segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Educação e religião

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Jose Alem, cmf


‘Pais e educadores precisam falar de religião, de fé. O silêncio deles pode ser interpretado pelas crianças e pelos jovens como um posicionamento, na maioria das vezes, negativo. A atitude de pais e educadores é o que mais conta na sua árdua missão de educar. Educa-se mais pelo exemplo, pelo testemunho, do que com as palavras, mas é também preciso falar.

Não é fácil falar de religião. O assunto está de volta e ‘em moda’ : é discutido em programas de televisão, no rádio, nos jornais, nos livros mais vendidos que falam de fenômenos místicos e espirituais, de esoterismo, de magia e de comportamento, mas, a dificuldade é dos pais e educadores. Todo o mundo fala de religião, porém, os educadores, não. Parece que pais e educadores não estão preparados para falar aos filhos e alunos sobre tão importante assunto. Talvez porque quando receberam sua educação religiosa foi num sentido moralista e piedoso, pouco esclarecido. Pais e educadores podem sentir-se não preparados para falar do que interessa aos jovens de hoje, seus filhos e alunos.

Houve tempos em que a religião era considerada coisa de criança, de mulheres, de gente velha, coisa de segunda importância. Era vista como algo que alienava da preocupação com um mundo mais justo e mais humano, algo distante também da ciência. A religião até foi considerada como algo que fazia as pessoas se distanciarem dos problemas para aceitar sem reclamar as privações e as dificuldades da vida. As pessoas mais instruídas diziam que a ciência resolveria todos os problemas humanos, que aos poucos iria construir um mundo sem superstições e magias e libertaria a humanidade do sentimento de culpa, gerado por crenças obscuras e alimentado pela religião, porém, o panorama mudou. A religião está se tornando, de novo, o centro de interesse de todas as pessoas que se preocupam com a vida, com o futuro da humanidade e com o seu próprio destino.

Os jovens fazem parte desta nova época, que leva a sério o misticismo e encara a religião com olhos muito diferentes dos mais velhos, cheios de curiosidade e de esperança. Não se discute mais se a religião é verdadeira, necessária ou útil. Todos a buscam a seu modo, de acordo com sua maneira de sentir e agir. A questão agora é como entender o mistério da vida, como falar dessa dimensão do ser humano, além do que se vê e do que se pode explicar racionalmente. Esse é um desafio que poucos talvez se sintam preparados para enfrentar, no entanto, a educação religiosa se torna cada vez mais uma necessidade imperiosa nos dias de hoje.

O cristianismo, desde as origens, teve consciência de quem era Jesus e da nova resposta que propunha à questão do sentido da vida não só aos seus conterrâneos, mas a todas as pessoas do mundo.

A fé revelada pelos cristãos é o anúncio da resposta dada por Jesus de Nazaré, por seus atos e palavras e testemunhada pelos que o acolheram e acolhem.

Jesus falava de religião falando da vida. Ele trouxe uma verdadeira e nova visão da vida, do ser humano, do próprio Deus. Mesmo nos momentos mais solenes, quando falava do amor, de Deus como Pai, de seu Reino, Jesus sempre mostrava o sentido que a vida tem a todos os que o ouviam. Falar de religião à maneira de Jesus é algo totalmente novo e renovador. Não é, de maneira alguma, transmitir simples doutrinas e normas, mas, falar da vida e do sentido que ela tem ajudando as pessoas a descobrirem o modo de encarar o mundo, a si mesmas, os outros, Deus. O que Jesus procurava não era impor uma doutrina, uma moral ou mesmo uma prática religiosa, Ele procurava esclarecer as pessoas sobre o sentido da vida. Fez isso por meio de gestos, palavras, atitudes, respostas, comportamentos, milagres, dando sua vida por amor. Procurava, antes de tudo, esclarecer as mentes e os corações das pessoas e deixava que fizessem a descoberta e dessem os passos necessários.

Todos os discursos de Jesus tratavam das questões básicas da existência humana, que estão na raiz de toda a inquietação das pessoas e na fonte de toda a religião : quem somos e de onde viemos.

Tudo o que Jesus disse e fez se refere à vida humana e suas relações com a natureza, com os semelhantes e com o mistério do transcendente. Ao falar da vida humana, Jesus fala sempre de Deus, assim como toda sua vida está voltada para o Pai, cuja vontade é seu alimento e a quem procura agradar em tudo. Jesus mostra que somente em Deus encontramos sentido para a vida. Por detrás da questão sobre o sentido da vida está sempre presente a questão de Deus e quando Jesus falou de um Reino de Salvação, do projeto de um mundo unido, justo e de amor respondeu a outras aspirações que palpitam no espírito de todo ser humano : enfim, para onde vamos? O que estamos fazendo aqui, afinal?

Seguindo o plano de Jesus, podemos também fazer um projeto de vida procurando o seu sentido, descobrindo o seu valor. Para isso partimos das questões iniciais : quem somos e de onde viemos? Elas nos apontam para o mistério do transcendente, que indica outra grande questão de nossa existência humana : quem é Deus? Finalmente, podemos concluir com as questões para onde vamos e o que estamos fazendo aqui. Essas são questões a que ninguém pode ficar indiferente se quiser encontrar sentido e valor para sua vida, elas marcaram a história do ser humano na sua trajetória por este mundo e todos nós, mesmo inconscientemente, buscamos suas respostas.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/educacao-e-religiao.html


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Bem-aventurado Dom Columba Marmion (1858-1923)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reginald-Ferdinand Poswick, OSB

Abadia de Maredsous, Vice-postulador da causa do Bem-aventurado

 

‘A comunidade beneditina de Maredsous teve o privilégio de ter entre seus membros o seu 3º abade (1909-1923) reconhecido como ‘Bem-aventurado’ pela Igreja universal durante o Grande Jubileu do ano 2000.

Joseph Marmion, irlandês nascido em Dublin em 1858, foi primeiro padre da diocese de Dublin após realizar brilhantes estudos de teologia em Roma. Atraído para o mosteiro de Maredsous por um de seus colegas de estudos belgas, ele se encantou com o mosteiro que concretizava o renascimento católico do final do século XIX. Ele entrou em Maredsous em 1886.

Já em 1899, ele foi enviado para fortalecer a equipe fundadora da Abadia de Mont-César em Louvain (Leuven). Lá, desenvolveu seus talentos como pregador e diretor espiritual, tornando-se, entre outras coisas, o confessor, confidente e amigo daquele que se tornaria o Cardeal Mercier, Primaz da Bélgica.

Como abade de Maredsous (eleito em setembro de 1909), ele teve que administrar com prudência todos os problemas de um grande mosteiro em plena expansão.

A partir de 1917, suas palestras espirituais foram publicadas sob o título Cristo, Vida da Alma. Este compêndio foi seguido por outros dois : Cristo em seus Mistérios e Cristo, Ideal do Monge. Esses escritos tiveram uma influência considerável na formação espiritual de seminaristas, clero, religiosos, religiosas e leigos comprometidos, apresentando a fé cristã centrada na pessoa de Jesus Cristo e fundamentada nas Sagradas Escrituras.

O cerne de sua mensagem era fazer com que os batizados tomassem consciência de que poderiam se tornar, imediatamente e verdadeiramente, filhos de Deus em Jesus Cristo.

Após a Primeira Guerra Mundial, ele fundou, junto com a Abadia de Mont-César (Louvain) e a Abadia de Santo André (Bruges), a Congregação Beneditina Belga da Anunciação, distinta da Congregação Alemã de Beuron, que fundou Maredsous (1920-1922).

Dom Marmion presidiu as celebrações do cinquentenário da fundação de Maredsous em 15 de outubro de 1922. Entretanto, ele faleceu durante uma epidemia de gripe em 30 de janeiro de 1923.

Seu processo de beatificação foi iniciado na diocese de Namur em 1957. Seus restos mortais foram transferidos do cemitério monástico para uma das capelas laterais da basílica abacial em 1963. Foi durante uma visita a essa tumba em 1965 que uma mulher americana recebeu a graça miraculosa da cura de um câncer.

A beatificação de Dom Columba Marmion pelo Papa João Paulo II ocorreu em Roma em 3 de setembro de 2000. A celebração litúrgica de sua festa foi estabelecida em 3 de outubro pela Santa Sé.

Um número cada vez maior de peregrinos vem invocá-lo em seu túmulo ou orar a ele em todo o mundo.

Uma publicação anual (Le Courrier du Bienheureux dom Columba Marmion) mantém informadas as pessoas interessadas sobre informações, publicações e eventos relacionados a essa personalidade agora proposta ao culto público da Igreja Católica.

Extratos

Cristo, Vida da Alma

‘Eu vos enviarei o Espírito Santo’, prometeu-nos Jesus; ‘Ele mesmo vos lembrará tudo o que Eu vos disse’ (Jo 14, 26). O Espírito da Verdade nos ‘lembra as palavras’ de Jesus. O que isso significa? Quando contemplamos as ações de Cristo Jesus, seus mistérios, há momentos em que uma palavra, que lemos e relemos muitas vezes sem que ela nos tenha chamado a atenção, de repente ganha um relevo sobrenatural que antes não lhe conhecíamos. Essa palavra divina, o Espírito Santo, que a liturgia chama de ‘o dedo de Deus’, a grava, a entalha na alma; ela permanece ali para ser uma luz e um princípio de ação; se a alma for humilde e atenta, essa palavra divina realiza seu trabalho silencioso, mas fecundo.

A Fonte da Paz Interior

Desejo sinceramente que você possa adquirir a calma e a paz. O melhor meio de adquirir essa calma é uma resignação absoluta à santa Vontade de Deus; é nessa região que a paz se encontra... Tente não desejar nada, não apegar o seu coração a nada sem antes apresentá-lo a Deus e colocá-lo no Sagrado Coração de Jesus, a fim de querê-lo nele e com ele.

Uma das principais razões pelas quais perdemos a paz da alma é que desejamos algo, que prendemos nosso coração a algum objeto, sem saber se Deus o quer ou não; então, quando um obstáculo se opõe aos nossos desejos, ficamos perturbados, saímos da conformidade com a santa Vontade e perdemos a paz.

Quando somos fiéis em dedicar todos os dias um tempo maior ou menor, de acordo com nossas habilidades e deveres, para conversar com nosso Pai celestial, recolher essas inspirações e ouvir esses ‘lembretes’ do Espírito, então as palavras de Cristo, as Verba Verbi (as palavras daquele que é a Palavra), como Santo Agostinho as chama, multiplicar-se-ão, inundando a alma com Luz divina e abrindo fontes de Vida nela, para que ela possa sempre se saciar. Assim se cumpre a promessa de Jesus Cristo : ‘Se alguém tiver sede, venha a mim e beba; aquele que crê em mim, do seu interior fluirão rios de água viva’. E, acrescenta São João, ‘Ele disse isso a respeito do Espírito que aqueles que nele cressem iriam receber’ (Jo 7, 37-38).’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


terça-feira, 25 de agosto de 2026

As grandes civilizações africanas - A Somalilândia e a luta pela independência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a existência de 193 Estados-membros, países soberanos e independentes que podem participar plenamente de sua Assembleia Geral e de outras atividades. Existem dois Estados observadores não-membros que são o Vaticano (Santa Sé) e o Estado da Palestina, totalizando 195 entidades reconhecidas, mas os países membros plenos são 193. Entidades internacionais como a FIFA que reconhece 211 federações chegam a reconhecer um número maior de países, mas sem validade política.

Ao lado dos países legalmente constituídos existem regiões ou povos que lutam para se tornarem independentes podendo, quem sabe um dia, se constituírem como um país livre e soberano. Entre esses são citados os Curdos (Turquia, Síria, Iraque, Irã), a Catalunha (Espanha), a Escócia (Reino Unido), o Tibete e Xinjiang (China), o Saara Ocidental (Marrocos) e a Chechênia (Rússia) que impulsionados por fatores como identidade étnica, cultural ou religiosa distintas, recursos naturais e repressão política, buscam a autodeterminação em meio a complexos cenários geopolíticos. 

Outras regiões que aparecem menos, também travam uma grande luta na busca de sua independência, sem o tão sonhado reconhecimento internacional. Entre essas podemos citar a Somalilândia da qual tem se falado bastante nos últimos tempos.

Uma história tumultuada

Localizado no norte do continente, na região conhecida como ‘Chifre da África’, este território semidesértico, que tem aproximadamente 137 mil km2, mais ou menos o tamanho de um estado de tamanho médio do Brasil, declarou sua independência em 1991, mas até agora a independência como um Estado foi reconhecida apenas por Israel.

O reconhecimento solitário até poderia encorajar outras nações a seguirem o exemplo, fortalecendo a posição diplomática da região separatista e seu acesso aos mercados internacionais, mas a rejeição de Israel no cenário internacional por causa da Questão Palestina e a falta de apoio de nações mais influentes do globo terrestre, não ajuda a conseguir a tão sonhada autonomia.

Localizada entre a Etiópia e a Somália da qual faz parte, a Somalilândia foi um protetorado do grande Império Britânico até sua independência em 26 de junho de 1960. Mas a autonomia durou pouco, porque apenas cinco dias depois se fundiu com a Somalilândia Italiana, também recém-independente.

As diferenças começaram quase que imediatamente após o parlamento aprovar a lei que fundou a República da Somália, com a região começando a viver uma história bastante tumultuada. Em 1963, aconteceu o golpe de estado liderado pelo General Mohamed Siad Barre, que tomou o poder, mudando o nome do país para República Democrática da Somália. O descontentamento foi geral pela forma ditatorial como conduziu o país, com perseguições e mortes generalizadas.

Durante esse período, a força aérea somali realizou diversos bombardeios em larga escala contra Hargeisa, a capital da autoproclamada República da Somalilândia, matando milhares de civis e destruindo parcialmente a cidade.

Após vários anos de um conflito sangrento, em 1991, Siad Barre foi deposto, e o país mergulhou numa guerra civil.

Perspectivas de futuro

O fim do regime militar de Siad Barre levou a Somalilândia a declarar sua independência. Porém, mais de três décadas depois, a região funciona quase como um país independente, mas sem sê-lo, oficialmente, possuindo sistema político próprio, parlamento, força policial própria, bandeira, moeda e até mesmo emitindo os seus próprios passaportes.

Embora Israel tenha se tornado o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia como nação soberana, o restante da comunidade internacional não reconhece sua independência, incluindo as Nações Unidas, a Liga Árabe e a União Africana.

O seu caso frequentemente é comparado ao de Taiwan (Formosa), pois ambos parecem ser Estados plenamente funcionais, declarando com orgulho a independência em relação a seus vizinhos maiores, Somália e China, que insistem em afirmar que as áreas rebeldes fazem parte de seus territórios. Reconhecendo essa proximidade, Hargeisa (capital da Somalilândia) e Taipei (capital de Taiwan) fortaleceram seu relacionamento e estabeleceram oficialmente laços diplomáticos em 2020, provocando a ira de seus vizinhos.

Além da questão política e da independência institucional, a Somalilândia é muito mais estável que o resto da Somália, sendo considerada como um exemplo de democracia na região, uma vez que seus líderes chegam ao poder por meio de eleições cujos resultados, ao contrário de outros países africanos, são respeitados, mesmo quando a oposição vence. Apesar de ser uma cidade com pobreza generalizada e uma taxa de desemprego muito alta, a capital Hargeisa é uma das cidades mais seguras da região. O contraste não poderia ser maior, mas essa relativa paz se deve aos esforços da Somalilândia desde a década de 1990.

A Somália, porém, considera a Somalilândia parte integrante do país e não aceita conversar sobre a independência. Nos últimos anos, Hargeisa e Mogadíscio, capital da Somália, realizaram negociações de paz, mas para a Somália, a integridade do país é inegociável.

Outro grande problema da região vem da ação dos grupos islamitas. Apesar do governo da Somália consolidar os grupos sob controle seu controle em Mogadíscio e outras grandes cidades, grupos como o Al-Shabaab, continuam uma ameaça ativa e recuperaram influência em diversas áreas do país.

A grave crise de segurança na qual vive o país é mais um dos entraves e, com isso, a luta pela independência tão cedo não se encerrará. Seja como for, a decisão final sobre a independência da Somalilândia provavelmente terá que vir da Somália, com o intermédio da ONU para que, assim como aconteceu com a secessão do vizinho Sudão do Sul, a separação possa vir após um referendo.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-somalilandia.html


domingo, 23 de agosto de 2026

Quem cuida precisa de cuidados: o desafio dos padres para cumprir o ministério e manter a saúde mental

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Nayá Fernandes


‘Em uma sociedade marcada pela velocidade, pela hiper conectividade e por demandas cada vez mais complexas, o sacerdote continua sendo procurado como alguém que escuta, consola, aconselha e acompanha. Para muitos fiéis, ele é a presença da Igreja nas alegrias e nas dores da vida : está no Batismo, no casamento, na doença, no luto e nas crises familiares. Entretanto, raramente, as pessoas se perguntam quem cuida daquele que dedica a própria existência ao cuidado dos outros.

A saúde mental dos presbíteros deixou de ser um tema periférico para tornar-se uma preocupação pastoral urgente. O aumento das responsabilidades administrativas, a diminuição do número de vocações, a ampliação das exigências sociais e a solidão que frequentemente acompanha o ministério exigem da Igreja uma reflexão profunda sobre o cuidado integral daqueles que receberam a missão de servir ao povo de Deus.

Para o Padre Edelcio Ottaviani, doutor em Filosofia, mestre em Teologia e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), compreender esse desafio exige olhar, antes de tudo, para as transformações do mundo contemporâneo. Segundo ele, a realidade pastoral mudou profundamente na última década e continuará mudando com o avanço das tecnologias.

Essa constatação conduz a uma reflexão mais profunda sobre a missão sacerdotal. Para Padre Edelcio, o maior desafio do presbítero não é simplesmente administrar uma paróquia ou organizar atividades pastorais, mas permanecer fiel à espiritualidade de Jesus Cristo. Isso significa discernir continuamente aquilo que promove a dignidade humana daquilo que produz exclusão e opressão. ‘O Evangelho’, recorda ele, ‘nunca foi neutro diante das injustiças’.

Segundo o teólogo, existe sempre a tentação de acomodar-se às estruturas de poder, ao medo ou aos interesses econômicos. ‘Quando isso acontece, corre-se o risco de reduzir a missão da Igreja a uma prática religiosa desvinculada do compromisso com os pobres, com a justiça e com a libertação integral da pessoa humana. A saúde espiritual do sacerdote, portanto, está profundamente ligada à coerência entre aquilo que anuncia e aquilo que vive’, diz.

Ao analisar a realidade eclesial brasileira, Padre Edelcio identifica outro elemento que repercute diretamente sobre a vida dos presbíteros. Em sua avaliação, ao longo das últimas décadas muitas comunidades reduziram o investimento na formação permanente dos leigos e passaram a concentrar excessivamente as decisões nas mãos dos padres. ‘Essa centralização, além de fortalecer o clericalismo, aumentou significativamente o peso que recai sobre cada sacerdote’, complementa.

Responsabilidade coletiva

Em vez de comunidades corresponsáveis, capazes de compartilhar responsabilidades, muitos padres passaram a acumular funções litúrgicas, pastorais, administrativas, jurídicas e financeiras. ‘O resultado é um ministério exercido frequentemente sob intensa pressão e marcado pelo cansaço permanente. Para o sacerdote, recuperar uma Igreja mais participativa não representa apenas uma escolha pastoral, mas também uma necessidade para preservar a saúde daqueles que nela servem’, afirma Padre Edelcio.

Essa percepção encontra eco na experiência clínica da psicóloga Milena Elizabeth Biliu do Vale, membro do Instituto Auxilium, dedicado ao acolhimento do ministério sacerdotal. Ela observa que o padre precisa administrar expectativas muito diferentes dentro da própria comunidade. Cabe-lhe mediar conflitos, harmonizar opiniões divergentes, lidar com comparações em relação a administradores anteriores e construir vínculos afetivos sólidos com centenas ou milhares de pessoas.

Segundo a psicóloga, esse processo exige enorme investimento emocional e frequentemente produz sentimentos de solidão e exaustão. ‘Embora seja visto como referência espiritual para todos, o sacerdote também necessita de uma rede de apoio onde possa ser acolhido em suas próprias fragilidades. Reconhecer que os padres são seres humanos, com limites e necessidades, é condição indispensável para que possam exercer seu ministério de maneira saudável’, explica ela.

‘Lideranças marcadas pela proximidade geram confiança e fortalecimento interior. Já ambientes baseados apenas na cobrança podem favorecer o esgotamento emocional. Quando a redução das vocações se soma ao aumento das demandas pastorais e ao distanciamento dos superiores, cresce o risco de estresse, burnout, depressão e até pensamentos suicidas’, observa.

Por isso, Padre Edelcio acredita que o caminho proposto pela sinodalidade representa muito mais do que uma nova metodologia pastoral. Inspirada e fortalecida pelo Papa Francisco, a caminhada sinodal oferece um verdadeiro antídoto contra o isolamento. Para ele, caminhar juntos significa cultivar relações marcadas pela escuta, pela comunhão, pela corresponsabilidade e pela caridade pastoral, substituindo disputas de poder por relações fraternas capazes de sustentar aqueles que dedicam a vida ao serviço do Evangelho.

Santidade x esgotamento

A psicóloga e religiosa Irmã Veridiana Kiss reforça essa compreensão ao recordar que a Igreja sempre ensinou a importância do cuidado integral do sacerdote. Documentos fundamentais, como a Exortação apostólica Pastores Dabo Vobis e a Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, insistem numa formação permanente que une as dimensões humana, espiritual, intelectual e pastoral. Como frequentemente recordava o Papa Francisco, o padre não pode reduzir sua identidade ao ativismo; antes de ser administrador ou gestor ele é discípulo de Cristo.

A formação humana, nesse sentido, não aparece como elemento secundário, mas como condição para que a graça encontre uma personalidade integrada. Irmã Veridiana observa que oração, descanso, maturidade afetiva, vínculos fraternos e acompanhamento psicológico não competem entre si; ao contrário, fortalecem-se mutuamente : ‘Um sacerdote que cuida do corpo, das emoções e da própria relação com Deus serve com mais liberdade, alegria e profundidade. Cuidar da saúde mental, portanto, não diminui a entrega ao povo, mas torna essa entrega sustentável ao longo da vida’.

Essa perspectiva ajuda a desfazer um equívoco ainda presente em muitos ambientes eclesiais : imaginar que o sofrimento permanente seja um sinal de fidelidade ao Evangelho. ‘A tradição cristã nunca identificou santidade com esgotamento. Jesus retirava-se para rezar, descansava com os discípulos, cultivava amizades profundas e não hesitava em interromper o ritmo da missão para restaurar as forças. O equilíbrio entre missão e descanso sempre fez parte da espiritualidade cristã’, observa Irmã Veridiana.

‘A comunidade que pratica a caridade santifica também o padre’, afirma Padre Edelcio. A lembrança nasce de uma experiência pessoal vivida ao lado de Dom Luciano Mendes de Almeida. Enquanto seminarista, ao acompanhá-lo como motorista, percebia que bastavam poucas horas de convivência para despertar nele um desejo ainda maior de fazer o bem. Aquela convivência transformava interiormente quem dela participava. Essa visão amplia o conceito de cuidado. Não se trata apenas de oferecer ajuda material ou preocupar-se quando o sacerdote adoece.

Milena Elizabeth Biliu chama atenção justamente para essa corresponsabilidade. Segundo ela, compreender que o sacerdote é uma pessoa antes de exercer uma função muda profundamente a maneira como os fiéis se relacionam com ele. ‘O padre também experimenta inseguranças, limitações, frustrações e momentos de solidão. Esperar dele uma perfeição inalcançável apenas amplia sua sobrecarga emocional’, salienta.

O verdadeiro cuidado de si

Quando a conversa chega ao plano pessoal, Padre Edelcio compartilha uma experiência significativa. Há muitos anos realiza análise psicológica, ainda que de forma intermitente. Para ele, existem momentos em que a pessoa simplesmente não consegue enfrentar sozinha determinados conflitos interiores, tornando legítima e necessária a ajuda profissional.

Além da psicoterapia, ele destaca a influência da filosofia, especialmente da noção foucaultiana do ‘cuidado de si’ : ‘Longe de representar individualismo, esse conceito significa desenvolver uma atenção permanente sobre a própria maneira de viver, relacionar-se e conduzir a existência’. Padre Edelcio aproxima essa reflexão da própria vida de Jesus. A beleza de Cristo, afirma, não estava nas aparências, mas na forma como acolhia as crianças, tratava as mulheres, defendia os pobres e anunciava a paz. Cuidar de si, portanto, consiste em configurar a própria vida segundo esses gestos do Evangelho, permitindo que a humanidade seja continuamente moldada pela graça.

Irmã Veridiana insiste que a cultura do cuidado precisa começar ainda nos seminários. Para ela, não basta oferecer disciplinas sobre saúde mental, é necessário ensinar futuros sacerdotes a reconhecer emoções, estabelecer limites, cultivar amizades sacerdotais, aprender a pedir ajuda, desenvolver hábitos saudáveis, praticar atividade física, reservar tempos de descanso e integrar direção espiritual com acompanhamento psicológico sempre que necessário. A prevenção, recorda ela, é muito mais eficaz do que agir apenas quando o sofrimento já se tornou intenso. Afinal, como recorda Padre Edelcio, ‘Uma comunidade sadia cura aqueles que dela se aproximam. Quando essa verdade é vivida concretamente, também o sacerdote encontra nela um lugar para renovar suas forças e continuar anunciando, com alegria e esperança, o Reino de Deus’.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/quem-cuida-precisa-de-cuidados-o-desafio-dos-padres-para-cumprir-o-ministerio-e-manter-a-saude-mental.html


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

São Pio X, Papa (1835–1914)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘Recapitular todas as coisas em Cristo.’ (Ef 1,10)


Da infância ao episcopado

‘Giuseppe Sarto nasceu em Riese, na região de Treviso, em 2 de junho de 1835. Era o segundo de dez filhos de uma família pobre. Com a ajuda de sacerdotes e do patriarca de Veneza, também natural de Riese, conseguiu estudar gratuitamente no seminário de Pádua.

Aos 17 anos, perdeu o pai, que trabalhava como funcionário público. As autoridades locais ofereceram-lhe o emprego paterno para que pudesse ajudar a família, mas sua mãe, Margarida, recusou a proposta. Mesmo trabalhando intensamente como costureira para sustentar os filhos, desejava que Giuseppe seguisse sua vocação sacerdotal.

Ordenado padre aos 23 anos, foi nomeado vigário paroquial em Tombolo, onde permaneceu por nove anos. Depois, tornou-se pároco em Salzano, exercendo o ministério por mais nove anos. Em 1875, foi transferido para Treviso, onde atuou como cônego, chanceler episcopal e diretor espiritual do seminário.

Cumpria suas responsabilidades com dedicação e competência. Frequentemente levava documentos para casa a fim de concluir o trabalho durante a noite. Sua proximidade com o povo e o cuidado especial com os pobres conquistaram a estima de todos. Após a morte do bispo local, foi escolhido vigário capitular.

Em 1884, o Papa Leão XIII nomeou-o bispo de Mântua. A diocese atravessava um período difícil, tanto internamente quanto nas relações com o poder civil. Dom Giuseppe Sarto conseguiu pacificar os ânimos e promoveu uma profunda renovação da vida cristã.

Em 1893, foi criado cardeal e nomeado patriarca de Veneza. Precisou, porém, esperar vários meses para assumir a sede, pois o governo italiano reivindicava o direito de interferir na escolha do patriarca.

Em Veneza, dedicou-se especialmente à formação do clero, à catequese, à renovação da liturgia e à assistência aos pobres. Preocupava-se não apenas com a vida espiritual dos futuros sacerdotes, mas também com seus estudos teológicos, bíblicos, litúrgicos, canônicos e sociais.

Nesse período, conheceu o jovem músico Lorenzo Perosi, cujo talento reconheceu e incentivou. Mais tarde, confiou-lhe a renovação do canto litúrgico em Veneza e, posteriormente, em Roma.

A vida religiosa do povo também ganhou novo vigor. Os adultos recebiam formação na fé; as crianças eram preparadas cuidadosamente para a Primeira Comunhão e a Crisma; e as celebrações litúrgicas eram realizadas com dignidade.

O Cardeal Sarto vivia de maneira simples e generosa. Ao chegar a Veneza, recusou-se a mandar confeccionar novas vestes cardinalícias. Pediu que suas irmãs ajustassem as vestes usadas por seu antecessor, para que o dinheiro economizado fosse destinado aos pobres.

Amado pelo povo e reconhecido como um pastor zeloso, ficou profundamente abalado quando seu nome começou a ser considerado no conclave. Entre lágrimas, pediu aos cardeais que não o elegessem, pois se julgava incapaz de assumir o pontificado. Seu pedido, porém, não foi atendido.

Um Papa pastor

O conclave teve início em 1º de agosto de 1903. Nas primeiras votações, parecia certa a eleição do Cardeal Mariano Rampolla, secretário de Estado do falecido Papa Leão XIII. No entanto, o cardeal de Cracóvia comunicou o veto do imperador Francisco José, da Áustria, à sua candidatura.

Por sugestão do próprio Rampolla, os cardeais desistiram de elegê-lo e passaram a apoiar o patriarca de Veneza, Cardeal Giuseppe Sarto, conhecido pela santidade de vida, firmeza doutrinal e moderação nas questões sociais.

No Vaticano, Pio X manteve seu estilo de vida simples. Abandonou alguns costumes da corte pontifícia que considerava incompatíveis com a simplicidade evangélica. Deixou de usar o plural majestático, dispensou os aplausos tradicionais na Basílica de São Pedro e procurou manter contato direto com as pessoas.

Levou suas irmãs para Roma, oferecendo-lhes apenas um pequeno apartamento e uma renda suficiente para viver. Quando lhe perguntaram qual título nobiliárquico deveriam receber, respondeu que lhes bastava serem chamadas de ‘irmãs do Papa’. Nenhum de seus parentes recebeu privilégios durante o pontificado.

Uma de suas principais preocupações foi a formação sacerdotal. Nas regiões em que os bispos não possuíam recursos para manter seminários, promoveu a criação de seminários regionais sob a responsabilidade da Santa Sé. Também incentivou os estudos nas faculdades pontifícias e fundou o Pontifício Instituto Bíblico.

Na Exortação Haerent Animo, dirigida ao clero, apresentou orientações para a vida espiritual dos sacerdotes. O documento tornou-se uma importante referência para a formação nos seminários.

Pio X também promoveu uma ampla reforma litúrgica, contribuindo para a renovação da vida de oração da Igreja e preparando o caminho para reformas posteriores. Considerava a Missa dominical o centro da vida cristã, na qual os fiéis deveriam ser alimentados pela Palavra de Deus e pela Eucaristia.

Incentivou a Comunhão frequente e permitiu que as crianças devidamente preparadas recebessem a Eucaristia.

Embora não pudesse visitar livremente as paróquias de Roma devido às tensões políticas da época, convidava semanalmente uma comunidade paroquial para ir à Basílica de São Pedro, onde explicava o Evangelho e celebrava a Missa.

Para favorecer a formação religiosa do povo, promoveu a elaboração do catecismo que ficou conhecido por seu nome. Organizado em perguntas e respostas, o texto apresentava a doutrina católica de modo simples e acessível, permitindo que também as pessoas com pouca instrução pudessem compreendê-la e memorizá-la.

Realizou ainda uma reforma da Cúria Romana, distinguindo as funções administrativas das judiciais. Também criou comissões para preparar o novo Código de Direito Canônico, posteriormente promulgado, em 1917, por seu sucessor, Bento XV.

Nas relações com os governos, procurou limitar a interferência política na escolha dos bispos e impediu qualquer intervenção externa nos futuros conclaves.

Um santo diante dos desafios de seu tempo

Embora sua santidade seja amplamente reconhecida, Pio X também foi um homem marcado pelo contexto histórico e eclesial em que viveu. Sua visão da Igreja refletia a compreensão predominante no início do século XX, fortemente baseada na distinção entre a hierarquia e os fiéis.

Nesse contexto, observou com grande preocupação o movimento conhecido como modernismo. Muitos membros da Igreja consideravam que algumas de suas propostas colocavam em risco a integridade da fé católica.

Pio X combateu essas ideias com firmeza, embora esse enfrentamento tenha levado, em alguns casos, a excessos e perseguições contra pessoas que defendiam novas formas de reflexão teológica.

São Pio X morreu em 20 de agosto de 1914, profundamente abalado pelo início da Primeira Guerra Mundial. Procurou, sem sucesso, atuar como mediador para evitar o conflito.

Quando o embaixador da Áustria lhe pediu que abençoasse as tropas austro-húngaras que partiam para a guerra, o Papa recusou-se e respondeu com firmeza :

‘Eu abençoo a paz!’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-pio-x-papa-1835-1914.html

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

As grandes civilizações africanas - O Genocídio de Ruanda

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Em nossas últimas publicações ou gravações temos revisto algumas das páginas mais tristes da história do Continente Africano como ditaduras que se estabeleceram em diversões países, massacres, regimes brutais que se instalaram e guerras em diversas partes do continente.

Uma página que não pode ser esquecida e que precisa ensinar às gerações de hoje e de amanhã foi o triste genocídio que aconteceu em Ruanda.

Razões de uma guerra

Há muito tempo Ruanda vinha vivendo uma guerra civil que já durava cerca de 4 anos. O sangrento conflito tinha de um lado a etnia hutu, que dirigia o governo do país e do outro lado a etnia tutsi, da Frente Patriótica da Ruanda (RPF). Naquele ano, os hutus deram início a um movimento de extermínio dos rivais, numa das maiores atrocidades já acontecidas na era contemporânea. Durante o conflito, as Forças Armadas de Ruanda (FAR) deram aos civis da etnia hutu armas brancas para que pudessem se defender, mas elas acabaram sendo usadas no genocídio.

O estopim do conflito aconteceu no dia 6 de abril de 1994. O avião que levava o presidente de Ruanda Juvenal Habyarimana e o presidente do Burundi Cyprien Ntaryamira, ambos da etnia hutu foi derrubado enquanto se preparava para pousar no aeroporto de Kigali, capital de Ruanda, provocando a morte de todos os seus ocupantes. Mesmo sendo posteriormente descoberto que o míssil que provocou a queda foi lançado por extremistas hutus, forças tutsis foram culpadas pelo atentado. A morte dos dois líderes hutus é vista como o fato catalisador do massacre.

A etnia hutu deu início ao assassinato em massa dos tutsis e de hutus moderados logo nas primeiras horas depois que o avião foi derrubado. Líderes militares que deviam ser apaziguadores insuflaram a multidão que foi aconselhada a ‘dar início ao trabalho e não poupar ninguém. Já no dia seguinte a matança se espalhou por várias províncias do país.

Nos meses seguintes, a matança da população tutsi alcançou índices alarmantes. Algumas contagens indicaram depois que cerca de 800 mil ruandeses foram mortos nos primeiros seis meses de genocídio num trabalho sistemático orientado pelos líderes do movimento.

O massacre foi maior, sobretudo, nas áreas urbanas do país e durante o genocídio até mesmo hutus acusados de serem simpatizantes ou simplesmente por parecerem tutsis foram também mortos.

Rádios e jornais locais foram usados para espalhar propaganda, incitar a violência e orientar os assassinos.

A tensão entre as duas etnias que já existia no passado foi intensificada no período de colonização, primeiro pela Alemanha e depois pela Bélgica, que favorecia a minoria tutsi para exercer cargos de poder. Quando o país se tornou independente, a maioria hutu assumiu o controle, gerando perseguições e fugas de tutsis para países vizinhos.

Desdobramentos do conflito

Em resposta ao genocídio, a RPF ligada aos tutsis começou também a planejar seus ataques e, começando pelo norte, avançou até a capital Kigali, cercando a cidade e cortando a linha dos suprimentos que a abasteciam. Desta forma conseguiu o controle de grandes áreas do interior e também os arredores da capital.

No dia 4 de julho, a RPF finalmente retomou a capital Kigali, derrotou as forças governistas ruandesas e encerrou os mais de 100 dias de massacre enquanto o governo hutu fugiu para o vizinho Zaire, atual Congo.

Em Ruanda hoje existem dois feriados públicos para lembrar o genocídio. O ‘Genocide Memorial Day’ celebrado no dia 7 de abril e o ‘Liberation Day’ que acontece no dia 4 de julho e a semana posterior ao dia 7 de abril é considerada luto oficial.

O governo de Ruanda contabiliza o número de 1.174.000 pessoas mortas no genocídio, numa média de 10 mil por dia e apenas cerca de 300 mil tutsis conseguiram sobreviver, mas muitas mulheres são portadoras de HIV, por terem sido violentadas durante o conflito

Hoje o país continua sofrendo as consequências do genocídio. Milhões de pessoas da etnia hutu se refugiaram nos países vizinhos temendo a retaliação tutsi. Além dos enormes campos de refugiados, no período subsequente a situação levou a duas guerras contra o Congo e a morte de milhões de outras pessoas.

A comunidade internacional foi muito criticada por não ter feito os esforços suficientes para evitar o que estava acontecendo em Ruanda.

Em novembro de 1994, o Conselho de Segurança da ONU instituiu o Tribunal Criminal Internacional por Ruanda (ICTR, na sigla em inglês) para julgar os líderes do genocídio, como também houve julgamentos locais no próprio país.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-genocidio.html


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Deus nos chama pelo nome

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Antes que a agitação do dia tome conta dos pensamentos e do tempo, alguém se senta à beira da cama e respira fundo. Ainda não organizou as tarefas, não assumiu os papéis que deverá desempenhar nem respondeu às expectativas que o aguardam. Por alguns instantes, tudo parece suspenso diante daquele corpo cansado que tenta despertar por inteiro e assimilar o que foi sonho e o que é realidade.

Talvez seja o cansaço acumulado. Talvez seja a alma pedindo espaço antes de ser novamente tomada pelas urgências. Nesse intervalo entre o sono e a vida que recomeça, uma pergunta bate suavemente à porta do coração : há quanto tempo não escuto o que Deus tenta dizer em mim?

Agosto, mês vocacional, oferece-nos essa oportunidade. Não apenas para pensarmos nas vocações sacerdotais e religiosas, tão belas e necessárias à Igreja, mas para perguntarmos pelo sentido de nossa existência, pelo lugar que ocupamos no mundo e pela maneira como respondemos ao amor de Deus.

Vocação não é somente escolher um estado de vida, é descobrir para quem e para que as nossas vidas se entregam.

Vivemos num tempo de muita agitação e pouca escuta. Há vozes que cobram, comparam e impõem padrões de sucesso. Há também ruídos interiores : medos, culpas, inseguranças, necessidade de reconhecimento e receio de não corresponder às expectativas. Às vezes, o maior barulho não vem de fora, vem de dentro.

Nesse emaranhado, podemos desaprender a escutar Deus. Não porque Ele tenha deixado de chamar, mas porque nossos corações estão ocupados demais para reconhecer sua voz.

A história de Samuel ilumina esse caminho. Durante a noite, o menino ouve alguém chamá-lo pelo nome : ‘Samuel, Samuel’. Pensando que fosse Eli, levanta-se e vai ao encontro do sacerdote. Isso se repete. Samuel escuta, mas ainda não reconhece. Com a ajuda de Eli, aprende a responder : ‘Fala, Senhor, teu servo escuta’ (1Sm 3,10).

Deus chama pelo nome, mas respeita o tempo de Samuel. Não o força nem o envergonha por não compreender de imediato. Chama novamente, espera e coloca ao seu lado alguém capaz de ajudá-lo a discernir.

Assim também acontece conosco. Nem sempre reconhecemos a voz de Deus na primeira vez. Podemos confundi-la com medo, obrigação, desejo pessoal ou expectativa alheia, por isso, a vocação necessita de silêncio, oração, acompanhamento, comunidade e tempo. Precisa de interioridade e de pessoas que, como Eli, ajudem-nos a reconhecer o chamado de Deus.

O Papa Leão XIV tem recordado que a vocação nasce no mais profundo do coração, como descoberta de um dom gratuito que Deus faz florescer em nós. Não é imposição nem destino fechado, é encontro, diálogo e resposta de amor. A interioridade, portanto, não é fuga do mundo, mas o lugar onde a vida reencontra sua fonte. Quem guarda o coração volta à realidade com maior inteireza.

Sobre traçar novos mapas de esperança, o Papa afirma que os jovens desejam profundidade e precisam de espaços de silêncio, discernimento e diálogo com Deus. Essa necessidade também alcança os adultos. Quantas pessoas passam anos cumprindo tarefas e sustentando responsabilidades, mas já não perguntam o que Deus deseja fazer florescer em suas vidas? Continuam caminhando, mas perderam o sentido do caminho.

Falar de vocação é, portanto, falar do modo como Deus nos chama a amar. Existe a vocação de quem educa, cuida de uma pessoa enferma, constitui família, trabalha com honestidade, serve à comunidade, consagra-se ao Reino ou permanece fiel em tarefas pequenas e quase invisíveis.

Toda vocação verdadeira nasce do amor e se concretiza no serviço. Sem serviço, o chamado transforma-se em vaidade. Sem amor, a missão torna-se peso. Sem escuta, corremos o risco de confundir nossos desejos com a vontade de Deus.

Jesus também chamou pelo nome. Chamou Pedro e André à beira do lago, Mateus na coletoria, Zaqueu sobre uma árvore e Maria Madalena no jardim da ressurreição. O chamado de Jesus nunca fecha a pessoa em si mesma, ele a coloca a caminho, na direção do cuidado, da misericórdia, da justiça e do anúncio do Reino.

Talvez a principal pergunta vocacional não seja ‘O que eu quero ser?’, mas ‘Onde Deus me chama a amar mais?’. Essa pergunta retira a vocação do campo da aparência e a devolve ao campo da entrega. A vida não é apenas carreira, produtividade ou reconhecimento, a vida é resposta, é dom recebido e devolvido em forma de serviço.

Neste mês vocacional, tenhamos coragem de silenciar, levantar o olhar e escutar a vida com reverência. Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez chegue aos poucos, como a luz entrando pela janela, o café perfumando a casa ou a semente germinando escondida na terra, mas Deus continua chamando e chama cada pessoa pelo nome.

Senhor, ensina-nos a escutar. No meio dos medos, dá-nos confiança. No meio das dúvidas, concede-nos discernimento. Ajuda-nos a reconhecer tua voz nos encontros que nos humanizam, nas dores do mundo que pedem cuidado e nos dons que colocaste em nós. Dá-nos coragem para responder, humildade para caminhar e generosidade para transformar a vida em serviço. Amém.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/deus-nos-chama-pelo-nome.html