Mostrando postagens com marcador teologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teologia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Até quando nos faltará coragem?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Teólogos e teólogas de nosso país são chamados a serem corajosos e assumir o exemplo de Cristo.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘É comum que ao serem perguntadas a respeito do lugar da teologia na vida pública, as pessoas respondam que esse lugar se refere às igrejas, comunidades e associações religiosas e filantrópicas. Já está, de alguma forma, estereotipado em nossa sociedade o papel e o lugar dos teólogos.

Curiosamente, se se pergunta em um ambiente acadêmico a respeito desse mesmo lugar, a resposta tende a ser diferente e se referirá à questão da reflexão a respeito da sociedade e seu olhar na transformação dela, partindo do pressuposto da fé cristã. Dessa forma, o estudo teológico tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa, tendo na relação entre Deus e a humanidade sua força e esperança de luta. Nesse pano de fundo, o teólogo ou teóloga é aquele que pode trabalhar tanto nas igrejas e comunidades, como também em todas as esferas da vida pública, ou seja, academia, política, economia, e por aí vai.

Não precisa ter um olhar muito atento para se perceber que a visão que predomina no país é a primeira, a de que o lugar da teologia se limita aos ambientes filantrópicos e eclesiais. Assim, a pergunta a respeito da responsabilidade se faz necessário. Quem seriam os responsáveis para que a teologia ocupasse essa visão no meio popular?

A resposta, assim como todas as respostas às questões difíceis, não é tão simples como se queira imaginar. Ao mesmo tempo que se tem o fator histórico em que a ciência desenvolvida no país, desde sua origem, tenha tido um forte aspecto positivista e, assim, a exclusão da teologia dos ambientes acadêmicos como algo de caráter meramente eclesial se fez de forma necessária por parte de legisladores que temiam a ausência de laicidade no Estado, também se tem a responsabilidade da própria teologia que, em sua zona de conforto, optou durante muito tempo por não lutar em prol de seu caráter público em meios universitários do país. Uma vez restrita somente ao seu próprio gueto, a teologia ao mesmo tempo que foi colocada do lado de fora, também se colocou nessa posição e, por causa disso, esteve ausente de grandes decisões em diversas esferas do país.

Hoje, por sua vez, cresce-se a influência de um setor evangélico pentecostal e neo-pentecostal no país. Esse movimento, grandemente liderado pela Igreja Universal do Reino de Deus e seus pastores que, na maioria das vezes, não são teólogos, possui pautas conservadoras que, em muitos aspectos, vão contra o aspecto da laicidade do Estado Brasileiro, o que é um grande risco no cenário de instabilidade política e econômica em que se vive atualmente.

Mas, diante desse novo cenário que se abre, como pode uma teologia séria e comprometida com Deus e com a humanidade ocupar espaços na sociedade e o que se falta para isso?

Uma possível resposta é que temos, muitas vezes, teólogos e teólogas covardes. Falta-nos, em muitos aspectos, coragem e organização para tomarmos posição, assumir um lado de luta, denunciar atrocidades feitas em nome de Deus, ser voz profética contra aqueles que exercem autoridade tanto no país quanto nas igrejas.

Em muitas situações, falta-nos coragem para repensar a própria fé a partir das questões do cotidiano que tanto afligem diversas pessoas em nosso país, tais como a homofobia, a pluralidade religiosa, o aborto, o tráfico de drogas, a pobreza, a intolerância, o capitalismo predatório, a questão indígena, quilombola, ecológica, dentre tantas outras.

Para se repensar a fé em seus diversos contextos é preciso coragem para sair da zona de conforto ao mesmo tempo que se precisa criatividade para falar o que se crê de uma maneira nova. E tudo isso, na força do Espírito de Deus que renova todas as coisas e traz vidas nos lugares em que se impera a morte.

Assim, teólogos e teólogas de nosso país são chamados a serem corajosos e assumir o exemplo de Cristo de denúncia das estruturas de morte em todos os ambientes da vida pública e caminhada com os marginalizados de nossa sociedade, em prol de um mundo mais justo. Somente assim, ela estará apta a figurar na esfera pública como voz demandada e ouvida pela nossa sociedade.

Será que teremos essa coragem?’


Fonte :

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ciências da Religião e Teologia : passos em direção ao público

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Teologia e Ciência da Religião agora constituem nova área e não mais subárea da Filosofia.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘Talvez um dos maiores desafios da atual Teologia brasileira seja estar em diálogo com outras áreas de ensino. Apesar de vermos, em algumas faculdades, um crescimento do aspecto transdisciplinar e interdisciplinar no estudo teológico, o campo ainda se mostra bastante incipiente.

Por muito tempo, e mesmo hoje, muitos ambientes ainda ligam o estudo da Teologia a uma questão confessional. Continua comum a ideia de que quem é estudante da disciplina, o é porque tem o intuito de se tornar padre ou pastor, ou abrir algum tipo de igreja. A noção de que Teologia é somente para falar a respeito de dogmas e questões relacionadas à fé, infelizmente, é a que mais permanece dentro do imaginário popular e também universitário. Um exemplo disso é que não há, em todo o sistema universitário federal, o curso de Teologia e somente em três universidades federais (Paraíba, Sergipe e Juiz de Fora) existe o curso de graduação em Ciência da Religião. Isso mostra o grande desafio que essas duas áreas têm que enfrentar atualmente.

É louvável o movimento que tem sido feito por parte de alguns cientistas da religião, bem como de teólogos para que suas disciplinas entrem a fundo na esfera pública. Recentemente, uma nova área na Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES) foi criada com o nome de Ciência da Religião e Teologia. Esse feito é de grande importância para a área, uma vez que essa se torna autônoma e não mais uma subárea da Filosofia, como era.

Essa criação também é um grande passo para um trabalho ainda mais conjunto entre os campos de ciências da religião e da Teologia que, embora tenham diferenças e diferentes formas de se fazerem, possuem grandes proximidades e que podem e devem se complementar uma à outra.

Diante disso, percebemos um começo para que tanto a Teologia, quanto a Ciência da Religião, entrem nos meios universitários e, consequentemente, também no espaço público por meio de suas pesquisas e inserções sociais.

Ao mesmo tempo, como todo começo, também é necessário mais esforço para se consolidar como área que tem a contribuir para a sociedade e para a academia. Tanto a Ciência da Religião quanto a Teologia, mesmo com suas maneiras diferentes, colaboram grandemente para uma sociedade mais harmoniosa e consciente a respeito tanto das questões de fé, quanto de todo contexto antropológico, filosófico e psicológico envolvidos e misturados na cultura de nosso povo.

Vivemos em um país predominantemente cristão, contudo, em sua maioria, o conhecimento religioso e teológico se mostra extremamente pobre entre católicos e protestantes (os dois grupos de maior expressão no cristianismo brasileiro). Diante disso, esses passos merecem destaque e nosso total apoio, na esperança de que um dia as Ciências da Religião e a própria Teologia voltem a ser reconhecidas na sociedade como áreas que podem contribuir muito para o desenvolvimento do nosso país.

Alegremo-nos com cada passo dado e continuemos lutando e apoiando essa causa.’


Fonte :


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Deus não existe! A própria Bíblia diz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo de Felipe Magalhães Francisco,
Mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.
Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações,
da Arquidiocese de Belo Horizonte.


As Sagradas Escrituras já não são vistas como fonte, mas como reservatório.

‘Sim, a Bíblia diz, exatamente, isto : ‘Deus não existe!’. Está no versículo primeiro do Salmo 14 (13). Podem conferir. Há a possibilidade de se sustentar tudo e qualquer ideia a partir da Bíblia. Lembrem-se os leitores e leitoras, que a palavra Bíblia significa biblioteca. Os que pausaram a leitura para conferir o citado Salmo já descobriram que a fala ‘Deus não existe!’ é atribuída aos insensatos – os que não se deram ao trabalho de procurar, agora já sabem!

O título desse artigo demonstra uma técnica, infelizmente, muito comum nos meios religiosos fundamentalistas. Quando o assunto é Bíblia, importa dizer, todos corremos o risco de nos tornarmos fundamentalistas. Isso porque a Bíblia é compreendida como um livro sagrado e, geralmente, nosso envolvimento com ela é no nível da fé. O conflito é : como colocar em dúvida o que o texto diz, se ele é digno de fé? É nesse contexto em que todos estamos incluídos, quando digo da possibilidade de todos nos comportarmos como fundamentalistas, ao lermos as Sagradas Escrituras. Para minar essa possibilidade, apenas uma autêntica formação bíblica. Ao fim, perceberemos que não se trata de colocar em dúvida o que a Bíblia diz, mas de compreendê-la em seu contexto, bem como compreender os desdobramentos do que ela diz, em nossos dias.

Uma das características do fundamentalismo é o que chamaremos, aqui, de teologia da pinça. Trata-se, justamente, do que fizemos ao escolher um versículo solto da Bíblia, excluindo-o de seu contexto. É possível, sim, fazer uma pregação e, até mesmo, um longo retiro espiritual tendo como apoio apenas um versículo bíblico. Entretanto, isso seria possível, de forma honesta para com o texto, desde que não o tiremos de seu contexto. Já nos diz o velho e acertado ditado: o texto, fora do contexto, é motivo para pretexto.

No exercício religioso de muitos líderes, essa teologia da pinça é muito usual. Para confirmar um argumento, seja esse honesto ou absurdo, usa-se de um versículo bíblico, para dar garantias de que o que se argumenta deve ser levado a sério, pois a própria Bíblia confirma. Trata-se de usar a autoridade bíblica para difundir um pensamento que é próprio de quem prega. Barbaridades são feitas desse modo. A prática já não se limita aos líderes religiosos. Ela já atingiu os fiéis. Basta um acesso rápido às redes sociais para se atestar isso.

Há pouco tempo, a cantora gospel Ana Paula Valadão propôs um boicote a uma loja, porque a propaganda relativizava os papéis de gênero na sociedade. As reações foram muitas, tanto dos prós quanto dos que estavam contra. Uma coisa me chamou a atenção : nos comentários, o uso deliberado do livro de Levíticos para propagar a abominação de Deus em relação aos homossexuais. Os contrários a essa leitura citavam outros versículos do mesmo livro, com outras proibições hoje ignoradas pelos cristãos, como, por exemplo, a proibição em comer carne de porco e de fazer a barba, entre outras.

As reações dos militantes fundamentalistas foram imediatas, a partir do argumento da nova aliança em Jesus. Segundo a leitura deles, em Jesus, todos estamos desobrigados ao cumprimento das leis veterotestamentárias. Mas só para algumas coisas, como podemos ver! Afinal, o mesmo livro é usado para argumento de proibição de uma coisa, mas não vale para autenticar outras proibições. E tudo a partir de uma errônea leitura daquilo que significa a nova aliança em Jesus. Ora, ele próprio disse : ‘Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir’ (Mt 5,17).

Tal prática da pinça revela um uso utilitarista da Bíblia. As Sagradas Escrituras já não são vistas como fonte, mas como reservatório. A verdade bíblica, como Palavra de Deus, é a verdade da experiência de um povo que faz, ao longo da história, discernimentos de sua relação com Deus. Disso não podemos nos esquecer, pois essa é uma das grandes riquezas que a Bíblia nos traz. É preciso compreender que nada presente na Bíblia está solto : tudo se amarra de maneira orgânica.

Aos teólogos da pinça, um aviso, a partir da própria Bíblia : ‘Para todo o que ouve as palavras da profecia deste livro vai aqui o meu testemunho : se alguém lhe acrescentar qualquer coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão aqui descritas. E se alguém retirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe retirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, que se encontram descritas neste livro’ (Ap 22,18-19). E aí, para isso vale a literalidade ou não?’


Fonte :
* Artigo na íntegra