Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Igreja Católica continua afirmando que "a eutanásia é um crime contra a vida humana porque, com tal ato, o homem escolhe causar diretamente a morte de um outro ser humano inocente"
*Artigo de Alexandre P. Martins,
professor de bioética e ética social
‘O
título desse artigo é uma frase da conclusão da carta da Congregação para a
Doutrina da Fé, Samaritanus bônus : Sobre o
cuidado das pessoas nas fases críticas e terminais da vida, que
trata sobre questões éticas e pastorais sobre o fim da vida, especialmente as
relacionadas à eutanásia, à a morte assistida e ao cuidado com os enfermos em
fase terminal. Essa carta apresenta uma teologia da pastoral da saúde que
merece ser estudada e refletida por toda a comunidade católica, mas,
particularmente, pelos agentes de pastoral da saúde, parte viva da Igreja que
se dedica ao acompanhamento pastoral dos enfermos, realizando concretamente o
dever evangélico de acompanhar os doentes, a exemplo do Bom Samaritano.
Samaritanus bonus foi criticada por não apresentar uma perspectiva ética ‘inovadora’,
que abriria caminho para a aceitação moral do enceramento da vida por meio da
eutanásia ou do suicídio assistido de uma pessoa enferma em situação terminal
irreversível. Isso não aconteceu e a Igreja Católica continua afirmando que ‘a
eutanásia é um crime contra a vida humana porque, com tal ato, o
homem escolhe causar diretamente a morte de um outro ser humano inocente’.
Dessa forma, o documento entente que a eutanásia é um ‘ato intrinsecamente
mau’ e deve ser rejeitado em qualquer circunstância. A vida humana tem um
valor intrínseco que não é diminuído quando uma pessoa não tem mais a mesma
vitalidade e caminha para o fim da sua vida. Esse caminho final deve seguir o
processo natural de morte, com o acompanhamento da comunidade cristã que
promove o cuidado por meio da sua presença junto à pessoa que sofre e o auxílio
da medicina para aliviar a dor física.
Muitas
questões podem ser discutidas, levando em conta as bases éticas que a carta
utiliza para fundamentar sua perspectiva. Pode-se também discutir a
interpretação que faz da tradição moral católica para chegar ao total
fechamento para qualquer possibilidade de abreviar o processo de morte de um
paciente terminal. Ademais, são compreensíveis as interrogações sobre a
ausência da visão do papa Francisco a respeito do discernimento pastoral a
partir do imperativo da consciência, como ele apresenta na exortação
apostólica Amoris Laetitia, apesar de frases de Francisco serem
citadas no documento. Todos esses questionamentos, entre outros, têm sua razão
de ser e merecem ser discutidos com atenção, embora não será este o objetivo
dessa reflexão.
Apesar
de vulnerável a fortes críticas, a Samaritanus bonus apresenta
uma teologia do acompanhamento pastoral dos enfermos que certamente oferece uma
contribuição ao trabalho da pastoral da saúde. A partir da parábola do Bom
Samaritano (Lc 10, 29-37), o documento apresenta que ‘é próprio da Igreja
acompanhar com misericórdia os mais fracos no seu caminho de dor, para manter
neles a vida teologal e orientá-los à salvação de Deus’. O samaritano é um ‘coração
que vê’ o sofrimento do outro, não permitindo outra ação, senão a atitude
de cuidar daquele que sofre.
Os
agentes de pastoral da saúde vivem de forma privilegiada o ministério da Igreja
de cuidar dos doentes, especialmente daqueles que estão sozinhos ou sofrem
abandonados devido à sua situação social de pobreza e marginalização. Esse
ministério está no coração do evangelho, como o documento destaca : ‘O
evangelho da vida é um evangelho da compaixão e da misericórdia, direcionado ao
homem concreto, fraco e pecador, para aliviá-lo, mantê-lo na vida da graça e,
se possível, curá-lo de toda ferida’.
Reconhecendo
essa missão evangélica e a importância da pastoral da saúde, a Congregação para
a Doutrina da Fé afirma que o acompanhamento pastoral dos enfermos é parte
integral do cuidado dos enfermos em fase terminal, enfatizando a necessidade
dos cuidados paliativos, área médica da qual a pastoral da saúde – por meio de
capelães e agentes –, deve fazer parte para proporcionar conforto emocional e
espiritual. Diz o documento : ‘dos cuidados paliativos faz parte a assistência
espiritual ao doente e aos seus familiares. Esta infunde confiança e esperança
em Deus ao moribundo e aos familiares, ajudando-os a aceitar a sua morte. É uma
contribuição essencial que diz respeito aos agentes de pastoral e à inteira
comunidade cristã, a exemplo do Bom Samaritano, para que a rejeição dê lugar à
aceitação e sobre a angústia prevaleça a esperança, sobretudo quando o
sofrimento se prolonga pela degeneração patológica, ao aproximar-se do fim’.
A Samaritanus
bonus foi assinada pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé –
cardeal Luis Ladaria – em 14 de julho de 2020, Festa de São Camilo de Lélis,
patrono dos enfermos e dos profissionais da saúde. Não acredito que ele tenha
escolhido essa data por acaso, pois São Camilo continua sendo uma inspiração
para o cuidado com os enfermos com o ‘coração nas mãos’. Esse documento
agora acrescenta que precisamos de um coração que vê o outro que sofre, isto é,
um coração samaritano. Com o coração que vê e que age nas mãos de quem cuida, ‘o
acompanhamento pastoral chama em causa o exercício das virtudes humanas e
cristãs da empatia (en-pathos), da compaixão (cum-passio), do
responsabilizar-se pelo sofrimento e compartilhá-lo, e da consolação (cum-solacium),
de entrar na solidão do outro para fazê-lo sentir-se amado, acolhido,
acompanhado e apoiado’.
O
acompanhamento dos doentes é a missão da pastoral da saúde. Se, por um lado,
a Samaritanus bonus tem pontos passíveis de questionamentos,
por outro, ela oferece uma rica reflexão à pastoral da saúde, uma reflexão que
mostra a importância desse trabalho pastoral e que, ao mesmo tempo, oferece uma
teologia sobre a missão da Igreja no cuidado com os enfermos, que merece ser
estuda pelos grupos de pastoral da saúde para que cresçam no seu testemunho de
acompanhar os doentes e sofredores com um coração que vê o sofrimento e age
para aliviá-lo.’
Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1484650/2020/11/samaritanus-bonus-o-dever-do-acompanhamento-dos-doentes/
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