Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl.
OSB)
‘Em Caravaca
de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, ergue-se a Basílica Santuário da
Vera Cruz. Aí se encontra uma devoção antiga, que infelizmente no Brasil e
alguns países tem se misturado com superstições motivadas por publicações que
misturam fé com bruxaria; porém, graças ao testemunho dos papas recentes, como
São João Paulo II e Bento XVI, tem-se divulgado ao povo fiel uma verdadeira
devoção à santa cruz .
Na obra de
Antonio de Honcala de 1546, Pentaplon christianae pietatis,
relata-se que, no século XIII, um sacerdote aventurou-se em território mouro
para pregar o Evangelho. Foi preso pelos muçulmanos e levado perante o
governante, Zayd Abu Zayd. O governante interrogou-o sobre a Missa e o
sacerdote explicou-a tão detalhadamente que o governante exigiu que fosse
celebrada em sua presença. O sacerdote não possuía os itens necessários e mandou
buscá-los na cidade de Concha, que estava sob controle cristão, contudo, a cruz
havia sido esquecida. O sacerdote, sem saber da sua ausência, começou a Missa,
mas, parou quando percebeu que ela faltava. O governante, que assistia à Missa
com a sua família, perguntou-lhe o que havia de errado. O sacerdote respondeu :
‘Não há cruz’. Nesse momento, o muçulmano viu dois anjos colocando a cruz no
altar e apontando para o objeto desejado disse : ‘Será que é isso?’. O
sacerdote deu graças a Deus e continuou com a Missa.
Segundo a
lenda, esse evento levou o governante muçulmano e sua família a se converterem
ao cristianismo. De acordo com a maioria das versões da história, o clérigo
chamava-se Ginés Pérez Chirino ou Quirino, era originário de Mahora, na
província de Albacete, e viera de Cuenca, onde fora discípulo do bispo São
Julião, que o designara para servir na catedral. Segundo outra versão, seu nome
era Fernán Pérez e por isso um dos filhos do governante foi batizado com o nome
de Fernán Pérez.
Leonardo
Mayor Izquierdo situa a data do milagre em 3 de maio de 1231. Dom F. Renón,
usando dados da monografia de Juan Robles Corbalán de 1615 sobre a verdadeira
cruz de Caravaca, situa o milagre em 1227. Zayd Abu Zayd comunicou sua intenção
de se converter ao cristianismo ao Papa Gregório IX em 1228. Essa conversão
ocorreu após essa data.
Existe outra
lenda sobre a sua origem. Quando Santa Helena encontrou a verdadeira cruz no
século IV, deu um pedaço ao patriarca de Jerusalém. No século XIII, o imperador
Frederico II Hohenstaufen foi proclamar-se rei de Jerusalém, ocasião em que
colocou a relíquia no peito. Contudo, devido à sua falta de piedade, dois anjos
apareceram e levaram-na, tendo esta reaparecido mais tarde em Caravaca.
Outra
história, mais prosaica, conta que quando Caravaca foi conquistada por Jaime I,
o Conquistador, e entregue a Fernando III, o Santo, em 1244, pelo tratado de
Almizra, este entregou a cidade aos templários, que trouxeram a verdadeira
cruz, de acordo com a regra da ordem de tê-la em todas as suas comendas. Ela
teria sido colocada num relicário em forma de cruz patriarcal, pois era uma
cruz simbólica dos templários.
A cruz serviu
como estandarte e talismã contra os subsequentes ataques andaluzes,
especialmente os perpetrados por Muhammad ibn Nasr, emir de Arjona e Granada.
Com isso, Caravaca consolidou sua posição como um bastião na fronteira
hispano-islâmica.
Conta a lenda
que, no século XIII, os templários foram sitiados no castelo pelos muçulmanos e
a água das cisternas da fortaleza ficou estagnada. Um grupo de templários
conseguiu escapar e foi até as fontes em busca de água, mas estas haviam sido
envenenadas pelos sitiantes. Encontraram apenas vinho, então, encheram vários
odres com ele e o carregaram em seus cavalos. Ao retornarem à fortaleza, após
cruzarem com sucesso as linhas inimigas mais uma vez, abençoaram o vinho com a
vera cruz e o deram aos doentes, que foram curados. Também derramaram um pouco
do vinho nas cisternas, que foram purificadas. Dessa forma, conseguiram
resistir ao cerco e as forças muçulmanas finalmente se retiraram. Essa
tradição, conhecida como os Cavalos do Vinho, é comemorada todo dia 2 de maio,
quando os clubes equestres de Caravaca enfeitam um cavalo e escolhem quatro
representantes para correrem pela encosta que leva ao Santuário da Vera
Cruz.
O mestre da
Ordem de Santiago, Lorenzo Suárez de Figueroa, fez uma peregrinação a Caravaca
em 1390 e doou uma caixa de prata dourada para guardar a relíquia.
A partir do
século XIV foram emitidas bulas de indulgência para aqueles que visitavam a
capela onde se encontrava a cruz. As duas primeiras que sobreviveram foram
promulgadas por Clemente VII de Avignon em 1379 e em 30 de janeiro de 1392. O
primeiro Papa de Roma a conceder indulgências para esse fim foi Pio V em 1572.
Posteriormente, essas indulgências foram prorrogadas por Gregório XV em 1622 e
confirmadas por Urbano VIII (1623-1644), Clemente X (1670-1676) e Inocêncio
XII(1691-1700).
Em 1536, o
comandante Pedro Fajardo y Chacón, primeiro marquês de Vélez, doou uma custódia
de ouro e um porta-cruz de prata, avaliados em mil ducados.
Em 1711, o
duque de Montalto doou um relicário, que foi substituído por outro em 1777,
doado pelo duque de Alba.
A cruz foi
objeto de um roubo sacrílego na noite de 14 de fevereiro de 1934. Os ladrões
roubaram a relíquia sagrada e o relicário que a continha, uma doação da casa de
Alba em 1777, deixando para trás o cofre que continha ambos e que foi doado em
1390 por Lorenzo Suárez de Figueroa, mestre da Ordem de Santiago.
Em 30 de
abril de 1942, dois fragmentos chegaram a Caravaca juntamente com um documento
impresso em latim, emitido em 15 de abril de 1942, pelo frade dominicano
Gabriel Moriondo, bispo de Caserta, que estava associado às relíquias do
Vaticano desde pelo menos 1930. O documento certificava que os fragmentos
provinham da cruz de Jesus Cristo e autorizava a sua exibição em qualquer
igreja, capela pública ou oratório. Ambos os fragmentos foram colocados num
relicário que era uma réplica do que tinha sido roubado. A relíquia chegou a
tempo para as festividades de maio em honra da verdadeira cruz.
São João
Paulo II concedeu um ano jubilar à cidade em 2 de janeiro de 1981, a pedido do
bispo de Cartagena. Em 1998, a pedido do bispo de Cartagena e da real e ilustre
Confraria da Santa e Verdadeira Cruz de Caravaca, São João Paulo II concedeu
perpetuamente um ano jubilar a cada sete anos ao santuário, a partir de 2003,
concedendo uma indulgência plenária, nas condições habituais, em 3 de maio e 14
de setembro, ou por meio de uma peregrinação em grupo. Caravaca tornou-se uma
das cinco cidades do mundo com esse privilégio, consideradas ‘cidades santas’. As
outras são Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana.
Em 2002, o
então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, peregrinou à cidade para
encerrar um congresso internacional de cristologia na região de Múrcia. Ele
celebrou a Eucaristia e venerou publicamente a relíquia no Santuário da Vera
Cruz de Caravaca.
O Papa
Francisco recebeu delegações e enviou bênçãos apostólicas para os anos
jubilares mais recentes, porém, nunca realizou uma viagem oficial até o
município espanhol.
A adoração da
santa cruz se encontra no centro de nossa fé. Vários santos se inspiraram na
santa relíquia para promover missões, como São Junípero Serra, devoto da vera
cruz de Caravaca, ou as missões jesuíticas no nosso país que conservam em
muitos lugares a imagem dessa cruz. Já São Boaventura, em uma meditação, disse
que assim como o lenho alimenta a chama, o santo lenho da cruz alimenta nosso
amor. Esse é o real segredo da santa cruz de Caravaca.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/a-santa-cruz-de-caravaca-historia-de-devocao-milenar.html
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