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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Papa encoraja o trabalho do Serviço Sacerdotal Noturno de Urgência na Argentina

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  


 Iniciativa nasceu há 60 anos com o objetivo de assegurar os sacramentos aos fiéis necessitados, em momentos que não é fácil encontrar um padre


‘O próximo Jubileu extraordinário da Misericórdia será ‘uma boa ocasião para intensificar a colaboração entre os pastores e os leigos, na missão de apoiar com assistir com ternura os doentes e os moribundos’, expressou o Papa Francisco em carta enviada a Manuel Martin Sjöberg, presidente da Federação dos Serviços Sacerdotais Noturnos de Urgência.

A iniciativa nasceu em 1952 na cidade argentina de Córdoba, a fim de garantir os sacramentos aos fiéis, em horários que não é fácil encontrar um padre.

Além disso, o Santo Padre reitera na carta o seu apoio e incentivo à obra de misericórdia cristã, que há 60 anos é realizada por voluntários da Federação dos Serviços Sacerdotais Noturnos de Urgência.

Ao falar dos necessitados, Francisco exortou : ‘as nossas mãos seguram as mãos deles, e as trazemos a nós, para que o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade’.

Não podemos escapar das palavras do Senhor segundo as quais seremos julgados. Dediquemos tempo para acompanhar os que estão doentes ou na prisão, sabendo que em cada um destes ‘pequenos’ está presente o próprio Cristo’.

Para terminar a carta, o Pontífice encorajou ‘todos aqueles que já realizam esse serviço’ e pediu para rezarem por ele.

O Serviço Sacerdotal de Urgência Noturno é um serviço gratuito oferecido pela Igreja, que presta assistência espiritual e religiosa à pessoas doentes, deficientes ou em estado terminal, em horários difíceis de encontrar um padre. O serviço é realizado por um religioso e dois ou quatro leigos que, das 21:30 as 06:30, estão atentos às chamadas de quem pede ajuda’.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/papa-encoraja-o-trabalho-do-servico-sacerdotal-noturno-de-urgencia-na-argentina


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Consolação e esperança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

‘O Papa tem uma palavra para todos : pastores; jovens, idosos, organizações carititativas, cristãos em geral, membros doutros grupos religiosos e étnicos, comunidade internacional... a todos apelando a não resignar-se à situação de conflito, mas a dar, isso sim,  o próprio contributo para que se possa construir o mosaico da paz.

Seguindo as pegadas de São Paulo na sua carta aos Coríntios, o Papa Franscisco situa a suamissiva no espírito da consolação e esperança que nos vêm de Deus e que se manifesta mais uma vez, de forma inefável, na comemoraçao do nascimento de Cristo.

O Papa diz acompanhar todos os dias as notícias que chegam do Oriente Médio, onde aflições e tribulações não têm faltado, infelizmente, mas mostra-se particularmente preocupado por aquilo a que define de ‘organização terrorista, de dimensões antes inconcebíveis, que comete toda a espécie de abusos e práticas indignas do homem’, atingindo de forma particular os cristãos expulsos das suas terras, onde viviam desde o tempo dos apóstolos. Um sofrimento que brada a Deus, apelando ao compromisso de todos por meio da oração e iniciativas.

A todos, sem distinção de religião ou grupo étnico, o Papa exprime, em seu nome e da Igreja em geral ‘unidade e solidariedade’. E fá-lo pensando de modo particular ‘nas crianças, nas mães, nos idosos, nos deslocados e refugiados, em quantos padecem a fome, naqueles que têm de enfrentar a dureza do inverno sem um teto para se protegerem’.

Franciso encoraja à unidade em Cristo, nossa consolação e nossa esperança, uma unidade mais do que nunca necessária. E recorda os ‘pastores e fiéis, a quem foi pedido o sacrifício da vida, nos últimos tempos, muitas vezes pelo simples fato de serem cristãos’; as ‘pessoas sequestradas, incluindo bispos ortodoxos e sacerdotes de diferentes Ritos’, pedindo a Deus para que possam regressar sãs e salvas às suas comunidades.

O Papa indica depois alguns sinais do ‘Reino de Deus’ no meio dessas hostilidades e sofrimentos :

Antes de mais, alegra-se pela a comunhão vivida com fraternidade e simplicidade entre católicos, ortodoxos e fiéis de outras Igrejas na região. Um ‘ecumenismo do sangue’ – diz - exprimindo o desejo de que possam sempre ‘dar testemunho de Jesus através das dificuldades. A vossa presença é preciosa para o Oriente Médio’ – escreve Francisco na sua carta em que agradece aos cristãos pela sua ‘perservença’; cristãos que ele define de ‘fermento na massa’, um pequeno rebanho, mas com ‘grande responsabilidade’ na terra onde nasceu e donde irradiou o cristianismo.

Outro sinal do ‘Reino de Deus’ indicado pelo Papa é ‘o esforço por colaborar com pessoas doutras religiões, com os judeus e com muçulmanos’. Francisco recorda que não há outro caminho senão o do diálogo inter-religioso. O diálogo é um ‘serviço à justiça e uma condição necessária para a tão desejada paz’ – remata.

O Papa encoraja aos cristãos a ajudarem a maioria muçulmana que vive à sua volta a dar, com coragem e firmeza, testemunho de um Islã como religião de paz e respeitoso dos direitos humanos. Encoraja-os também a usufruir do direito de participar plenamente na vida e crescimento das suas nações, a serem construtores de paz, reconciliação e desenvolvimento, a construirem pontes segundo o espírito das bem-Aventuranças e a colaborarem com as autoridades nacionais e internacionais.

E aqui exprime a sua gratidão aos pastores, desde os patriarcas às religiosas pela sua presença, acompanhamento e solicitude junto das comunidades, recordando-lhes que a presença dos pastores junto dos seu rebanho é importante sobretudo nos momentos de dificuldade.

Aos jovens, o Papa manda um abraço, convidando-os a não terem medo, nem vergonha de ser cristãos. Aos idosos, memória do povo, exprime a sua estima, esperando que a essa memória seja semente de crescimento para as novas gerações. O seu apreço vai também para a Cáritas e outras organizações caritativas católicas de vários países, enaltecendo de modo particular o esforço na educação para a cultura do encontro, respeito e dignidade de cada ser humano.

Assegurando a ajuda de toda a Igreja, em oração e todos os meios à disposição, o Papa repudia mais uma vez o tráfico de armas, recordando que o que é necessário são projetos de vida. E incita a Comunidade internacional a acudir os povos do Oriente Médio, ‘promovendo a paz por meio da negociação e da atividade diplomática’.

Nos rastos da sua viagem ao Oriente Médio e do encontro de oração no Vaticano com os Presidentes de Israel e da Palestina, o Papa convida a continuar a rezar pela paz no Oriente Médio.

E conclui recordando ‘às queridas irmãs e irmãos cristãos do Oriente Médio’ que têm uma ‘grande responsabilidade’ e que não estão sozinhos a enfrentá-la. Exprime também o desejo de ‘ter a graça de ir pessoalmente’ visitá-los e confortá-los.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/consolacao-e-esperanca-papa-aos-cristaos-do-medio
  

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Missionárias Combonianas em Israel : Flores no deserto

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
* Artigo de Padre E. Ismael Piñón,
Missionário Comboniano


 Em Israel, a terra de Jesus, há realidades que não saltam à vista, como a situação dos beduínos ou a tragédia dos imigrantes e refugiados africanos que chegam a este país depois de uma infernal odisseia no Sinai. A estas duas realidades entregam-se de corpo e alma duas missionárias combonianas : a espanhola Alicia Vacas e a eritréia Azezet Habtezghi.


‘As Missionárias Combonianas já trabalham há muitos anos na Terra Santa. Vivem em Betânia, numa bonita casa literalmente pegada ao muro de segurança que separa Jerusalém da zona palestina e na qual têm um pequeno jardim-de-infância frequentado por meia centena de crianças. Quando o Governo israelita levantou o muro, cortou-lhes praticamente a possibilidade de estar em contacto com as pessoas. Desde então, duas delas, as Irmãs Alicia Vacas e Azezet Habtezghi, vivem numa pequena casa arrendada do outro lado do muro, apenas a cinquenta metros da casa de Betânia, mas à qual só se pode chegar fazendo um desvio de 18 quilómetros. Não foi uma decisão fácil, mas se queriam estar presentes no meio das pessoas, não lhes restava outra alternativa.


Beduínos

Várias vezes por semana vão visitar os acampamentos de beduínos, uma comunidade que vive completamente marginalizada e cuja subsistência depende quase exclusivamente do que recebe das Nações Unidas. Quando se criou o Estado de Israel, em 1948, muitos deles negaram-se a ir para o Exército israelita para cumprir o serviço militar, o que teve como consequência ser-lhes negado o passaporte e verem-se votados a um abandono total por parte de Israel.

A Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) também não se preocupa com eles, o que faz com que seja um povo abandonado à sua sorte. Vivem precariamente no deserto da Judeia, entre Jerusalém e Jericó. Pelo menos, têm o estatuto de refugiados, o que os coloca sob a protecção das Nações Unidas. Na actualidade, a ONU tem registados 24 acampamentos nestas condições, onde vivem cerca de 450 famílias no total, à volta de quatro mil pessoas.

Quando começaram os colonatos judaicos’, conta-me Alicia enquanto conduz o carro por uma estrada empedrada a caminho do acampamento de Wadi Abi Hindi, ‘construíram-se justamente sobre as fontes de água e criaram-se zonas de segurança ao seu redor, nas quais os beduínos não podem entrar, pelo que já não têm acesso à água. Não têm, igualmente, a possibilidade de apascentar, e sem esta forma de sustento animal, eles não podem alimentar os rebanhos, ficando sem o seu principal recurso para sobreviver. A pouca água que têm no acampamento chega-lhes através de uma simples canalização à superfície a partir de um povoado palestino que se encontra a 14 quilómetros.’ A dado momento do nosso trajecto, passámos diante da lixeira de Jerusalém Este, onde o Governo israelita tinha planeado abandoná-los. Por sorte, o plano chegou aos ouvidos das Nações Unidas e pôde ser travado.

À medida que crescem os colonatos judaicos, vai-se reduzindo o espaço vital dos beduínos. Vivem praticamente em reservas ao ar livre. Ao não poder alimentar o gado, foram-no vendendo. Cada família mantém apenas dez ou doze cabras, quando antes os seus rebanhos somavam 200 ou 300 animais. ‘Perderam a sua forma de vida tradicional e tornaram-se dependentes das Nações Unidas, que a cada três meses, desde há 65 anos, lhes dá uns sacos de farinha, lentilhas, umas latas de azeite ou de açúcar’, queixa-se amargamente Alicia.

Por definição, os beduínos estão todos no deserto’, comenta Alicia. ‘Não têm autorização de construção, não podem ampliar a casa, por exemplo, quando se casa um filho. Vivem em barracas de chapa de zinco ou de madeira. Se construírem uma barraca para os animais, inclusive, é imediatamente demolida. Em quase todos os lugares onde trabalhamos há ordens de demolição pendentes. Daí nasceu a ideia de construir uma escola com rodas de carro. Não tem alicerces, nem estrutura metálica, nem cimento. Mas até essa, antes de estar terminada, já tinha a ordem de demolição. A nós, confiscaram até os baloiços de um centro de educação infantil.


Prioridade para a educação

A presença das Combonianas nesta realidade data de 2007. Primeiro de maneira muito simples, visitando as famílias para conhecer a sua realidade e saber quais eram as suas necessidades mais urgentes. ‘Com outra Irmã e um membro da ONG Rabinos pelos Direitos Humanos, comecei a ir de acampamento em acampamento’, afirma a Irmã Alicia, que acrescenta : ‘Aí dei-me conta de que para eles a primeira prioridade era a educação. São conscientes de que os seus filhos não vão ser beduínos, que a sua forma de vida tradicional está a acabar e que não têm outras alternativas, e vêem na educação a única saída. Por isso, vamos onde formos, pedem-nos sempre escolas. Dão muitíssima importância à educação. Começámos então a colaborar com outros organismos para a construção das escolas e a formar raparigas dos acampamentos para que possam ser professoras.’

À parte a educação, o tema sanitário ocupa o segundo lugar nas prioridades. Graças à ajuda de outros organismos, conseguiram formar como agentes de saúde 18 jovens beduínas, três das quais foram contratadas pelo Ministério da Saúde palestino e são já funcionárias públicas.


Uma tragédia no Sinai

Tanto a Irmã Alicia como a Irmã Azezet colaboram também com a ONG Médicos pelos Direitos Humanos (MPDH), uma organização internacional cuja delegação israelita se ocupa especialmente daquelas pessoas que em Israel não têm acesso à assistência sanitária. Além de uma clínica móvel, que se desloca todos os sábados a território palestino para oferecer um serviço especializado, a MPDH tem uma clínica aberta em Jaffa, na periferia de Telavive, onde atende nomeadamente as pessoas que não têm médico seguro nem gozam de qualquer tipo de seguro de saúde; entre eles, os refugiados e imigrantes sem papéis, a maioria dos quais são africanos.

Enquanto vamos a caminho da visita a este centro, a Irmã Alicia dá-me pormenores de uma realidade trágica que brada aos céus. ‘Em 2007, começaram a chegar mais de cem sudaneses por dia, quase todos do Sul, devido à violência que se vivia naquele então Sudão Meridional. A clínica entrou em colapso e a ONG Médicos pelos Direitos Humanos começou a questionar-se a que se devia essa enorme afluência de sudaneses.’

A comboniana prossegue o seu relato : ‘A nossa surpresa aconteceu sobretudo quando vimos que vinham com feridas de bala. Logo de seguida, começaram a chegar pacientes com sinais evidentes de tortura; chagas infectadas, golpes, ferimentos provocados pela corrente eléctrica, queimaduras de plástico... Ao princípio, aquilo ultrapassava-nos, porque não tínhamos nem o tempo nem a capacidade de compreender o que se estava a passar. Os pacientes falam pouco, estão traumatizados, não querem contar muito, não sabem a língua.

Nesse contexto, entre 2008 e 2009, fez-se um estudo sobre o número de mulheres que tinham chegado à clínica a pedir para abortar, porque diziam que as tinham violado no Sinai. ‘Em pouco tempo’, prossegue a Irmã Alicia Vacas, ‘o número tinha duplicado, e quase todas aduziam a mesma razão : que as tinham violado no Sinai. Aquilo cheirava-nos mal por todos os lados. Começámos a investigar e a fazer um questionário a todos os que chegavam. O que nos acontecia do ponto de vista médico, sucedia também a outras organizações de apoio social.’

Foi nessa época que chegou a Irmã Azezet. Para Alicia e os demais médicos, foi como um presente de Deus, porque ao ser eritréia e ao ter trabalhado no Sudão conhecia a língua e podia comunicar-se sem problemas com os refugiados que chegavam. Antes de entrar no processo médico, Azezet tinha uma entrevista com eles para tentar saber o que se estava a passar no Sinai.


Rede de tráfico

Esta comboniana eritréia fez mais de 1800 entrevistas e o que descobriu foi aterrador : havia toda uma rede de tráfico de seres humanos desde os seus países de origem ou desde os países limítrofes, campos de refugiados da Etiópia, do Sudão ou Egipto até Israel, através do Sinai. ‘Cada vez se via com maior clareza como funciona a coisa’, explica-me a Irmã Alicia. ‘Nos seus próprios países ou nos campos de refugiados, alguém se aproxima deles e oferece-se para os passar para Israel por um preço entre os 2000 e os 2500 dólares. Mas quando chegam ao Sinai são retidos e submetidos a tortura e extorsão. Os 2500 dólares vão subindo e multiplicando-se. Põem-nos ao telefone com as famílias para que mandem mais dinheiro. Quanto mais tarda em chegar o dinheiro, mais se incrementam as torturas ou são vendidos a outros grupos. Temos pacientes que estiveram nove meses no Sinai. Alguns a trabalhar como escravos a cuidar dos camelos, outros a sofrer castigos corporais, as mulheres, na sua maioria, como escravas sexuais. O que seja até que consigam pagar. Agora ainda estão a pagar até 40 mil dólares por sair do Sinai.’

O enorme esforço de escuta das vítimas e o seu grande trabalho para dar a conhecer e denunciar esta situação valeu à Irmã Azezet ser galardoada com vários prémios internacionais, entre os quais sobressai o Prémio Heróis contra o Tráfico de Pessoas, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que recebeu em Julho de 2012.


Mulheres desesperadas

Na parte sul de Telavive há também uma casa de acolhimento para mulheres que permaneceram vários meses no deserto do Sinai. Enquanto vamos visitá-la, Alicia e Azezet põem-me ao corrente da situação destas mulheres, a maioria das quais foram violadas e chegam a Israel grávidas de seis ou sete meses e com o desejo de abortar. A Irmã Azezet é para elas uma tábua de salvação, porque podem falar e desabafar com ela. Em Julho, a casa foi atacada pelos vizinhos. ‘Uma casa que recolhe somente mulheres grávidas e bebés’, protesta a Irmã Alicia. Neste momento há 17 mulheres grávidas ou com bebés nessa casa, que necessitam de protecção.

A Irmã Azezet vai a Telavive todas as terças-feiras e fica a dormir lá. De manhã, faz um trabalho de seguimento e acompanhamento, visitando especialmente as mulheres. À tarde, ajuda na clínica. É ela que suporta toda a carga emocional, já que ao conhecer a língua e a cultura dos imigrantes é quem escuta os seus testemunhos, as torturas e os vexames que sofrem. Está constantemente a receber chamadas telefónicas de todas as partes, gente desesperada que procura nela uma palavra de consolo ou simplesmente um coração aberto que escute as suas penas e lhe dê um pouco de paz. Não é fácil, porque as sequelas humanas que a tortura ou a violação deixam são enormes. ‘Em poucos meses, tivemos três casos de suicídio, casos de violência doméstica ou alcoolismo. Várias organizações humanitárias, juntamente com a União Europeia, iniciaram um programa de reabilitação e ajuda a esta gente e deram-lhe o nome ‘Projecto Azezet’’, explica a comboniana espanhola.


Tudo e para sempre

Já em casa, converso amigavelmente com estas duas missionárias que são como duas flores no meio do deserto israelita. Chama-me enormemente a atenção a sua vitalidade e, sobretudo, a sua alegria. A resposta, dão-ma elas mesmas : o segredo está na sua fé em Deus e na convicção de que a sua vocação está enraizada em Cristo.

Alicia decidiu-se a consagrar a sua vida depois de uma Páscoa missionária em que participou quando tinha 17 anos. ‘Foi fundamental para a orientação da minha vida’, confessa. ‘Desde então, começou uma reflexão sobre para onde estava a levar a minha vida, que espaço tem a missão nela e o que tem que ver Jesus Cristo com esta missão. Foi como um chamamento a passar de uma inquietude pelo social, pelos pobres e a missão a ir mais além. Para mim, foi-se confirmando cada vez mais a vocação de consagrada, que no princípio não entrava nos meus horizontes nem no meu programa original, mas que encaixava como resposta a esse chamamento que eu sentia dentro de mim. Quando queria encaixar a missão na minha vida de fé, a resposta que me surgia sempre era “tudo e para sempre” e isso agradara-me ou não implicasse uma consagração.’

Azezet começou a trabalhar com leprosos. A sua primeira missão foi o Sul do antigo Sudão, onde passou treze maravilhosos anos, segundo ela própria confessa. Para ela, a chave de tudo é a sua convicção de que Deus é Pai de todos. ‘É a primeira vez que venho a Israel e que tenho contacto com o povo judeu, as suas sinagogas, as suas orações, a sua crença e a sua visão’, afirma. E acrescenta : ‘São os nossos antepassados na fé, Jesus era hebreu. Sou afortunada por ter crescido em Massawa, onde a maioria é muçulmana, todos os meus amigos e colegas de escola eram muçulmanos. Na Etiópia também há coptas e protestantes. Para mim, Deus é único, para as três religiões é o Pai de todos, que ama a todos e nos criou à sua imagem e semelhança. Todos – judeus, católicos, muçulmanos ou protestantes – somos filhos de Deus, criados à Sua imagem. A diferença está em que nós partimos de baixo, das nossas diferenças, em vez de partir de cima, da nossa crença de que todos somos imagem de Deus.’


O nosso lugar

Israel é um país com uma situação muito complexa, com realidades tão distintas como são os beduínos ou os refugiados. Porém, ambas respondem a uma única pergunta, que é uma pergunta muito comboniana : ‘Quem são os mais pobres e abandonados aqui e agora?’ Esta é a pergunta que ressoava na comunidade das Combonianas quando a Irmã Alicia chegou : ‘Projectávamos como dar resposta a esta situação concreta como combonianas. O nosso ser missionárias coloca-nos nas fronteiras, sejam geográficas, culturais ou humanas. Estes dois grupos humanos com os quais escolhemos trabalhar são a resposta à pergunta de onde devemos estar neste momento. Onde estejam essas fronteiras, aí está o nosso lugar.’

O facto de viver em Jerusalém não é alheio à vivência que estas duas missionárias têm da sua vocação. Aqui, na Terra Santa, tudo se vê e se vive de maneira diferente. ‘Parte da serenidade, da força, da alegria que recebemos vem da certeza de que nesta terra a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo ainda se vivem hoje’, confessa a Irmã Alicia.

Por seu lado, a Irmã Azezet admite : ‘Com Jesus Cristo, sinto-me mais enraizada na minha fé. Ao encontrar tanto sofrimento, sinto que Cristo vive a cruz comigo e me ajuda a viver as cruzes e sofrimentos que encontro todos os dias nas pessoas. Esse sofrimento faz-me entrar na vida de Jesus, na sua cruz, e isso ajuda-me em todos os sentidos, faz-me ser mais radical, já que não posso passar de maneira superficial pela vida que encontro em cada dia.’

Estes povos e esta terra são para elas uma riqueza inegável : ‘Vejo como a minha vida e o meu caminho espiritual se dilatam quanto mais conheço e quanto mais participo na sua vida, nos grandes acontecimentos como o casamento, o nascimento de um filho, a morte…’, reconhece Alicia, para acrescentar que ‘é algo específico que dá um sentido muito pessoal à minha própria experiência da vida, da morte, da dor, do sofrimento, do conflito, do perdão.’’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFAyVkkpuAONaCqaKw
  

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A carícia do Papa para o mundo do sofrimento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

     
‘A carícia do Papa aos sofredores. Os doze assistidos da Fundação Don Gnocchi a quem o Santo Padre dedicará o gesto do lava-pés, por ocasião da Missa in coena domini de amanhã, quinta-feira santa, no Centro “Santa Maria ala Provvidenza” de Roma são o símbolo – cada um no seu próprio calvário de lágrimas e de dor e na própria necessidade de proximidade e esperança – das velhas e novas formas de fragilidades nas quais a comunidade cristã está chamada a reconhecer o Cristo sofredor e a dedicar atenção, solidariedade e caridade.

Os doze pacientes aos quais o papa Francisco lavará os pés são afetados por deficiências – para alguns crônica e para outros temporária – com a qual se enfrentam desde o nascimento ou desde que eram muito jovens. Com idades entre os 16 e os 86 anos (nove italianos e três estrangeiros, dos quais um de fé muçulmana), estão sofrendo de doenças de invalidez de caráter ortopédicas, neurológicas e oncológicas.

O mais novo se chama Osvaldinho e é natural de Cabo Verde, embora residindo em Roma. Em Agosto do ano passado, um mergulho banal no mar destruiu a sua adolescência. A água muito baixa e o impacto violento lhe causou um trauma vértebro-medular obrigando-o a ficar em uma cadeira de rodas.

Há também uma mulher romana, Orietta, 51 anos, atingida há dois anos pela varíola que lhe causou encefalite. Aos 3 anos, no entanto, Samuel, hoje sessenta e seis, foi atingido pela poliomielite, doença que naquela época dizimava as crianças e às quais Pe. Gnocchi se dedicou depois que tinha passado a exigência dos aleijados.

A um jovem de 19 anos chamado Marcos, proveniente da Sabaudia (LT), foi encontrado em outubro passado um tumor cerebral. Vem da província de Latina (da vila de Maendy) também Angelica, 86, que em 1988 sofreu a primeira cirurgia no quadril esquerdo, o início de um calvário que teve o último capítulo em agosto do ano passado : queda com fraturas do quadril já operado e de várias costelas .

E também Daria, 39, sofre de tetraplegia espástica neonatal; Pedro, 86 anos, que sofre de deficiência do equilíbrio e do caminhar e hipotonotrofia muscular; Gianluca, 36 anos, que desde a idade dos 14 anos passou por várias operações para meningiomas; Stefano, 49 anos, sofre de oligophrenia grave e espasticidade nos resultados de cerebropatia neonatal; Hamed, 75, muçulmano líbio, que sofreu graves danos neurológicos como resultado de um acidente de carro; Giordana, 27, da Etiópia, que sofre de tetraplegia espástica, escreve poemas e cuida com outros deficientes do Centro para a emissora web "Radio Don Gnocchi". Finalmente, Walter, de 59 anos, que sofre de síndrome de Down.’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/a-caricia-do-papa-para-o-mundo-do-sofrimento

  

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ciganos, um teste à nossa fé

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de P. Manuel Soares,
então Diretor da Obra Católica De Migrações

‘Em certos momentos e circunstâncias compreendemos melhor a força das palavras de Jesus. Dirigida aos judeus do seu tempo, a Parábola do Samaritano não teria sido nada fácil de «engolir» para o judeu formalmente religioso, defensor, modelo, legislador da correcta e oficial religião judaica naquela época.

Com efeito, o único que, na história contada por Jesus, se tinha comportado decentemente era o desprezado, rejeitado, esquecido samaritano, que o judeu não suportava e excluía da sua convivência, sem qualquer escrúpulo de consciência.

Nós, que estamos fora da história do samaritano, achamos que as palavras de Jesus vieram a propósito e foram uma boa lição para aqueles judeus orgulhosos, legalistas, pseudo-religiosos, incapazes de compreenderem e viver a «verdadeira religião». Às vezes, achamos até que nós, enquanto cristãos, éramos incapazes, seria mesmo inconcebível ter um comportamento semelhante ao dos representantes do judaísmo oficial, que eram o sacerdote e o levita. É verdade tudo isto. O cristianismo deverá elevar-se acima do judaísmo, o Evangelho é guia claro para o nosso modo de agir. De resto, a situação narrada é de outro tempo, a história apresentada por Jesus é da sua época.

O nosso grande drama é justamente olharmos para o Evangelho pelo lado de fora, fora e acima dele, considerando-o bem aplicado a um tempo, a uma história, a circunstâncias determinadas, a pessoas concretas difíceis de se emendar. Nós não estamos lá dentro, não somos actores, nem ouvintes a quem as palavras ferem e doem, não sentimos o olhar do Senhor voltar-se para nós. E, contudo, é bem fácil introduzirmo-nos nesta parábola e reagirmos às cortantes palavras de Cristo, com uma pequena modificação do texto: «Casualmente descia por esse caminho um sacerdote...; igualmente um levita...; porém, um cigano que ia em viagem chegou junto dele, viu e moveu-se de compaixão.»


Aos nossos olhos perguntamo-nos seriamente: será possível que um cigano alguma vez faça isso por um não cigano? Tal como os judeus em relação aos samaritanos, dizemos não. É aqui que ficamos cegos e surdos às palavras de Jesus: esta parábola não é possível ser real, não tem sentido.


Na Igreja que nós somos não queremos ouvir dos ciganos, não toleramos as palavras de apoio, de respeito e de solidariedade que alguns idealistas e contestatários habituais, brandindo o Evangelho, proferem contra o sentir comum e geral do povo, sejam eles leigos, padres ou mesmo bispos. Dentro da Igreja, em largos sectores e a muitos níveis, reina a intolerância para com o povo cigano e, se alguns não ousam a palavra «intolerância», preferem, contudo, fazer «tabu» do assunto ou mostrar toda a sua compreensão, aceitação e apoio explícito às atitudes de rejeição e de agressividade de algumas comunidades e autoridades que «não querem poluir as suas aldeias». Jesus certamente sabia que os samaritanos do seu tempo não eram «impolutos» nem impecáveis.

Pela nossa experiência humana e social sabemos todos, mesmo os que ousam defender a convivência entre todos os seres humanos, que dentro da etnia cigana há crime, violência, exploração, miséria moral. Mas quem nos dá autoridade para condenarmos de uma só vez todo um sector da população, atribuindo-lhe a origem dos males da sociedade, deixando o resto dos homens e das mulheres «intocáveis» ou «desculpáveis»? Quem nos diz que entre os ciganos não se encontra gente séria, honesta, boa e santa? A Igreja acaba de reconhecer um deles como «quase santo» e outros certamente estarão escondidos. Será pela rejeição, pela «guetização» que nós, gente civilizada e educada, podemos transformá-los, instruí-los, educá-los, integrá-los na nossa sociedade, respeitando, contudo, a sua cultura e os seus valores (que os têm)?

O Evangelho toca-nos verdadeiramente. Estamos dentro dele. Por isso, a vida e os próprios ciganos são um desafio para a Igreja do nosso tempo.’


Fonte :
*Artigo na íntegra http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EEuupVVFAZcKnoZLGN

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Suicídio: a definição em três pontos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Carlo Bellieni , neonatologista e bioeticista

‘O suicídio é o assassinato de si mesmo, um ato cuja relação com a solidão é geralmente muito estreita, a ponto de lançar dúvidas sobre a verdadeira liberdade de escolha de quem o comete. O suicídio assistido é o ato de provocar a própria morte através de um terceiro, com a aprovação do sujeito.
  
Realismo

É o ato de dar fim voluntariamente à própria vida. Em caso de não ser possível fazê-lo ativamente e por isso apelar-se para a ação de outro, temos o suicídio assistido. O suicídio pode ser cometido ativamente, mediante fármacos ou armas ou com intervenções lesivas de vários tipos, ou passivamente, removendo-se os instrumentos necessários para a salvação da vida. O suicídio foi condenado pela cultura ao longo dos séculos. Hoje, uma corrente pós-moderna o considera um ato de livre escolha e, por isso, digno de respeito. Com frequência, quem recorre ao suicídio está em situação de abandono ou depressão; mais raramente, em situação de sofrimento físico ou de doença terminal. O suicídio, especialmente quando muito alardeado pela mídia, acaba se tornando “contagioso” e sugestionando outros a cometê-lo.

A razão

Quem e por que recorre ao suicídio? Um estudo canadense mostra que, entre os enfermos que solicitam a morte, é alto o índice de pessoas deprimidas. Mas a depressão é tratável : assim sendo, a lei sobre a eutanásia não acabaria deixando de proteger os pacientes cujas escolhas são influenciadas pela própria depressão? Dos idosos deprimidos, de acordo com estudos, apenas 10% são encaminhados a especialistas, contra 50% dos jovens deprimidos. Não deve surpreender, portanto, que alguns deles peçam para morrer.

Como pretender a liberdade de suicidar-se no hospital ao mesmo tempo em que se lamenta o suicídio de quem se atira de uma ponte? É um paradoxo que compromete qualquer suposta liberalização: quem aprova o primeiro suicídio e desaprova o segundo nunca explicou quem está autorizado a decidir quais são as pessoas dignas do suicídio e quais não são. Se o suicídio é liberdade, por que preocupar-se com a sua propagação? Com que base admitir ou excluir uma pessoa do suicídio autorizado por lei? Tanto faria, afinal, aprovar todos os suicídios, mesmo o do adolescente que perde a namorada ou o da garota que vai mal na universidade. Quem é o juiz laico do coração dos outros? A tragédia é que, em nome da solidão elevada a suprema corte e poeticamente chamada de "autonomia", ninguém mais estará autorizado a salvar o suicida, pois qualquer interferência seria ilegal: a decisão do suicida, afinal, é seu direito. No panorama atual, podemos esperar que aquele que salva um suicida, em vez de receber um prêmio, seja denunciado.

O sentimento

O suicídio é um grito de socorro que exige uma resposta. É urgente melhorar o atendimento para todos, especialmente para as pessoas com deficiências mentais, para as pessoas abandonadas e para as vítimas da angústia. E é urgente parar de dizer que tudo o que decidimos em nossa solidão é uma decisão correta. É muito fácil para o Estado liberar o suicídio, livrando-se da sua responsabilidade e da sua obrigação à solidariedade.’


Fonte :
*Artigo na íntegra http://www.zenit.org/pt/articles/suicidio-a-definicao-em-tres-pontos

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Apostolado do Mar : Cardeal Vegliò pede solidariedade aos marítimos reféns de piratas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)




Não podemos ignorar a situação penosa em que muitos pescadores e suas famílias estão vivendo.’ E um pensamento espiritual dirige-se aos marítimos, ainda reféns dos piratas, e aos familiares deles à espera’.

No signo da solidariedade, o presidente do Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, Cardeal Antonio Maria Vegliò, colocou esses dois pensamentos no centro de seu pronunciamento com o qual abriu na manhã desta segunda-feira, em Roma, o Encontro anual dos Coordenadores Regionais do Apostolado do Mar, que prosseguirá até a próxima sexta-feira, dia 24.

Em seu pronunciamento, o purpurado definiu urgente’ a adoção de medidas mais significativas para desenvolver abordagens antigas e novas ao cuidado pastoral voltado para o mundo dos pescadores’, pedindo aos capelães e voluntários que continuem estando ao lado dos que vivem o drama dos sequestros no mar e que mostrem aos familiares destes o rosto amoroso da Igreja’.

O Cardeal Vegliò evocou – à distância de um ano do Congresso do Apóstolo do Mar, realizado no Vaticano – as palavras de João Paulo II na Carta Apostólica Stella Maris – promover um espírito ecumênico no mundo marítimo (...) para encorajar e promover a cooperação e a coordenação recíproca dos projetos entre as Conferências Episcopais e os Ordinariatos locais’ – calando-as no cenário atual.

O cenário de um setor que – observou – está rapidamente se transformando com a abertura de novas rotas marítimas e a fusão das empresas voltadas para maximizar a eficiência e o lucro’.

Para fazer frente a isso, o presidente do dicastério vaticano convidou a reforçar a solidariedade entre as nações’ empenhadas nesta específica atividade pastoral na partilha de recursos’ e no desenvolvimento de competências nos vários setores da indústria marítima, em particular, da pesca.

Com um diálogo paciente – afirmou ainda – se deverá criar nas Igrejas nacionais e diocesanas a consciência e a atenção a esse ministério muito específico, de modo que o apostolado do mundo marítimo seja considerado parte da solicitude pastoral ordinária das Igrejas’.

Do ponto de vista organizativo, relativo ao Apostolado do Mar, o dicastério dos Migrantes subdividiu o mundo em nove regiões e confiou a um coordenador o cuidado pastoral de cada região.

As nove regiões do mundo são: América do Norte e Caribe, América Latina, África Oceano Índico, África Ocidental, Europa, Ásia do Sul, Ásia Oriental e do Sul, Estados Árabes do Golfo, e Djibuti. (RL)’ 


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/apostolado-do-mar-cardeal-veglio-pede-solidariedad


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Scalabrini e os sinais dos tempos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo do Pe. Alfredo Gonçalves,
reflete sobre o Dia Mundial do Migrante


‘A expressão “sinais dos tempos” remete ao Evangelho de Mateus. Jesus reprova a incredulidade dos fariseus porque, sendo capazes de ler no céu os sintomas que anunciam chuva ou sol, revelam-se ao mesmo tempo incapazes de ler na terra os sinais dos tempos (Mt 16,1-4). Estes últimos, em linguagem teológica, representam as digitais de Deus no pergaminho da história. Os dedos invisíveis do Criador costuram os fatos aparentemente brutos e absurdos, conferindo-lhes um sentido mais profundo e oculto a olho nu. No ditado popular, “Deus escreve direito por linhas tortas”. É justamente esse significado teológico da história que escapa à percepção dos interlocutores de do Mestre da Galileia, aferrados que estão ao cumprimento estrito da lei. Conhecem, sim, os acontecimentos, mas não os observam com os olhos da fé ou do coração. Voltam-se para o passado, ignorando a irrupção divina no curso da trajetória humana. 


 Nessa perspectiva, o bispo de Piacenza, Itália, Giovanni Batista Scalabrini, foi capaz de ser um homem do seu tempo. Nasceu em 1837 e faleceu em 1905, tendo se revelado um protagonista do século XIX com os olhos voltados para o século XX. Historiadores do porte de Peter Gay e Eric Hobsbawn cunharam esse período como o século das revoluções e do movimento. Movimento aqui em duplo sentido: o das máquinas e o das pessoas. Estas se moviam não somente do campo para a cidade, mas também do velho continente europeu para as novas terras da América, da Austrália e da Nova Zelândia. Quanto às máquinas, basta pensar na velocidade sem precedentes do trem, do navio e do automóvel, inicialmente movidos a vapor. Tempos modernos, com “sede de inovações” e em permanente “agitação febril”, como se lê na abertura da Rerum Novarum, carta encíclica do Papa Leão XIII (1891) que inaugura a Doutrina Social da Igreja. 

 Em termos mais concretos, podemos ver isso na figura do próprio Scalabrini, que vê os migrantes não apenas como vítimas da história, mas também como sujeitos, protagonistas e profetas de novos tempos. Vale lembrar, de passagem, que sua preocupação com os emigrantes é contemporânea da preocupação da Igreja para com as condições de trabalho dos operários. Se Leão XIII se volta para estes últimos, Scalabrini está atento àqueles que sequer conseguiram trabalho na terra natal e são forçados a cruzar os mares. Em outras palavras, a solicitude com a “questão social” na Igreja é irmã gêmea da solicitude para com os desterrados e sem pátria ou, se quisermos, da Pastoral dos Migrantes.  

 Nessa perspectiva, podemos destacar quatro dimensões da ação pastoral de Scalabrini, homem de Deus, da Igreja e do povo migrante: a) deixar-se interpelar pelos embates e combates da história, especialmente em momentos de transformações estruturais; b) compadecer-se de suas vítimas, com atenção particular àquelas deixadas à margem, como na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37); c) tomar posição firme e profética em seu favor, assumindo todas as consequências: e d) superando assim o natural egocentrismo e isolamento a que somos tentados, por nossa condição humana. 

 Primeiramente, da mesma forma que os fundadores e fundadoras de outras Congregações Religiosas, Scalabrini se impõe como um verdadeiro termômetro que mede a temperatura do seu tempo. Seus escritos, suas obras e seu comportamento mostram uma pessoa atenta a tudo que o cerca, que se deixa interpelar pelas condições de vida dos “mais necessitados” (i più bisognosi). Interpelação única, mas em quatro dimensões: saber escutar o rumor vivo e ativo dos fatos históricos; abrir-se ao grito silencioso e silenciado dos que caem à beira da estrada e da vida; entrar em diálogo com outras pessoas igualmente sensíveis ao sofrimento alheio; e, como centro de tudo, cultivar uma intensa intimidade com Deus no silêncio da oração, da meditação e da contemplação. Tanto que o século do movimento, com milhões de trabalhadores que se deslocam em todas as direções, também o move e remove. Scalabrini, de fato, não limita seu zelo de pastor à circunscrição da diocese, mas seu coração enxerga muito mais longe, inclusive do outro lado do oceano, onde os emigrantes, sem o “sorriso da pátria e o conforto da fé”, “nascem e morrem como bestas humanas”.

Depois, diante das incongruências, injustiças e contradições de tempos tão tumultuados, Scalabrini se comove com a imagem das vítimas dessa agitação histórica. No seu relato sobre a “Estação de Milão”, ícone para quem trabalha no campo da mobilidade humana, transparece uma compaixão que mergulha suas raízes nas entranhas mais íntimas de sua alma, arrancando-lhes palavras molhadas de lágrimas. “Eram migrantes!” – escreve, fortemente interpelado. E acrescenta: “Parti comovido. Uma onda de pensamentos mistos dava-me um nó no coração”. Faz lembrar os sentimentos de Jesus diante das “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-38). Profundamente sensível àqueles que buscam “a pátria que lhes dará o pão”, sofre com os que partem, com os que ficam e com os que se tornam vulneráveis à cobiça e à falta de escrúpulo dos “mercadores de carne humana”. 

Mas não lhe basta o impacto, a sensibilidade e a compaixão para com os trabalhadores e as famílias em fuga. O chamado “pai e apóstolo dos migrantes” se questiona: “Diante de um estado de coisas tão lastimável, eu me faço com frequência a pergunta: como poder remediar?”. E o incansável pastor dá um terceiro passo: parte para a ação solidária. Empreende viagens aos Estados Unidos, ao Brasil e à Argentina, em busca de suas “ovelhas perdidas”. Mas também não basta a ação individual ou personalista. Além do esforço pessoal, funda os diferentes Institutos para levar adiante a sua intuição, a sua obra e o que hoje chamamos de “carisma Scalabriniano”. O trabalho não pode depender de uma única pessoa, necessita de uma estrutura mínima frente à intensidade e diversidade do fenômeno migratório atual, bem como frente aos desafios de uma sociedade cada vez mais complexa. 

 Por fim, o binômio gueto/comunidade serve para ilustrar a superação de nossa tendência ao isolamento em tempos de “mares bravios”. Enquanto o gueto se encerra sobre si mesmo e se isola como caramujo, rompe todo contato com o mundo exterior como a avestruz, promove uma hostilidade recíproca e com isso se empobrece – a comunidade tende a abrir-se ao dinamismo do diálogo, aceita o intercâmbio de ideias e valores, interage com o “outro, diferente, estranho”, enriquecendo-se e enriquecendo o ambiente em que convive. Na diocese, na Igreja e na história, em tempos de revolução e turbulência, Scalabrini se revelou capaz de superar a tendência humana à fuga do mundo e à auto-suficiência, abrindo-se aos desafios cada vez mais exigentes do mundo contemporâneo. 

 Retomando as quatro dimensões e aplicando-as à chamada sociedade pós-moderna, impõe-se hoje mais do que nunca uma leitura atenta e sempre atualizada dos “sinais dos tempos”, expressão usada pelo Papa Bento XVI para designar o fenômeno das migrações, e retomada pelo Papa Francisco na mensagem para a Jornada do Migrante de 2014, com o título Migrantes e refugiados: em direção a um mundo melhor. Título que, de início, sem esquecer “o trabalho escravo, hoje moeda corrente”, sublinha que “aquilo que anima tantos migrantes e refugiados é o binômio fé e esperança”. Além disso, na mesma linha de Scalabrini, o Pontífice convida-nos a superar a “desconfiança, o fechamento e a exclusão”, em vista de um “espírito de profunda solidariedade e compaixão”. Nem precisaria insistir que se trata de uma forma de sair do gueto em direção à convivência comunitária, como nos dois retratos da Igreja primitiva (At 2,42-47; 4,32-37). 

 Tomando como modelo a Família de Nazaré, que também foi submetida “à experiência e ao rechaço” da condição de deslocamento forçado, o Papa Francisco, em sintonia com o Documento de Aparecida, conclusivo da V Assembleia dos bispos da América Latina e Caribe, não deixa de lembrar que “as migrações podem fazer nascer possibilidades de uma nova evangelização, abrir espaços ao crescimento de uma nova humanidade, preanunciada no Mistério Pascal: uma humanidade onde cada terra estrangeira é pátria e cada pátria é terra estrangeira”.



Fonte :
* Artigo na íntegra da Web Rádio Migrantes