quarta-feira, 18 de março de 2026

São José esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria (século I)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave-Maria


‘Quando a condescendência divina escolhe alguém para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização… Eis quanto se realizou sobretudo no grande São José.’

O Evangelho chama José de homem justo, como eram chamados os antigos patriarcas de Israel. Ele, como aqueles, acreditava no amor de Deus para com o seu povo e a humanidade inteira e esperava pelo cumprimento da promessa da salvação, de uma salvação que viria do alto. Então se achava envolto em primeira pessoa nesta extraordinária aventura.

Os evangelhos de Mateus e de Lucas nos falam de José na medida em que os acontecimentos de sua vida estão relacionados com o nascimento e a infância de Cristo; eles não tiveram nenhuma intenção de escrever uma biografia de José. Mateus (1,1-16), querendo explicar a descendência davídica do Messias, escreve a genealogia de Jesus e conclui com estas palavras : ‘Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado de Cristo’ (16). Desse modo, o evangelista lhe assegurava a descendência de Davi, pois, para os hebreus, o que tinha valor era a paternidade legal.

Quanto a não haver nenhuma dúvida a respeito da concepção virginal de Cristo por obra do Espírito Santo, Mateus continua : ‘Eis como aconteceu o nascimento de Jesus Cristo : sua mãe Maria, sendo prometida a José, como esposa, antes de coabitarem, encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo’ (1-18). Quando José soube que Maria esperava um filho, concebido sem a sua participação, não sabia o que pensar. Maria, por sua, vez não podia explicar, pois era muito grande o mistério. Como para ela, também para seu esposo era necessária uma luz divina.

José, sendo um homem justo, não quis repudiar sua esposa e, antes de comunicar o acontecimento aos parentes de Maria, invocou a ajuda de Deus. Sua oração foi ouvida e ele escutou : ‘José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque aquele que foi gerado nela é obra do Espírito Santo. Eis que ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus’ (Mt 1,20-21). Nesse momento, em que o véu do mistério estava um pouco descoberto, os dois cônjuges puderam passar a viver juntos e toda a sua existência foi dirigida para uma terceira pessoa : o filho que, vindo do alto, tinha vindo morar entre nós.

O evangelista Lucas, depois de ter descrito a anunciação a Maria e sua visita a Isabel, narra-nos outros episódios da infância do Messias. Antes de tudo, o seu nascimento. Jesus nasceu em Belém, pois José, da casa de Davi, deveria se transferir com sua esposa para essa cidade para fazer o recenseamento ordenado pelos romanos. O menino nasceu em um ambiente pobre, recebeu homenagem de pastores simples e mais tarde de nobres reis magos. No oitavo dia foi circuncidado e José impôs-lhe o nome de Jesus, como Deus lhe havia ordenado. Foi levado também a Jerusalém, como ordenava a lei de Moisés, para ser apresentado ao templo. Nessa ocasião, tiveram a oportunidade de ver o regozijo do velho Simeão e da profetiza Ana, mas ouviram também a profecia que Simeão fez a respeito do menino : será sinal de contradição. 

O evangelista conta que José cuidou do menino e de sua mãe e percebeu que não havia lugar para eles em Israel, por inspiração divina tomaram o caminho do exílio para o Egito. Retornaram para a pátria somente depois da morte do feroz Herodes, autor da matança dos inocentes. Não permaneceram na Judeia, onde reinava o filho de Herodes, que não era diferente do pai. Preferiram ir para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde como bom carpinteiro poderia ganhar o suficiente para manter a família.

O único episódio desse período, descrito no Novo Testamento, é o desaparecimento de Jesus em Jerusalém. Ele foi com seus pais para a festa da Páscoa. Depois de três dias de angústia de seus pais, ele foi encontrado entre os doutores da lei. Jesus disse aos seus pais : ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49) Em seguida, o evangelista acrescenta : ‘Retornou a Nazaré e lhes era submisso’ (Lc 2,51).

Nesse ponto o evangelista silencia. Nós não temos palavras humanas adequadas para descrever o que se passou com aquela família, onde a vida trinitária vivia a cada dia a experiência humana. Isso por trinta anos, durante os quais Jesus crescia em idade, sabedoria e graça. ‘Trinta anos dos quais quase nada se conhece. É um mistério. O mistério do amor. O mistério do amor divino e humano entre coração de carne, vestido de virgindade. Ninguém o compreendeu. Alguma coisa nós só saberemos no Paraíso, na proporção de quanto na Terra os tivermos amado e seguido.’

‘Na família de Nazaré, Maria certamente educava, mas educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho, obedecendo-lhe. Por outra parte, Jesus Menino – Ele era o guia da família de Nazaré, porque era Deus – estava também submisso a Maria e a José, como diz a Escritura. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos outros, pois era tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e porque Maria sem dúvida lhe terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à mãe de Deus. De tudo isto se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro ponto de vista, obedeciam.’

Durante a vida pública de Jesus não se diz nada de José, somente no início, quando as pessoas, diante da sabedoria e da autoridade com que o jovem rabino ensinava e do seu poder de realizar milagres, perguntavam-se estupefatas : ‘Não é ele o filho de José?’ (Lc 4,22). Mas José já havia cumprido sua missão e não parece que ainda estivesse vivo naquela terra.

Na linguagem que se tornou tradição, José é chamado o suposto pai de Jesus. Se de uma parte esse título salvaguarda a concepção virginal de Cristo, de outra não exprime plenamente a relação de paternidade existente entre José e o Salvador. Um autor medieval já tinha observado que ‘José foi o verdadeiro pai em ordem ao Matrimônio’, embora ‘suposto pai em ordem à geração corporal’. São Tomás de Aquino acrescentou : ‘José é ao mesmo tempo tanto pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas do vínculo matrimonial’.

Por causa dessa relação especial com Jesus e Maria, José sempre foi muito venerado na Igreja. Pio IX, resumindo a herança dessa longa tradição, proclamou-o patrono da Igreja Universal e Leão XIII o indicava como modelo de todas as famílias cristãs. Bento XV escreveu : ‘A casa divina, que José governou (…) continha os princípios da igreja nascente (…). Como consequência disso, o santo patriarca deve sentir como confiada a si, por essa especial razão, toda a multidão dos cristãos’. Pio XII o propôs como exemplo para todos os trabalhadores e fixou o dia 1º de maio como Festa de São José Trabalhador, que ‘enobreceu o trabalho humano, sustentado e animado pela convivência de Jesus e Maria’ e ‘exercendo sua arte com empenho e virtude admiráveis, tornou-se o mestre de trabalho do Cristo Senhor que não desdenhou ser chamado filho do carpinteiro’.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-jose-esposo-da-bem-aventurada-virgem-maria-seculo-i.html

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Conheça a couraça de São Patrício

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rosa Maria Dilelli Cruvinel 


‘A couraça de São Patrício é uma oração popular de proteção e invocação à Santíssima Trindade, atribuída a São Patrício, um dos santos mais queridos e padroeiro da Irlanda. A couraça nos recorda a Carta de São Paulo aos Efésios, na qual o apóstolo fala para os cristãos se revestirem da armadura de Deus para resistirem nos dias maus (cf. Ef 6,11). A oração revela a confiança do fiel na proteção divina que age em sua defesa contra males físicos, espirituais, tentações, e perigos ligados àqueles que combatem contra a fé católica.

Nascido na Grã-Bretanha, a oração revela os combates que travou Patrício ao longo da sua história de vida. Aos 16 anos foi capturado e vendido como escravo por piratas irlandeses, mas conseguiu fugir para a França. Após um caminho de discernimento, deu ao sofrimento enfrentado um sentido para sua vida : tornou-se sacerdote missionário, evangelizou na Inglaterra e voltou para evangelizar na Irlanda. Como bispo, deu testemunho de santidade de tal modo que a antiga Irlanda.

Segundo a tradição, São Patrício a escreveu por volta de 433 d.C., a fim de invocar a proteção divina e após obter o êxito da conversão, do paganismo ao cristianismo, do rei irlandês e dos seus súditos. Foi muito usada na Idade Média, com o objetivo de proteger os cavaleiros em combate contra os golpes dos seus inimigos.

A oração como é conhecida atualmente está contida no Liber hymnorum, uma coleção de hinos litúrgicos encontrada em Dublin, na Irlanda. Está presente também, ainda que em partes, na Vita tripartita Sancti Patricii, uma biografia do santo.

É também uma oração de cunho profundamente cristológico, pois clama pela graça presente nos mistérios da vida de Cristo : nascimento, crucificação, ressurreição e julgamento dos mortos. O autor pede a Cristo orientação e uma amplitude de proteção contra as forças malignas a tal ponto que invoca o nome de Cristo para ser totalmente envolvido pela sua presença. Essa parte final da oração é famosa pela repetição da invocação de Cristo : ‘Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim, Cristo em mim, Cristo embaixo de mim…’.

A oração da couraça destaca a confiança na proteção de Deus e a unidade do Criador com a criatura. Ela é um clamor pela proteção divina contra inimigos espirituais, falsos profetas, vícios, tentações e perigos naturais.

São Patrício a rezou a fim de se proteger de emboscadas inimigas em suas atividades missionárias, tornando-se uma das orações mais conhecidas da tradição cristã no combate espiritual. A vida de São Patrício nos revela um combatente fiel, que soube dar sentido ao sofrimento e se valeu da força da oração e da confiança na proteção de Deus, sua verdadeira couraça.

Essa oração é reconhecida por revestir o cristão com uma armadura espiritual que age como um escudo no corpo, na mente e na alma, contra todos os ataques dos espíritos infernais, ajudando o fiel a vencer as tentações e desafios diários com maior confiança em Deus. A invocação da Santíssima Trindade foi uma salutar prática dos santos; tal invocação pode levar a uma vida de maior propósito de santidade, integridade e crescimento na confiança em Deus.

Essa célebre oração é usada para buscar a força de fé, paz e proteção divina, especialmente em momentos de batalha espiritual e desafios da vida. Rezemos a oração da couraça de São Patrício.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

por uma grande força, a invocação da Trindade,

pela fé na Tríade,

pela afirmação da unidade

do Criador da criação.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do nascimento de Cristo e de seu Batismo,

pela força de sua crucificação e sepultamento,

pela força de sua ressurreição e ascensão,

pela força de sua descida para o julgamento dos mortos.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do amor dos querubins,

em obediência aos anjos,

a serviço dos arcanjos,

pela esperança da ressurreição e do prêmio,

pelas orações dos patriarcas,

pelas previsões dos profetas,

pela pregação dos apóstolos

pela fé dos confessores,

pela inocência das virgens santas,

pelos atos dos bem-aventurados.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do céu :

luz do sol,

clarão da lua,

esplendor do fogo,

pressa do relâmpago,

presteza do vento,

profundeza dos mares,

firmeza da terra,

solidez da rocha.

Levanto-me, neste dia que amanhece :

que a força de Deus me dirija,

que o poder de Deus me ampare,

que a sabedoria de Deus me guie,

que o olhar de Deus me vigie,

que o ouvido de Deus me ouça,

que a palavra de Deus me faça eloquente,

que a mão de Deus me guarde,

que o caminho de Deus me esteja à frente,

que o escudo de Deus me proteja,

que o exército de Deus me defenda

das armadilhas do demônio,

das tentações do vício,

de todos os que me desejam mal,

longe e perto de mim,

agindo só ou em grupo.

Conclamo, hoje, tais forças a me protegerem contra o mal,

contra qualquer força cruel que me ameace corpo e alma,

contra a encantação de falsos profetas,

contra as leis negras do paganismo,

contra as leis falsas dos hereges,

contra a arte da idolatria,

contra feitiços de bruxas e magos,

contra saberes que corrompem o corpo e a alma.

Cristo guarde-me hoje

contra veneno, contra fogo,

contra afogamento, contra ferimento,

para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.

Cristo comigo,

Cristo à minha frente,

Cristo atrás de mim,

Cristo em mim,

Cristo embaixo de mim,

Cristo acima de mim,

Cristo à minha direita,

Cristo à minha esquerda,

Cristo ao me deitar,

Cristo ao me sentar,

Cristo ao me levantar,

Cristo no coração de todos a quem eu falar,

Cristo na boca de todos os que me falarem,

Cristo em todos os olhos que me virem,

Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

por uma grande força, pela invocação da Trindade,

pela fé na Tríade,

pela afirmação da Unidade,

pelo Criador da criação. Amém.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/conheca-a-couraca-de-sao-patricio.html

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

A revolução da misericórdia: Como imitar Cristo e superar os rancores

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Adelmo Sergio Gomes

 

‘Um dos nomes de Deus é misericórdia, ou caridade, ou amor. A misericórdia não é algo ‘estranho’ ao cristianismo, mas o centro da revelação de Jesus Cristo. Jesus é a própria misericórdia. Ele veio ao mundo para oferecer a sua misericórdia, por isso morreu na cruz. A cruz é símbolo de sua misericórdia. Ninguém está mais abandonado à própria sorte, pois nos foi revelado por Cristo que Deus é, antes de tudo, o Pai das Misericórdias. Antes de ser Juiz do Mundo, Ele é o Pai Misericordioso, apresentado a nós na parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). 

A santidade está intimamente ligada à misericórdia; como seremos santos sem que antes experimentemos e pratiquemos a misericórdia? A experiência da misericórdia nos leva a imitar Jesus, a viver a bem-aventurança do perdão e a superar os atos de vingança. No Antigo Testamento, a santidade de Deus era considerada como algo distante, transcendente e inatingível, porém, a santidade de Deus, revelada por Jesus, é acima de tudo a sua infinita misericórdia. A santidade de Deus está no seu amor perfeito, incondicional, que abraça a miséria humana. Ser perfeito no amor não é se afastar dos pecadores, mas reconhecer que a santidade está intimamente ligada à compaixão e à misericórdia. Deus é perfeito no amor, porque ‘faz o sol nascer sobre bons e maus’ (Mt 5,45). 

Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo nos exorta a sermos seus imitadores, assim como ele imita a Cristo, o ícone perfeito da misericórdia do Pai. Jesus nos apresenta exemplo concretos de misericórdia : junto à mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11) Jesus não a condena, mas a convida a não pecar mais. Aos leprosos e aos publicanos, Jesus não só dá a cura, mas lhes restaura a dignidade e a comunhão (Zaqueu, cf. Lc 19,1-10). Do alto da cruz, Jesus pede misericórdia para os seus algozes : ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’ (Lc 23,34). Imitar a Cristo significa ver com os seus olhos, não vendo o outro somente por erros, mas pela sua dor e pela sua capacidade de redenção. 

‘Bem-aventurados os misericordiosos.’ (Mt 5,7) A lógica do mundo não se parece com a lógica do Reino. Alcançarão misericórdia aqueles que agirem de forma misericordiosa. O Pai-Nosso que rezamos é a aplicação dessa lógica, ‘Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido’. 

A lei do mundo, olho por olho, dente por dente, parece ser justa, no entanto, pode gerar um ciclo vicioso de vingança e violência. O rancor nos aprisiona em nosso ódio. O perdão traz saúde ao espírito, liberdade e paz ao coração. Perdoar não é ser conivente com o erro, mas significa não deixar que o mal dirija nossas ações. É responder com o bem o mal que nos fizeram, quebrando a corrente de ódio. 

O Sacramento da Reconciliação, que é tão propício neste Tempo Quaresmal, é lugar privilegiado para encontrar a misericórdia de Deus. É receber o abraço do Pai, como o filho pródigo, das mãos do sacerdote, que nos dá o perdão dos nossos pecados. Eu experimento a misericórdia divina quando me reconheço frágil, necessitado de amor, porque o perdão que dou é o mesmo que eu preciso. Ser misericordioso é uma tarefa grande demais, só com a graça de Deus é possível perdoar o outro. Para superar os rancores, devemos nos lembrar da regra de ouro, ‘Tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei o também a eles’ (Mt 7,12). A decisão de perdoar é um ato de vontade, é uma graça derramada em nossos corações que transborda para o coração do próximo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-revolucao-da-misericordia-como-imitar-cristo-e-superar-os-rancores.html

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Longe dos holofotes, Sudão ultrapassa mil dias de guerra e vive maior crise atual de deslocamento forçado do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Milhares de refugiados atravessam a fronteira para o Chade fugindo da violência no Sudão. (Foto: Aristophane Ngargoune/ACNUR)

*Artigo de Gustavo Cavalcante

  

‘Após mais de mil dias de combates ininterruptos e caminhando para completar três anos, a guerra no Sudão consolidou-se como uma das crises humanitárias mais graves atualmente. Sem qualquer solução política à vista, o conflito entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) mergulhou o país em um colapso prolongado, marcado por violência sistemática contra civis, destruição de infraestrutura básica e desintegração do Estado.

Nesse período, o Sudão tornou-se, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a maior crise de deslocamento forçado do mundo, incluindo refugiados e deslocados internos. Desde abril de 2023, mais de 12 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. O número supera o de crises históricas como as da Síria e da Ucrânia, refletindo a velocidade e a escala inéditas da emergência sudanesa.

Metade dessas pessoas deslocadas são crianças, muitas desacompanhadas, expostas a riscos extremos de violência, fome e exploração, tanto dentro do país quanto nos Estados vizinhos que as acolhem.

É nesse contexto que o líder do ACNUR, Barham Salih, realizou sua primeira visita oficial à crise sudanesa, com passagem pelo leste do Chade, principal destino dos refugiados que fogem da região de Darfur, epicentro dos confrontos. Ao encontrar famílias deslocadas múltiplas vezes pela guerra, Salih classificou a situação como uma ‘calamidade humanitária de proporções avassaladoras’.

Após mil dias de guerra

A guerra no Sudão teve início em 15 de abril de 2023, quando confrontos armados eclodiram entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo. O conflito emergiu de disputas pelo controle do poder após o golpe militar de 2021 e rapidamente se espalhou por diversas regiões do país, incluindo a capital, Cartum. Desde então, sucessivas tentativas de cessar-fogo fracassaram, e não houve avanços significativos rumo a uma solução política duradoura.

Ao longo de mais de mil dias de guerra, o Sudão passou por um processo acelerado de fragmentação territorial. Enquanto o Exército manteve maior presença no leste e em partes estratégicas do país, as forças paramilitares consolidaram controle em amplas áreas do oeste, especialmente na região de Darfur. Essa divisão enfraqueceu ainda mais as instituições estatais, comprometeu a administração pública e dificultou o acesso humanitário a áreas sob controle de diferentes atores armados.

A violência escalou sobretudo nas regiões de Darfur, Cartum e Cordofão. Em Darfur, cidades como El Fasher, Geneina e Nyala foram palco de combates intensos, cercos prolongados e ataques contra comunidades civis, forçando deslocamentos repetidos da população. Na capital e em áreas metropolitanas, confrontos urbanos, bombardeios e tiroteios transformaram bairros densamente povoados em zonas de guerra, levando milhões de pessoas a fugir em busca de segurança.

Relatórios de organizações humanitárias e das Nações Unidas documentam ataques sistemáticos contra civis e infraestrutura essencial. Hospitais, mercados, escolas e campos de deslocados foram atingidos ou saqueados, comprometendo gravemente a capacidade de resposta humanitária. Trabalhadores da saúde e equipes de socorro também foram alvo de violência, o que reduziu ainda mais o funcionamento de serviços básicos em áreas afetadas pelo conflito.

Como consequência direta da guerra, o sistema de saúde sudanês entrou em colapso. Mais de 70% das unidades hospitalares deixaram de operar totalmente ou parcialmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A destruição de instalações, a escassez de profissionais e a falta de insumos agravaram o avanço da fome e de doenças evitáveis, como cólera, sarampo e malária. Em um contexto de deslocamento em massa e acesso limitado à água potável e à alimentação, esses fatores ampliaram o impacto humanitário do conflito sobre a população civil.

Epicentro do deslocamento forçado global

Com a intensificação e a prolongação do conflito, o Sudão tornou-se o epicentro do deslocamento forçado global. Dos 12 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas, cerca de 9 milhões permanecem deslocadas internamente, vivendo em condições precárias dentro do próprio Sudão, muitas vezes em áreas de difícil acesso humanitário ou próximas às linhas de combate. As demais cruzaram fronteiras internacionais, buscando proteção principalmente em países vizinhos como Chade, Sudão do Sul, Egito, Etiópia e Uganda.

O fluxo contínuo de refugiados tem imposto pressão sobre as comunidades anfitriãs e a infraestrutura local nos países de acolhida, muitos deles já marcados por fragilidade econômica e crises próprias. Campos de refugiados e áreas de assentamento improvisadas enfrentam superlotação, escassez de água potável, serviços de saúde limitados e sistemas de saneamento insuficientes. A capacidade de resposta humanitária tem sido afetada pelo subfinanciamento crônico, agravando as condições de vida tanto dos refugiados sudaneses quanto das populações locais que os recebem.

A região de Darfur permanece como a área mais afetada pela guerra no Sudão e concentra alguns dos episódios mais graves de violência desde o início do conflito. Cidades estratégicas como El Fasher e Geneina enfrentaram cercos prolongados, combates intensos e sucessivas ofensivas armadas, que resultaram em grande número de mortos, destruição de bairros inteiros e deslocamentos em massa da população civil. A instabilidade persistente dificultou a atuação de autoridades locais e inviabilizou o funcionamento regular de serviços essenciais.

Relatórios das Nações Unidas e de organizações humanitárias registram massacres, ataques direcionados contra grupos étnicos não árabes e o uso sistemático da violência sexual como instrumento de guerra, especialmente em áreas sob controle de milícias aliadas às Forças de Apoio Rápido. Em Geneina e em localidades vizinhas, foram documentadas execuções sumárias, incêndios de vilarejos e perseguições com motivação étnica, levando a acusações de limpeza étnica. Esses episódios contribuíram para a fuga em massa de civis e para o agravamento da crise humanitária na região.

Atualmente, centenas de milhares de civis permanecem sitiados em Darfur, com acesso extremamente limitado a alimentos, água potável, assistência médica e ajuda humanitária. As rotas de fuga disponíveis são consideradas perigosas, frequentemente atravessando áreas de combate ou regiões controladas por grupos armados, o que expõe os deslocados a novos episódios de violência, extorsão e separação familiar. Como resultado, muitas pessoas são forçadas a se deslocar repetidas vezes, sem encontrar condições mínimas de segurança ou estabilidade.

Presença do ACNUR

A crise sudanesa foi a pauta principal da primeira viagem internacional de Barham Salih, novo chefe do ACNUR, que em janeiro deste ano visitou o leste do Chade. A região é atualmente o principal destino de pessoas que fogem da guerra no Sudão (cerca de 400 mil, segundo dados da ONU), especialmente da região de Darfur, e recebe novos refugiados diariamente desde o início do conflito em abril de 2023. A agenda teve como foco a avaliação direta das condições humanitárias e o diálogo com autoridades locais e organizações parceiras.

Durante a visita, Salih esteve em assentamentos que abrigam famílias sudanesas deslocadas múltiplas vezes pela guerra, muitas das quais cruzaram a fronteira após longos deslocamentos forçados e em situação de extrema vulnerabilidade. O Alto Comissário ouviu relatos de violência, perdas familiares e dificuldades de acesso a abrigo, água, alimentação e serviços básicos. As visitas de campo buscaram dimensionar os impactos do fluxo contínuo de refugiados tanto sobre os deslocados quanto sobre as comunidades anfitriãs.

Em declarações públicas, Barham Salih classificou a situação como uma ‘calamidade humanitária de proporções avassaladoras’ e destacou o papel do Chade ao manter suas fronteiras abertas. ‘Ao oferecer proteção, status legal e segurança aos refugiados, o Chade está demonstrando um compromisso fundamental com os princípios da proteção internacional’, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que o país não pode arcar sozinho com a resposta à crise, diante da escala do deslocamento sudanês.

O Alto Comissário fez um apelo direto à comunidade internacional por mais financiamento, alertando para o impacto da redução de recursos sobre a capacidade de resposta humanitária. Em seus pronunciamentos, Salih enfatizou a necessidade de garantir dignidade e proteção internacional às pessoas refugiadas, além de investir em soluções duradouras e no apoio às comunidades anfitriãs, que enfrentam pressão crescente sobre serviços e infraestrutura em razão da chegada massiva de refugiados sudaneses.

A resposta humanitária à crise no Sudão enfrenta grave escassez de recursos, com o financiamento atualmente abaixo de 10% do valor considerado necessário pelas agências das Nações Unidas e organizações parceiras. Esse déficit compromete a capacidade operacional em um contexto de necessidades crescentes, marcado por deslocamentos em larga escala e acesso limitado a áreas afetadas pelo conflito. Como resultado, programas considerados essenciais vêm sendo reduzidos ou suspensos em diferentes regiões.

Entre os impactos diretos dos cortes de verba está a redução de serviços de água, saúde e proteção. Organizações humanitárias relatam o fechamento de espaços seguros para mulheres e crianças, que ofereciam apoio psicossocial, proteção contra violência de gênero e acesso a serviços básicos. A interrupção desses programas tem ampliado a exposição de grupos vulneráveis a riscos adicionais em campos de deslocados e comunidades anfitriãs.

Além disso, agências humanitárias também alertam para o aumento da vulnerabilidade à violência, exploração e trabalho infantil. Diante desse cenário, organizações que atuam na linha de frente apontam sinais de exaustão operacional, destacando que a continuidade da resposta depende de novos aportes financeiros e de acesso humanitário seguro às populações afetadas.

Retornos tímidos

A redução parcial dos combates em Cartum e em algumas áreas do centro do Sudão abriu espaço para retornos limitados de pessoas deslocadas ao longo dos últimos meses. Com a diminuição da intensidade dos confrontos em determinados bairros da capital e em cidades próximas, famílias que haviam fugido durante os momentos mais críticos da guerra passaram a tentar regressar às suas comunidades de origem, após longos períodos de deslocamento interno.

Segundo dados de agências humanitárias, cerca de 2,6 milhões de pessoas tentaram retornar às áreas de onde haviam sido forçadas a sair desde o início do conflito. Esses movimentos ocorreram tanto dentro de Cartum quanto em outros centros urbanos, como Omdurman, Wad Madani e partes do estado de Gezira, impulsionados pela percepção de maior segurança relativa e pela dificuldade de permanecer por longos períodos em locais de acolhimento precários.

Ao chegar, no entanto, muitas famílias encontraram casas destruídas ou danificadas, ausência de serviços básicos e infraestrutura severamente comprometida. Hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e fornecimento de energia elétrica seguem inoperantes em diversas áreas, dificultando a retomada da vida cotidiana e o acesso a condições mínimas de sobrevivência.

As organizações humanitárias alertam que esses retornos ocorrem em um contexto de insegurança persistente, com presença de grupos armados, risco de novos confrontos e acesso limitado à assistência. Diante da destruição generalizada e da falta de serviços essenciais, os retornos são considerados frágeis e instáveis, com possibilidade de novos deslocamentos caso a situação de segurança volte a se deteriorar.

O que esperar para o futuro

Após mais de mil dias de guerra e perto de completar três anos de guerra, o Sudão expõe de forma clara os desafios enfrentados pelo sistema internacional de resposta a deslocamentos forçados em larga escala. A dimensão da crise, que já deslocou mais de 12 milhões de pessoas, coloca à prova a capacidade das agências humanitárias e dos Estados de garantir proteção, assistência e soluções duradouras em um contexto de conflito prolongado e instabilidade regional.

A atuação do ACNUR ocorre em meio a restrições severas de recursos, com impactos diretos sobre a continuidade de programas essenciais. A escassez de financiamento limita a capacidade da agência de responder ao ritmo acelerado dos deslocamentos, ampliar a assistência nos países de acolhida e sustentar iniciativas de proteção e integração. Nesse cenário, a resposta humanitária depende cada vez mais das decisões políticas e financeiras dos Estados, tanto no apoio às operações quanto na manutenção de políticas de asilo e proteção internacional.

Organizações humanitárias alertam para o risco de o Sudão se tornar uma crise prolongada e gradualmente normalizada, à medida que o conflito se estende e a atenção internacional se dispersa entre múltiplas emergências globais. A continuidade da violência, somada à falta de avanços diplomáticos consistentes, tende a perpetuar ciclos sucessivos de deslocamento, retorno precário e novas fugas. Diante desse cenário, as agências da ONU reiteram que a interrupção do ciclo de guerra e deslocamento depende, em última instância, de uma solução política para o conflito. Sem avanços nesse campo, a crise humanitária no Sudão deve seguir se aprofundando, com impactos duradouros para milhões de pessoas deslocadas e para a estabilidade da região.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/longe-dos-holofotes-sudao-ultrapassa-mil-dias-de-guerra-e-vive-maior-crise-atual-de-deslocamento-forcado-do-mundo/

terça-feira, 10 de março de 2026

Caminhar com Maria na quaresma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Brás Lorenzetti

 

‘A espiritualidade mariana nos acompanha em todos os tempos do ano litúrgico; naturalmente que em cada tempo há uma maneira de vivenciar a espiritualidade mariana e de sermos conduzidos por ela ao seu filho Jesus.

A espiritualidade quaresmal nos orienta a aprofundar o autoconhecimento e o crescimento espiritual, seja na oração, na penitência ou na prática das boas obras; por outro lado, o jejum e a esmola são formas de viver o controle pessoal e a partilha dos bens. O verdadeiro jejum é aquele que se transforma em doação aos mais necessitados.

Podemos afirmar que a vida de Maria, a mãe de Jesus, foi toda ela uma verdadeira Quaresma, no sentido de enfrentar situações de contínuo sofrimento e superação de si mesma. O Evangelho de Lucas relata o possível sofrimento de Maria quando diz ‘Por não haver lugar na pousada, o Menino Jesus foi reclinado numa manjedoura’ (2,7). Não é difícil imaginar quanto Maria teria desejado que seu filho tivesse um leito digno para repousar. Hoje nós espiritualizamos e vemos nesse fato a opção do próprio Jesus em se identificar com os mais pobres, porém, a realidade significou incômodo e superação.

Os estudiosos atualmente afirmam que um grande sofrimento de Maria foi o fato de não ter compreendido a missão de seu filho Jesus, pois seu agir, da infância à vida adulta, fugia totalmente do que se poderia imaginar, seja de um adolescente, seja de um adulto da época.

O próprio fato da permanência de Jesus no templo (cf. Lc 2,41-52), às vezes interpretada como se Ele se tivesse perdido, na verdade foi consciente. A atitude de José e Maria revela incompreensão e, com certeza, provoca grande dor. No coração deles há um misto de incompreensão e mistério : como entender que uma criança tenha uma atitude de independência dessa proporção : ‘Por que me procuravam? Não sabiam que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49). 

Um fato não é revelado pelas Escrituras, mas tem base histórica : ao chegar à idade adulta, Jesus deixou a família e adotou um estilo de vida de andarilho, juntando-se às pessoas muitas vezes sem boa fama; isso destoava totalmente do que se esperava de um filho na época : abandonar a casa e não continuar a profissão do pai eram atitudes que fugiam completamente da normalidade e devem ter causado em Maria um grande sofrimento e, até onde se pode compreender humanamente, podemos dizer que ela teve dificuldade em entender as escolhas de Jesus, tanto é que os evangelhos não relatam a presença de Maria com o grupo que normalmente o seguia.

Além disso, como entender um coração de mãe quando Jesus disse ‘Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam’ (Lc 8,19-25)?

Espiritualmente, dizemos que Maria é a primeira discípula de Jesus, o que é uma realidade, porém, o que a Bíblia nos diz é que o aprendizado dela foi permeado pelo sofrimento ao longo de toda a sua vida e de forma constante. O sofrimento ainda maior de Maria foi a paixão e a morte de Jesus. A situação somente mudaria na ressurreição. 

Contemplando o sofrimento de Maria, entendemos as palavras de Jesus :  ‘Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me’ (Lc 9,22-25). Sua mãe foi a primeira a vivenciar essa realidade. O que mais impressiona em Maria é sua fé e sua perseverança, jamais duvidando, em meio a todas as dificuldades e sofrimentos da vida. 

Que ela seja inspiração para todos nós nesta Quaresma!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/caminhar-com-maria-na-quaresma-2.html

 

domingo, 8 de março de 2026

Tragédia escondida: mortes durante o parto concentradas em zonas de guerra

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Agencia Fides

 

‘A saúde materna torna-se uma preocupação urgente, muitas vezes ofuscada em zonas de guerra. Lá onde a vida de todos está em risco, a atenção social decai enormemente em relação aos riscos e dificuldades enfrentados por gestantes e seus filhos ainda não nascidos, um efeito colateral adicional dos processos de desumanização desencadeados por conflitos armados.

Por essa razão, a Organização Mundial da Saúde (OMS) denunciou nos dias passadps que até 60% das mortes relacionadas à gravidez em todo o mundo ocorrem em países onde há conflitos ou que são caracterizados por forte instabilidade política e social.

O Relatório de Mortalidade Materna (Rmm o Mmr - Maternal Mortality Ratio), que indica a taxa de mortes maternas durante a gravidez e o parto, em países em guerra é de 504 mortes por 100.000 gestações.

A organização internacional também divulgou outros dados para fornecer um panorama mais completo da situação : em países caracterizados por instabilidade política, a razão cai para 368 mortes por 100.000 gestações. Para países que não se enquadram em nenhuma dessas categorias, a RMM é de 99 mulheres por 100.000 gestações.

Outro fator que agrava ainda mais a situação é que os países em guerra abrigam aproximadamente 10% das mulheres em idade fértil do mundo. O fato de essas mulheres poderem ser vítimas de violência sexual como arma de guerra e terem que lidar com uma gravidez resultante de estupro ilustra ainda mais os riscos que as mulheres enfrentam em países em guerra devido à falta de serviços de saúde adequados.

O continente onde o problema é mais prevalente é a África, onde se concentra o maior número de conflitos, de acordo com a classificação da OMS com base em dados de 2023 do Banco Mundial (BM). As áreas mais afetadas são o Sahel e a África Subsaariana, com as situações mais graves registradas na República Democrática do Congo e em Moçambique.

Na África Subsaariana, a taxa de MMA ultrapassa quinhentas mortes por ano, tanto em países em guerra quanto em países afetados por instabilidade social 100.000 gestações. Outras regiões com altas taxas de mortalidade materna são o Oriente Médio, o Sul da Ásia e o Sudeste Asiático. No primeiro caso, o número de mortes relacionadas à gravidez está concentrado em países instáveis, enquanto no segundo, está concentrado em países assolados por conflitos, como o Afeganistão.

Em alguns países atingidos por conflitos e condições crônicas de violência generalizada, medidas foram adotadas para lidar com o problema. A OMS destacou essas iniciativas como formas potenciais de conter a emergência, levando em consideração os contextos frequentemente trágicos em que foram implementadas.

Na Colômbia, medidas foram tomadas para fortalecer a rede de sistemas de saúde locais com o objetivo de promover o parto seguro. Na Etiópia, o problema foi abordado por meio da presença de equipes móveis e do treinamento de parteiras — uma contribuição significativa para o cuidado materno-infantil também realizada pela Médicos para a África-CUAMM — bem como pelo trabalho para melhorar os serviços para gestantes.

Mesmo no Haiti, um país marcado por uma situação social terrível e um estado perene de violência, semelhante ao que aconteceu na Etiópia, esforços foram feitos para proteger os serviços destinados a gestantes.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/mortes-durante-parto-zonas-guerra.html