Mostrando postagens com marcador renovação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador renovação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2015

‘Amados irmãos e irmãs,

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado : ‘Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro’ (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença : encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.

Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.

A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.

Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.


1. ‘Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros’ (1 Cor 12, 26) : A Igreja.

Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa ‘tem a haver com Ele’ (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos : o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro. ‘Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria’ (1 Cor 12, 26).

A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas : o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar : rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.


2. ‘Onde está o teu irmão?’ (Gn 4, 9) : As paróquias e as comunidades

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?

Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções.

Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja : ‘Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas’ (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).

Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.

Esta missão é o paciente testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!


3. ‘Fortalecei os vossos corações’ (Tg 5, 8) : Cada um dos fiéis

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?

Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.

Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.

E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo : ‘Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso’ (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/fortalecei-os-vossos-coracoes

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Santa Teresa : uma religiosa inquieta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito

‘Estamos celebrando o V centenário do nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-1582) e é uma grande graça de Deus que este ano se celebre também, por desejo do Papa Francisco, o ano da Vida Consagrada. Teresa teria exultado de alegria diante da carta que o Papa tem enviado a todos os consagrados e consagradas do mundo. Uma carta que abre o coração dos que olham o passado com gratidão, vivem com paixão o presente, sabe ver novos horizontes diante de si e tem no coração um grande amor pela Igreja. Hoje em dia o Papa tenta com todos os meios de ‘acordar-nos’ do nosso sono de mediocridade que nos impede de viver com entusiasmo renovado a nossa fidelidade à missão que nos é confiada. E preciso abrir os olhos e colocar os óculos das bem-aventuranças para ver que uma nova vida consagrada está surgindo com nova modalidade e com uma força que nem sempre sabemos acolher nos nossos corações endurecidos.

Numa série de reflexões que quero escrever para Zenit sobre Santa Teresa de Ávila, gostaria de tocar vários temas que fazem desta mulher uma pessoa de qualidades raras e que soube de verdade colocar a frutificar os talentos que recebeu de Deus. Não foi enterrá-los, mas os fez frutificar, indo contra todas as correntes de seu tempo. Não teve medo. E sabemos como nos momentos mais difíceis de sua vida, quando também a ela as noites, os desertos e os medos a torturavam por dentro, diante das dificuldades para realizar a obra das fundações dos Carmelos, normalmente sentia a voz do Senhor que lhe dizia : ‘por que você tem medo, de que tem medo? Te deixei alguma vez sozinha? Os teus negócios são os meus negócios. Não tenhas medo!’ Estas palavras lhe infundiam uma coragem nova e era capaz de enfrentar numa maneira ‘feminina e teresiana’ qualquer pessoa. Sabia entrar na amizade e sabia falar de Deus e dos projetos de Deus com uma força única, que mesmo os mais adversos inimigos não podiam resistir-lhe.

Trazia dentro dela uma inquietação dos buscadores de Deus. Quem busca de verdade o rosto de Deus e o seu amor sabe que nunca o poderá encontrar  totalmente. Trazia no seu coração a mesma inquietação de Santo Agostinho e repete nos seus escritos a famosa frase : ‘criaste o nosso coração para ti e ele anda inquieto até que não descanse em ti.’ Aliás, sabemos que as Confissões de Santo Agostinho são uma  força para sua conversão pessoal. Teresa adverte no mais íntimo de si mesma um desejo que  a ‘persegue com uma doce violência’ desde sua infância : ‘quero ver a Deus!’ Este será  o seu  impulso constante ao longo dos seus 67 anos de vida. O desejo de ver a Deus  a leva  a dar-se totalmente a ele. Ela mesma escreverá : ‘Deus se dá totalmente a quem totalmente a ele se doa.’ Fará esta bela experiência de ser tomada, invadida pela força  do Espírito Santo de Deus.

É uma mulher inquieta, busca sempre algo mais. Traz dentro de si a insatisfação dos místicos, sabe que não podem se acomodar a uma vida tranqüila, onde é amada e respeitada, como na casa paterna e como no Mosteiro da Encarnação. Procura algo mais e por isso, na sua inquietação, ela resolve dar ‘novo vigor ao Carmelo’ que vivia um cansaço e uma estagnação que provocava uma vida  burguesa e sem sentido. Mas como fazer isto?

No mosteiro carmelitano da Encarnação, onde viviam 180 monjas, ela pensa como realizar uma pequena comunidade à imitação do colégio de Cristo, 13 monjas, onde deve reinar o amor a Deus, o amor ao próximo, o desapego de todas as coisas, e embora Teresa a coloque por último, a virtude da humildade que para ela é o fundamento de todo o edifício. Nesta inquietação Teresa dá vida ao mosteiro de São José. É genial na sua ‘geografia do mosteiro’ : no meio está Jesus, numa porta a Virgem Maria e na outra São José, e assim não podemos ter medo de nada.

Mas qual é o segredo da pequena comunidade teresiana? É o amor. E o diz e repete em todas as maneiras e tons : poucas como somos, todas devem se amar, todas devem se ajudar, todas devem se estimar, promover. Teresa, na sua comunidade, queria como coração a oração silenciosa. Duas horas por dia, e depois a ‘verificação’ da qualidade da oração na recreação comunitária. Esta monja que sabe que não lhe é possível ir ‘às periferias’ para anunciar o evangelho, desde os seus mosteiros aconselha a todas as suas monjas e frades a irem às periferias através da oração pela Igreja e pelos teólogos e pregadores do evangelho, que devem ser preparados, para resistir aos ataques do mal.

Uma inquietação profética que leva Teresa a ser andarilha pelas terras de Espanha, fundando  mosteiros de monjas, conventos de frades, porque onde tem uma casa de oração se tem a certeza da presença de Deus. É a maneira que ela encontrou com fidelidade ao seu carisma de contemplativa, de ser criativa diante de um mundo que ‘está em chamas  por causa das heresias  que dividem a Igreja.’

 A próxima vez  falaremos da oração de Teresa. Eis um texto de Teresa :

Talvez pergunteis por que insisto tanto nisso, dizendo que devemos ajudar os que são melhores que nós. Explico : porque creio que não entendeis bem o quanto deveis ao Senhor por terdes sido trazidas para um lugar tão longe de negócios, situações perigosas e relações com o mundo, uma enorme graça. O mesmo não ocorre com aqueles de quem falei, nem é bom que ocorra, muito menos nesta época, pois a eles cabe animar os fracos e encorajar os pequenos : o que seria dos soldados sem comandantes!

Estes devem viver entre os homens e tratar com eles, estar nos palácios e, algumas vezes, conformar-se exteriormente com o que exigem as pessoas do mundo. Pensais, filhas minhas, que é preciso pouco para tratar com o mundo e nele viver, para cuidar de negócios do mundo e adaptar-se, como eu já disse, às conversas do mundo, sendo ao mesmo tempo estranho ao mundo e inimigo seu, vivendo nele como exilado, não sendo, enfim, um ser humano, mas um anjo?

Porque, se não agirem assim, sequer vão merecer o nome de comandantes; nem permita o Senhor que saiam de suas celas nessas condições, pois provocarão mais danos do que benefícios. Este não é o momento de se perceberem imperfeições em pessoas que devem ensinar (Caminho  de Perfeição 3,3).


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/santa-teresa-uma-religiosa-inquieta

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sofrimento e Renovação

Por Denis Cabrerizo Silva




Desde que era pequeno, nutro a sensação de que os livros sempre contêm algo que pode nos servir como um ensinamento prático. Pois bem, lendo, em casa, um romance russo de nome “O Idiota”, do grande escritor Fiódor Dostoievski (1821-1881) - que, a despeito de sua remota publicação, em 1868, em certos aspectos ainda apresenta uma leitura mordaz das relações humanas que compõe o nosso cotidiano -, após um tempo debruçado nas páginas densas desta inebriante narração, súbito novos pensamentos começam a nascer e a desabrochar, absorvendo-me numa série de reflexões ininterruptas.  Primeiro, começo a pensar nos sofrimentos austeros que acompanham as personagens e que, de certa forma, refletem a realidade de muitas pessoas. Tipos psicológicos que sempre afiguram estar ofendidos, humilhados pelas condições de vida que lhe são impostas, com a vaidade e o orgulho imensamente feridos por requintes alheios de ironia e desprezo e para quem a felicidade se apresenta como uma ilusão ou como um estado que parece não valer a pena  ser alcançado após tantas atribulações. 
            Tendo isto em mente e retornando à frase que introduz este pequeno texto, creio poder dizer que o ensinamento que este livro, muito aprazível, nos transmite reveste-se de uma análise aguda das relações sociais de nossos tempos: com o passar das épocas, findamos por nos tornar, assim como os personagens “dostoievsknianos”, seres ressentidos, feridos moralmente, a quem a felicidade do outro constitui-nos uma ofensa, a quem a vida não mais pode ser do que uma seqüência de sofrimentos e os sentidos desvalorizam-se, perdem seus porquês; em suma, seres que parecem habitar o subterrâneo da existência e da humanidade. E talvez deva-se a isto uma das causas da desmoralização que experimentamos, do comportamento violento e inadmissível dos novos homens, tão descontrolados do século XXI,  esmerados em  produzir tantas tristezas, incompreensão e dor.
            Assim, como no romance mencionado acima e como nos propõe o seu autor, ainda quase 150 anos antes, talvez hoje o que nos falta seja o ato de nos “idiotizarmo-nos”, isto é, deixarmos de lado, nem que seja por um pouco, a ganância, a avareza, a inveja, o ressentimento, a necessidade de outrem para existir, ou numa palavra: a necessidade de encontrar-se ofendido para subsistir; e, por outro lado, talvez nos falte também recuperar os valores humanos, como a magnanimidade, a prudência, a inocência mesma; e assim erigir uma renovação humana que passe a nos privar - nós, Homens – dos sofrimentos e dos subterrâneos da mera constituição psicológica de cada um. Desta forma, quem sabe, não poderemos elevar a humanidade para redimir-se de seus erros e atos arbitrários que tanto nos tem vilipendiado? Quem sabe não poderemos libertar a humanidade de suas limitações constrangedoras e falsas que nos tem assolado desde há muito?  E, quem sabe, assim, na simplicidade, não conquistemos a verdadeira felicidade na renovação dos Homens, finalmente apartados de seus pesares e finalmente desimpedidos para dar as mãos para uma nova fase da humanidade, em que não mais existirão vencedores e perdedores, triunfadores e humilhados, ofensores e ofendidos, mas unicamente irmãos, unidos pela pureza, pela natureza e pela condição igualitária de seres altivos, mas sinceros e não mais sofredores e vingativos. Amigos, suplantemos o ressentimento e demos as mãos para um novo mundo renovado no AMOR!