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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Instintos sonoros

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘A vida é soberana. As teorias e ideias estão sob a força que a vida exerce sobre tudo e, muitas vezes, são quebradas, arrebentadas quando não são revisadas e ressignificadas. Assim também ocorre com a musicalidade: está imersa nas leis da vida e do universo.

O corpo humano é palco onde todas as questões psíquicas são encenadas, dramatizadas e expressas. A musicalidade não existe sem o corpo, por isso, a música sempre teve como base a corporeidade que o humano comporta. Pode-se até mesmo dizer que música é corporeidade.

O próprio Evangelho apresenta um sentido de corporeidade ao afirmar que ‘a fé sem obras é morta’ (Tg 2,17) e que ‘conhece-se uma árvore pelos frutos que ela dá’ (Mt 7,20). A mensagem é clara : não se pode permanecer no mundo das ideias sem alcançar o mundo das atitudes.

O canto gregoriano é uma imensa expressão da corporeidade católica e base das mais múltiplas formas musicais. A herança dele está incorporada nos instintos musicais por conta de sua estrutura tão refinada entre palavra e melodia, o que traz uma constância entre ideia e ação. Não há canto sem o corpo e, assim, a oração se torna instinto de vida no corpo e na alma. Infelizmente, o canto gregoriano tem sofrido muitas deformações devido a um modismo que, como outros, logo passa porque a verdade das estruturas é permanente.

O canto gregoriano soube conduzir os mais nobres sentimentos entre o humano e o divino e sempre faz o coração humano retornar aos seus instintos de harmonia, paz e concórdia. É um canto que precisa do corpo em sua totalidade e do pleno desenvolvimento dos instintos musicais.

São Gregório Magno soube fazer do canto a maior arte e ciência na escola da oração.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/instintos-sonoros.html


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

As grandes civilizações africanas - O Mundo Islâmico e a África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

  

‘Originalmente existiram na África vários povos que formaram reinos ou confederação de tribos bem avançadas do ponto de vista econômico, militar e organizadas socialmente. No norte do continente existiram grandes civilizações com a que se formou durante milênios no Egito que se desenvolveu ao longo do Rio Nilo e a de Cartago que chegou a enfrentar a grande potência romana. No sul do Deserto do Saara existiram grandes civilizações, mas a história também mudou a partir dos séculos XV e XVI com a chegada das nações europeias e depois, a partir do século XIX, com a formação dos grandes impérios coloniais.

Diversas áreas do continente africano também passaram por profundas mudanças, especialmente a partir do século VII ao serem assimiladas e integradas ao Império Muçulmano ao final da primeira onda de conquistas. Egito e África do Norte foram as regiões que mais sofreram modificações em sua organização graças a esse processo de assimilação.

O Egito Islâmico e a expansão muçulmana

O Egito islâmico se tornou uma importante província muçulmana entre o século VII e o final do século XI mesmo que afastada do califado, sendo transformada no centro do potente Império dos Fatímidas, originalmente simples celeiro, posteriormente principal entreposto comercial entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico. Em várias ocasiões o Egito exerceu grande influência no destino de outras partes da África; sendo o ponto de partida da conquista árabe no século VII. Essa primeira onda islamizou a África do Norte e a do século XI, levou ao processo completo de arabização.

Foi a partir do Egito que os beduínos árabes iniciaram um movimento rumo ao Sul, penetrando em outras regiões, levando ao declínio alguns reinos cristãos existentes na antiga Núbia e Sudão, próximos ao Rio Nilo.

O Egito durante este período deixou de ser uma terra cristã e a maioria da sua população se converteu ao islã, mas algumas igrejas monofisistas da Núbia e da Etiópia continuaram resistindo ao avanço do islã.

Ao longo dos séculos XII e XIII, o Egito se consolidou como uma potência islâmica fazendo frente aos cruzados ocidentais e aos invasores mongóis do período medieval.

Dificuldades no meio do caminho

Na região do Magreb, os conquistadores árabes enfrentaram grande resistência dos berberes e somente ao final do século VII lograram submeter as principais regiões.

A maioria dos berberes converteu­‑se então ao islã e, malgrado o ressentimento que lhes inspirava a dominação política árabe, se tornaram­ partidários da nova fé, contribuindo para propagá­‑la do outro lado do estreito de Gibraltar, na Península Ibérica e além do Saara.

Esses guerreiros berberes formavam grande parte dos exércitos muçulmanos que conquistaram a Espanha, que arrancaram a Sicília dos bizantinos e conduziram vitoriosas campanhas no Egito e na Síria.

Desse modo, a África do Norte passou a ocupar uma posição­‑chave no mundo muçulmano, política e economicamente.

Sob o domínio muçulmano, a região do norte da África esteve novamente ligada a uma economia de importância mundial, desempenhando papel de primeiro plano, passando por um novo crescimento demográfico, urbanização e retomada da prosperidade econômica e social.

Isso explica o fato do Egito, mesmo tendo decaído de importância, ainda é um dos principais países do mundo árabe, tendo feito frente à expansão de Israel durante várias décadas do século XX e XXI.

Expansão religiosa e militar

Deve-se aos berberes, depois de aderirem a algumas seitas do islã, a introdução da religião muçulmana ao Sul do Saara, pois as caravanas de comerciantes berberes que atravessavam o grande deserto em direção às regiões mais férteis da África não transportavam somente mercadorias, mas ajudavam a propagar as novas concepções religiosas e culturais.

Esta expansão rumo ao sul trouxe uma nova dimensão econômica para a África do Norte. O ouro retirado do Sudão afluía para a costa do Mar Mediterrâneo em quantidades cada vez maiores, provocando a ascensão econômica de numerosas dinastias muçulmanas reinantes no Oeste.

Além disso, a exploração das minas de sal do Saara intensificou­‑se, como resposta à crescente demanda da África subsaariana por esta indispensável substância mineral.  Essas trocas com a África subsaariana constituíram, durante vários séculos um ramo de um frutuoso comércio.

Nas últimas décadas do século XX e XXI a África continua a sofrer com a ação de grupos islâmicos radicais como o Boko Haran que agem em diversos países tanto do norte como do sul do Saara, levando imenso sofrimento à população, especialmente das comunidades cristãs.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mundo-islamico.html

 

domingo, 27 de setembro de 2026

São Vicente de Paulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria


 Sacerdote e fundador dos lazaristas (1581–1660)


‘‘Não conseguir ver uma pessoa sofrer sem que se sofra com ela; vê-la chorar sem chorar com ela… É um ato do amor que faz compenetrar os corações um dentro do outro e sentir aquilo que o outro sente, bem diferente do agir dos homens que não experimentam sentimento algum ao ver o tormento dos aflitos e o sofrimento dos pobres. (…) Ser cristão e ver o próprio irmão sofrer sem sofrer com ele, sem estar doente com ele, significa não ter piedade, ser cristão apenas de nome’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud LUBICH, 1994, p. 92–93).

O carisma deste gigante da caridade é o amor concreto que enfrenta os problemas e os resolve, não por espírito de filantropia, mas porque vê em quem sofre o próprio Jesus que lhe repete : ‘Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber…’ (Mateus 25,31ss).

Vicente nasceu no dia 24 de abril do ano de 1581, perto de Pouy, na Gasconha, de uma família de pobres camponeses. Embora dotado de uma grande inteligência, até os 15 anos não fez outra coisa senão conduzir à pastagem as poucas ovelhas e os poucos porquinhos para ajudar a família a ir levando a vida.

Um advogado da região de Dax, impressionado com o talento do jovem, falou com os pais, dizendo-lhes que era um pecado não fazê-lo estudar e ofereceu-se para pagar-lhe as despesas. Uma providência inesperada e uma grande esperança para o futuro da família. Vicente, por sua vez, não esperava outra coisa e lançou-se sobre os livros com todo o empenho. Naqueles tempos e naquela região, estudar significava encaminhar-se para a carreira eclesiástica, na esperança de agarrar-se o mais rápido possível em uma boa renda. Vicente estudou durante três anos no colégio dos padres franciscanos de Dax; depois tornou-se clérigo e, com a ajuda de seu patrono e com a venda de um par de bois da parte do pai, inscreveu-se na universidade de Toulouse. Aos 19 anos, conseguiu fazer-se ordenar sacerdote pelo bispo de Périgueux e continuou os estudos até tornar-se bacharel em teologia. Esperava obter um bom ganho tornando-se pároco, mas não o conseguiu. No entretempo, perdeu o pai e, para ajudar a família, abriu uma escola particular sem grande sucesso; ao contrário, sobrecarregou-se de dívidas. Nesse período, inseriu-se a história, por ele mesmo narrada : enquanto viajava de Marseille a Narbonne, foi aprisionado por piratas turcos e foi vendido como escravo em Tunis, tornando-se servo de um frade que por amor ao dinheiro se fez muçulmano. Vicente o convenceu a voltar atrás e juntos fugiram em uma embarcação leve para a França. Em Avignon, o frade fez sua abjuração nas mãos do delegado pontifício, Pedro Montório, e os três partiram para Roma.

Na realidade, o bravo clérigo, segundo alguns, havia administrado de modo falimentar um pensionato que lhe foi confiado em Toulouse e havia fugido carregado de dívidas, dilapidando a herança de uma rica senhora e vendendo um cavalo que tomou como empréstimo. A comovente história africana, sempre de acordo com esta versão, servia para fazer-lhe perdoar os débitos e permitir-lhe, após ter ficado dois anos escondido, tentar um novo trabalho.

Como a carta em que Vicente narra essa aventura é autógrafa, outros historiadores autorizados consideram-na verdadeira. Certamente, até este momento, Vicente não era uma relíquia de santo e o demonstra o fato de que, após um ano de permanência em Roma, voltou a Paris em busca de fortuna.

Com efeito, conseguiu alistar-se entre os capelães da corte, porém com um estipêndio de fome, que apenas lhe permitia sobreviver sem poder ajudar sua pobre mãe, que se tornara viúva. Finalmente, em 1612, foi nomeado pároco nas proximidades de Paris.

Contava já com 31 anos de idade e, impressionado com a vida de oração de alguns de seus paroquianos, deixou de lado as preocupações materiais e de carreira, e começou a ensinar o catecismo, a visitar os doentes e a ajudar os pobres. O contato com a vida real reabriu-lhe o coração à oração e à meditação da palavra de Deus. Se os paroquianos foram seus primeiros mestres com sua vida, o instrumento de que a providência se serviu para operar nele uma profunda transformação foi Pedro de Bérulle que, o acolhendo em seu Oratório, o formou em uma profunda espiritualidade.

Estava dando os primeiros passos nesta nova vida, quando de Bérulle o aconselhou a aceitar o encargo de preceptor junto à família de Filipe Emanuel dei Gondi, general das galeras régias. Vicente aceitou e foram quatro anos difíceis, tendo de lutar duramente para perseverar em uma escolha de vida verdadeiramente evangélica. Abriam-se diante dele dois caminhos : o da carreira, com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer seu pé-de-meia, e a do serviço aos pobres, com uma vida cada vez mais semelhante à do Mestre.

Vivendo no castelo de seus senhores, foi-lhe possível verificar com os próprios olhos que havia na França dois estilos de vida : o dos ricos, que gozavam neste mundo dos bens da terra e esperavam gozar no outro os bens celestes; e o dos pobres que, depois de uma vida infeliz neste vale de lágrimas, imaginavam encontrar interceptada também a porta do céu, devido à sua ignorância e aos vícios em que muitas vezes a miséria os afundava. A senhora Gondi também compartilhava as preocupações do seu capelão e ofereceu uma soma de dinheiro àqueles religiosos que, a cada cinco anos, quisessem pregar uma missão às massas camponesas de suas terras. Ninguém se apresentou e Vicente, assustado com uma tarefa tão desmedida, abandonou o castelo sem tampouco avisar os patrões.

Os oratorianos de Bérulle, que alimentavam uma grande confiança nesse padre inquieto, ofereceram-lhe a possibilidade de exercer o seu ministério em uma nova paróquia do campo em Châtillon-les-Dombes. Aí começou a revelar-se o carisma vicentino. Ele próprio gostava de contar este humilde começo.

Certo domingo, enquanto me vestia para celebrar a missa, vieram me dizer que em uma casa isolada das outras, a um quarto de légua de lá, estavam todos doentes, e em estado de necessidade indescritível. Fui com isso dolorosamente atingido e na pregação não deixei de recomendá-los com afeto… Depois das vésperas, tomei comigo um bom homem, burguês da cidade, e nos pusemos juntos a caminho para ir lá. Pela estrada, encontramos mulheres que nos ultrapassavam, outras que voltavam atrás… Havia tantas que me faziam pensar em uma procissão…. (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541) Vicente fez então esta consideração : ‘Hoje estes pobrezinhos terão mais que o necessário; dentro de alguns dias, estarão novamente em necessidade!’. O que fazer? ‘Eu propus’ – continua o santo – ‘a todas aquelas boas pessoas, que a caridade havia inspirado, que cada qual se encarregasse de um dia, para trabalhar pela vida também de quem isso viesse acontecer depois’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541).

A caridade organizada! Caridade, porque tudo deve partir daquele amor que faz ver em todo pobre a presença viva de Jesus; organizada, porque os cristãos são tais somente quando se moverem conscientes de formar um só corpo, como na primeira comunidade de Jerusalém. E se deu conta de que, para alcançar o escopo, não era preciso nem mesmo serem ricos, bastava serem frequentemente solidários.

Seu apelo foi imediatamente acolhido e surgiu o primeiro grupo de pessoas dispostas a servir os necessitados. Ele os chamou Caridade e deu às associadas o nome de ‘servas dos pobres’. Em três meses, a instituição possuía um regulamento próprio, aprovado pelo bispo, mas, acima de tudo, produzia seus frutos.

A senhora Gondi não se conformava com o fato de haver perdido seu capelão e conseguiu fazê-lo retornar às suas terras. Vicente aceitou, com uma condição : de poder morar não no castelo, mas no campo, e dedicar-se ao cuidado espiritual e material dos camponeses. As condições foram imediatamente aceitas e ele começou a fundar as Caridades em todas as aldeias, agregando a elas não somente mulheres, mas também homens. Era seu desejo que umas e outros trabalhassem juntos, mas devido à mentalidade do tempo não foi possível e somente as Caridades das mulheres permaneceram em ação.

Mais tarde, em 1833, sua ideia seria retomada por Emmanuel Bailly, em Paris, que, juntamente com Frederico Ozanam, faria florescer as Conferências de São Vicente de Paulo.

A miséria, porém, não habitava somente nos campos; tinha a sua sede também na capital e em todas as grandes cidades, onde muitas vezes mostrava uma feição ainda mais dolorosa. Em Paris, em 1629, as servas dos pobres receberam o nome de damas da caridade, permitindo assim que também as mulheres nobres tomassem parte sem provocar reações desproporcionadas em seu ambiente e permitindo à nobreza parisiense colocar à disposição do santo seus recursos materiais que, de outro modo, teriam sido consumidos nas vaidades. Entre as damas, havia personalidades de destaque, como Luísa Maria de Gonzaga, futura rainha da Polônia, e a duquesa de Aiguillon, sobrinha do cardeal Richelieu.

O apostolado de Vicente nas aldeias rurais obteve tal sucesso que outros sacerdotes se uniram a ele, compartilhando seu ideal de serviço aos pobres e, no final, se encontrou com um excelente grupo de missionários rurais. Não somente os senhores Gondi, que proviam a suas necessidades materiais, mas também o arcebispo de Paris deu o seu apoio. Em Paris, eles receberam uma casa, primeiramente no antigo colégio dos Bons-Enfants, na rua Saint Victor, e depois no priorado de São Lázaro. Daí o nome de lazaristas dado a esses missionários.

O grupo dos sacerdotes reunia-se em congregação religiosa sem votos, empenhava-se em não buscar dignidades eclesiásticas e a pregar somente nos campos e nas galeras. No verão, quando os camponeses estão ocupados nos trabalhos dos campos, os missionários dirigiam-se às paróquias da cidade para ensinar o catecismo. Em seguida, Vicente aceitou que seus lazaristas se dedicassem à formação dos sacerdotes, dirigindo seminários e aceitando também missões no exterior, como em Madagascar.

Com as missões dos lazaristas, refloresceu nos campos a vida cristã e muitas jovens, trabalhando nas Caridades, sentiam o chamado a consagrar-se inteiramente ao serviço de Cristo nos pobres. Vicente, sempre atento aos planos de Deus, confiou-as a uma mulher excepcional, Luísa de Marillac, que compartilhava plenamente seu ideal, para que as formasse. O povo chamou estas jovens ‘filhas da caridade’, e Vicente e Marillac não quiseram que se tornassem religiosas com o perigo de perderem o frescor de seu carisma porque, como havia acontecido com as visitandinas de são Francisco de Sales, teriam sido forçadas a fechar-se em um convento.

O santo dizia-lhes : ‘Vós tendes por mosteiro somente as casas dos doentes e a da superiora; por cela, um aposento de aluguel, por capela, a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência… por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia!’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BIBLIOTHECA SANCTORUM, 1990, v. 12, p. 1160). Eram permitidos os votos, mas somente privados e anuais, para que todas desenvolvessem sua missão na mais plena liberdade e por puro amor.

O arcebispo de Paris acompanhava com simpatia a obra apostólica de Vicente e dos seus padres, e desejaria que todas as dioceses da França tivessem padres tão bem formados por doutrina e virtude. Começou por mandar os seus passarem quinze dias entre os lazaristas antes de serem ordenados. Em seguida, muitos retornavam para renovar-se no espírito e surgiram as Conferências da terça-feira. Todas as semanas, naquele dia, muitos sacerdotes se encontravam juntos em uma casa dos missionários e em comunhão fraterna renovavam sua vida à luz do evangelho.

A experiência começou a expandir-se como mancha de óleo e homens eminentes se consideraram honrados por poder tomar parte nela. Entre os primeiros, encontramos Olier, fundador dos sulpicianos, e Brandon e, em seguida, Bossuet e Rancé.

Richelieu, ao tomar conhecimento do espírito que animava esses padres, quis ter os nomes daqueles que ele pudesse promover a bispos. Também o rei pediu a mesma lista a Vicente e quando este foi chamado junto ao rei moribundo ouviu dizer-lhe que, se fosse curado, teria feito de modo que todos os bispos franceses passassem três anos de formação na casa dos lazaristas.

Dos padres aos seminaristas, a passagem foi rápida e muitas dioceses queriam que   seus futuros párocos fossem formados pelos lazaristas. Quando da morte do santo, já dirigiam doze seminários.

Se Vicente possuía um carisma para formar os padres e os futuros bispos, por que não chamá-lo a fazer parte do Conselho de Consciência, onde se decidia exatamente a nomeação dos bispos? A rainha Ana da Áustria impôs a sua escolha e a do príncipe de Condée de outros dois bispos, mas quem presidia o Conselho era o cardeal Mazarino, político requintado e sem escrúpulos.

Suas indicações e as de Vicente eram bem diferentes : o santo preocupava-se em fornecer nomes de ótimos pastores, ao passo que Mazarino queria homens ligados à sua linha política.

Vicente de Paulo não resistiu por muito tempo e sugeriu à rainha que afastasse o cardeal da corte, para o bem da França. Não o dissesse nunca! Quando Mazarino soube disso, agiu com toda a fúria, e a rainha, que comandava apenas por modo de falar, teve de dobrar-se a contragosto à vontade do cardeal e afastar Vicente para sempre do Conselho.

Se algo existia que estava em contradição com a espiritualidade vicentina era o jansenismo. O pensamento reformista de Cornélio Jansênio foi propagado na França por João du Vergier de Hauranne, conhecido como Saint-Ciran, que tinha sido colega e amigo de Vicente em Bérulle. Quando, porém, ele se opôs ao magistério da Igreja, Vicente dissociou-se formalmente e usou de seu prestígio junto aos bispos para impedir que eles o apoiassem.

Dizer o bem que este homem fez à França e à Igreja em geral é impossível. Não houve categoria de miseráveis que ele não socorresse. Falando dos galeotas, dos quais tornou-se capelão, dizia : ‘Quando elogiei sua resignação, quando compartilhei seus sofrimentos… quando beijei seus grilhões… então me ouviram’. A seu serviço, ele colocou seus missionários, as Damas e as Filhas da Caridade.

Ele se empenhou em resgatar os escravos cristãos das mãos dos turcos, levando para a França cerca de mil e duzentos.

Outra obra, fruto do seu amor, foi a de garantir uma casa para as crianças abandonadas. Segundo uma indicação dada pelo santo em 1657, suas obras davam assistência a cerca de trezentas e noventa e cinco crianças na cidade de Paris.

Durante a tremenda guerra dos Trinta Anos, que destruiu regiões inteiras, semeando por toda parte a fome, foram os seus filhos que levaram socorro onde quer que fosse preciso com os meios então disponíveis, organizando a Obra das Sopas. Em uma única paróquia distribuíam cerca de 5 mil refeições.

Diz-se que Vicente recebia uma quantidade extraordinária de meios para suas obras e administrava um balanço que superava o de sua terra natal, com a não pequena diferença que suas moedas eram todas aplicadas a serviço dos pobres e as do Estado serviam muitas vezes para satisfazer as ambições de quem nunca tinha experimentado a fome.

De onde, no entanto, hauria este homem tanta vitalidade para entusiasmar a si mesmo e a seus filhos e filhas? O segredo do seu carisma era a caridade concreta. Ele havia harmonizado em seu espírito a espiritualidade de Bérulle, a de são Francisco de Sales e a de santo Inácio de Loyola. Do primeiro havia assimilado acima de tudo o espírito de oração que o mantinha unido a Deus também em meio às ocupações materiais mais envolventes; do segundo, havia apreendido o humanismo cristão que lhe permitia levar a santidade para dentro do mundo civil sem necessidade dos muros protetores do convento; por meio do terceiro, havia concentrado a fidelidade à Igreja que o impulsionava a servi-la especialmente naqueles setores onde a presença dos cristãos era mais carente.

A nota característica da espiritualidade vicentina nós a encontramos expressa de maneira quase comovente nestas palavras do santo, extraídas das suas Cartas e Conferências :

O serviço dos pobres deve ser preferido a tudo. Não deve haver atrasos. Se na hora da oração tiverdes de levar um remédio ou um socorro a um pobre, ide tranquilamente. Oferecei a Deus a vossa ação, unindo a ela a intenção da oração.

Não vos deveis preocupar e acreditar que haveis falhado, se pelo serviço dos pobres haveis deixado a oração. Não é deixar Deus, quando se deixa Deus por Deus, ou seja, deixar uma obra de Deus para fazer uma outra. Se deixardes a oração para dar assistência a um pobre, sabei que fazer isto é servir a Deus. A caridade é superior a todas as regras, e tudo deve referir-se a ela. É uma grande senhora : é preciso fazer o que ela manda. Todos aqueles que amarem os pobres em vida, não terão temor algum da morte. Sirvamos, portanto, os pobres com renovado amor e procuremos os mais abandonados. Eles são os nossos senhores e patrões. (SÃO VICENTE DE PAULO, 1985, carta 2.546)

Vicente concluiu a sua viagem terrena na manhã do dia 27 de setembro de 1660, atraindo a seu funeral uma multidão imensa composta de personalidades influentes e pessoas humildes. O calor da sua caridade havia unido muitos membros das duas classes sociais tão distantes entre si, despertando em todos a consciência da dignidade comum de filhos de Deus. Diz-se, às vezes, que Vicente criou apenas ‘enfermarias para os pobres’, sem efetuar uma ‘mudança nas estruturas’. À parte o fato de que a história tem seus tempos sempre longos, sem estas ‘enfermarias’, milhões de pobres teriam desaparecido desta terra sem nunca sentir junto deles o calor de um coração humano e talvez as estruturas teriam se tornado ainda mais desumanas.

Vicente de Paulo foi declarado bem-aventurado em 1729 e santo em 1737.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-vicente-de-paulo.html


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fulton Sheen e a missão como responsabilidade de toda a Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo com informações da Agencia Fides


‘Há episódios do Concílio Vaticano II que permanecem nas margens da memória conciliar, embora ajudem a compreender algumas de suas intuições mais profundas. Um deles envolve o bispo estadunidense Fulton J. Sheen, cuja participação na elaboração do decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, contribuiu para ampliar a própria pergunta sobre o que significa fazer missão. Entre os quase 2.500 bispos que participaram das quatro sessões conciliares, entre 1962 e 1965, Sheen foi membro da Comissão para as Missões e o único representante dos Estados Unidos a permanecer nessa comissão durante todo o Concílio.

Sua presença em Roma também se inscrevia numa relação pessoal com João XXIII. Antes mesmo da abertura do Concílio, Sheen havia percebido que algo novo estava se formando na Igreja. Em 1959, durante uma peregrinação a Lourdes, chamou sua atenção a multidão de peregrinos simples e pobres. ‘Eis a Igreja dos pobres’, teria dito a um companheiro, expressão que antecipava uma preocupação que levaria posteriormente à assembleia conciliar. O vínculo com o Papa Roncalli era igualmente significativo : como diretor nacional da Pontifícia Obra para a Propagação da Fé, Sheen encontrava-se anualmente com João XXIII, que lhe confidenciou, antes do anúncio público, sua decisão de convocar o Concílio.

A pergunta que mudou o foco da missão 

A contribuição mais expressiva de Sheen apareceu durante o debate sobre o esquema que daria origem ao decreto Ad Gentes. Em 9 de novembro de 1964, depois de numerosas críticas à primeira versão do texto, o bispo propôs uma mudança aparentemente simples, mas teologicamente significativa. Em vez de perguntar ‘O que são as missões?’, sugeriu perguntar : ‘Onde estão as missões?’

A mudança de perspectiva colocava em questão uma concepção geográfica da missão. Para Sheen, não bastava identificar como missionários os territórios classificados como ‘não cristãos’. Havia também dioceses extremamente pobres, com escassez dramática de sacerdotes, que necessitavam da solidariedade de toda a Igreja, embora não fossem oficialmente consideradas territórios de missão. Ele recordava bispos que lhe pediam ajuda vindos de regiões nas quais havia apenas poucos sacerdotes para áreas imensas. A questão, portanto, deixava de ser apenas administrativa : pode uma Igreja necessitada ser considerada menos missionária simplesmente porque não se encontra dentro de uma determinada categoria jurídica?

Nesse raciocínio aparece uma das ideias mais fecundas de sua intervenção : a missão não deveria ser compreendida como uma tarefa de uma parte da Igreja em benefício de outra, mas como uma responsabilidade comum. Sheen contestava divisões excessivamente rígidas entre ‘Igrejas novas’ e ‘Igrejas antigas’. Para ele, a Igreja é um único Corpo de Cristo, cujos membros dependem uns dos outros. Por isso, defendia mecanismos de coordenação que permitissem responder às diferentes necessidades missionárias presentes no mundo.

Uma Igreja que não pode esquecer os pobres 

A questão da pobreza ocupava um lugar central nessa visão. Quando um dos padres conciliares propôs retirar do texto as referências à pobreza, Sheen defendeu justamente o contrário. Recorreu à imagem do globo terrestre para mostrar a concentração geográfica das desigualdades e apontou para a realidade de África, Ásia e América Latina.

Mas seu argumento ia além de uma análise econômica. A experiência de suas viagens pela América Latina e pela África havia transformado sua maneira de compreender a pobreza. Ele próprio escreveria posteriormente que começara a pensar menos no ‘problema da pobreza’ e mais nos pobres. A distinção é importante : deslocar o olhar de uma questão abstrata para rostos concretos significa reconhecer que a missão cristã acontece no encontro com pessoas e comunidades concretas.

Foi nesse contexto que Sheen formulou uma das frases mais marcantes associadas à sua participação no Vaticano II : ‘Como a castidade foi o fruto do Concílio de Trento e a obediência o fruto do Concílio Vaticano I, assim o espírito de pobreza seja o fruto deste Concílio Vaticano II.’ E acrescentou : ‘Somente uma Igreja ferida pela pobreza pode converter um mundo cético.’

A expressão ‘Igreja ferida pela pobreza’ contém uma inversão interessante. A pobreza deixa de ser apenas uma realidade diante da qual a Igreja exerce caridade e passa a interrogar a própria Igreja. Não se trata simplesmente de uma Igreja que ajuda os pobres, mas de uma Igreja que permite que a realidade dos pobres transforme suas prioridades, sua sensibilidade e sua maneira de cumprir a missão.

O bispo : não apenas para uma diocese 

O texto final de Ad Gentes, aprovado por ampla maioria, incorporou diversos elementos que convergiam com as preocupações apresentadas por Sheen : a responsabilidade da Igreja para com os pobres, a necessidade de coordenação da atividade missionária e uma compreensão ampla da responsabilidade episcopal. O decreto afirma que o bispo não é consagrado apenas para uma determinada diocese, mas também para a salvação do mundo inteiro.

A mesma lógica apareceu em sua participação na elaboração de Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal. Sheen defendia que os seminaristas tivessem contato direto com doentes, pobres, não católicos, católicos afastados da fé, presos e trabalhadores, além de passarem períodos nas missões com falta de pessoal. A intenção era fazer com que a formação pastoral não permanecesse restrita ao ambiente protegido do seminário, mas colocasse o futuro sacerdote em contato com as periferias humanas e eclesiais.

Sheen também apoiou vigorosamente o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, e interveio em favor de uma reflexão mais ampla sobre a contribuição das mulheres na vida da sociedade. No debate sobre Gaudium et Spes, valorizou especialmente a afirmação da dignidade e da liberdade da pessoa humana e sua relação inseparável com a salvação. Ao mesmo tempo, advertia que a abertura da Igreja ao mundo não deveria significar nem isolamento nem submissão aos critérios do próprio mundo.

A difícil palavra ‘mundo’ 

É justamente aqui que aparece uma das chaves para compreender o pensamento de Sheen sobre o período posterior ao Concílio. Ele não interpretava a abertura ao mundo como uma capitulação. Ao contrário, considerava que a Igreja deveria estar presente no mundo, dialogar com ele e reconhecer os sinais de verdade presentes nas diferentes culturas, mas sem perder a capacidade de discernimento.

Em suas conferências posteriores, Sheen identificou boa parte das tensões pós-conciliares numa confusão em torno da própria palavra ‘mundo’. De um lado, está o mundo como criação de Deus, realidade humana que a Igreja é chamada a amar e servir. De outro, está o ‘mundo’ no sentido bíblico de uma organização da existência fechada a Deus. Confundir essas duas realidades poderia, segundo ele, fazer com que a abertura se transformasse em assimilação.

Por isso, sua compreensão da renovação conciliar pode ser resumida não como rejeição nem como aceitação indiscriminada do mundo, mas como discernimento. Sheen recorria à antiga imagem dos semina Verbi, os ‘sementes do Verbo’ presentes nas culturas e nos contextos humanos. A tarefa da Igreja seria reconhecer essas sementes, ajudá-las a crescer e, ao mesmo tempo, distinguir o trigo do joio.

Uma intuição que permanece atual 

Vista a partir de hoje, a contribuição de Fulton Sheen para a reflexão conciliar sobre a missão ganha força justamente porque desloca a questão de fronteiras geográficas para uma pergunta muito mais abrangente : onde a Igreja é chamada a ser missionária?

A resposta que emerge de suas intervenções não se limita aos territórios tradicionalmente classificados como missionários. A missão está também onde há pobreza, falta de sacerdotes, afastamento da fé, sofrimento, exclusão e necessidade de esperança. Está nas dioceses e nas comunidades, mas também na formação dos futuros sacerdotes, no apostolado dos leigos, no diálogo com a cultura e na capacidade da Igreja de reconhecer aquilo que Deus já semeou no coração da humanidade.

É nesse sentido que a figura de Sheen ajuda a reler Ad Gentes : a missão não é um setor especializado da vida eclesial, delegado a alguns organismos ou regiões do mundo. Ela pertence à própria natureza da Igreja. E, para o bispo, essa responsabilidade ultrapassa os limites de sua diocese. A missão começa onde existe alguém a quem a Igreja é chamada a levar a luz da Palavra e o amor de Deus — inclusive quando esse alguém está muito mais perto do que as antigas fronteiras missionárias permitiam perceber.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-09/beatificacao-fulton-sheen-estadunidense-concilio-vaticano-ii.html

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Os estigmas de Pe. Pio: o que todo devoto precisa saber

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘Poucos fenômenos na história da Igreja Católica são tão intrigantes e fascinantes quanto os estigmas — as chagas da Paixão de Cristo reproduzidas no corpo de alguns santos. Entre todos os estigmatizados, nenhum foi tão estudado, amado e controverso quanto Padre Pio de Pietrelcina. Seus estigmas marcaram não apenas seu corpo, mas a história da Igreja no século XX, atraindo multidões, despertando dúvidas e provocando profundas reflexões sobre a natureza do sofrimento e da santidade.

Assista ao filme ‘O Mistério de Padre Pio’ e conheça agora mesmo a história do primeiro sacerdote estigmatizado da história. 

As primeiras manifestações dos estigmas de Padre Pio

A história começa em 7 de setembro de 1910, na Piana Romana. Padre Pio, então com 23 anos, estava em oração quando teve uma visão de Jesus e Maria. Durante o êxtase, sentiu uma dor intensa nas palmas das mãos e percebeu pequenas manchas vermelhas do tamanho de uma moeda.

Esses sinais, no entanto — as primeiras ‘sombras’ dos estigmas — desapareceram após alguns dias, sem deixar cicatrizes. Por vergonha, Padre Pio tentou ocultar tudo, usando luvas ou as mangas do hábito para esconder as mãos.

Um ano depois, em 7 de setembro de 1911, as marcas reapareceram, mas desta vez de forma dolorosa e persistente. Foi então que Padre Pio decidiu revelar o ocorrido a seus superiores, procurando o arcipreste don Panullo e mostrando-lhe o que pareciam ser feridas de punção. Panullo, impressionado, recomendou que ele fosse examinado.

O primeiro diagnóstico foi de tuberculose cutânea, mas o médico Dr. Andrea Cardone rejeitou a hipótese: as feridas pareciam atravessar as mãos de fora a fora e não apresentavam características de nenhuma doença conhecida.

Essas primeiras manifestações, mesmo depois de examinadas, desapareceram novamente — um mistério que deixava claro que um fenômeno incomum estava acontecendo.

O marco de 1918 : os sinais sangrentos da Paixão

Foi apenas em 20 de setembro de 1918, em San Giovanni Rotondo, que as chagas se tornaram permanentes. Padre Pio teve uma visão de uma ‘Misteriosa Figura’, que depois identificou como Cristo, gotejando sangue das mãos, dos pés e do lado. Ele descreveu ter sentido como se fosse morrer de susto. Ao recobrar os sentidos, viu em seu corpo os sinais sangrentos da Paixão.

Para ele, aquilo não era uma honra, mas um chamado. ‘Uno-te à minha Paixão’, teria dito o Senhor. Padre Pio passou a se ver como uma ‘vítima do amor divino’, convidado a sofrer com Cristo para colaborar na salvação das almas.

Como eram os estigmas de Padre Pio? 

As estigmas de Padre Pio impressionavam por vários aspectos :

Localização : mãos, pés e lado —exatamente como as chagas de Cristo.

Aparência : as mãos apresentavam feridas circulares de cerca de 1 cm, algumas cobertas por crostas de sangue seco. A do lado era um corte que, constantemente, umedecia o curativo.

Sangramento : às vezes gotejava sangue em profusão, especialmente na Quaresma. Seu pijama frequentemente ficava manchado de vermelho.

Dor : Padre Pio afirmava que elas doíam, sobretudo nas noites de quinta e sextas-feiras, em sintonia com a Paixão de Cristo.

Fragrância : o sangue exalava um perfume descrito como ‘aroma do Paraíso’, percebido até por pessoas que tinham problemas com o olfato.

Fenômenos físicos : rumores apontavam que seu corpo atingia temperaturas altíssimas, chegando a quebrar termômetros.

Investigações médicas e controvérsias

As chagas de Padre Pio foram objeto de inúmeros exames e polêmicas, inclusive gerados por membros da Santa Igreja. Alguns médicos, como o Dr. Andrea Cardone e o Dr. Giorgio Festa, chegaram a descrevê-las como de origem inexplicável. Outros, como o Dr. Amico Bignami, afirmavam que eram superficiais, uma vez que radiografias realizadas em 1954 não mostraram anomalias ósseas.

Mesmo diante de diversas investigações médicas e de todo o sofrimento causado por esses estigmas, não faltaram suspeitas. Alguns sugeriram que Padre Pio teria usado ácido carbólico para produzir artificialmente as feridas. Ele admitiu ter solicitado o produto, mas para desinfetar seringas, negando qualquer fraude.

Críticas mais severas vieram de figuras como Pe. Agostinho Gemelli, que o considerava ‘psicopata’, e do Mons. Maccari, cujo relatório para o Santo Ofício o acusava de dupla vida. No entanto, a Igreja jamais emitiu uma condenação definitiva. Quando os estigmas de Padre Pio começaram a atrair multidões de fiéis do mundo inteiro — fazendo muitos deles cortarem pedaços de suas roupas em busca de milagres, o Vaticano impôs algumas restrições, mas com o propósito de conter o fanatismo popular, e não necessariamente desmascarar uma fraude.

Como a Igreja Católica explica os estigmas de Padre Pio? 

A Igreja nunca emitiu uma explicação científica definitiva para os estigmas de Padre Pio — e talvez justamente aí resida sua força espiritual. Para a fé católica, os estigmas não são apenas um fenômeno físico, mas um sinal místico: uma participação real na Paixão de Cristo. O próprio Padre Pio entendia suas chagas como um chamado a sofrer em união com Jesus pela conversão das almas.

Os Papas tiveram diferentes posturas ao longo do tempo. Bento XV o chamava de ‘homem de Deus’ e via nele um sinal da presença divina. João XXIII, mais cauteloso, chegou a considerar os relatos sobre ele preocupantes, após investigações que levantaram suspeitas. Mas foi São João Paulo II quem, anos depois, reconheceu publicamente o valor espiritual do frade, chamando-o de ‘imagem viva do Cristo sofredor’ e dando início ao seu processo de canonização.

No fim, a posição oficial da Igreja é de reconhecimento: os estigmas de Padre Pio são aceitos como autênticos, não apenas por sua constância ao longo de 50 anos, mas porque deram frutos espirituais abundantes — conversões, confissões e uma renovada devoção à Eucaristia. Mais do que provar algo para a ciência, a Igreja os lê como um sinal de que o sofrimento pode ser redentor e capaz de salvar almas quando unido ao de Cristo.

O desaparecimento dos estigmas 

Curiosamente, próximo de sua morte, as chagas começaram a desaparecer. Na primavera de 1968, restavam apenas crostas esmaecidas. No dia 23 de setembro, quando faleceu, seu corpo estava intacto, sem qualquer cicatriz, como se nunca tivesse carregado as chagas por cinquenta anos. Para muitos, isso foi o último milagre : o sinal desapareceu porque a missão estava cumprida.

Padre Pio foi examinado, questionado, acusado e, por fim, venerado. Os estigmas que marcaram seu corpo permanecem um mistério aberto, mas também um convite.

Como escreveu um de seus biógrafos : ‘Algo de muito incomum se passava com Padre Pio.’ E talvez seja justamente isso que continua a atrair milhares de peregrinos : o fato de que, em um pequeno convento no sul da Itália, um homem vivenciou na própria pele o mistério da Cruz.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/os-estigmas-de-pe-pio-o-que-todo-devoto-precisa-saber.html


domingo, 20 de setembro de 2026

Gaza, o inferno das crianças. As vidas ceifadas dos inocentes

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Davide Dionisi

 

‘Crianças enterrando crianças. Também se depara com essas cenas angustiantes na Faixa de Gaza, e é a segunda vez em um mês que são realizados funerais em massa, durante os quais as crianças depositam flores e acendem velas sobre os corpos de seus coetâneos.

A tragédia dos resgates

No início do mês de setembro, foram recuperados dos escombros de um prédio residencial no sudeste da Cidade de Gaza — destruído há mais de dois anos por um ataque aéreo israelense — 106 corpos, entre os quais os de 73 crianças. Os corpos permaneceram presos durante todo esse tempo sob os escombros do prédio, antes que as equipes de resgate conseguissem abrir caminho entre o concreto armado e retirá-los. E o que torna ainda mais dramático o processo de resgate é a paralisia logística imposta no local.

Não fiquemos de braços cruzados

‘Essas vidas ceifadas são o testemunho do custo brutal que esta guerra está impondo às crianças. A humanidade não pode aceitar que os funerais em massa de crianças palestinas se tornem uma realidade cotidiana. Não podemos ficar parados assistindo enquanto tudo isso continua’, disse Ahmad Alhendawi, diretor regional da Save the Children para o Oriente Médio, Norte da África e Europa Oriental. De acordo com o relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinos Ocupados, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel, pelo menos 20.179 crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 31 de março de 2026. E mais. Mais de 44.000 ficaram feridas e muitas outras ainda estão soterradas sob os escombros; dezenas de milhares perderam um ou ambos os pais, enquanto cerca de 21.000 vivem hoje com deficiências permanentes, incluindo inúmeras amputações. No total, entre mortos e feridos, o número ultrapassa 50.000 crianças. Estima-se, além disso, que cerca de 17.000 crianças tenham ficado sozinhas, sem pais ou parentes de referência, muitas vezes separadas de suas famílias devido a deslocamentos forçados ou a perdas de vidas durante os bombardeios.

O drama da desnutrição

O acesso a alimentos e bens essenciais (farinha, pão, leite) continua extremamente limitado. Centenas de milhares de pessoas correm risco ou sofrem diretamente de desnutrição aguda, com graves consequências para o desenvolvimento normal e para a saúde. Os danos contínuos às infraestruturas hídricas e aos estoques de ajuda humanitária limitam a disponibilidade de água potável, expondo-as ao risco constante de infecções e epidemias. A desnutrição crônica afetou 12,2% das crianças menores de cinco anos e, segundo Edouard Beigbeder, diretor regional do Unicef para o Oriente Médio e o Norte da África, ‘a situação nutricional das crianças melhora quando a ajuda e os suprimentos comerciais chegam até elas, e piora com a mesma rapidez quando isso não acontece’.

O colapso do sistema de saúde em Gaza

Recentemente, graças ao apoio de agências humanitárias, foram prestados serviços de saúde e nutrição essenciais à sobrevivência a dezenas de milhares de crianças, mulheres e famílias vulneráveis em todo o enclave palestino. Esse apoio contribuiu para sustentar os serviços de saúde para mães, recém-nascidos e crianças pequenas, ampliar o acesso à atenção primária à saúde e fortalecer a capacidade de terapia intensiva, em um momento em que as hostilidades em curso, os repetidos deslocamentos, as infraestruturas danificadas e a grave escassez de suprimentos médicos essenciais continuam a exercer uma enorme pressão sobre o sistema de saúde de Gaza. Ao mesmo tempo, devido à escassez de recursos financeiros, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que, a partir de 19 de setembro, interromperá o fornecimento de diesel a cerca de 20 unidades hospitalares.

Enquanto isso, nos territórios, a violência e os ataques continuam. Um ataque das Forças de Defesa de Israel (IDF) a oeste da Cidade de Gaza, no norte do território, matou na segunda-feira pelo menos uma pessoa e deixou vários feridos, segundo a Al Jazeera.’


Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/gaza-inferno-criancas-vitimas-guerra-israel-escombros-palestinos.html