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domingo, 13 de setembro de 2026

A Santa Cruz de Caravaca: história de devoção milenar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento 


‘Em Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, ergue-se a Basílica Santuário da Vera Cruz. Aí se encontra uma devoção antiga, que infelizmente no Brasil e alguns países tem se misturado com superstições motivadas por publicações que misturam fé com bruxaria; porém, graças ao testemunho dos papas recentes, como São João Paulo II e Bento XVI, tem-se divulgado ao povo fiel uma verdadeira devoção à santa cruz . 

Na obra de Antonio de Honcala de 1546, Pentaplon christianae pietatis, relata-se que, no século XIII, um sacerdote aventurou-se em território mouro para pregar o Evangelho. Foi preso pelos muçulmanos e levado perante o governante, Zayd Abu Zayd. O governante interrogou-o sobre a Missa e o sacerdote explicou-a tão detalhadamente que o governante exigiu que fosse celebrada em sua presença. O sacerdote não possuía os itens necessários e mandou buscá-los na cidade de Concha, que estava sob controle cristão, contudo, a cruz havia sido esquecida. O sacerdote, sem saber da sua ausência, começou a Missa, mas, parou quando percebeu que ela faltava. O governante, que assistia à Missa com a sua família, perguntou-lhe o que havia de errado. O sacerdote respondeu : ‘Não há cruz’. Nesse momento, o muçulmano viu dois anjos colocando a cruz no altar e apontando para o objeto desejado disse : ‘Será que é isso?’. O sacerdote deu graças a Deus e continuou com a Missa. 

Segundo a lenda, esse evento levou o governante muçulmano e sua família a se converterem ao cristianismo. De acordo com a maioria das versões da história, o clérigo chamava-se Ginés Pérez Chirino ou Quirino, era originário de Mahora, na província de Albacete, e viera de Cuenca, onde fora discípulo do bispo São Julião, que o designara para servir na catedral. Segundo outra versão, seu nome era Fernán Pérez e por isso um dos filhos do governante foi batizado com o nome de Fernán Pérez. 

Leonardo Mayor Izquierdo situa a data do milagre em 3 de maio de 1231. Dom F. Renón, usando dados da monografia de Juan Robles Corbalán de 1615 sobre a verdadeira cruz de Caravaca, situa o milagre em 1227. Zayd Abu Zayd comunicou sua intenção de se converter ao cristianismo ao Papa Gregório IX em 1228. Essa conversão ocorreu após essa data. 

Existe outra lenda sobre a sua origem. Quando Santa Helena encontrou a verdadeira cruz no século IV, deu um pedaço ao patriarca de Jerusalém. No século XIII, o imperador Frederico II Hohenstaufen foi proclamar-se rei de Jerusalém, ocasião em que colocou a relíquia no peito. Contudo, devido à sua falta de piedade, dois anjos apareceram e levaram-na, tendo esta reaparecido mais tarde em Caravaca. 

Outra história, mais prosaica, conta que quando Caravaca foi conquistada por Jaime I, o Conquistador, e entregue a Fernando III, o Santo, em 1244, pelo tratado de Almizra, este entregou a cidade aos templários, que trouxeram a verdadeira cruz, de acordo com a regra da ordem de tê-la em todas as suas comendas. Ela teria sido colocada num relicário em forma de cruz patriarcal, pois era uma cruz simbólica dos templários. 

A cruz serviu como estandarte e talismã contra os subsequentes ataques andaluzes, especialmente os perpetrados por Muhammad ibn Nasr, emir de Arjona e Granada. Com isso, Caravaca consolidou sua posição como um bastião na fronteira hispano-islâmica.

Conta a lenda que, no século XIII, os templários foram sitiados no castelo pelos muçulmanos e a água das cisternas da fortaleza ficou estagnada. Um grupo de templários conseguiu escapar e foi até as fontes em busca de água, mas estas haviam sido envenenadas pelos sitiantes. Encontraram apenas vinho, então, encheram vários odres com ele e o carregaram em seus cavalos. Ao retornarem à fortaleza, após cruzarem com sucesso as linhas inimigas mais uma vez, abençoaram o vinho com a vera cruz e o deram aos doentes, que foram curados. Também derramaram um pouco do vinho nas cisternas, que foram purificadas. Dessa forma, conseguiram resistir ao cerco e as forças muçulmanas finalmente se retiraram. Essa tradição, conhecida como os Cavalos do Vinho, é comemorada todo dia 2 de maio, quando os clubes equestres de Caravaca enfeitam um cavalo e escolhem quatro representantes para correrem pela encosta que leva ao Santuário da Vera Cruz. 

O mestre da Ordem de Santiago, Lorenzo Suárez de Figueroa, fez uma peregrinação a Caravaca em 1390 e doou uma caixa de prata dourada para guardar a relíquia. 

A partir do século XIV foram emitidas bulas de indulgência para aqueles que visitavam a capela onde se encontrava a cruz. As duas primeiras que sobreviveram foram promulgadas por Clemente VII de Avignon em 1379 e em 30 de janeiro de 1392. O primeiro Papa de Roma a conceder indulgências para esse fim foi Pio V em 1572. Posteriormente, essas indulgências foram prorrogadas por Gregório XV em 1622 e confirmadas por Urbano VIII (1623-1644), Clemente X (1670-1676) e Inocêncio XII(1691-1700). 

Em 1536, o comandante Pedro Fajardo y Chacón, primeiro marquês de Vélez, doou uma custódia de ouro e um porta-cruz de prata, avaliados em mil ducados. 

Em 1711, o duque de Montalto doou um relicário, que foi substituído por outro em 1777, doado pelo duque de Alba. 

A cruz foi objeto de um roubo sacrílego na noite de 14 de fevereiro de 1934. Os ladrões roubaram a relíquia sagrada e o relicário que a continha, uma doação da casa de Alba em 1777, deixando para trás o cofre que continha ambos e que foi doado em 1390 por Lorenzo Suárez de Figueroa, mestre da Ordem de Santiago. 

Em 30 de abril de 1942, dois fragmentos chegaram a Caravaca juntamente com um documento impresso em latim, emitido em 15 de abril de 1942, pelo frade dominicano Gabriel Moriondo, bispo de Caserta, que estava associado às relíquias do Vaticano desde pelo menos 1930. O documento certificava que os fragmentos provinham da cruz de Jesus Cristo e autorizava a sua exibição em qualquer igreja, capela pública ou oratório. Ambos os fragmentos foram colocados num relicário que era uma réplica do que tinha sido roubado. A relíquia chegou a tempo para as festividades de maio em honra da verdadeira cruz. 

São João Paulo II concedeu um ano jubilar à cidade em 2 de janeiro de 1981, a pedido do bispo de Cartagena. Em 1998, a pedido do bispo de Cartagena e da real e ilustre Confraria da Santa e Verdadeira Cruz de Caravaca, São João Paulo II concedeu perpetuamente um ano jubilar a cada sete anos ao santuário, a partir de 2003, concedendo uma indulgência plenária, nas condições habituais, em 3 de maio e 14 de setembro, ou por meio de uma peregrinação em grupo. Caravaca tornou-se uma das cinco cidades do mundo com esse privilégio, consideradas ‘cidades santas’. As outras são Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana. 

Em 2002, o então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, peregrinou à cidade para encerrar um congresso internacional de cristologia na região de Múrcia. Ele celebrou a Eucaristia e venerou publicamente a relíquia no Santuário da Vera Cruz de Caravaca.

O Papa Francisco recebeu delegações e enviou bênçãos apostólicas para os anos jubilares mais recentes, porém, nunca realizou uma viagem oficial até o município espanhol.

A adoração da santa cruz se encontra no centro de nossa fé. Vários santos se inspiraram na santa relíquia para promover missões, como São Junípero Serra, devoto da vera cruz de Caravaca, ou as missões jesuíticas no nosso país que conservam em muitos lugares a imagem dessa cruz. Já São Boaventura, em uma meditação, disse que assim como o lenho alimenta a chama, o santo lenho da cruz alimenta nosso amor. Esse é o real segredo da santa cruz de Caravaca.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-santa-cruz-de-caravaca-historia-de-devocao-milenar.html

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O suicídio na Vida Religiosa Consagrada

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Lício do Araújo Vale

 

‘O suicídio, infelizmente, é uma realidade que muitas vezes não é discutida dentro da vida religiosa. Dentro da Igreja, ainda há um grande tabu em relação ao tema da saúde mental, o que dificulta a identificação de sinais de alerta e a busca por apoio adequado. 

Porém, o sofrimento emocional não escolhe profissão ou estado de vida. Padres, seminaristas e religiosos(as) também enfrentam desafios psicológicos e espirituais que podem, em situações extremas, levar ao suicídio. 

Precisamos refletir, sensibilizar e criar espaços seguros nos quais a dor possa ser compartilhada.

A vida religiosa consagrada é um testemunho de entrega a Deus, de serviço ao próximo e de busca constante da santidade. No entanto, os religiosos e as religiosas não deixam de ser pessoas marcadas por sua história, fragilidades e limites. A vocação não elimina o sofrimento psíquico nem torna alguém imune à depressão, à ansiedade, ao esgotamento emocional ou ao desespero. Por isso, abordar o tema do suicídio na vida religiosa exige sensibilidade, responsabilidade e profunda compaixão.

Durante muito tempo, o sofrimento mental foi tratado como sinal de fraqueza espiritual ou de pouca confiança em Deus. Essa compreensão equivocada levou muitos consagrados a esconderem sua dor, temendo julgamentos ou incompreensões. O silêncio, contudo, pode agravar o sofrimento, fazendo com que a pessoa se sinta cada vez mais isolada. O suicídio nunca pode ser reduzido à falta de fé. Trata-se de um fenômeno complexo, resultado da interação entre fatores psicológicos, biológicos, sociais e espirituais.

A vida religiosa apresenta desafios próprios. A distância da família, as frequentes mudanças de comunidade, a sobrecarga apostólica, os conflitos interpessoais, a solidão afetiva, a dificuldade de expressar emoções e o envelhecimento podem tornar-se fatores de vulnerabilidade quando não acompanhados de espaços de diálogo e cuidado. Em algumas situações, a pessoa consagrada pode experimentar um profundo sentimento de fracasso, inutilidade ou perda do sentido da missão.

É importante reconhecer que a prevenção do suicídio começa muito antes da crise. Comunidades saudáveis são aquelas que cultivam relações fraternas, promovem o diálogo sincero e favorecem uma cultura de acolhimento. Superiores e formadores têm a missão de desenvolver uma liderança capaz de escutar sem condenar, identificar sinais de sofrimento e incentivar a busca por ajuda especializada quando necessário.

A espiritualidade continua sendo um recurso fundamental, mas não substitui o acompanhamento psicológico e psiquiátrico quando estes são necessários. Fé e ciência não se opõem; ao contrário, complementam-se no cuidado integral da pessoa humana. Buscar ajuda profissional não significa falta de confiança em Deus, mas um gesto de responsabilidade consigo mesmo e com a própria vocação.

Também é necessário rever práticas formativas. A formação inicial e permanente precisa incluir temas relacionados à saúde mental, inteligência emocional, prevenção do burnout, manejo do estresse e desenvolvimento da maturidade afetiva. Cuidar da saúde psíquica deve ser entendido como parte integrante da fidelidade vocacional.

Quando ocorre um suicídio em uma comunidade religiosa, todos são profundamente afetados. O luto costuma ser acompanhado por sentimento de culpa, perguntas sem resposta e grande sofrimento. Nesses momentos, a Igreja é chamada a oferecer acompanhamento espiritual e psicológico, evitando julgamentos precipitados e confiando a pessoa à infinita misericórdia de Deus. O Catecismo da Igreja Católica recorda que não se deve desesperar da salvação daqueles que tiraram a própria vida, pois Deus conhece as circunstâncias mais profundas do coração humano.

Falar sobre o suicídio na vida religiosa não enfraquece a vocação; ao contrário, fortalece a cultura do cuidado. Uma comunidade que acolhe o sofrimento, valoriza a escuta, incentiva o autocuidado e promove relações fraternas torna-se um verdadeiro espaço de esperança. A missão evangelizadora será sempre mais fecunda quando aqueles que anunciam o Evangelho também encontram, em sua própria comunidade, um lugar seguro para compartilhar suas dores, receber ajuda e redescobrir que a esperança cristã permanece viva mesmo nas noites mais escuras da existência.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-09/suicidio-vida-religiosa-consagrada.html

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

As grandes civilizações africanas - Apartheid - História da segregação racial na África do Sul

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Entre tantos assuntos que já tratamos aqui nessa coluna, não poderíamos deixar de falar de uma das mais tristes páginas da história do continente africano, com a imposição do apartheid ou Política de Segregação Racial imposta tantos anos sobre a população negra da África do Sul.

O termo apartheid que significa ‘separação’ ou ‘identidade separada’ serviu para designar o regime político da África do Sul que durante décadas, impôs a dominação da minoria ou aristocracia branca sobre grupos pertencentes a outras etnias, compostos em sua maioria por negros.

O termo apartheid não deve ser interpretado simplesmente como ‘racismo‘, porque foi um sistema constitucional de segregação racial que abrangeu as esferas social, econômica e política da nação sul-africana estabelecendo critérios para diferenciar os grupos e as pessoas.

História da política racial

A origem do apartheid remonta ao período da colonização da África do Sul. Os primeiros colonizadores que, vindos da Holanda, França e Alemanha, se estabeleceram na região entre os nos séculos XVII e XVIII, dizimaram a população nativa tomando suas terras. Os líderes dos colonizadores manipularam o preceito religioso cristão que a princípio estabelecia a segregação como uma forma de defender e preservar as populações tribais da influência dos brancos, em uma ideologia nacionalista que pregava a desigualdade e separação racial.

Os colonizadores se julgavam superiores e a cor e características raciais determinaram o domínio da população branca sobre os demais grupos sociais e a imposição de uma estrutura de classe baseada no trabalho escravo.

A política racial diferenciou então os europeus ou a população branca dos africanos. Até mesmo os grupos compostos por imigrantes asiáticos, em particular indianos, sofreram com a política de discriminação racial.

Esse domínio da população não-branca da África do Sul gerou inúmeros conflitos, uma vez que as populações tribais ofereceram resistência aos brancos.

O processo de modernização pelo qual a África do Sul passou no início do século XX, intensificou os conflitos entre brancos e não-brancos, mas a minoria branca também soube explorar os conflitos que existiam entre as tribos e entre os diferentes grupos étnicos, facilitando o seu domínio.

Declínio do regime do Apartheid sul-africano

O apartheid havia sido estabelecido oficialmente na África do Sul em 1948 pelo Partido dos Nacionalistas que tomou o poder e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada pelo governo central. O sistema de segregação racial atingiu então o seu auge com a abolição de alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam em algumas províncias sul-africanas.

A segregação assumiu então enorme extensão passando por todos os espaços e relações sociais. A população branca controlava cerca de 87% do território do país e o que sobrava compunha alguns territórios independentes deixados aos grupos sociais não-brancos.

Na década de 1970, o governo central da África do Sul tentou encontrar fórmulas que assegurassem certa legitimidade internacional, porém, tanto a ONU como a Organização da Unidade Africana, votaram inúmeras resoluções condenando o regime segregacionista.

Ao longo dos anos de 1970, a África do Sul enfrentou diversas revoltas sociais promovidas pela maioria negra, mas duramente reprimidas. Sob o governo de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988), tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo, mas as revoltas raciais cresceram, sendo duramente reprimidas.

As revoltas sociais se intensificaram bem como as pressões internacionais e nesse contexto é que aparece a figura marcante do líder negro Nelson Mandela. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assumiu a presidência e a partir de 1990, conduziu diversas medidas que decretaram o fim do regime do apartheid. Neste mesmo ano, Nelson Mandela, que desde 1964 cumpria pena de prisão perpétua, foi posto em liberdade. Nas primeiras eleições livres, ocorridas em 1993, Mandela foi eleito presidente da África do Sul e governa de 1994 a 1999.

O fim do regime segregacionista realizado no papel, não significou, porém, o fim dos problemas e dificuldades. O país enfrenta hoje um cenário de profundos contrastes. Embora seja uma das economias mais industrializadas e desenvolvidas do continente africano, o país lida com altos índices de criminalidade, desigualdade socioeconômica e tensões sociais agravadas pelo desemprego. O país possui um ambiente de negócios sofisticado e um setor financeiro de nível mundial, contudo, é considerado um dos países mais desiguais do mundo, gerando impactos diretos na qualidade de vida da população.

A escassez de oportunidades tem impulsionado episódios de xenofobia e o crescimento de grupos anti-imigração com episódios direcionados especialmente a migrantes de outros países africanos.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-apartheid.html


domingo, 6 de setembro de 2026

A ascese na Igreja primitiva, nos padres da Igreja e na vida atual

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘A ascese é um dos pontos importantes no seguimento a Jesus Cristo, na vida cristã e ela também foi de enorme envergadura nos primeiros séculos do cristianismo, com os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos sabendo que muitos viveram esta dimensão em suas comunidades e nos desertos. Nesses primeiros séculos da vida cristã entendamos nós que a palavra ‘padre’ é dada no sentido de fundador de comunidades cristãs, muitas vezes convertido do paganismo ao cristianismo, de modo que teve uma missão importante na vida comunitária, esta pessoa podia ser do ministério sacerdotal, mas também podia ser um leigo, ou uma leiga, pessoa não ligada necessariamente ao sacramento da ordem sacerdotal. O termo Padre neste período era mais no sentido de fundador, coordenador de comunidades. A ascese é dada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo (cfr. Mt 22,37-39). Nós fazemos uma análise na forma como a ascese cristã se desenvolveu no período antigo e ilumina a vida atual no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.

O significado da palavra ascese

A ascese vem do verbo grego ‘askein’ que se refere ao treinar para uma corrida, exercitar-se para adquirir um certo ideal, virtude. A ascese significava um exercício sistemático para se alcançar algo fundamentado, uma missão maior. Para a Sagrada Escritura a ascese muito tem a dizer ao povo que passou por provações no deserto, a intimidade reservada com Deus, a libertação da escravidão da Babilônia, a semelhança com a vida de São João Batista no deserto e na vida pública, como o novo Elias [1].

A ascese também significou uma ação interior para adquirir a unidade com Deus, através da virtude, da oração, dos sacramentos, de uma vida empenhada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo [2].

A prática de Jesus

Jesus esteve ao lado das pessoas de todas as categorias, das mulheres, dos pecadores, das pessoas necessitadas (cfr. Mc 2,16; Mt 11,18; Mc 15,41) pedindo os valores da conversão de vida (cfr. Mc 1,15), para assim estar no caminho da vida verdadeira. Jesus exigia das autoridades e de seus discípulos, as condições para entrar no Reino de Deus, pelo despojamento e pela vida caritativa, a superação do legalismo, o empenho pela cruz, o amor dos irmãos e no seu seguimento (cfr. Mc 8,34; Mt 19,21) [3].

A ascese na Igreja antiga

São Clemente de Roma, bispo, Papa no final do século I afirmou a importância dos dons para serem servidos à comunidade. Tudo deveria estar a serviço da comunidade. Ele disse que o forte cuide do fraco, o fraco respeite o forte, o rico socorra o pobre, o pobre agradeça a Deus por alguém lhe dar a suprir a sua indigência; o sábio mostre a sua sabedoria em boas obras; o humilde viva o amor; o puro viva em comunhão com as pessoas e com Deus [4]. Santo Inácio de Antioquia, bispo no século I e início do século II afirmava que era preciso fugir as profissões desonestas. Ele também tinha presentes os maridos para que amassem as suas esposas e as esposas seus maridos e que se alguém permanecesse na castidade, vivesse na humildade. Ele dizia também que os homens e as mulheres que se casassem que se fizesse a sua união com o parecer do bispo, para que o seu matrimônio fosse segundo o Senhor, para a honra das pessoas e de Deus [5].

A ascese no monaquismo antigo

O monaquismo surgiu na Igreja antiga com Santo Antão, o patrono dos monges e de todo o movimento monacal [6]. O movimento surgiu com homens e mulheres que entravam no deserto adentro para uma vida solitária, comunitária, feita pela oração e pelo trabalho, leitura da Sagrada Escritura. Eles e Elas tinham presentes os patriarcas do AT, Moisés, os profetas, São João Batista, mas sobretudo Jesus Cristo, o verdadeiro asceta que evangelizou os pobres, curou os doentes, expulsou os demônios, enfrentou e denunciou as hipocrisias das autoridades religiosas, políticas; Ele se retirava frequentemente para a oração no monte (cfr. Mt 14,23), mas descia para o anúncio do Reino de Deus. Jesus se tornou o modelo a ser seguido na vida monástica. A ascese ganhará o sentido de retirar-se para a oração, mas também comprometer-se na vida familiar, comunitária, social para um dia participar do Reino dos Céus [7].

As Sagradas Escrituras e a oração

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos tinham presentes as Sagradas Escrituras para vivenciar a ascese. As pessoas deveriam fazer as coisas segundo a Vontade de Deus e ter presentes também as Sagradas Escrituras. Desta forma o monge do deserto via nas Escrituras Sagradas o princípio formal da própria existência. As Escrituras eram as mãos de Deus que continuavam a plasmar o ser humano para uma vida conforme a Vontade de Deus [8].

As Sagradas Escrituras conduziam a pessoa para a oração com Deus e à unidade com as pessoas. Era preciso o conhecimento das Sagradas Escrituras, mas também era preciso estar tudo acompanhado pelas orações, para não ficar somente num conhecimento puramente intelectual [9]. As pessoas monacais ensinavam as outras pessoas a meditar a Palavra de Deus, a ruminar como se devesse mastigar a Palavra de Deus, de Jesus para se tornar um verdadeiro e fundamental alimento, capaz de nutrir-se espiritualmente para a vida cotidiana e a preparação para a vida sobrenatural [10].

Para uma vida ascética o tempo não se media para os monges e as monjas; Era aquilo que se meditava, sobretudo a Palavra de Deus, a oração e os sacramentos, determinavam o quanto tempo desejava a se tornar assimilável a vida ascética com Deus, com as pessoas, com as comunidades, para que assim as pessoas vivessem a unidade com Deus em vista da vida eterna [11]. Nós acreditamos a importância da ascese na atualidade para que saibamos discernir o certo e o errado sob a luz do Espírito Santo e mantenhamo-nos unidos a Igreja, a Esposa de Jesus Cristo, e nós sejamos os seus membros ativos, participativos para a glória de Deus Pai.’

 

[1] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum Augustinianum. Casa Editrice Marietti- Genova-Milano. 2006, pgs. 571-572.

[2] Cfr. Ascèsi. In: Il Vocabolario Treccani, Il Conciso. Lavìs, Trento,1998, pg. 127.

[3] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Idem, pg. 572,

[4] Cfr. Clemente aos Romanos, 38,2. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.

[5] Cfr. Inácio a Policarpo, 5,2. In: Idem, pg. 123.

[6] Cfr. Santo Atanásio. Vida e Conduta de Santo Antão. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Ibidem, pg. 573.

[8] Cfr. Nazzareno Treccioni, L´Ascesi nei Padri del Deserto. Attraverso gli apoftegmi. Todi (PG). Tau Editrice, 2022, pgs.113-114.  

[9] Cfr. Idem, pg. 114.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 115.

[11] Cfr. Ibidem, pg. 115. 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/ascese-igreja-primitiva-padres-igreja.html


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Constituição Sacrosanctum Concilium: Marco fundamental na história da Liturgia da Igreja Católica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Lino Rampazzo


‘A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, promulgada em 4 de dezembro de 1963, constitui o primeiro documento conciliar promulgado pelo Concílio Vaticano II e representa um marco fundamental na história da liturgia da Igreja Católica. Seu objetivo não foi simplesmente introduzir modificações nos livros e nas formas celebrativas, mas promover uma renovação da vida cristã a partir da compreensão mais profunda da liturgia.

 A palavra ‘liturgia’ vem do grego ‘leiton ergon’ e significa, ao pé da letra, ‘obra pública’. Para nós, refere-se à oração pública e oficial da Igreja. A ‘liturgia’ é definida pelo Concílio Vaticano II como ‘o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo’ e ‘obra de Cristo Sacerdote e do seu corpo que é a Igreja’ (Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 7).

Esse documento conciliar afirma que a liturgia contribui de modo eminente para que os fiéis expressem em suas vidas e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a verdadeira natureza da Igreja (cf. Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 2), por isso, a reforma litúrgica deve ser compreendida dentro de uma perspectiva mais ampla : a liturgia está relacionada à vida da Igreja, à evangelização, à santificação dos fiéis e à glorificação de Deus.

Mais de seis décadas depois da promulgação da constituição conciliar, o Papa Leão XIV dedicou, em 2026, uma série de catequeses à Sacrosanctum Concilium

A primeira catequese, realizada em 20 de maio de 2026, apresenta a liturgia como realidade intimamente vinculada ao mistério de Cristo. A segunda, de 27 de maio, trata da relação entre tradição e desenvolvimento. A terceira, de 3 de junho, aborda o rito, o sinal e o símbolo. A quarta, de 24 de junho, concentra-se no mistério eucarístico. A quinta, de 5 de agosto, trata da oração da Igreja. A sexta, de 12 de agosto, reflete sobre o ano litúrgico.

Um dos pontos mais importantes das catequeses de Leão XIV consiste em afirmar que a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não pode ser reduzida a um projeto de alteração das cerimônias litúrgicas, pois tem como principal objetivo conduzir a Igreja à contemplação e ao aprofundamento do vínculo vivo que a constitui : o mistério de Cristo. 

O segundo elemento fundamental da interpretação de Leão XIV é a centralidade do mistério pascal. Para o Papa, o mistério cristão é o acontecimento da paixão, morte, ressurreição e glorificação de Cristo. Esse mistério não pertence apenas ao passado. Na liturgia, ele se torna sacramentalmente presente. Essa perspectiva permite compreender uma das afirmações mais importantes da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium : ‘Pela liturgia, especialmente pelo sacrifício eucarístico, realiza-se a obra da nossa redenção’ (2).

Na liturgia, Cristo continua a agir pelo poder do Espírito Santo. Ele santifica a Igreja e a associa à sua oferta ao Pai. O Papa recorda que Cristo está presente na Palavra proclamada, nos sacramentos, nos ministros, na comunidade reunida e, de modo eminente, na Eucaristia, portanto, a liturgia não é simplesmente uma reunião da comunidade cristã, é uma ação na qual Cristo mesmo atua na sua Igreja.

A liturgia possui também uma forte dimensão eclesiológica, pois a Igreja não existe separadamente dela; pelo contrário, a liturgia manifesta e edifica a Igreja.

Na primeira catequese, Leão XIV utilizou uma imagem particularmente significativa : a Igreja nasce do lado aberto de Cristo na cruz e, na liturgia, Cristo continua a agir nela pelo Espírito Santo. A celebração eucarística, portanto, não apenas manifesta a Igreja, contribui para edificá-la como corpo de Cristo. Ao celebrar a Eucaristia, a Igreja recebe o corpo de Cristo e torna-se aquilo que recebe. O Papa retoma, nesse contexto, a tradição de Santo Agostinho para mostrar que existe uma relação íntima entre o corpo eucarístico recebido e o corpo eclesial constituído.

Outro aspecto particularmente importante é a compreensão da relação entre tradição e progresso. Nesse sentido, a reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II deve ser compreendida em continuidade com a tradição viva da Igreja. A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não propõe uma ruptura com o passado. O princípio fundamental apresentado pelo concílio é conservar a sã tradição e, ao mesmo tempo, abrir caminho para um progresso legítimo, conforme o número 23 da constituição.

Assim como a Igreja é um organismo vivo, também sua liturgia pode desenvolver-se historicamente sem perder sua identidade fundamental.

Estas breves considerações não têm a pretensão de apresentar toda a riqueza teológica e pastoral da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium; mesmo assim, podem ser um incentivo para estudar e valorizar essa importante constituição conciliar.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-constituicao-sacrosanctum-concilium-marco-fundamental-na-historia-da-liturgia-da-igreja-catolica.html

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Coração de Maria, lugar da escuta da Palavra

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Calmon Rodovalho Malta, cmf


‘Iniciemos esse percurso com uma questão : Como compreender a imagem do Coração de Maria como lugar da escuta da Palavra de Deus? Para responder a esse tema proponho um itinerário que leve em consideração o olhar para Maria como a mulher escolhida por Deus Pai e que em sua vida procurou escutar a voz de Deus em seu coração de serva. Ela que buscou viver e testemunhar elementos fundamentais, frutos da escuta da Palavra que a agraciou, tais como : o discipulado, a obediência e o amor que brota da Palavra.

Assim, no olhar atento e terno voltado à Mãe de Jesus e nossa sob o título do seu Imaculado Coração, tem-se a oportunidade de aprender dela o significado do discipulado, da fé madura e comprometida com o sim ofertado a Deus por meio do anjo Gabriel : ‘faça-se em mim, segundo a tua palavra’ (Lc 1,38). Maria Santíssima desde o início compreendeu esse modo de ser agraciado e por esse motivo se entregou por inteiro aos cuidados do Senhor. Ela soube escutar sua Palavra e se deixou guiar na vida e missão de discípula, serva obediente e mãe amorosa da Palavra e por isso, de certa forma, nos ensina a fazer o mesmo, pois também somos discípulos de Jesus Cristo.

Como discípulos missionários, todos, pelo batismo, são corresponsáveis pela construção do Reino dos céus. Um Reino de ‘justiça, paz e alegria no Espírito Santo’ (Rm 14,17). Como discípulos de Jesus, Verbo encarnado (Jo 1,14), nascido no seio da Virgem de Nazaré, os crentes assumem um modo de ser em sociedade que tem relação direta com a fé que professam. Uma relação ético-moral nascida das páginas do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja que se desdobra no cotidiano da vida social pelo testemunho.

O coração da discipula que escuta

Sendo assim, a construção do Reino de Deus tem por base os ensinamentos do Evangelho de Cristo, tanto por palavras proferidas com autoridade e que chamavam atenção dos ouvintes (Mt 7,29), pois Ele mesmo é o fundamento (1Cor 3,11), a pedra angular (Ef 2,20) que direciona toda vida e comportamento de quem crê, como por sua práxis (prática) de vida junto aos seus, dando o exemplo de como deve se comportar àqueles que levam seu nome (Jo 13,13-14). É a partir desse olhar que desejo abordar o tema proposto : ‘O Coração de Maria, lugar da escuta da Palavra’. O Evangelho de Mateus apresenta uma sentença de Jesus para com seus discípulos no grande discurso do sermão da montanha, em que o Mestre de Nazaré deixa claro a seus ouvintes que ‘nem todo aquele que diz : Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus’ (Mt 7,21).

Quando Maria é interpelada pelo anjo que seria a mãe do Senhor, parece ter entendido que não fora apenas escolhida para uma função pontual nos planos de Deus. Parece que seu entendimento da grandiosidade da missão que acabara de receber, iria além do ser mãe biológica do Filho de Deus feito homem na graça do Espírito Santo. Ao dizer sim, estava se comprometendo em se tornar ‘serva do Senhor’, discípula, ouvinte da vontade de Deus. Estava se colocando aos cuidados de Deus e de todo seu projeto de salvação para a humanidade decaída pelo pecado de Eva (Gn 3,6).

Essa formação de pensamento que a Virgem começa a desenvolver, como se estivesse em uma longa escola de aprendizagem, fora possível porque Maria parou para escutar o anúncio angélico, a Palavra a ela dirigida. Escutar o que se desejava dela como escolhida pelo Criador. Escutar parece ser algo cada vez mais difícil em um mundo barulhento. O exemplo que ela dá é um gesto de atenção diante daquele que fala. O exercício da escuta ensina em primeiro lugar, o respeito. Em um diálogo entre pessoas, saber se posicionar é uma atitude respeitosa, transmitida no seio familiar e na escola dos relacionamentos socioeducacionais.

Quem não consegue escutar o outro tem dificuldade de compreender o assunto tratado. Sai atropelando a fala como se o outro não tivesse importância. Maria escuta tudo que o anjo diz e no momento certo, faz suas ponderações. Respeita e escuta a fala alheia com atenção, ternura e desejo de compreender a situação. No relacionamento com Deus, saber escutar é essencial. Como saber o que Ele deseja de nós, se somos incapazes de calar diante de sua Palavra?

Na oração, como lugar privilegiado de diálogo com Deus, exerce-se a escuta e a fala, pois, todo diálogo requer esses dois elementos estabelecidos como forma de relação saudável. Ao se colocar diante de Deus, por meio do anjo, Maria ensina como se deve comportar diante do sagrado, do transcendente, do Altíssimo. Ao mesmo tempo, ensina como se deve comportar uns para com os outros no trato social com irmãos, na família, na igreja, no trabalho etc. Ser discípulo implica entender o que Jesus deseja e espera dos seus. Sem esse entendimento corre-se o risco da deturpação da Palavra como fonte de inspiração e direcionamento correto para se chegar ao Reino proposto por Ele.

Nesse sentido, a busca pelo entendimento passa pela oração como lugar do encontro e do aprendizado como foi dito anteriormente. Anselm Grün afirma que ‘o encontro é um acontecimento que transforma aqueles que se encontram’ (GRÜN, 2014, p. 24). De fato, no encontro da discípula escolhida com seu Senhor nota-se uma transformação positiva e permanente. É um acontecimento como afirma o autor. A aparição do anjo por si só é uma epifania impactante, reveladora e transformadora, um fato extraordinário, tudo que a oração faz e causa em quem se coloca nesse estado de contemplação.

Desta maneira, Maria não se corrompe pelo pecado da soberba, achando-se pronta e acabada porque fora escolhida por mãe de Jesus. Ela soube escutar, dia a dia, a vontade de Deus, de acordo com cada acontecimento e movimento histórico-cultural de sua época. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito Santo que orava nela ‘cheia de graça’. Com seu coração de discípula, entendeu que seu ego, desejos e vontades deveriam ser colocados de lado em prol do projeto de Deus para a humanidade. Esse entendimento não fora adquirido exclusivamente por meio de uma graça especial (a ela foi dado o título de cheia de graça – Lc 1,28), de uma efusão do Espírito Santo, um dom sobrenatural.

Foi também, graças à sensibilidade de uma mulher que soube escutar a voz e a vontade do seu Senhor. Uma mulher que ‘pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação’ (Lc 1,29), que procurou ouvir com atenção a proposta dirigida a ela, escolhida, ‘agraciada’. Por isso, ao se referir a Maria, a Igreja instrui que na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece de uma maneira bem-marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres. Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (cf. Mc 3,35 e paralelos; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cf. Lc 2,19 e 51). (LG, n. 58) A consciência da Virgem escolhida e aclamada ‘cheia de graça’, eleva cada um daqueles que escolhem uma vida em Cristo pelo batismo, à busca permanente da ‘escuta da Palavra de Deus’, como afirma o Concílio Vaticano II no texto acima.

Aqueles que buscam o exemplo de Nossa Senhora como modelo inspirador para sua relação com Deus são chamados a replicar em sua própria vida, a postura ética e coerente da Mãe do Senhor, principalmente no ato de obediência à vontade de Deus como discípulos que procuram escutar.

Um coração obediente

Obedecer, de acordo com a raiz hebraica do termo, é um verbo ligado ao ato de ouvir e tem como significado ‘ouvir a expressão da vontade de outrem, corresponder a ela e executá-la’ (BAUER, 1983, p. 759). Está ligado, segundo esse modo de pensar, a uma relação de alteridade e reconhecimento de um valor maior, exposto e proposto por alguém em vista de um bem superior, tanto do indivíduo como da coletividade. É uma ação contrária ao egocentrismo. Desse modo, pode-se dizer que a obediência é uma virtude que derrota a maledicência do pecado humano, principalmente da vaidade egoísta.

Na vivência dessa virtude, a Mãe do Senhor é exemplo fidedigno de humildade, uma vez que depois do anúncio angélico, saiu para ajudar sua prima Isabel no sexto mês de sua gestação. Ela pratica, a partir da ternura do seu coração de discípula e serva, a obediente Palavra de Deus, colocando-a em exercício (cf. Lc 1,39-45). Não apenas cumpre uma ordem, mas, acima de tudo, escuta a voz do Senhor que lhe fala ao coração de serva. Para o cristão, ouvir a Deus é o caminho irrefutável para se realizar sua vontade na vida. Não se pode querer ser de Deus, se consagrar a Ele, dizer-se discípulo de Cristo, levar o nome de cristão, se não se está disposto a ouvi-lo e pôr em prática seus ensinamentos.

O próprio Jesus ensina a seus discípulos : ‘nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus’ (Mt 7,21). Nesse contexto, Santo Tomás de Aquino afirma que ‘como toda virtude, [a obediência] exige que a vontade esteja pronta para o seu objeto próprio, mas não para aquilo que lhe é repugnante’ (STh, II-II, q. 104, art. 2), ou seja, por meio dessa virtude, orienta-se à vontade para uma finalidade que vai além do desejado, sonhado ou almejado. Coloca-se um sentido, um significado superior ao necessário e imputado a cada um de forma particular. Por essa virtude, deixa-se em segundo plano o ‘eu’ para que a vontade de Deus fale de forma coletiva na vida da Igreja e em sociedade. Nesse aspecto, Nossa Senhora deu testemunho indiscutível colocando-se em segundo plano sua própria vida, para que a vontade de Deus jazesse em primeiro lugar.

Observando o exemplo de Maria, entende-se o quanto essa mulher foi capaz de mergulhar na vida divina. Ela compreendeu que ao dizer ‘sim’, toda sua vida se preenchia de sentido. A sensibilidade da mãe do Senhor em deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, torna-se para a Igreja e para todo o mundo cristão, exemplo moral de compromisso e fé na palavra que salva.

Essa Palavra, à luz da história, pavimenta, orienta e compromete aqueles que se colocam a serviço de Cristo em vista de um bem maior : o Reino dos Céus e do cuidado de uns para outros de modo especial com os mais necessitados. Ao olhar para a imagem de Maria como serva obediente de Deus, não se pode deixar de perceber que, ao longo da história da salvação, Deus fala a seu povo e pede para escutá-Lo como sinal de obediência e fidelidade.

Desse modo, convém recordar de como Abraão, considerado o pai da fé, na prontidão de sua vida, foi obediente ao Senhor (Gn 12); Noé, que mesmo considerado por seus compatriotas louco, por construir uma arca, continuou fiel à vontade de Deus de modo incondicional (Gn 6); lembremos de Moisés que liderando a libertação dos hebreus em nome de Deus, fora obediente e submisso ao Senhor (Ex 3; 14; 19 e 40); de Daniel que não renegou ao seu Deus, mesmo sendo jogado na cova dos leões (Dn 6) ou ainda de Rute que obedecendo a sua sogra manteve-se fiel e confiante nos mistérios de Deus em meio ao sofrimento (Rute 1–4) e tantas outras personagens do Antigo Testamento, sem mencionar o Novo Testamento.

Fato é que Deus ao longo da história da salvação não apenas fala com seu povo, mas os chama a ouvi-lo e esta atitude marca o povo eleito e posteriormente os que serão chamados de cristãos, povo da nova aliança pelo batismo. Neste caminho de entendimento, faz-se interessante a observação de quando se lê no livro do Deuteronômio a célebre frase do Senhor para Israel : ‘Ouve, Israel…’, nota-se que é a vontade de Deus que deve ser executada como sinal autêntico de fidelidade e responsabilidade para com Ele. Assim, descreve o texto bíblico :

4 Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. 5 Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. 6 Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. 7 Tu os inculcarás a teus filhos e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares.’ (Dt 6,4-7).

O texto evidencia a relação entre ‘ouvir’ e ‘obedecer’. Só é possível uma atitude de obediência consciente quando se escuta com o coração e não somente com os ouvidos.

Só obedece aquele que escuta! Que se cala diante do mistério, do transcendente, do Altíssimo; aquele procura a voz terna de Deus que fala à alma, ao coração. Fora disso, evidencia-se o egocêntrico desobediente, que procura ancorar-se no nome de Deus, mas não deseja vivenciar seus ensinamentos. É o desobediente que age olhando para si abandonando as orientações do Senhor como se fosse algo irrelevante diante da sua vontade pessoal. Maria não foi assim, pelo contrário soube escutar buscando a Verdade. O contrário da obediência é a desobediência e a bíblia exemplifica com a história de Eva e Adão na criação. O livro do Gênesis conta como Eva, levada pela astúcia da serpente, se deixou tomar pela vaidade e pelo desejo de ver além daquilo que Deus lhe havia ordenado, solicitado (Gn 3).

Ao ouvir a serpente e desobedecer a Deus, cai no pecado e leva consigo Adão. Os filhos criados pelo amor generoso do Criador, perdem a possibilidade de uma vida plena na graça, por causa da desorientação dos próprios desejos e vontades. Preferiram ouvir e obedecer ao tentador, em vez de seu Criador o que gerou uma consequência pecaminosa, o afastamento da presença de Deus. Um distanciamento sombrio que reverbera em toda a história da criação. Assim, se pela desobediência de Eva a morte do pecado veio ao mundo, por Maria, Deus quis que a salvação chegasse até nós, em Jesus Cristo, Verbo feito carne (cf. Lc 1,26-38; Jo 1,14). Sua obediência restabelece o laço perdido por Eva (cf. LG, n.56).

A confiança de que é possível sim, mesmo que difícil, ser fiel ao Senhor. Maria Santíssima, é o exemplo imaculado dessa fidelidade. É interessante observar como o Evangelho apresenta a figura da Virgem Maria. A mulher do sim, a mãe do Senhor, do serviço, a discípula. Ela não vem em evidência, não é o astro das cenas bíblicas. Aparece em pouquíssimos trechos da Escritura porque não é ela a protagonista do enredo, é Jesus o salvador. Ela jaz no silêncio de quem aprendeu a ouvir, o que na prática pastoral deveria ser aprendido com ela por agentes e pastores.

Nas bodas de Caná, está atenta ao movimento dos serviçais do casamento e percebe a agonia pela falta do vinho. Sua intervenção junto a Jesus se dá pela convicção de que Ele não apenas pode ajudar no embaraço do momento, mas acima de tudo, pode

tudo sem dificuldades, pois tudo na vida procede do ordenamento divino. Ela acredita e chama outros a acreditar : ‘fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo 2,5). A escuta da Palavra tem essa força extraordinária, escutar e ajudar outros a fazer o mesmo, pois a Palavra é transformadora como foi o exemplo de fé da Mãe de Jesus na festa de casamento. São João Paulo II fala sobre o acontecimento de Caná dizendo que a partir da descrição dos fatos de Caná, esboça-se aquilo que se manifesta concretamente essa maternidade nova, segundo o espírito e não somente segundo a carne, ou seja, a solicitude de Maria pelos homens, o seu ir ao encontro deles, na vasta gama das suas carências e necessidades. […] Maria põe-se de permeio entre seu filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências e dos seus sofrimentos (RM, n. 21).

Essa consciência obediente de Maria, aponta para o ato de fé no Filho amado. Ela sabia que aquele momento não era a hora do Filho se apresentar ao mundo como ‘O Messias salvador’, mas não poderia ficar passiva, inerte ou como espectadora diante da situação constrangedora dos noivos perante seus convidados. Obedecer é comprometer-se com a realidade que circunda a vida, o dia a dia, em vista do bem comum. Vai além da letra da lei, do executar ordens e obrigações, é uma expressão do cuidado de Deus para com seus filhos e filhas, pois reflete a fé feita obras.

Desse modo, pode-se afirmar que ‘a Mãe de Cristo se apresenta diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho. […] Graças à intercessão de Maria e à obediência dos servos, Jesus dá início à ‘sua hora’’ (RM, n. 21) e assim, cuida daquele momento festivo de Caná, oferecendo ‘o vinho melhor’ da alegria salvadora de Deus aos presentes. Tudo isso foi possível porque Maria é mãe amorosa atenta aos acontecimentos que envolvem seus filhos e filhas no dia a dia.

Maria, uma mãe amorosa da Palavra de Deus

A escuta da Palavra é caminho seguro para a ternura de Deus, pela intercessão amorosa da Mãe junto ao Filho Salvador, mediador único uma vez que ‘há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens : Jesus Cristo’ (1Tm 2,5).

Assim, todo filho exerce um carinho especial para com sua mãe. Ela é o berço perpétuo de segurança, o abraço terno e voz poderosa em meio ao barulho do mundo. Talvez por isso o próprio Deus desejou que Seu Filho amado passasse pela experiência humana da relação filial, pois, o amor de mãe é sempre curativo. Ao lançar um olhar para Maria, não se pode deixar de olhar para seu coração materno. O Coração de Maria é o lugar seguro da ternura colocada em ação para com aqueles que buscam em Jesus Cristo o alívio de suas angústias. Mostrando seu coração à humanidade, a mãe do Senhor revela seu desejo de presença e cuidado. A imagem do coração é, em muitas culturas, o símbolo do amor, do carinho como expõe o papa Francisco no capítulo um da encíclica Dilexit nos. Em Maria, amor e carinho são gestos de proximidade e atenção maternos. De orientação e formação para a vida de fé e vida social. Ela é mãe formadora de discípulos que escutam e põe em prática a vontade de Jesus Cristo.

O Evangelho de Lucas narra a anunciação do nascimento de Jesus, partindo do pressuposto da escolha de Maria como mãe (Lc 1,26-56). O texto do evangelista pode ser dividido em dois momentos importantes : o primeiro da anunciação do anjo (v. 26-38), o segundo do encontro com Isabel (v. 39-56). Para aquém de uma exegese bíblica, olhemos de modo geral alguns aspectos da narrativa de Lucas.

No primeiro trecho, a busca pela compreensão dos acontecimentos de Deus na vida faz Maria questionar o anjo, não na escolha, mas na execução da vontade salvífica, uma vez que era virgem : ‘como se fará isso, pois não conheço homem algum?’ (v. 34). A pergunta é legítima e demonstra o nível de seu comprometimento com a vontade de Deus. Entende que sua resposta gerará uma onda de impacto presente e futuro na história. Por mais que não tivesse a dimensão de seu alcance, ela sabia que sua resposta seria um marco divisor em sua vida e na vida de todos a partir daquele momento. Depois de todo um diálogo de apresentação e exaltação daquela mulher como ’cheia de graça’, ela escuta com atenção a explicação do anjo e responde com total abertura ao projeto de Deus : ‘Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38). Seu coração torna-se plenamente disponível à Palavra. Não se trata apenas de aceitar uma missão, mas de acolher o próprio Deus em sua vida, permitindo que a Palavra se faça carne em seu ventre e em toda a sua existência.

No segundo momento da narrativa, Maria coloca-se imediatamente a caminho para visitar sua prima Isabel (Lc 1,39-56). A Palavra acolhida transforma-se em serviço. Quem escuta verdadeiramente Deus não permanece fechado em si mesmo, mas sai ao encontro do outro. O amor recebido torna-se amor oferecido.

Ao chegar à casa de Isabel, a saudação de Maria faz estremecer de alegria a criança no ventre da prima, e Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama : ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!’ (Lc 1,42). Maria responde com o cântico do Magnificat (Lc 1,46-55), reconhecendo que toda grandeza provém de Deus e não de seus próprios méritos.

Seu coração revela-se, assim, profundamente humilde. Ela não retém para si a glória da escolha recebida, mas aponta continuamente para Aquele que realizou maravilhas em sua vida. Toda a sua existência é um louvor à fidelidade de Deus.

Contemplar o Coração de Maria significa aprender essa mesma atitude interior. Significa permitir que a Palavra encontre espaço em nossa vida, seja meditada no silêncio, amadurecida no coração e transformada em gestos concretos de amor, serviço e compromisso com o Reino de Deus.

Como afirma o Concílio Vaticano II, Maria ‘conservava fielmente todas estas coisas, meditando-as em seu coração’ (cf. Lc 2,19.51). Ela não apenas ouviu a Palavra; fez dela o critério permanente de sua existência. Seu coração tornou-se escola de escuta, de discernimento e de fidelidade.

Também hoje, em meio ao excesso de informações, ao barulho das redes sociais, às inúmeras vozes que disputam nossa atenção e aos desafios da vida contemporânea, Maria continua indicando o caminho da verdadeira escuta. Seu Coração Imaculado permanece como espaço privilegiado para aprender a acolher a Palavra de Deus e deixá-la produzir frutos de conversão, esperança e caridade.

Quem contempla o Coração de Maria descobre que Deus continua falando ao coração humano. Cabe a cada discípulo cultivar o silêncio interior, abrir-se à ação do Espírito Santo e responder, como a Mãe do Senhor, com inteira disponibilidade :  ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’ à santificação e ao Reino de Deus. Como serva da Palavra, Verbo feito carne, Maria é exemplo de fidelidade apostólica a Jesus, mesmo antes de Seu nascimento. Ao aceitar as palavras do anjo, aceita a missão de acolhedora do Verbo Divino. Como Mãe e discípula, coloca em hierarquia de importância o discipulado da ‘serva do Senhor’ (Lc 1,38), mais do que a missão de mãe.

O Papa Leão XIV, na nota doutrinal sobre os títulos marianos, expressa-se assim : Ela é ‘a primeira discípula, aquela que melhor aprendeu as coisas de Jesus’ Maria é a primeira daqueles que ‘escutam a Palavra de Deus e a põem em prática’ (Lc 11,28); é a primeira a colocar-se entre os humildes e pobres do Senhor para nos ensinar a esperar e receber, com confiança, a salvação que vem apenas de Deus. Deste modo, Maria ‘tornava-se, em certo sentido, a primeira ‘discípula’ do seu Filho, a primeira a quem ele parecia dizer : ‘Segue-me’, mesmo antes de dirigir este chamamento aos Apóstolos ou a quaisquer outros (cf. Jo 1,43)’ (MPf, n. 75). Como discípula e serva, o testemunho da Virgem emana da Palavra que é o próprio Filho. Toda sua vida está voltada e tem sentido se orienta ao Cristo Salvador.

O papa Paulo VI afirmava : ‘na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente dele’ (MC, n. 25). Não é possível amar, louvar, seguir o exemplo, suplicar a intercessão, aprender da Imaculada Virgem, se o fim último de nossa oração e confiança não for o próprio Jesus Cristo. Maria ensina isso em Caná da Galileia ao dizer ‘fazei tudo o que Ele vos disser’ (Jo 2,5). Isso, como já dito, é um ensinamento direcional, orientativo e não um ato momentâneo. Tudo em Maria se direciona e direciona para Jesus. Desse modo, aprender de Maria a escutar a Palavra é deixar-se configurar a ela. A Palavra de Deus é o caminho reto que leva a uma prática de fé autêntica e segura.

Jesus ensinou aos seus discípulos a respeito do Reino de Deus, falou em parábolas, mostrou com sinais a presença salvadora de Deus. Assim, ao ensinar, levou cada uma das pessoas, inclusive sua mãe, a enxergar um Reino completamente diferente daquele que estava diante de seus olhos.

A Palavra transmitida entrava pelos ouvidos, mexia com a imaginação, modificava a consciência e fecundava o coração como uma cachoeira a derramar água transparente e fresca em um lago aberto e profundo. O papa Francisco assim ensinou a esse respeito : O Reino, já presente e crescente entre nós, nos envolve em todos os níveis do nosso ser e nos recorda o princípio do discernimento que o Papa Paulo VI aplicou ao verdadeiro desenvolvimento : ele deve dirigir-se a ‘todos os homens e ao homem por inteiro’ (EG, n. 181).

Ao escutar a Palavra de Deus ao longo de toda sua vida, parece-nos que Maria foi aprendendo, a cada etapa existencial, a adaptar-se às circunstâncias : primeiro ouve a voz do anjo Gabriel (Lc 1,28.30-33); segundo ouve o louvor de sua prima Isabel (Lc 1,42-43.45); terceiro no nascimento de Jesus (Lc 2,10-12); depois na apresentação no templo (Lc 2,34-35); no episódio de Jerusalém aos doze anos (Lc 2,49); nas bodas de Caná (Jo 2,1-12); provavelmente quando Jesus proferiu o grande sermão da planície (Lc 6,20-49; Mt 5-7); enquanto estava na Galileia ela ouviu palavras fortes de Jesus (Lc 8,19-21); durante sua vida pública, acompanha em silêncio a missão do Filho na viagem a Jerusalém (Lc 9,51–19,28); durante o lava-pés escuta as palavras e vê a cena com atenção (Jo 13,1-20).

Nesse caminho, como discípula, deve ter escutado as palavras de despedida do Filho (Jo 13,31-38); mais que escutar, viveu a angústia da paixão de Jesus, no silêncio obediente da fé (Mc 14-15); ouviu as últimas palavras do Filho crucificado (Jo 19,26); ouviu o silêncio de Deus na morte do Filho amado (Jo 19,38-42); sem sombra de dúvida ela escuta os rumores das aparições do ressuscitado (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20–21) na alegria, ouve do próprio Filho Ressuscitado que aquele grupo que ele formou ao longo do tempo, sua Igreja, receberá o Espírito Santo (At 1,8). Maria, como no princípio de toda sua vida, depois de ser fiel à Palavra ao longo do tempo, recebe o Espírito Santo junto com os Apóstolos, como discípula fiel, serva e modelo de testemunha de Cristo Jesus (At 1,14; 2,1-13). Daí em diante, acompanha o florescer da Igreja na intercessão pelos filhos de Deus até os dias de hoje.

Do mesmo modo, ‘a Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da Palavra de Deus’ (LG, n. 64). E assim, olhando e aprendendo do Coração de Maria como lugar da escuta da Palavra, também nós, seus filhos e filhas, devemos obediência, serviço e comportamento de discípulos para bem testemunhar os méritos de Jesus e levar com verdade o nome de cristãos. Diante de tantos barulhos no mundo de hoje, nunca nos esqueçamos que, para nós católicos, três elementos orientam nossa escuta doutrinal de fé : ‘as Sagradas Escrituras, a Tradição e o Magistério da Igreja’ (CIC, n. 81 e 85; DV, n. 10), sem eles não vamos a lugar algum, a não ser a nosso próprio egoísmo.

Como diria Santo Antônio Maria Claret : o egoísmo ‘procura com todo empenho, a independência de toda a autoridade divina e humana; conspira e maquina a insubordinação perceberão que cada palavra das Escrituras é uma dádiva antes de ser uma exigência’ (EG, n. 142).

Percorrido o caminho de meditação e observação de Maria, sob o título de Imaculado Coração como lugar da escuta da Palavra, propus um olhar baseado em três aspectos – dos inúmeros que podem ser abordados sobre a Mãe do Senhor – para nossa reflexão : o discipulado, a obediência e o amor que nasce da Palavra.

Vimos que a Mãe de Deus nos testemunha com o silêncio de sua vida, como ser discípulos(as) missionários de seu Filho Jesus e como devemos responder ao chamado de Deus, na prontidão do acolhimento de sua Palavra. Acolher a palavra do Senhor é um ato livre que deve nos levar à compreensão de que somos responsáveis pelas mudanças em nosso meio, sociais e religiosas, mediante as escolhas que fazemos, reguladas nas Escrituras como fonte e instrumento de orientação e salvação, junto com a Tradição e o Magistério da Igreja, porto seguro de nossa fé.

Maria Santíssima nos ensina, de certa forma, que na vida cristã, não basta ouvir a palavra, ler as Escrituras, frequentar o templo, é necessário pôr em prática a vontade Daquele que nos chama à santidade de vida. Pela escuta/leitura diária da Palavra de Deus somos moldados segundo sua vontade e isso nos ajuda a modificar nossa forma de pensar e viver em sociedade. Para que nosso mundo seja melhor, é preciso melhorar nosso testemunho cristão e católico no mundo ainda mais especialmente em tempos de irracionalidade egoísta que gera guerras, desigualdade, violência e agressões, seja em escala global ou mesmo no seio familiar e na própria Igreja. Nosso testemunho pode ser uma luz poderosa em meio à escuridão dos conflitos.

Cuidemos, pois, a Santíssima Virgem, sob o título de seu Imaculado Coração nos deu o exemplo de fidelidade e escuta da Palavra que se fez carne e habitou entre nós.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-coracao-de-maria-lugar-da-escuta-da-palavra.html