos poucos as missões se tornaram menos dependentes dos velhos regimes coloniais, com amplas vantagens, devido a isenção frente aos colonizadores que passara a ser criticados pela Igreja em vista de alguns métodos brutais utilizados.

Também de tornou de grande importância a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide pelo estímulo à ação missionaria com impulso dado à criação dos Vicariatos apostólicos e independência da Santa Sé na nomeação dos bispos.

Dois problemas, porém, ainda continuam :  o pouco respeito à cultura local e a dificuldade de transformar as missões em Igrejas locais. Nesse sentido, a Encíclica Maximum Illud de Bento XV (1919) destacou cinco pontos globais em relação às missões : Condenação do Feudalismo Colonial e da não colaboração, a necessidade de colaboração entre as diversas missões, a urgência de se formar um clero autóctone, a condenação do nacionalismo dos missionários e a valorização da língua e da cultura local.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-evangelizacao.html


domingo, 25 de outubro de 2026

Liturgia monástica: O grande “hoje” de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Ex-presidente da AIM


As poucas reflexões propostas aqui pretendem ser um convite para escolher viver hoje como o dia mais importante e real que nos é dado. Hoje, como todos os dias, tudo acontece pela força e verdade dos seres e das coisas, desde que nossas vidas estejam dispostas a acolhê-los. Como se sabe, a liturgia destaca esse ‘hodie’, esse presente que nos faz entrar no dia sem fim de Deus.

Essa proposta é feita pensando em todos aqueles que, hoje, como todos os dias desde a criação dos seres humanos, têm sede de ser, de viver, de compreender, de compartilhar, de amar, de existir intensamente em uma humanidade que clama por sua sede e desejo, sem realmente saber quais podem ser o objeto e o modo.

Primeiro, colocaremos a questão da escuta diária : ‘Hoje, se ouvirdes a minha voz’; depois a do alimento diário : ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’, e finalmente nos voltaremos para o Dia de Deus, o dia além dos dias, o dia prometido e tão desejado.

‘Hoje, se ouvirdes a minha voz,  não permitais que se endureçam vossos corações’ (Sl 94)

Este versículo do salmo é citado no início da Regra de São Bento :

‘Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo : ‘Já é hora de nos levantarmos do sono’. E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações’, (Sl 94, 8). E em outro lugar : ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas’ (Ap 2, 7). E o que ele diz? ‘Vinde, meus filhos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor’ (Sl 33, 12). ‘Correi enquanto tendes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos apanhem’ (Jo 12, 35).’ (Pról. 8-13).

O salmo 94 é ou era cantado todos os dias no início do Ofício de Vigílias na liturgia beneditina : é por excelência o salmo invitatório, o salmo que convida à oração com suas diferentes partes.

Primeiramente, um apelo geral ao louvor : ‘Vinde, exultemos de alegria pelo Senhor, aclamemos o Rochedo que nos salva! Avancemos para Ele com ações de graças! A Ele, nossos cânticos e aclamações!’ [1]. Em seguida, uma ação de graças pela obra da criação : ‘Ele é o grande Deus, o Senhor, o Rei, maior do que todos os deuses! Em Sua mão, as profundezas da terra; também a Ele pertencem os cumes das montanhas.  A Ele o mar, pois foi Ele que o fez, e os continentes que Suas mãos modelaram.’ Antes mesmo de ser reconhecido como o Criador de todas as coisas, o Senhor é confessado como o Deus único, o Deus grande acima de todas as grandezas, de todas as alturas. É por isso que Ele pode segurar em Sua mão todos os elementos criados, das profundezas da terra aos cumes das montanhas, em toda a extensão dos mares e continentes.

Depois, uma oração agradecida pela obra da salvação em relação direta com a caminhada no deserto e as maravilhas ali realizadas pela mão do Senhor. Esta oração é acompanhada de um convite ao arrependimento, garantia da verdadeira ação de graças : ‘Vinde, inclinemo-nos, prostremo-nos! Adoremos o Senhor que nos fez! Sim, Ele é nosso Deus, e nós somos o povo que Ele conduz, o rebanho guiado por Sua mão... Não endureçais vossos corações como no deserto, como no dia da revolta e do desafio, quando vossos pais me desafiaram e provocaram, apesar de terem visto o que fiz!’ Esta ação de graças pela redenção e este apelo ao arrependimento estão ligados a uma nova confissão de fé : ‘Ele é nosso Deus, e nós somos o povo que Ele conduz...’.

Por fim, o salmo termina com uma evocação da promessa feita por Deus ao homem de compartilhar Sua vida em Seu repouso eterno, no último sábado, se o coração humano não se desviar, com uma nova referência ao pecado de Israel no deserto : ‘Quarenta anos, suportei essa geração; eu disse : ‘É um povo de coração desviado; eles não querem saber dos meus caminhos’. Por isso, jurei na minha ira : ‘Jamais entrarão na terra do meu repouso!’’.

No meio desse conjunto, surge o versículo citado por São Bento : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações!’. Portanto, neste salmo, há a dimensão da memória, a da promessa e a que dá sentido a ambas, a da atualidade cotidiana. Esta é uma das chaves da espiritualidade cristã. São Bento, seguindo a tradição monástica, é um comentarista particularmente notável.

Do que se trata? Trata-se de viver cada dia acordado. Cada manhã e cada instante do dia são um chamado feito pela voz de Deus. Este chamado só pode ser percebido por aqueles que estão atentos a ele. Aqueles que abrem os olhos e os ouvidos de seus corações para ver e ouvir ‘o que o olho não viu, o ouvido não ouviu, o que Deus preparou para aqueles que O amam’ (1 Cor 2, 9 citado por RB 4, 77). O que pode nos tornar infelizes nesta vida é estar aprisionado na ilusão dos sentidos externos. Se vejo apenas com meus olhos físicos, se ouço apenas com os ouvidos do meu corpo, ainda não vi nem ouvi nada que possa me permitir saborear a verdadeira vida.

A cada dia, a cada segundo, através dos seres e das coisas criadas, nos é dada a totalidade da existência. No entanto, muitas vezes, estamos dormindo e só sonhamos. É urgente, constantemente urgente, acordar, levantar, ressuscitar e começar a ouvir : ‘Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações’. Este é um dos propósitos essenciais do Evangelho. Para poder ouvir, o coração precisa ser tocado, convertido, circuncidado. É preciso reler a este respeito o discurso da montanha no início do Evangelho de São Mateus. Desde o primeiro versículo do Prólogo, São Bento nos convida : ‘Escuta, inclina o ouvido do seu coração’ (Prol. 1).

Ao comentar o versículo citado do Salmo 94, a epístola aos Hebreus atualiza de maneira especialmente forte nossa relação com a Palavra de Deus, que o homem recebe para colocar em prática, a fim de poder saborear um dia o descanso de Deus: ‘Viva é a Palavra de Deus, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até o ponto de divisão entre a alma e o espírito, entre as articulações e a medula, e pode julgar os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura invisível diante dela, mas tudo está nu e descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas’ (Hb 4, 12-13). Nossa vida está totalmente orientada para essa perspectiva do hoje da Palavra que ocorre em nossas vidas humanas para que possamos dizer com Cristo : ‘Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos esta passagem da Escritura’ (Lc 4, 21)?

 ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’ (Mt 6, 11; Lc 11, 3)

Não basta inclinar o ouvido do coração e não o endurecer para ouvir o chamado do Senhor por meio de Sua Palavra diária; é também necessário aceitar receber o que o Senhor providencia para nós diariamente, de acordo com Sua vontade.

É bom aqui fazer referência à experiência de Israel no deserto. O Senhor providencia gratuitamente para a fome de Seu povo, enviando durante a noite ‘uma camada de orvalho ao redor do acampamento’. Essa camada de orvalho, uma vez evaporada pela manhã, revela na superfície do solo algo pequeno e granuloso. ‘Este é o pão que o Senhor vos deu para comer. Eis o que o Senhor ordenou : Cada um recolha conforme o que pode comer’. E Moisés lhes disse : ‘Que ninguém guarde nada para o dia seguinte’; ‘Eles recolhiam a cada manhã, cada um conforme o que podia comer, e quando o sol esquentava, aquilo derretia’ (cf. Ex 16, 13-21). O alimento diário do maná descido do céu é, portanto, um elemento-chave da espiritualidade do hoje proposto por Deus ao Seu povo.

O Evangelho de São Mateus faz um belo comentário sobre este dom do céu :

‘Não vos inquieteis pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. [...] Portanto, não vos inquieteis, dizendo : o que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? [...] Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados. A cada dia basta o seu próprio mal’ (Mt 6, 25-34).

Será que devemos levar esses textos ao pé da letra? Não, isso não é suficiente, é necessário interpretá-los. Mas também é indispensável saber viver essa entrega diária com o abandono de uma fé sempre a ser renovada. Está claro que nossa busca raramente é, em primeiro lugar, pelo Reino de Deus, e é isso que apresenta um problema. Se, como os israelitas no deserto, quisermos fazer provisões de maná, se quisermos acumular o dom de Deus, se não aceitarmos receber diariamente apenas os dons que nos são necessários, não poderemos realizar a vida de Deus neste mundo.

O discurso sobre o Pão da Vida apresenta o cumprimento desse sinal do maná. Cristo nos revela que Ele mesmo é o Pão da Vida. ‘Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram; este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém dele comer, viverá eternamente’ (Jo 6, 49-51).

Nosso único verdadeiro alimento cotidiano é Cristo, dado para que o mundo tenha vida. Recebemos isso em Sua palavra ruminada e na oração, no pão da Eucaristia e nos sacramentos, bem como na comunhão fraterna.

Assim, ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’ só pode ser compreendido plenamente nessa relação diariamente renovada com Cristo entregue. É assim que podemos buscar o Reino e Sua justiça, é assim que podemos nos contentar com o alimento cotidiano.

Toda a vida de Cristo é assim, como relata São Lucas à sua maneira : ‘Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir’ (4, 21); após a cura do paralítico, as testemunhas exclamam : ‘Hoje, vimos prodígios’ (5, 26). ‘Eis que expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia serei consumado! Mas hoje, amanhã e no dia seguinte, devo seguir meu caminho, pois não é conveniente que um profeta pereça fora de Jerusalém’ (13, 32-33). ‘Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa... Hoje, a salvação chegou nesta casa...’ (19, 5-9).

Assim, é possível nos interrogar a respeito de nosso alimento diário. Estamos realmente recebendo Cristo em primeiro lugar para cumprir a vontade de Deus, ou estamos nos preocupando com um acúmulo completamente supérfluo que não podemos levar para o túmulo? Nossa vida está sob o sinal primário da Eucaristia, com todas as suas dimensões espiritual, pessoal, comunitária e social, ou é algo particularmente vão? Aceitar receber o alimento cotidiano do Cristo é aceitar que nossos planos imediatos sejam desviados e vivê-los alegremente seguindo Jesus que sobe a Jerusalém em direção ao Seu Êxodo.

São Bento prescreve ao abade lembrar este ensinamento do Evangelho, para que não esqueça ‘não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que está escrito : ‘Buscai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo’’ (RB 2, 33-35).

O Dia do Senhor

Mas o hoje real na vida dos crentes é o grande hoje de Deus que se estende por toda a história e muito além. De fato, para o Senhor, ‘mil anos são como um dia’ (Sl 89), e ‘mais vale um dia nos átrios do Senhor que mil em minha morada’ (Sl 83, 11). Este hoje de Deus é o da Sua vinda permanente. O Senhor não cessa de vir, Ele visita a Sua criação, dirige-lhe a palavra, encarna-se nela, promete a Sua vinda gloriosa quando Cristo for tudo em todos.

Assim, a Revelação bíblica está pontuada pela proclamação deste hoje de Deus que se manifesta constantemente na vida dos homens : ‘Houve uma tarde, houve uma manhã, o primeiro dia’ (Gn 1,5); ‘Este é o dia que o Senhor fez’ (Sl 117, 24); ‘Naquele dia...’ incessantemente proclamado nos profetas; esta expressão não visa necessariamente uma projeção no futuro, é um anúncio do dia de hoje, onde cada um é chamado a escolher entre a vida e a morte (cf. Deuteronômio). O Evangelho de São Lucas abre-se com o anúncio da Boa Nova : ‘Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador’ (Lc 2, 11), e conclui com a promessa : ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’ (Lc 23, 43).

Mas o que expressa melhor este grande dia de Deus é o hoje da celebração litúrgica. Na liturgia latina, hodie ressoa como uma esperança extraordinária ao longo de todo o ano. O hodie mais famoso é o de Natal : ‘Hodie Christus natus est…’ – ‘Hoje, Cristo nasceu para nós; hoje, o Salvador apareceu; hoje os anjos cantam na terra, os arcanjos se alegram; hoje os justos exultam, dizendo : ‘Glória a Deus nas alturas’’ (antífona do Magnificat das II Vésperas de Natal). Essa antífona encontra sua preparação no ofício da Vigília de Natal, onde é anunciado o hoje da revelação : ‘Hoje sabereis que o Senhor virá, e amanhã vereis a sua glória’. Podemos adicionar a essa antífona de Natal a da Epifania : ‘Hodie caelesti sponso’ – ‘Hoje, a Igreja se uniu ao seu Esposo celeste, pois Cristo a lavou de seus pecados no Jordão; os Magos correm com seus presentes para as núpcias reais, e os convivas se alegram com a água transformada em vinho’ (antífona do Benedictus das Laudes da Epifania). A antífona do Magnificat das II Vésperas  retoma esse tema : ‘Hoje, a estrela guiou os Magos até o presépio; hoje, a água se transformou em vinho no festim nupcial; hoje, no Jordão, Cristo quis ser batizado por João, para nos salvar’. No mesmo espírito, a antífona do Magnificat das II Vésperas de Pentecostes anuncia o Mistério atualizado neste dia : ‘Hoje se completaram os dias de Pentecostes; hoje, o Espírito Santo apareceu aos discípulos sob a forma de fogo e derramou sobre eles dons misteriosos; ele os enviou pelo mundo para pregar e testemunhar. Aqueles que crerem e forem batizados serão salvos’. No meio de tudo isso, há obviamente o domingo de Páscoa e o Tempo Pascal, onde ressoa o ‘Haec dies quam fecit Dominus’ tirado do Salmo 117, 24, o salmo pascal por excelência : ‘Este é o dia que o Senhor fez, exultemos e alegremo-nos nele’. Este dia é o Dia dos dias : o verdadeiro hoje da vida divina. Algumas antífonas marianas recentes (8 de dezembro, 11 de fevereiro) retomaram esse tema, e a liturgia beneditina o aplicou a São Bento, Santa Escolástica e São Mauro. O domingo é o grande Dia do Senhor, ao mesmo tempo o primeiro dia da criação, assim como da redenção na ressurreição de Cristo, e o oitavo dia, dia além dos dias, dia de Deus transfigurando todas as coisas, dia de sua vinda. O sacramental do domingo é verdadeiramente de grande importância para a expressão da vida de Cristo. Devemos desenvolver em cada uma de nossas vidas uma espiritualidade deste cotidiano que é o hoje de Deus. É o dia do nascimento, é o dia do começo, do recomeço, é o dia da ressurreição e é também o hoje da eternidade, o dia em que as aparências desaparecem para dar lugar à realidade, o dia do discernimento, que é outro nome para o julgamento.

Ao cantar os mistérios no hoje, a liturgia faz com que eles se realizem aqui como figura. Os fiéis tornam-se assim contemporâneos dos mistérios celebrados, que tomaram forma num dia do tempo e que estão sempre atuais. Este é o verdadeiro sentido do memorial cristão.

Um velho monge de nosso mosteiro, falecido há alguns anos, viveu a última parte de sua vida na convicção de que cada manhã era domingo, e como era sacristão, ele preparava diariamente tudo o que era necessário para a liturgia dominical. Claro, esse monge idoso tinha perdido um pouco o juízo, a menos que, na verdade, tenhamos sido nós que a perdemos, e ele, nessa candura, a tenha recuperado após cerca de setenta anos de vida monástica.

Um monge do deserto do Egito, no século IV, repetia a si mesmo toda manhã : ‘Hoje, eu começo’. Que este começo nunca deixe de habitar nossa ação : assim iremos, nas palavras de Gregório de Nissa, ‘de começo em começo, por começos que não têm fim’, e é assim que chegaremos ao dia sem declínio que Deus nos oferece já em figura.

Conclusão

Não basta estabelecer alguns princípios de análise; é igualmente necessário derivar deles consequências concretas.

Será que realmente ouviremos o chamado que ressoa em nossos ouvidos vindo de Deus? Teremos o coração suficientemente receptivo para entrar no hoje da Palavra? Estamos verdadeiramente nos perguntando se estamos mantendo contato com a Palavra divina de alguma forma (leituras bíblicas e espirituais, oração, meditação, ruminação, lectio divina)? Será que nosso hoje é o advento de Deus em nós e ao nosso redor, procurando e chamando Seu operário de maneiras sempre inesperadas? Faremos da nossa vida um companheirismo cotidiano? Como partilhar o Pão de Deus com irmãos e irmãs? Como receber o maná, que é o verdadeiro Pão da Vida? É evidente que, quando sabemos que metade dos habitantes do nosso planeta morre de fome, realmente nos perguntamos onde está a oração : ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’; há, então, impossibilidade de nos tornarmos discípulos na travessia do deserto deste mundo?

Finalmente, como nossa vida testemunha o Dia além dos dias? Sabemos relativizar os bens imediatos para nos entregarmos a Deus, com a coragem de um trabalho incansável, mas desprovido da preocupação de nos promovermos? O dia de Deus é sempre um dia de julgamento, onde somos desnudados para sermos verdadeiramente o que devemos ser : simples criaturas, simples servos que se reconhecem como filhos de Deus para a eternidade. Aí está o nosso tesouro, e ‘onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração’ (Mt 6, 21).

‘Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos, passemo-lo na alegria’ (Sl 117, 24).

[1] As citações dos salmos são provenientes da tradução do saltério pelos monges de Ligugé, publicada em ‘Le Psautier de Ligugé’, edições Saint-Léger, 2019.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/125


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Claret : Formados no Coração de Maria

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diogo Lelis, cmf

 

‘Ó coração de Maria, frágua e instrumento de amor, inflamai-me no amor de Deus e do próximo!’ (Santo Antônio Maria Claret)

 

Em outubro, a Igreja celebra a memória de Santo Antônio Maria Claret, missionário que percorreu cidades, povoados, caminhos e mares anunciando a Palavra de Deus. Pregava, confessava, escrevia livros e folhetos, promovia missões populares e procurava alcançar as pessoas por todos os meios possíveis. No centro de toda essa atividade havia um coração profundamente unido a Jesus e formado pela presença materna de Maria.

Em sua Autobiografia, Claret recorda que, ainda criança, recebeu um rosário e o acolheu como se tivesse recebido o maior dos tesouros. Aprendeu a contemplar os mistérios, começou a conduzir a oração com os colegas da escola e, mais tarde, rezava enquanto trabalhava na fábrica de tecidos de sua família. Também visitava, com sua irmã Rosa, o Santuário de Nossa Senhora de Fusimanha. Ao avistar a capela de longe, seus olhos se enchiam de lágrimas e seu coração era tomado por uma profunda ternura.

Essas lembranças revelam uma devoção nascida dentro da vida cotidiana, entre a casa, a escola, o trabalho e os caminhos percorridos com a família. Maria tornou-se uma presença próxima, uma mãe com quem Claret conversava e diante de quem apresentava seus desejos e projetos. Ele mesmo escreveu que seu maior prazer era trabalhar, rezar, ler e pensar em Jesus e em Maria Santíssima.

Com o passar dos anos, aquela experiência amadureceu e passou a sustentar sua missão. Antes de iniciar suas pregações, Claret dirigia-se a Maria dizendo que era seu ‘filho e ministro, formado por vós mesma na frágua de vossa misericórdia e amor’. Em seguida, colocava-se nas mãos da mãe como uma flecha pronta para ser lançada na direção das realidades que necessitavam da luz do Evangelho.

A imagem da frágua possui uma força muito particular. Claret conhecia o trabalho das oficinas e sabia que o ferro precisava permanecer no fogo para ser moldado. Em sua experiência espiritual, o coração de Maria era essa frágua na qual sua vida recebia forma, calor e direção. Ali, o missionário aprendia a amar a Deus, a entregar-se ao próximo e a oferecer suas forças para a evangelização, por isso, em uma de suas orações mais conhecidas, Claret chama o coração de Maria de ‘frágua e instrumento de amor’ e pede que ele o inflame no amor de Deus e do próximo. Quanto mais Claret se reconhecia filho de Maria, mais crescia nele o desejo de cuidar das pessoas, anunciar o Evangelho e consolar os que sofriam.

Esse amor fez dele um incansável propagador da devoção mariana. Durante suas missões, ensinava o povo a rezar o Rosário, promovia celebrações dedicadas à Virgem, escrevia orações, distribuía folhetos e convidava as famílias a recorrerem à proteção de Maria. A devoção que havia aquecido seu coração desde a infância tornou-se parte de sua maneira de evangelizar.

No dia 16 de julho de 1849, Claret reuniu em Vic cinco sacerdotes que partilhavam do mesmo espírito missionário e fundou a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, nome daqueles que hoje são conhecidos como missionários claretianos. A escolha expressava a experiência espiritual que ele desejava transmitir aos seus companheiros.

Ao recordar a fundação, Claret agradeceu a Maria por ter adotado aqueles missionários como filhos do seu imaculado coração e pediu que fossem humildes, fervorosos e zelosos. Em seguida, registrou uma das definições mais importantes da espiritualidade claretiana : ‘Um filho do imaculado coração de Maria é um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa’. Esse filho procura inflamar o mundo no fogo do amor divino, seguindo Jesus Cristo e dedicando a própria vida à glória de Deus e ao bem das pessoas.

A filiação cordimariana recebida de Claret continua viva na congregação. Ser filho do imaculado coração de Maria constitui uma maneira de compreender a vocação, a comunidade e a missão. O coração materno de Maria torna-se uma escola onde os claretianos aprendem a escutar a Palavra, acolher a vontade de Deus, perceber as dores do povo e responder com generosidade às necessidades de cada tempo.

Essa espiritualidade acompanha os missionários nas paróquias, escolas, universidades, meios de comunicação, obras sociais e comunidades. Em cada lugar, o filho do coração de Maria é chamado a levar consigo a ternura de uma mãe e o ardor de um missionário. Sua presença deve comunicar proximidade, confiança e cuidado, fazendo com que a Palavra de Deus encontre espaço na vida das pessoas.

A celebração de Santo Antônio Maria Claret, no dia 24 de outubro, convida toda a Igreja a reencontrar esse coração missionário. Sua vida nos ensina que a devoção mariana conduz ao Evangelho, fortalece a missão e desperta o compromisso com o próximo. Maria acolheu a Palavra, guardou-a em seu coração e a entregou ao mundo em Jesus. Claret desejou seguir esse caminho e ensinar seus filhos a percorrê-lo.

Que o coração de Maria continue sendo a frágua onde nossas vidas sejam formadas no amor. Que Santo Antônio Maria Claret nos ajude a cultivar uma fé próxima das pessoas, sensível às dores do mundo e disponível para a missão. Que os Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria saibam corresponder ao nome que receberam, levando por onde passarem o fogo do amor de Deus e do cuidado com cada irmão e irmã. Amém.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/formados-no-coracao-de-maria.html

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

“Igreja dos Feixes” - Colóquio sobre os frutos das missões

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Dom Fortunatus Nwachukwu  (Vatican Media)

*Artigo da Vatican News


A conferência, intitulada ‘Uma Igreja para todos : sinodal no método, missionária no espírito, credível no amor’, será realizada na Universidade Pontifícia Urbaniana. No centro dos trabalhos está o conceito de missão como relação de reciprocidade, que visa superar a divisão entre Igrejas que ‘doam’ e Igrejas que ‘recebem’.

‘A ideia da ‘Igreja dos Feixes de Espiga’ inspira-se no Salmo 126, versículo 6’ - explica o Dom Fortunatus Nwachukwu, Secretário da Secção para a Primeira Evangelização e as Novas Igrejas Particulares, no Dicastério para a Evangelização -  em entrevista à agência noticiosa Fides.

Salmo 126

O Salmo evoca aqueles que partem em lágrimas, levando sementes para semear, e que regressam cantando, trazendo consigo os seus feixes de grãos colhidos.

Para o arcebispo, esta imagem remete para a experiência dos missionários que deixaram as suas famílias para trás — sem contar com os modernos meios de transporte e de comunicação que temos hoje — muitas vezes sem saberem se voltariam a ver os seus entes queridos. ‘Para muitos, partir era como morrer’, observa. A partida implicava um sacrifício, partilhado também por aqueles que ficavam.

Contudo, esta partida é apenas uma parte da história. ‘A grande bênção é que aquilo que semearam cresceu e deu frutos’, prossegue Dom Fortunatus Nwachukwu. ‘Chegou o momento de recolher os feixes e trazê-los para casa.’ A imagem liga, portanto, a memória do sacrifício missionário aos dons que as Igrejas, nascidas deste compromisso, podem agora partilhar com todos.

Reconhecer esta dinâmica com gratidão também desafia uma interpretação puramente funcional da crescente presença de missionários do Sul Global em dioceses da Europa e da América do Norte. Quando questionado sobre como valorizar a herança espiritual e pastoral destes missionários — em vez de ver religiosas e padres do Sul Global apenas como resposta à queda do número de vocações no Ocidente, Dom Fortunatus Nwachukwu rejeita uma abordagem tão redutora.

‘A nível global, não temos, na verdade, falta de padres. O que temos é uma redistribuição de padres’, defende. A ênfase recai no reconhecimento destes missionários como portadores dos frutos da evangelização, e não como mero ‘pessoal’ vindo de longe para preencher vagas.

Um intercâmbio deste tipo exige preparação de ambas as partes. ‘Precisamos de preparar a casa para receber os feixes’ - explica o arcebispo. Ao mesmo tempo, ‘também precisamos de preparar os ‘feixes’ para que se adaptem bem às casas’. A tarefa da formação diz, portanto, respeito tanto às comunidades que acolhem como aos missionários que chegam.

A Conferência na Urbaniana

Promovida pelo Dicastério para a Evangelização, esta iniciativa conta com a participação do Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural da Universidade DePaul, da Faculdade de Missiologia da Urbaniana, bem como de várias instituições eclesiais e parceiros missionários dos cinco continentes. Os codiretores do projeto, o Padre Stan Chu Ilo e o Padre Jaeho Chung, farão a apresentação da iniciativa, enquanto o simpósio incluirá sessões dedicadas a cada um dos diferentes continentes.

A moderação dos trabalhos estará a cargo do Padre Agostino Hyuntaek Han, chefe de departamento no Dicastério missionário, e do Padre Antoine Pooda, da Diocese de Gaoua, no Burkina Faso, professor associado na Faculdade de Missiologia da Urbaniana e especialista em gestão de conflitos e educação social.

As sessões dedicadas aos vários continentes serão moderadas por : Gaetano Sabetta, professor de Diálogo Inter-Religioso na Faculdade de Missiologia da Urbaniana e consultor do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso; Antonina Wozna, teóloga que trabalha no ensino e na investigação nas universidades de Wuppertal e Graz; e Sandra Arenas, decana da Faculdade de Ciências Religiosas e Filosofia da Universidade Católica de Temuco, no Chile, especialista em Eclesiologia, Concílio Vaticano II e Ecumenismo. Estes três académicos moderarão, respectivamente, as discussões sobre a Europa e a América do Norte; África e Ásia; e América Latina e Caraíbas.

Um percurso educativo global  

O encontro em Roma insere-se num programa estruturado que se prolongará até ao Pentecostes de 2028. As ferramentas utilizadas ao longo deste percurso incluem um curso online de catorze módulos, intitulado ‘Troca de Dons : A Igreja dos Feixes’, cinco documentários focados nos diferentes continentes, cinco volumes sobre teologia pastoral, encontros regionais e um podcast. As consultas junto das dioceses e congregações religiosas abordarão temas como a hospitalidade, a pertença, a exclusão e a formação intercultural, fundamentando o projeto na experiência pastoral.

Para o Arcebispo Nwachukwu, esta iniciativa serve de testemunho e de auxílio para a redescoberta de que a missão não é um capítulo encerrado na história da Igreja. ‘A vida da Igreja é, na verdade, uma vida de missão’ - insiste — ‘ontem, hoje e amanhã’. Reunir os feixes significa reconhecer o que foi tornado possível através do sacrifício missionário e abrir toda a Igreja aos dons que dele surgiram. 

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2026-10/igreja-dos-feixes-coloquio-sobre-os-frutos-das-missoes.html

 

domingo, 18 de outubro de 2026

O complexo mundo novo da tecnologia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Jackson Erpen

 

A reflexão sobre a comunicação social e a missão evangelizadora da Igreja ganha especial atualidade diante das profundas transformações tecnológicas que marcam o nosso tempo. Muito antes da revolução das redes sociais, da comunicação digital e da inteligência artificial, São João Paulo II já percebia que os meios de comunicação não eram apenas instrumentos para transmitir uma mensagem, mas espaços capazes de moldar a cultura, as relações humanas, a formação da consciência e os próprios comportamentos. Na Carta apostólica O rápido desenvolvimento, publicada em 2005, o Pontífice polonês retomou o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II e insistiu que a Igreja não poderia permanecer à margem dessa nova realidade : era preciso entrar no ‘areópago da comunicação’, compreender suas linguagens e integrar o Evangelho na nova cultura criada e amplificada pelas tecnologias.

Ainda no âmbito das comunicações, Pe. Gerson Schmidt nos propõe hoje a reflexão ‘O complexo mundo novo da tecnologia’ :

‘A Carta apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘o rápido desenvolvimento’, dirigida aos responsáveis pelas comunicações sociais, premia a introdução desse nosso aprofundamento de hoje. Diz assim, no número 01, a introdução desse documento pontifício : ‘O rápido desenvolvimento das tecnologias no campo da mídia é certamente um dos sinais do progresso da sociedade de hoje. Olhando para estas novidades em constante evolução, torna-se ainda mais atual o que se lê no Decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II Inter Mirifica, promulgado pelo meu venerado predecessor, o servo de Deus Paulo VI, a 4 de Dezembro de 1963 : ‘Entre os maravilhosos inventos da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a Santa Igreja acolhe e fomenta aqueles que dizem respeito, principalmente, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens’(Inter Mirifica, n.1).

Segue, Papa João Paulo II, no número 2, dizendo assim : ‘A mais de quarenta anos após a publicação daquele documento – Inter Mirifica - é muito oportuno voltar a refletir sobre os ‘desafios’ que as comunicações sociais constituem para a Igreja, a qual, como realçou o Papa Paulo VI, ‘se sentiria culpável diante do seu Senhor se não usasse estes poderosos meios’(Exortação Apostólica Evangelii Nunciandi, número 35). Ou seja, Se a Igreja não utilizar os Modernos Meios de Comunicação – o rádio, a TV, o telefone, a internet, hoje a Inteligência Artificial, etc. será culpada diante de Deus no seu trabalho de levar o Evangelho a todos os povos. Continua essa Carta Apostólica do Santo Polonês : ‘Com efeito, a Igreja não está chamada unicamente a usar os mass media para difundir o Evangelho mas, hoje como nunca, está chamada também a integrar a mensagem salvífica na ‘nova cultura’ que os poderosos instrumentos da comunicação criam e amplificam. Ela sente que o uso das técnicas e das tecnologias da comunicação contemporânea é parte integrante da sua missão no Terceiro Milênio. Movida por esta consciência, a comunidade cristã deu passos significativos no uso dos instrumentos da comunicação na informação religiosa, na evangelização e na catequese, na formação dos operadores pastorais do setor e na educação para uma responsabilidade madura dos usufruidores e destinatários dos vários instrumentos da comunicação’.

João Paulo II recorda essa mudança de época, de um mundo conectado numa grande aldeia global. Lembramos que a ‘aldeia global’ é o conceito cunhado pelo sociólogo canadense Herbert Marshall McLuhan para explicar a ideia de que o avanço tecnológico tende a encurtar distâncias, recriando no planeta a situação social que ocorre em uma aldeia. Pelos meios eletrônicos, as pessoas estariam se reconectando em um mundo globalizado. Segundo McLuhan, as mídias de massa, fruto da evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação, interligaram o mundo, estreitando suas relações econômicas, políticas e sociais. Diante desse fato e realidade moderna ou pós-moderna, essa Carta Apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘O RÁPIDO DESENVOLVIMENTO’, diz assim no número 03 : ‘São numerosos os desafios para a nova evangelização num mundo rico de potencialidades comunicativas como o nosso. Tendo isto em consideração, na Carta encíclica Redemptoris missio quis realçar que o primeiro areópago do tempo moderno é o mundo da comunicação, capaz de unificar a humanidade tornando-a como se costuma dizer ‘uma aldeia global’. Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas. A nossa época é uma época de comunicação global, onde muitos momentos da existência humana se desenrolam através de processos mediáticos, ou pelo menos, se devem confrontar com eles. Limito-me a recordar a formação da personalidade e da consciência, a interpretação e a estruturação dos vínculos afetivos, o desenvolvimento das fases educativas e formativas, a elaboração e a difusão de fenômenos culturais, o desenvolvimento da vida social, política e econômica’. O documento referendado é assinado e publicado por Joannes Paulus II, em 24 de janeiro de 20205, memória de São Francisco de Sales, patrono dos jornalistas. É o dia também que todos os anos os Papas divulgam a Mensagem para o dia Mundial da Comunicações Sociais. Atento aqui que há mais de 20 anos, o santo de nosso tempo, alertava para visão nova da realidade onde o indivíduo nasce já mergulhado na tecnologia. Repetimos o que já apontamos. Atentos ao que o Papa falava já em 2005, 39 dias antes de sua morte, em 02 de abril daquele ano, na festa do Domingo da Misericórdia por ele instituído : Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas’.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-10/complexo-mundo-novo-da-tecnologia-pe-gerson-schmidt.html


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

As reservas de Santo Agostinho sobre a “guerra justa”

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Luigi Franco Pizzolato

 

No debate teológico e nas declarações magisteriais, em reforço à doutrina da ilicitude da guerra, o conceito de ‘guerra justa’ vem sendo cada vez mais questionado. No entanto, esse conceito continua ressurgindo, e, para sustentá-lo, invoca-se a autoridade de Santo Agostinho (354-430), que no debate popular sobre a guerra aparece frequentemente como o primeiro teórico cristão, se não mesmo como o ‘inventor’ da ‘guerra justa’. Mas Agostinho, como se sabe, é uma alma sempre em movimento (inquieta), atenta às provocações mutáveis da história, e seu pensamento evolui. Os estudiosos sabem que suas posições devem ser lidas tanto no contexto, historicizando-as, quanto dentro de uma visão global que as relativiza. Em vez disso, muitas vezes elas são fossilizadas ou extrapoladas, quando não são, de fato, extraídas do agostinismo posterior. No caso que nos interessa, para quem tem a paciência e a sorte de lê-lo diretamente, não faltam indícios que mostram como sua visão perspicaz da história não deixou escapar a ambiguidade fundamental, ou melhor, até mesmo a inadmissibilidade da ‘guerra justa’.

As constatações em ‘De civitate Dei’

Em sua obra-prima de teologia da história, o De civitate Dei, merecem destaque pelo menos duas ressalvas nada insignificantes sobre a guerra justa. Uma é de natureza histórica, a outra, filosófica. Na primeira, Agostinho constata que, na história do mundo, em uma humanidade pecadora, a guerra justa é uma condição que, estritamente falando, não existe, pois, na realidade factual, até mesmo a guerra justa é efeito e causa do pecado e serve, no máximo, para mascará-lo. O Estado romano, com mais de mil anos de existência, havia expandido seu domínio justamente invocando o princípio da ‘guerra justa’. De fato, tomando como pretexto atos de injustiça (reais ou supostos) que surgiam em várias partes do mundo, Roma intervinha com a guerra, formalmente para saná-los, mas, na realidade, para ampliar seu império e criar sua própria ordem : ‘A injustiça daqueles contra os quais foram travadas guerras justas favoreceu o aumento do poder daqueles que as travaram […] A injustiça contribuiu muito para o aumento do poder e criava os injustos para que houvesse sujeitos contra os quais se pudessem travar guerras justas e aumentar o poder» (De civitate Dei, IV, 15).

Da guerra nasce a guerra

Daí decorre outra observação que, historicamente, demonstra a futilidade e o perigo dessa guerra : um Estado ‘nunca conseguirá exercer domínio estável sobre aqueles que conseguiu subjugar com suas vitórias bélicas’ (De civitate Dei, XV, 5); a guerra nunca produz paz verdadeira, mas sim uma paz instável e prenúncio de uma nova guerra. Como observará Simone Weil em seus Cadernos, a justiça é sempre ‘fugitiva do campo dos vencedores’, pois uma paz alcançada pelas armas sempre excede a medida justa e espalha inexoravelmente sementes de vingança. A guerra justa, portanto, revela-se historicamente falsa e nem mesmo pode aspirar a ser funcional à paz.

O virtuoso utiliza as armas do diálogo

O segundo passo é de uma época posterior e de natureza filosófica. Em um período longo e complexo, marcado pelo aparente absurdo do qual brota a verdade, Agostinho argumenta que ‘o sábio’ é avesso às guerras ‘justas’ porque, por serem justas, ele se sente no dever de travá-las, mas, ao fazê-lo, contraria seu papel de sábio. De fato, para permanecer fiel à sua natureza, ele não deveria sentir necessidade de guerra nem mesmo diante da injustiça (De civitate Dei, XIX, 7). Enquanto na primeira observação Agostinho, como historiador, destaca a vontade de poder que está historicamente inerente à guerra justa — que serve, na verdade, para promover o imperialismo do mais forte —, na segunda, como sábio, ele percebe a contradição inerente ao conceito de guerra justa. Diríamos que, na expressão ‘guerra justa’, a negatividade do substantivo (guerra) sufoca a positividade do adjetivo (justa) a ponto de fazer com que a expressão ‘guerra justa’ se desintegre e se reduza a um oxímoro impossível. A própria justiça imporia, de fato, a proibição da guerra, e com a escolha da solução violenta contradiz-se a virtude e priva-se de seu primado o logos, que é próprio do sábio e do virtuoso. No caso do conflito, a tarefa da sabedoria é buscar racionalmente as razões das partes em conflito, o que deve ser conduzido com as armas pacíficas do diálogo e da persuasão.

Sabedoria política : alcançar a paz pela paz

Parece-me que, na perspectiva agostiniana, a guerra justa representa a latência, disfarçada, daquele pecado que, segundo a expressão obscura e sugestiva do Gênesis (Gênesis, 4, 7), está agachado à porta do violento Caim. Que cada um perceba até que ponto as reflexões de Agostinho podem penetrar profundamente na lógica do nosso próprio sentir. Elas concordam com outra afirmação de Agostinho, luminosa e mais perentória, também de sua fase tardia e, portanto, de caráter, diríamos, conclusivo : ‘É mais glorioso matar a guerra com a palavra do que os homens com a espada, e conquistar e alcançar a paz com a paz, não com a guerra’ (Epistolae, 229, 2). É um hino à verdadeira missão da sabedoria política. De fato, ela contraria a ideia de que a paz possa ser fruto da guerra e invoca a busca dialógica e persuasiva da solução dos conflitos, antes e em vez de que estes degenerem em guerras; e canaliza a própria busca da glória mundana (típica do político) para a paz. Confiamos que, assim, possa emergir uma visão menos dura e menos rígida, mas sim mais complexa e abrangente, e menos convencional, daquele Agostinho que — vale lembrar — em Hipona tinha sua cátedra na Basílica da Paz.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-10/reservas-santo-agostinho-guerra-justa.html