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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Entre os monges

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'Cultivar o passado, como fazem estes monges,
é necessário em um presente tão caótico como o nosso'



‘O mosteiro está cercado de montanhas e florestas que, neste pleno outono, exibem com orgulho suas cores acobreadas e douradas. A parte mais antiga do lugar, o altar, é românica, do século XI, e o resto da igreja é de estilo gótico do século XVI. O enorme edifício foi desfeito e refeito várias vezes, mas as antiquíssimas pedras estão sempre lá, enormes, imortais, preservando o silêncio.
É o que mais me impressiona, fora da regra de São Bento, escrita no século VI, que continua regulando o funcionamento deste e de todos os mosteiros beneditinos no mundo; com algumas adaptações à época, é claro, como a supressão dos castigos corporais e a exclusão das crianças abandonadas que, pelo visto, eram acolhidas pelas comunidades medievais. Há vinte e um monges, três deles noviços, neste onde passo quatro dias, uma experiência que desejava ter desde que li A Montanha dos Sete Círculos, de Thomas Merton, há muitos anos. O abade está feliz porque há três outros possíveis noviços em perspectiva. A continuidade do mosteiro parece, portanto, assegurada.
O silêncio é tão intenso que é possível ouvi-lo e, quando alguém fala dentro do recinto, apenas sussurra e sintetiza, com a má consciência de estar cometendo uma falta. Que os monges quase não falem entre eles não significa que estejam calados. É exatamente o contrário. Das seis da manhã às dez da noite eles cantam sem cessar, em latim, vigílias, laudes, terça, sexta e nona, vésperas e completas, além das missas diárias, todas cantadas, e os rosários vespertinos. Mas, nas tardes de quinta-feira, eles têm uma recreação; podem sair para passear no campo, sempre em grupo, e conversar entre eles. O silêncio é rigoroso no refeitório na hora das refeições, durante as quais um monge lê sempre em voz alta textos piedosos, vidas de santos ou informações religiosas.
A televisão e o rádio são proibidos, mas o mosteiro recebe dois jornais – não pude averiguar quais –, de modo que os monges não estão totalmente desinformados do que acontece do outro lado destas altas muralhas entre as quais escolheram passar o resto de suas vidas. No entanto, tive a impressão de que o que acontece longe, no século, não lhes interessa muito. Se eles se interessassem, talvez lhes fosse mais difícil aceitar essa existência feita de silêncio, pobreza e solidão, de rituais e orações sem fim, de tempo que não flui, mas que gira sobre si mesmo. São dias muito graves para a Espanha, talvez os piores de sua história, quando uma conjuração separatista parece estar prestes a provocar uma catástrofe sem precedentes no reino mais antigo da Europa; e, no entanto, aqui, ao meu redor, ninguém parece se alterar com essa perspectiva. Somente na missa de domingo o abade, com austeras palavras, pede orações pela Espanha e pela Catalunha.
Ninguém parece triste aqui e muito menos desesperado; é contagioso o entusiasmo e a alegria com que os monges entoam os salmos na igreja, as belas vozes que se distinguem durante a rica liturgia. Há alguns velhinhos entre eles – e um que ‘já perdeu a cabeça’ –, mas a maioria está na flor da idade, como o bibliotecário que na biblioteca do claustro me mostra, feliz, dois incunábulos e uma primeira edição de San Juan de la Cruz. E como o abade, homem sábio, muito culto, o único com quem chego a ter uma ameaça de conversa. Na ordem, de acordo com ele, funciona uma genuína democracia; os monges escolhem seu abade e também podem depô-lo quando pensam que não está à altura de suas funções. Dentro da regra de São Bento, cada comunidade é organizada como melhor lhe convier, tomando as maiores liberdades, sem se sujeitar a um único modelo. Nesta, por exemplo, tanto para aceitar um noviço quanto para admiti-lo no mosteiro depois de dois anos de noviciado, é necessário que pelo menos três quartos dos monges o aprovem. Nem todos os monges são sacerdotes; aqueles que o são tiveram de seguir, depois do noviciado, um mínimo de seis anos de estudo de teologia, sempre longe do lugar aonde mais tarde irão se enclausurar.
Muitos desistem? Pouquíssimos. A razão, segundo o meu interlocutor, é que não é nada fácil ser admitido na comunidade; esta deve estar convencida de que existe uma verdadeira vocação no aspirante, uma consciência clara do que perderá e do que ganhará. Quando fica mais ou menos evidente que ele não está em condições de continuar, a comunidade se adianta para persuadi-lo a desistir, pois existem outras maneiras de buscar a Deus e servi-lo.
Um agnóstico como eu pode apreciar totalmente o que significa a entrega desses homens (e as mulheres, porque a regra de São Bento também regula muitos mosteiros de freiras de clausura) a sua fé? Certamente não. É provável que só se possa entender que existem aqueles que escolhem um destino de isolamento, frugalidade, rotina e espiritualidade tão extremos caso se acredite que há outra vida depois desta, na qual um ser supremo sanciona o mal e recompensa o bem, e que esse é o melhor caminho do aperfeiçoamento e da saúde.
O que um agnóstico pode entender e admirar neste lugar e nessas pessoas é o que T.S. Eliot chamou de continuidade da cultura e da importância que as formas têm para a civilização. São Bento não foi apenas o expoente maior de uma crença religiosa, mas o precursor de uma forma de ser, de crer e agir que mudaria a história do mundo, lançando as bases de uma sociedade mais livre e mais justa do que a humanidade havia conhecido até então, de uma cultura que deixaria uma marca transcendente na história. Ela estava carregada de violência, é claro, e também de injustiças, como todas as histórias.
Mas evoluiu, foi deixando para trás o pior que havia nela, o fanatismo, a intolerância, os preconceitos, foi aprendendo a coexistir com aqueles que a criticavam e negavam e, ao mesmo tempo, deixando testemunhos nas artes, na literatura, na filosofia, nos costumes, de algumas formas que distinguiam o belo do feio e do horrível, o mau do bom, o aceitável do inaceitável. Essa cultura tornou o mundo mais fácil de viver para milhões de milhões de pessoas. Por isso é necessária a sobrevivência de tal passado em um presente tão confuso como o nosso; é uma maneira de evitar retroceder de novo à barbárie. Isso não é impossível. A Espanha esteve na iminência de viver nestes dias essa regressão à pura barbárie que é o nacionalismo, um retrocesso a tempos que pareciam superados e que, no entanto, continuaram sempre aí, ameaçando das sombras ressuscitar ódios e inimizades, o velho fanatismo que está por trás de todas as matanças.
Estes monges talvez não saibam, mas, fazendo o que fazem, mantêm vivas as raízes da nossa civilização, nos defendem da desintegração política e moral, do retorno à selvageria primitiva, a esse mundo de instintos em liberdade no qual, segundo a metáfora de Georges Bataille, na jaula em que vivemos, todos os anjos poderiam ser devorados pelos demônios.
O apito soou. Dentro de cinco minutos, exatamente, o órgão começará a tocar, e os cantos gregorianos explodirão.’

Fonte :


sábado, 17 de junho de 2017

Monges surpreendem com ideia “refrescante” para arrecadar fundos e reconstruir mosteiro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Os monges beneditinos de Núrsia, na Itália, pensaram em uma ideia interessante para arrecadar dinheiro para reconstruir o seu mosteiro destruído pelos dois terremotos que atingiram a cidade em agosto e outubro do ano passado.

A Basílica de São Bento, onde os monges viviam, foi construída entre os séculos XIV e XVI sobre uma estrutura anterior. Sua cripta é uma construção antiga do século I, onde, segundo a tradição, viveu o santo padroeiro da Europa.

Milagrosamente, a única habitação do mosteiro que permaneceu intacta foi a cervejaria onde produzem a famosa Birra Núrsia.

Depois dos terremotos, que provocaram a morte de centenas de pessoas, os monges foram obrigados a se mudar para barracas e cabanas em um inverno italiano muito frio.

Logo depois que se mudaram, começaram a trabalhar para reconstruir um novo mosteiro à prova de terremotos em San Benedetto em Monte.

Recentemente, os monges anunciaram uma notícia especial : a cerveja belga ‘Leffe’ aceitou fazer uma parceria com eles para preparar uma edição especial, cujos lucros serão revertidos diretamente para a reconstrução do novo mosteiro.

A cerveja Leffe, uma das preferidas da Bélgica e elaborada na tradição monástica, lançou uma cerveja de edição limitada especial com Birra Núrsia, nossa própria cerveja, como rótulo conjunto com Leffe Blonde’, anunciaram os monges em uma mensagem.

Embora as duas cervejas, Leffe e Birra Núrsia, permaneçam distintas, o nome Núrsia na garrafa de Leffe Blonde simboliza o compromisso compartilhado das duas cervejarias : reconstruir Núrsia e dar esperança à região atingida pela tragédia’, explicaram.

As 100 mil garrafas desta edição especial só estarão disponíveis para a sua distribuição na Itália e financiarão diretamente a nova capela de madeira ‘que não é apenas para os monges, mas está aberta para todas as pessoas que têm sede de Deus’.

A cerveja Leffe tem raízes monásticas. A abadia de Leffe realizou este trabalho durante séculos até a Revolução Francesa que provocou o abandono e a destruição da cervejaria.

Na década de 1950, determinado a não deixar morrer a tradição cervejeira, o abade Pe. Abbot Nys conheceu o mestre cervejeiro Albert Lootvoet e fizeram um acordo.

Pouco tempo depois, a cervejaria Leffe começou a funcionar novamente e agora está sob a propriedade da Anheuser-Busch InBev. Uma parte do dinheiro ainda é enviada para apoiar o mosteiro de Leffe.

Para os monges de Núrsia, a capela de madeira é a primeira fase de uma reconstrução total da abadia. Embora seja inaugurada oficialmente em setembro, já celebraram uma Missa de ação de graças na capela de Pentecostes, apesar do teto do templo ainda não estar pronto.

‘Deste modo, recordamos : Nisi Dominus aedificaverit domum en vanum laboraverunt qui aedificant eum’, disseram os monges, ou seja, ‘Se o Senhor não edifica a casa, em vão trabalham os que a edificam’.

Para os monges, esta experiência os recorda que ‘nos momentos de tragédia, quando tudo parece estar perdido, Deus nos chama a confiar que em algum lugar, de alguma maneira, pode nascer o bem’.’

           
Fonte :

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O céu do monginho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Dom Mamerto Menapace, OSB

O monginho achava-se na igreja. Começava a primavera, quando o sol fica mais fraco e lá fora, tudo canta a vida. Era o início da tarde e ele se encontrava sentado num banco da igreja, entre meditando e distraído. Pela janela aberta entrava a luz, o calor e muitos seres pequeninos e vivos moviam-se no ar.

Na realidade não estava distraído, mas absorto. Havia um pensamento que o vinha perseguindo há vários dias. Talvez fosse por causa da primavera que começava. O certo é que há muitos dias vinha se perguntando sobre a eternidade do céu. Sobretudo questionava-o a idéia de uma realidade que nunca teria fim e da qual Deus o convidava a participar também.

Era um monginho ativo, cheio de vida, curioso e inteligente, esperto e sonhador. Não entendia como Deus conseguiria manter o interesse numa realidade que seria eterna. Porque ele não conseguia passar meia hora sem ter de mudar de ocupação ou de lugar. Assustava-se com a idéia de permanecer para sempre em algo eterno.

Estava pensando nisso e, adormecendo, quando de repente um pequeno pássaro que acabava de entrar pela janela chamou sua atenção. Parecia uma avezinha simples e sobretudo mansa.

Depois de um curto vôo, foi colocar-se a dois ou três bancos adiante do monginho. Não pareceu importar-se com sua presença. Após um momento de silêncio, levantou a cabecinha e deu um delicioso gorjeio que encheu de ecos o silêncio da igreja.

Quando o canto repetiu-se novamente o monginho, sem pensar no que fazia, levantou-se e se aproximou do passarinho que não demonstrou medo. Simplesmente deu outro pequeno salto e foi colocar-se no encosto do banco seguinte enquanto gorjeava novamente um trinado. Mas desta vez, o canto era modulado de maneira diferente. Parecia mais belo e mais sonoro. Além disso, ao dar o sol sobre suas penas, havia coloridos que antes não haviam aparecido. Maravilhado, nosso amigo só fez com que a avezinha repetisse seu curto vôo até outro banco mais adiante.

E assim, de vôo em vôo, de trinado em trinado, ambos foram se dirigindo até a porta da igreja. O monginho estava tão entusiasmado que nem se dava conta do que fazia. Simplesmente ia atrás da ave canora, que a cada instante mostrava um novo colorido ou exprimia uma harmonia diferente e sempre mais bela. Atravessaram a porta, cruzaram o jardim, saíram pelo grande portão que dava para o bosque do outeiro vizinho e finalmente se adentraram enel sem se dar conta de que iam se afastando cada vez mais do mosteiro. Quanto tempo transcorreu desde aquele momento não o soube então o monge. Porque, passo a passo, e indo atrás da encantadora ave, foi perdendo a noção das horas e da distância.

Mas, finalmente a avezinha deu um gorjeio como nunca havia dado, e batendo suas pequenas asas, perdeu-se entre a folhagem do bosque.

Então, subitamente, o monginho voltou a si e assustou-se ao ver que já era tarde. Voltou sobre seus passos, amedrontado por não reconhecer o caminho que o havia conduzido até ali. Mas do alto do bosque onde se encontrava, às vezes via entre a folhagem o mosteiro e assim ia se situando. O que no entanto estranhava profundamente era não conseguir encontrar a porta por onde havia saído. Ao entardecer, por mais que procurasse onde ela estaria, não pode achá-la. Contornado o mosteiro, afinal deu com a porta principal. Contudo, o que via parecia-lhe estranho. Nada era agora familiar e sentia-se como de outro mundo.

Tocou a campainha e veio atender um velho irmão porteiro com uma longa barba branca. Não o reconheceu. Inteiramente atrapalhado e temendo um equívoco, perguntou timidamente se aquele era o mosteiro de São Pantaleão. O monge porteiro respondeu-lhe que sim e perguntou, por sua vez o que desejava. Nosso monginho, perplexo, pediu que lhe abrisse a porta para voltar à sua cela e desculpar-se com o mestre de noviços. Está claro que o porteiro não entendeu nada e não sabia o que pensar. Tratar-se-ia de alguma brincadeira de um dos monges disfarçado? Ou então seria algum louco que confundia as coisas?

Não sabendo como proceder, pediu-lhe amavelmente que se assentasse esperasse o abade, a quem ia chamar em seguida. Quando este veio, tampouco reconheceu o monginho nem este o abade. Cumprimentaram-se e começaram a conversar. O noviço, aflito, contou o que lhe havia acontecido aquela tarde ou talvez – não sabia – na tarde anterior. Como abandonara a igreja e o mosteiro indo atrás daquela rara avezinha de canto e plumagem continuamente cambiante que o havia fascinado e levado atrás dela. Também abriu seu coração ao abade confessando que sentia tudo diferente ao seu redor e não conseguira reconhecer nada do que via. Nem podia reconhecer com quem estava falando.

Vocês imaginarão como estaria perplexo o abade diante daquele estranho e desconhecido monginho que contava uma história tão bela e extraordinária. Supôs que se trataria de um jovem desorientado e mentalmente enfermo que estava inventando uma história sobre sua própria vida, ainda que o fazia tão bem que não podia negar a realidade dos fatos que verdadeiramente coincidiam com as daquele velho mosteiro. Como era um homem bom e não queria ferir o jovem com o que pensava interiormente, decidiu tentar convencê-lo mediante o registro dos monges, para lhe mostrar que seu nome nunca estivera inscrito naquele mosteiro.

Trouxeram o livro de registro onde há séculos vinham anotando os monges que ali haviam vivido e, folha por folha, começando pelas últimas, foi mostrando que efetivamente ali não estava seu nome. Mas, de repente, ao folhear ao acaso o livro, seus olhos depararam com algo insólito. Uma página estava metade em branco. E para sua surpresa, ali aparecia o nome do monginho, com todos os seus dados e uma nota em vermelho que dizia simplesmente : ‘Desapareceu numa tarde no bosque sem deixar rastros’. Era uma página escrita 227 anos atrás.

Esta bela história termina assim : ‘O jovem se deu conta que sem o saber, seguira durante todos esses 227 anos a avezinha, sem se cansar nem envelhecer. E experimentou um tal desejo de ir ao céu, que ali mesmo...despertou de seu sono, no banco da igreja, naquele entardecer’.

Já era hora das Vésperas.


Fonte : 
* Dom Mamerto Menapace, OSB, abade emérito de Santa Maria de Los Toldos (Argentina); foi Presidente da Congregação Beneditina da Santa Cruz do Cono Sur.

- Artigo publicado em Cuadernos Monásticos 75 – 1985.
 
Revista Beneditina nrº 11, Julho/Agosto de 2005, traduzido do espanhol e editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

São Cirilo, Monge e São Metódio, Bispo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Cirilo, natural de Tessalônica, recebeu uma excelente formação em Constantinopla. Juntamente com seu irmão, Metódio, dirigiu-se para a Morávia, a fim de pregar a fé católica. Ambos compuseram os textos litúrgicos em língua eslava, escritos em letras que depois se chamaram “cirílicas”. Chamados a Roma, ali morreu Cirilo a 14 de fevereiro de 869. Metódio foi então ordenado bispo e partiu para a Panônia, onde exerceu intensa atividade evangelizadora. Muito sofreu por causa de pessoas invejosas, mas sempre contou com o apoio dos Pontífices Romanos. Morreu no dia 6 de abril de 885 em Velehrad (República Tcheca). O Papa João Paulo II proclamou-os patronos da Europa junto com São Bento. 

A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Cirilo e São Metódio :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Vida eslava de Constantino 
(Cap.18:Denkschriftender kaiserl.Akademie
der Wissenschaften, 19, Wien 1970, p. 246)

Fazei crescer a vossa Igreja e a todos reuni na unidade
Constantino Cirilo, fatigado por muitos trabalhos, caiu doente; e quando já havia muitos dias que suportava a enfermidade, teve uma visão de Deus e começou a cantar: “O meu espírito alegrou-se e o meu coração exultou, quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor”.

Depois de ter revestido as vestes de cerimônia, assim permaneceu todo aquele dia, cheio de alegria e dizendo: “A partir de agora, já não sou servo nem do imperador nem de homem algum na terra, mas unicamente do Deus todo-poderoso. Eu não existia, mas agora existo e existirei para sempre. Amém”. No dia seguinte, vestiu o santo hábito monástico e, acrescentando luz à luz, impôs-se o nome de Cirilo. E assim permaneceu durante cinqüenta dias.

Chegada a hora de encontrar repouso e de emigrar para as moradas eternas, erguendo as mãos para Deus, orava com lágrimas: “Senhor meu Deus, que criastes todos os anjos e os espíritos incorpóreos, estendestes o céu, fixastes a terra e formastes do nada todas as coisas que existem; vós que sempre ouvis aqueles que fazem vossa vontade, vos temem e observam vossos preceitos, atendei a minha oração e conservai na fidelidade o vosso rebanho, a cuja frente me colocastes, apesar de incompetente e indigno servo.
  
Livrai-o da malícia ímpia e pagã dos que blasfemam contra vós; fazei crescer a vossa Igreja e a todos reuni na unidade. Tornai o povo perfeito, concorde na verdadeira fé e no reto testemunho; inspirai aos seus corações a palavra da vossa doutrina; porque é dom que vem de vós ter-nos escolhido para pregar o Evangelho de vosso Cristo, encorajando-nos a praticar as boas obras e a fazer o que é de vosso agrado. Aqueles que me destes, a vós entrego, porque são vossos; governai-os com vossa mão poderosa e protegei-os à sombra de vossas asas, para que todos louvem e glorifiquem o vosso nome, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém”.

Depois de ter beijado a todos com o ósculo santo, disse: “Bendito seja Deus que não nos entregou como presa aos dentes de nossos invisíveis adversários, mas rompeu suas armadilhas e nos libertou do mal que tramavam contra nós”. E assim adormeceu no Senhor, com quarenta e dois anos de idade.

O Sumo Pontífice ordenou que todos os gregos que estavam em Roma, juntamente com os romanos, se reunissem junto de seu corpo com velas acesas e cantando; e que suas exéquias fossem celebradas do mesmo modo como se celebram as do próprio Papa. E assim foi feito.

  
Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, pg. 1263, 1264