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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Novos Mariólogos para o Brasil


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada


‘Na noite dessa quarta-feira, 18 de julho de 2018, no Centro de Reuniões Santo Afonso de Ligório, em Aparecida, em pleno Ano do Laicato, cerca de trinta leigos concluíram as exigências acadêmicas para receber o certificado de Especialistas em Mariologia, uma área da Teologia Sistemática. Uma das primeiras pós-graduações nessa área foi possível graças ao esforço conjunto da Faculdade Dehoniana, de Taubaté e da Academia Marial de Aparecida, sob a batuta do coordenador Pe. João Carlos Almeida, conhecido popularmente como Padre Joãozinho, que elaborou o Projeto Pedagógico e coordenou a sua implantação em quatro módulos intensivos em 2017-2018. Trata-se de uma pós-graduação lato sensu que oferece um certificado reconhecido pelo MEC.

Corpo docente

Esse ousado e inédito projeto acadêmico contou desde o início com o apoio e a benção apostólica de Dom Raymundo Damasceno, hoje bispo emérito de Aparecida e, na sequência, de Dom Orlando Brandes, seu sucessor e atual presidente da Academia Marial de Aparecida. O corpo docente foi formado por renomados professores de Mariologia como Fr. Clodovis Boff, Ir. Afonso Murad, Pe. Marcial Maçaneiro, Lúcia Pedrosa, Lina Boff, Pe. Alexandre Awi, entre outros, todos mestres e doutores. Alunos e alunas de diversas partes do Brasil e diferentes realidades eclesiais contribuíram para o sucesso dessa especialização. Um detalhe interessante é que mais da metade dos alunos é leiga, em sua grande maioria mulheres.

Em uma cerimônia solene, cheia de fé e emoção, esses novos Mariólogos assumiram a missão de se tornarem protagonistas de um novo tempo em que a Igreja no Brasil, nas várias dioceses onde estão inseridos, poderá contar com professores qualificados especialistas em Mariologia. Dos 51 concluintes da Pós-graduação, 30 são leigos, 19 presbíteros, 1 irmão religioso e 1 diácono permanente. Vários estados brasileiros estão representados, do Rio Grande do Sul ao Amapá, o que demonstra a diversidade e alcance do curso.

Continuidade dos estudos mariológicos

Ao se concluir a formação dessa primeira turma, uma segunda turma já iniciou sua jornada, consolidando assim a continuidade dos estudos mariológicos no Brasil, que tem no Santuário Nacional de Aparecida seu epicentro acadêmico. A casa da Mãe é também sua ‘escola onde se descobre o compromisso concreto que Cristo espera de cada um’, como disse São João Paulo II (Homilia em 08/03/2003). Esses novos Mariólogos do Brasil são um sinal de que a Virgem Mãe e Mestra continua formando seus filhos.’


Fonte :

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Crianças-mães

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
*Artigo de Padre José Vieira,
Missionário Comboniano

Quase 14 menores dão à luz por minuto – muitas são africanas – e cerca de 200 morrem por dia devido à gravidez ou parto.

‘O Fundo de População das Nações Unidas publicou no final de Outubro um relatório sobre o Estado da População Mundial 2013 com o título ‘Maternidade na Infância: Enfrentando os Desafios da Gravidez na Adolescência’.

O relatório apresenta uma realidade cruel : 7,3 milhões de raparigas com menos de 18 anos dão à luz por ano nos países em desenvolvimento e mais de um terço, dois milhões delas, têm 14 anos ou menos. Se as tendências atuais persistirem, em 2030 o número de partos de meninas com menos de 15 pode chegar aos 3 milhões.

A gravidez precoce traz problemas psicológicos e físicos terríveis, incluindo a morte. No Sudão do Sul, onde eu vivo, mais de duas mil mulheres-meninas morreram por ano durante o parto ou de complicações pós-parto por cada cem mil nascimentos porque o casamento de crianças é culturalmente praticado e os corpos das meninas-mães ainda não estão prontos para o trabalho de parto. A fístula obstétrica é outra consequência comum da maternidade precoce.

O relatório revela dados preocupantes sobre a gravidez de adolescentes em África :

• 51 por cento das meninas do Níger engravidam antes dos 18 anos, 48 por cento no Chade e 46 por cento no Mali;
• 28 por cento das meninas da África Ocidental e Central concebem antes dos 18 anos;
• Dez por cento das meninas no Chade, Guiné, Mali, Moçambique e Níger têm um bebê antes dos 15 anos;
• Seis por cento das meninas da África Ocidental e Central engravidam antes dos 15 anos;
• Um terço das meninas no Chade e Níger é obrigado a casar antes dos 15 anos;
• Na Etiópia, Malauí, Níger e Nigéria, um terço dos casos de fístula são em adolescentes;
• 1,4 milhões de adolescentes africanas entre os 15 e os 19 anos submetem-se a abortos de risco anualmente e 36 mil mulheres e adolescentes morrem;
• 35 por cento de raparigas na Guiné com idades entre os 15 e os 19 anos sofrem de doenças sexualmente transmitidas, 29 por cento no Gana e no Congo;
• 1,2 milhões de menores africanos sofrem de Aids, representando mais de metade dos casos da população mundial nessa faixa etária (dois milhões).

O relatório aponta algumas razões para a gravidez precoce, destacando a pobreza, tradição que encoraja o casamento de meninas logo na puberdade, falta de escolaridade e puberdade mais cedo. E indica caminhos para resolver o fenômeno que incluem desmantelar as barreiras que não permitem às adolescentes realizar os seus potenciais e desfrutar dos seus direitos; manter as meninas na escola; não permitir o casamento antes dos 18 anos; pôr termo a coerção e violência sexuais; e permitir o acesso das adolescentes a contraceptivos. Da minha experiência de uma dúzia de anos em África, a escolarização é o instrumento mais importante para proteger as meninas e adolescentes e prepará-las para encararem o futuro e a maternidade com mais calma.

Neste Natal, juntamente com a maternidade gloriosa de Maria de Nazaré, recordemos as maternidades problemáticas de 20 mil menores que vão dar à luz nesse dia e as cerca de 200 que vão morrer de complicações da gravidez ou do parto em países em desenvolvimento. Um Natal diferente…’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFlVAAVpFyaGyQjPQl

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Nossa Senhora de Guadalupe

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘Num sábado, no ano de 1531, a Virgem Santíssima apareceu a um indígena que, de seu lugarejo, caminhava para a cidade do México a fim de participar da catequese e da Santa Missa enquanto estava na colina de Tepeyac, perto da capital. Este índio convertido chamava-se Juan Diego (canonizado pelo Papa João Paulo II em 2002).

Nossa Senhora disse então a Juan Diego que fosse até o bispo e lhe pedisse que naquele lugar fosse construído um santuário para a honra e glória de Deus.

O bispo local, usando de prudência, pediu um sinal da Virgem ao indígena que, somente na terceira aparição, foi concedido. Isso ocorreu quando Juan Diego buscava um sacerdote para o tio doente : ‘Escute, meu filho, não há nada que temer, não fique preocupado nem assustado; não tema esta doença, nem outro qualquer dissabor ou aflição. Não estou eu aqui, a seu lado? Eu sou a sua Mãe dadivosa. Acaso não o escolhi para mim e o tomei aos meus cuidados? Que deseja mais do que isto? Não permita que nada o aflija e o perturbe. Quanto à doença do seu tio, ela não é mortal. Eu lhe peço, acredite agora mesmo, porque ele já está curado. Filho querido, essas rosas são o sinal que você vai levar ao Bispo. Diga-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Você é meu embaixador e merece a minha confiança. Quando chegar diante dele, desdobre a sua ‘tilma’ (manto) e mostre-lhe o que carrega, porém, só em sua presença. Diga-lhe tudo o que viu e ouviu, nada omita…

O prelado viu não somente as rosas, mas o milagre da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, pintada prodigiosamente no manto do humilde indígena. Ele levou o manto com a imagem da Santíssima Virgem para a capela, e ali, em meio às lágrimas, pediu perdão a Nossa Senhora. Era o dia 12 de dezembro de 1531.

Uma linda confirmação deu-se quando Juan Diego fora visitar o seu tio, que sadio narrou : ‘Eu também a vi. Ela veio a esta casa e falou a mim. Disse-me também que desejava a construção de um templo na colina de Tepeyac e que sua imagem seria chamada de ‘Santa Maria de Guadalupe’, embora não tenha explicado o porquê’. Diante de tudo isso muitos se converteram e o santuário foi construído.

O grande milagre de Nossa Senhora de Guadalupe é a sua própria imagem. O tecido, feito de cacto, não dura mais de 20 anos e este já existe há mais de quatro séculos e meio. Durante 16 anos, a tela esteve totalmente desprotegida, sendo que a imagem nunca foi retocada e até hoje os peritos em pintura e química não encontraram na tela nenhum sinal de corrupção.

No ano de 1971, alguns peritos inadvertidamente deixaram cair ácido nítrico sobre toda a pintura. E nem a força de um ácido tão corrosivo estragou ou manchou a imagem. Com a invenção e ampliação da fotografia descobriu-se que, assim como a figura das pessoas com as quais falamos se reflete em nossos olhos, da mesma forma a figura de Juan Diego, do referido bispo e do intérprete se refletiu e ficou gravada nos olhos do quadro de Nossa Senhora. Cientistas americanos chegaram à conclusão de que estas três figuras estampadas nos olhos de Nossa Senhora não são pintura, mas imagens gravadas nos olhos de uma pessoa viva.

Declarou o Papa Bento XIV, em 1754 : ‘Nela tudo é milagroso : uma Imagem que provém de flores colhidas num terreno totalmente estéril, no qual só podem crescer espinheiros… uma Imagem estampada numa tela tão rala que através dela pode se enxergar o povo e a nave da Igreja… Deus não agiu assim com nenhuma outra nação’.

Coroada em 1875 durante o Pontificado de Leão XIII, Nossa Senhora de Guadalupe foi declarada ‘Padroeira de toda a América’ pelo Papa Pio XII no dia 12 de outubro de 1945.

No dia 27 de janeiro de 1979, durante sua viagem apostólica ao México, o Papa João Paulo II visitou o Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e consagrou a Mãe Santíssima toda a América Latina, da qual a Virgem de Guadalupe é Padroeira.

Nossa Senhora de Guadalupe, rogai por nós!


Fontes :

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Nossa Senhora Rainha

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Nossa Senhora Rainha :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Das Homilias de Santo Amadeu, bispo de Lausana
(Hom. 7:SCh 72,188.190.192.200)     (Séc.XII)

Rainha do mundo e da paz
Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida, fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor.
 
Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração.

E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria?

Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor : Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10).


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1216, 1217


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Visitação de Nossa Senhora

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia da Visitação de Nossa Senhora :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Das Homilias de São Beda, o Venerável, presbítero
(Lib. 1,4: CCL 122,25-26.30)      (Séc. VIII)

Maria engrandece o Senhor que age nela
Minha alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46). Com estas palavras, Maria reconhece, em primeiro lugar, os dons que lhe foram especialmente concedidos; em seguida, enumera os benefícios universais com que Deus favorece continuamente o gênero humano.

Engrandece o Senhor a alma daquele que consagra todos os sentimentos da sua vida interior ao louvor e ao serviço de Deus; e, pela observância dos mandamentos, revela pensar sempre no poder da majestade divina. Exulta em Deus, seu Salvador, o espírito daquele que se alegra apenas na lembrança de seu Criador, de quem espera a salvação eterna.

Embora estas palavras se apliquem a todas as almas santas, adquirem contudo a mais plena ressonância ao serem proferidas pela santa Mãe de Deus. Ela, por singular privilégio, amava com perfeito amor espiritual aquele cuja concepção corporal em seu seio era a causa de sua alegria.

Com toda razão pôde ela exultar em Jesus, seu Salvador, com júbilo singular, mais do que todos os outros santos, porque sabia que o autor da salvação eterna havia de nascer de sua carne por um nascimento temporal; e sendo uma só e mesma pessoa, havia de ser ao mesmo tempo seu Filho e seu Senhor.

O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49). Maria nada atribui a seus méritos, mas reconhece toda a sua grandeza como dom daquele que, sendo por essência poderoso e grande, costuma transformar os seus fiéis, pequenos e fracos, em fortes e grandes.

Logo acrescentou : E santo é o seu nome! Exorta assim os que a ouviam, ou melhor, ensinava a todos os que viessem a conhecer suas palavras, que pela fé em Deus e pela invocação do seu nome também eles poderiam participar da santidade divina e da verdadeira salvação. É o que diz o Profeta : Então, todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo (Jl 3,5). É precisamente este o nome a que Maria se refere ao dizer : Exulta meu espírito em Deus, meu Salvador.

Por isso, se introduziu na liturgia da santa Igreja o costume belo e salutar, de cantarem todos, diariamente, este hino na salmodia vespertina. Assim, que o espírito dos fiéis, recordando frequentemente o mistério da encarnação do Senhor, se entregue com generosidade ao serviço divino e, lembrando-se constantemente dos exemplos da Mãe de Deus, se confirme na verdadeira santidade. E pareceu muito oportuno que isto se fizesse na hora das Vésperas, para que nossa mente fatigada e distraída ao longo do dia por pensamentos diversos, encontre o recolhimento e a paz de espírito ao aproximar-se o tempo do repouso.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas II’, 1601, 1602


domingo, 3 de novembro de 2013

Santa Slvia 03 de novembro

p/ Maria Vanda A. Silva
(Ir. Maria Silvia Obl. OSB/SP) 















Santa Sílvia

Século VI

03 de Novembro - Santa Sílvia

Sílvia era italiana, nascida em Roma em torno de 520, numa família de origem siciliana de cristãos praticantes e caridosos. Os dados sobre sua infância não são conhecidos. Porém a sua adolescência coincidiu com um difícil e turbulento período histórico, o declínio do Império Romanoe a tomada do mesmo pelos bárbaros góticos.

Ela entrou para a família dos Anici em 538, quando se casou com o senador Jordão. Essa família romana era muito rica e influente, e muitos nomes forneceu para a história do senado italiano. Sílvia foi residir na casa do marido, um palácio que ficava nas colinas do monte Célio, onde ele vivia com suas duas irmãs, Tarsila e Emiliana.

O casal logo teve dois filhos. O primeiro foi Gregório, nascido em 540, e o segundo, que o próprio irmão citava com freqüência, nunca teve citado o nome. As cunhadas Tarsila e Emiliana tornaram-se santas, incluídas no calendário da Igreja, E seu primogênito foi o grande papa Gregório Magno, santo, doutor da Igreja e a glória de Roma do século VI.

Sílvia soube conduzir essa família de verdadeiros cristãos e romanos autênticos. Não permitiu que a o ambiente da Corte que freqüentavam impedisse a santificação pela fé, mantendo sempre a pureza dos costumes separada da notoriedade pública. As cunhadas são um exemplo da figura de Sílvia, mãe providente e benfeitora, que soube conciliar as exigências de uma família de político atuante, como era o marido Jordão, com o desejo de perfeição espiritual representado pelas duas cunhadas.

Por falta de notícias precisas, a santidade de Sílvia aparece refletida através daquela de seu filho. Sem dúvida, sobre são Gregório Magno o exemplo e o ensinamento da mãe foi um peso que não se pode ignorar. Embora ele tenha escrito muito pouco sobre a mãe e as tias, nas pregações costumava citar-lhes o exemplo.

Dados encontrados sobre a vida de Silvia relatam que, quando o senador Jordão morreu em 573, ela tratou de uma doença grave do filho Gregório, que já adulto atuava no clero, levando pessoalmente as refeições até sua pronta recuperação. Depois disso, entregou o palácio onde residia para que o filho o transformasse num mosteiro.

Quando Gregório não precisou mais da sua ajuda e nem de sua orientação, Sílvia retirou-se para a vida religiosa num dos mosteiros existentes fora dos muros de Roma. No qual, com idade avançada, ela morreu serenamente, num ano incerto, mas depois de 594.

O Martirológio Romano indica o dia 3 de novembro para o culto litúrgico em lembrança da memória de santa Sílvia. Em 1604, suas relíquias foram levadas para a igreja de santos André e Gregório, construída no antigo mosteiro e palácio de monte Célio, onde o papa São Gregório Magno nasceu e santa Sílvia viveu com as duas cunhadas santas.

Capiturado do Site das Edições Paulinas

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (Capítulo 4 de 9)


IV  CAPITULO 

Maria a nova   Eva
EVA — MARIA
O « princípio » e o pecado

9. « Constituído por Deus em estado de justiça, o homem, porém, tentado pelo Maligno, desde o início da história abusou de sua liberdade. Levanta-se contra Deus desejando atingir o seu fim fora dele ». (28) Com estas palavras, o ensinamento do último Concílio recorda a doutrina revelada sobre o pecado e, em particular, sobre o primeiro pecado que é o pecado original. O « princípio » bíblico — a criação do mundo e do homem no mundo — contém, ao mesmo tempo, a verdade sobre este pecado, que pode ser chamado também o pecado do « princípio » do homem sobre a terra. Embora o que está escrito no Livro do Gênesis venha expresso em forma de narração simbólica, como no caso da descrição da criação do homem como homem e mulher (cf. Gên 2, 18-25), mesmo assim revela aquilo a que é preciso chamar « o mistério do pecado » e, mais plenamente ainda,  « o mistério do mal » existente no mundo criado por Deus.

Não é possível ler « o mistério do pecado » sem fazer referência a toda a verdade sobre a « imagem e semelhança » com Deus, que está na base da antropologia bíblica. Esta verdade apresenta a criação do homem como uma doação especial por parte do Criador, na qual estão contidos não só o fundamento e a fonte da dignidade essencial do ser humano — homem e mulher — no mundo criado, mas também o início do chamamento dos dois a participarem da vida íntima do próprio Deus. A luz da Revelação, criação significa ao mesmo tempo início da história da salvação. Exatamente neste inicio o pecado se inscreve e se configura como contraste e negação.
Pode-se dizer paradoxalmente que o pecado, apresentado em Gênesis (c. 3), é a confirmação da verdade sobre a imagem e semelhança de Deus no homem, se esta verdade significa a liberdade, isto é, o livre arbítrio, com o uso da qual o homem pode escolher o bem, mas pode também abusar escolhendo, contra a vontade de Deus, o mal. No seu significado essencial, todavia, o pecado é a negação daquilo que Deus é—como Criador—em relação ao homem, e daquilo que Deus quer, desde o início e para sempre, para o homem. Criando o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus quer para eles a plenitude do bem, ou seja a felicidade sobrenatural, que deriva da participação na sua própria vida. Cometendo o pecado, o homem rejeita este dom e, ao mesmo tempo, quer tornar-se « como Deus, conhecendo o bem e o mal » (Gên 3, 5), isto é, decidindo do bem e do mal independentemente de Deus, seu Criador. O pecado das origens tem a sua « medida » humana, a sua dimensão interior na vontade livre do homem e juntamente traz em si uma certa característica « diabólica », (29) como é claramente posto em relevo no Livro do Gênesis (3, 1-5). O pecado opera a ruptura da unidade originária, da qual o homem gozava no estado de justiça original: a união com Deus como fonte da unidade no interior do próprio « eu », na relação recíproca do homem e da mulher (« communio personarum ») e, enfim, face ao mundo exterior e à natureza.

A descrição bíblica do pecado original em Gênesis (c. 3) de certo modo « distribui os papéis » que nele desempenharam a mulher e o homem. A isto farão referência ainda mais tarde algumas passagens da Bíblia, como, por exemplo, a Carta de São Paulo a Timóteo: « Adão foi formado primeiro e depois Eva. E não foi Adão o seduzido; mas a mulher ». (1 Tim 2, 13-14). Não há dúvida, porém, que, independentemente desta « distribuição das partes » na descrição bíblica, esse primeiro pecado é o pecado do homem, criado por Deus homem e mulher. Esse é também o pecado dos « primeiros pais », ao qual se prende o seu caráter hereditário. Neste sentido chamamo-lo « pecado original ».
Esse pecado, como já foi dito, não pode ser entendido adequadamente se não se referir ao mistério da criação do ser humano — homem e mulher — à imagem e semelhança de Deus. Através dessa referência se pode entender também o mistério da « não-semelhança » com Deus, na qual consiste o pecado, e que se manifesta no mal presente na história do mundo; da « não-semelhança » com Deus, o único que é bom (cf. Mt 19, 17) e que é a plenitude do bem. Se esta « não-semelhança » do pecado com Deus, a própria Santidade, pressupõe a « semelhança » no campo da liberdade, do livre arbítrio, pode-se dizer então que, precisamente por esta razão, a « não-semelhança » contida no pecado é tanto mais dramática e tanto mais dolorosa. É preciso também admitir que Deus, como Criador e Pai, é aqui atingido, « ofendido » e, obviamente, ofendido no coração mesmo da doação que faz parte do desígnio eterno de Deus sobre o homem.

Ao mesmo tempo, porém, também o ser humano — homem e mulher — é atingido pelo mal do pecado, do qual é autor. O texto bíblico de Gênesis (c. 3) mostra-o com as palavras que descrevem claramente a nova situação do homem no mundo criado. Ele mostra a perspectiva da « fadiga » com que o homem há de procurar os meios para viver (cf. Gên 3, 17-19), bem como a das grandes « dores » em meio às quais a mulher dará à luz seus filhos (cf. Gên 3, 16). Tudo isto, depois, é marcado pela necessidade da morte, que constitui o termo da vida humana sobre a terra. Deste modo o homem, como pó, « voltará à terra, porque dela foi tirado »: « porque és pó, e em pó te hás de tornar » (cf. Gên 3, 19).
Estas palavras confirmam-se de geração em geração. Elas não significam que a imagem e a semelhança de Deus no ser humano, quer mulher quer homem, foi destruída pelo pecado; significam, ao invés, que foi « ofuscada » (30) e, em certo sentido, « diminuída ». Na verdade, o pecado « diminui » o homem, como recorda também o Concílio Vaticano II. (31) Se o homem, já pela sua própria natureza de pessoa, é imagem e semelhança de Deus, então a sua grandeza e dignidade se realizam na aliança com Deus, na união com ele, no fato de procurar a unidade fundamental que pertence à « lógica » interior do mistério próprio da criação. Essa unidade corresponde à verdade profunda de todas as criaturas dotadas de inteligência e, em particular, do homem, o qual, entre as criaturas do mundo visível, desde o início foi elevado, mediante a eleição eterna por parte de Deus em Jesus: « Em Cristo ... ele nos elegeu antes da criação do mundo... Por puro amor ele nos predestinou a sermos por ele adotados por filhos, por intermédio de Jesus

Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade (cf. Ef 1,4-6). O ensinamento bíblico, no seu conjunto, consente-nos dizer que a predestinação diz respeito a todas as pessoas humanas, a homens e mulheres, a cada um e cada uma, sem exceção.

« Ele te dominará »

10. A descrição bíblica do Livro do Gênesis delineia a verdade sobre as consequências do pecado do homem, como indica também a perturbação da relação original entre o homem e a mulher que corresponde à dignidade pessoal de cada um deles. O ser humano, tanto homem como mulher, é uma pessoa e, por conseguinte, « a única criatura na terra que Deus quis por si mesma »; e, ao mesmo tempo, precisamente esta criatura única e irrepetível « não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesma ». (32) Daqui se origina a relação de « comunhão », na qual se exprimem a « unidade dos dois » e a dignidade pessoal tanto do homem como da mulher. Quando lemos, pois, na descrição bíblica, as palavras dirigidas à mulher: « sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará » (Gên 3, 16), descobrimos uma ruptura e uma constante ameaça precisamente a respeito desta « unidade dos dois », que corresponde à dignidade da imagem e da semelhança de Deus em ambos. Tal ameaça resulta, porém, mais grave para a mulher. Com efeito, ao ser um dom sincero, e por isso ao viver « para » o outro, sucede o domínio: « ele te dominará ». Este « domínio » indica a perturbação e a perda da estabilidade da igualdade fundamental, que na « unidade dos dois » possuem o homem e a mulher: e isto vem sobretudo em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da dignidade de ambos como pessoas, pode dar às relações recíprocas o caráter de uma autêntica « communio personarum » (comunhão de pessoas). Se a violação desta igualdade, que é conjuntamente dom e direito que derivam do próprio Deus Criador, comporta um elemento em desfavor da mulher, ao mesmo tempo tal violação diminui também a verdadeira dignidade do homem. Tocamos aqui um ponto extremamente sensível na dimensão do « ethos » inscrito originariamente pelo Criador, já no fato mesmo da criação de ambos à sua imagem e semelhança.
Esta afirmação de Gênesis 3, 16 tem um grande e significativo alcance. Ela implica uma referência à relação recíproca entre o homem e a mulher no matrimônio. Trata-se do desejo nascido no clima do amor esponsal, que faz com que « o dom sincero de si mesmo » da parte da mulher encontre resposta e complemento num « dom » análogo da parte do marido. Somente apoiados neste princípio podem os dois, e em particular a mulher, « encontrar-se » como verdadeira « unidade dos dois » segundo a dignidade da pessoa. A união matrimonial exige o respeito e o aperfeiçoamento da verdadeira subjetividade pessoal dos dois. A mulher não pode tornar-se « objeto » de « domínio » e de « posse » do homem. Mas as palavras do texto bíblico referem-se diretamente ao pecado original e às suas consequências duradouras no homem e na mulher. Onerados pela pecaminosidade hereditária, carregam em si a constante « causa do pecado », ou seja a tendência a ferir a ordem moral, que corresponde à própria natureza racional e à dignidade do ser humano como pessoa. Esta tendência exprime-se na tríplice concupiscência, que o texto apostólico precisa como concupiscência dos olhos, concupiscência da carne e fausto da vida (cf. 1 Jo 2, 16). As palavras do Gênesis, acima citadas (3, 16), indicam de que modo esta tríplice concupiscência, como « causa do pecado », pesará sobre a relação recíproca entre homem e mulher.

Essas mesmas palavras se referem diretamente ao matrimônio, mas indiretamente abrangem os diversos campos da convivência social: as situações em que a mulher permanece em desvantagem ou é discriminada pelo fato de ser mulher. A verdade revelada sobre a criação do homem como homem e mulher constitui o principal argumento contra todas as situações que, sendo objetivamente prejudiciais, isto é injustas, contêm e exprimem a herança do pecado que todos os seres humanos trazem em si. Os Livros da Sagrada Escritura confirmam em vários pontos a existência efetiva de tais situações e juntamente proclamam a necessidade de converter-se, isto é, de purificar-se do mal e de libertar-se do pecado: de tudo aquilo que ofende o outro, que « diminui » o homem, não só aquele a quem se ofende, mas também aquele que comete a ofensa. Essa é a mensagem imutável da Palavra revelada de Deus. Nisso se exprime o « ethos » bíblico até o fim. (33).

Nos nossos dias a questão dos « direitos da mulher » tem adquirido um novo significado no amplo contexto dos direitos da pessoa humana. Iluminando este programa, constantemente declarado e de várias maneiras recordado, a mensagem bíblica e evangélica guarda a verdade sobre a « unidade » dos « dois », isto é, sobre a dignidade e a vocação que resultam da diversidade específica e originalidade pessoal do homem e da mulher. Por isso, também a justa oposição da mulher face àquilo que exprimem as palavras bíblicas: « ele te dominará » (Gên 3, 16) não pode sob pretexto algum conduzir à « masculinização » das mulheres. A mulher—em nome da libertação do « domínio » do homem—não pode tender à apropriação das características masculinas, contra a sua própria « originalidade » feminina. Existe o temor fundado de que por este caminho a mulher não se « realizará », mas poderia, ao invés, deformar e perder aquilo que constitui a sua riqueza essencial. Trata-se de uma riqueza imensa. Na descrição bíblica, a exclamação do primeiro homem à vista da mulher criada é uma exclamação de admiração e de encanto, que atravessa toda a história do homem sobre a terra.
Os recursos pessoais da feminilidade certamente não são menores que os recursos da masculinidade, mas são diversos. A mulher, portanto, — como, de resto, também o homem — deve entender a sua « realização » como pessoa, a sua dignidade e vocação, em função destes recursos, segundo a riqueza da feminilidade, que ela recebeu no dia da criação e que herda como expressão, que lhe é peculiar, da « imagem e semelhança de Deus ». Somente por este caminho pode ser superada também aquela herança do pecado que é sugerida nas palavras da Bíblia: « sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará ». A superação desta má herança é, de geração em geração, dever de todo homem, seja homem, seja mulher. Efetivamente, em todos os casos em que o homem é responsável de quanto ofende a dignidade pessoal e a vocação da mulher, ele age contra a própria dignidade pessoal e a própria vocação.
Proto-Evangelho
11. O Livro do Gênesis atesta o pecado, que é o mal do « princípio » do homem, as suas consequências que desde então pesam sobre todo o gênero humano, e juntamente contém o primeiro anúncio da vitória sobre o mal, sobre o pecado. Provam-no as palavras que lemos em Gênesis 3, 15, habitualmente ditas « Proto-Evangelho »: « Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça enquanto tu te lanças contra o seu calcanhar ». É significativo que o anúncio do redentor, do salvador do mundo, contido nestas palavras, se refira à « mulher ». Esta é nomeada em primeiro lugar no Proto-Evangelho como progenitora daquele que será o redentor do homem. (34) E se a redenção deve realizar-se mediante a luta contra o mal, por meio da « inimizade » entre a estirpe da mulher e a estirpe daquele que, como « pai da mentira » (Jo 8, 44), é o primeiro autor do pecado na história do homem, esta será também a inimizade entre ele e a mulher.
Nessas palavras desvela-se a perspectiva de toda a Revelação, primeiro como preparação ao Evangelho e depois como próprio Evangelho. Nesta perspectiva convergem, sob o nome da mulher, as duas figuras femininas: Eva e Maria.

As palavras do Proto-Evangelho, relidas à luz do Novo Testamento, exprimem adequadamente a missão da mulher na luta salvífica do redentor contra o autor do mal na história do homem.
O confronto Eva-Maria retorna constantemente no curso da reflexão sobre o depósito da fé recebida da Revelação divina, e é um dos temas retomados frequentemente pelos Padres, pelos escritores eclesiásticos e pelos teólogos. (35) Habitualmente, nesta comparação surge à primeira vista uma diferença, uma contraposição. Eva, como « mãe de todos os viventes » (Gên 3, 20), é testemunha do « princípio » bíblico, no qual estão contidas a verdade sobre a criação do homem à imagem e semelhança de Deus e a verdade sobre o pecado original. Maria é testemunha do novo « princípio » e da « nova criatura » (cf. 2 Cor 5, 17). Melhor, ela mesma, como a primeira redimida na história da salvação, é « nova criatura »: é a « cheia de graça ». É difícil compreender porque as palavras do Proto-Evangelho realcem tão fortemente a « mulher », se não se admite que com ela se inicia a nova e definitiva Aliança de Deus com a humanidade, a Aliança no sangue redentor de Cristo. Essa Aliança inicia-se com uma mulher, a « mulher », na Anunciação em Nazaré. Esta é a novidade absoluta do Evangelho: outras vezes no Antigo Testamento, Deus, para intervir na história do seu Povo, se tinha dirigido a mulheres, como a mãe de Samuel e de Sansão; mas para estipular a sua Aliança com a humanidade se tinha dirigido somente a homens: Noé, Abraão, Moisés. No início da Nova Aliança, que deve ser eterna e irrevogável, está a mulher: a Virgem de Nazaré. Trata-se de um sinal indicativo de que « em Jesus Cristo » « não há homem nem mulher » (Gál 3, 28). Nele a contraposição recíproca entre homem e mulher — como herança do pecado original — é essencialmente superada. « Todos vós sois um só em Cristo Jesus », escreverá o Apóstolo (Gál 3, 28).

Estas palavras tratam da originária « unidade dos dois », que está ligada à criação do homem, como homem e mulher, à imagem e semelhança de Deus, segundo o modelo da comunhão perfeitíssima de Pessoas que é o próprio Deus. As palavras paulinas constatam que o mistério da redenção do homem em Jesus Cristo, filho de Maria, retoma e renova aquilo que no mistério da criação correspondia ao desígnio eterno de Deus Criador. Precisamente por isso, no dia da criação do homem como homem e mulher, « Deus contemplou tudo o que tinha feito, e eis que estava tudo muito bem » (Gen 1, 31). A redenção restitui, em certo sentido, à sua própria raiz o bem que foi essencialmente « diminuído » pelo pecado e pela sua herança na história do homem.

A « mulher » do Proto-Evangelho é inserida na perspectiva da redenção. O confronto Eva-Maria pode ser entendido também no sentido de que Maria assume em si mesma e abraça o mistério da « mulher », cujo início é Eva, « a mãe de todos os viventes » (Gên 3, 20): antes de tudo o assume e abraça no interior do mistério de Cristo — « novo e último Adão » (cf. 1 Cor 15, 45) — o qual assumiu na sua pessoa a natureza do primeiro Adão. A essência da Nova Aliança consiste no fato de que o Filho de Deus, consubstancial ao Pai eterno, se torna homem: acolhe a humanidade na unidade da Pessoa divina do Verbo. Aquele que opera a Redenção é, ao mesmo tempo, verdadeiro homem. O mistério da Redenção do mundo pressupõe que Deus-Filho tenha assumido a humanidade como herança de Adão, tornando-se semelhante a ele e a todo homem em tudo, « com exceção do pecado » (Hebr 4, 15). Deste modo, ele « manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação », como ensina o Concílio Vaticano II. (36) Em certo sentido, ajudou-o a redescobrir « quem é o homem » (cf. Sl 8, 5).

Em todas as gerações, na tradição da fé e da reflexão cristã sobre a mesma, a aproximação Adão-Cristo é frequentemente acompanhada da de Eva-Maria. Se Maria é descrita também como « nova Eva », quais podem ser os significados desta analogia? Certamente são múltiplos. É preciso deter-se particularmente no significado que vê em Maria a revelação plena de tudo o que é compreendido na palavra bíblica « mulher »: uma revelação proporcional ao mistério da Redenção. Maria significa, em certo sentido, ultrapassar o limite de que fala o Livro do Gênesis (3, 16) e retornar ao « princípio » no qual se encontra a « mulher » tal como foi querida na criação, portanto no pensamento eterno de Deus, no seio da Santíssima Trindade. Maria é o « novo princípio » da dignidade e da vocação da mulher, de todas e de cada uma das mulheres. (37)

Para compreender isto podem servir de chave, de modo particular, as palavras postas pelo evangelista nos lábios de Maria depois da Anunciação, durante a sua visita a Isabel: « grandes coisas fez em mim o Todo-poderoso » (Lc 1, 49). Estas se referem certamente à concepção do Filho, que é « Filho do Altíssimo » (Lc 1, 32), o « santo » de Deus; conjuntamente, porém, elas podem significar também a descoberta da própria humanidade feminina. « Grandes coisas fez em mim »: esta é a descoberta de toda a riqueza, de todos os recursos pessoais da feminilidade, de toda a eterna originalidade da "mulher", assim como Deus a quis, pessoa por si mesma, e que se encontra contemporaneamente
 « por um dom sincero de Si mesma ».
Esta descoberta relaciona-se com a clara consciência do dom, da dádiva oferecida por Deus. O pecado já no « princípio » tinha ofuscado esta consciência, em certo sentido a tinha sufocado, como indicam as palavras da primeira tentação por obra do « pai da mentira » (cf. Gen 3, 1-5). Com a chegada da «plenitude dos tempos» (cf. Gál 4, 4), ao começar a cumprir-se na história da humanidade o mistério da redenção, esta consciência irrompe com toda a sua força nas palavras da « mulher » bíblica de Nazaré. Em Maria, Eva redescobre qual é a verdadeira dignidade da mulher, da humanidade feminina. Esta descoberta deve chegar continuamente ao coração de cada mulher e plasmar a sua vocação e a sua vida.


Próximo - Capítulo V

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mulheres que seguiram a Jesus Cristo (Capítulo 2 de 2)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Maria, a Egípcia
Muitos monges e monjas egípcios começaram sua vida monástica a partir de experiências de conversão. A decisão de viver somente para receber a misericórdia de Deus foi para eles o início de uma vida nova, cujo objetivo principal era tornar real e presente esta misericórdia divina em suas existências. Esta nova vida se realizaria então no deserto, sob uma disciplina e ascese rigorosas, e ao mesmo tempo, sob a confiança total na graça de Deus. Como para os Pais e Mães do Deserto, o monge e a monja são entre os cristãos aqueles que mais se sentem necessitados da misericórdia de Deus, usualmente, há nestas narrativas o relato de pecados extremos e de arrependimentos extremos... Benedicta Ward, em seu livro Maria Magdalena e outros relatos, explica que ‘o momento da conversão, assim com os detalhes da vida precedente e sucessiva são enfatizados na obra narrativa para sublinhar a necessidade de redenção em todo ser humano e o poder redentor da misericórdia de Cristo para com todos’. Escrita por São Sofrônio, ‘A Vida de Maria Egipcíaca’ pertence à tradição monástica por ser um dos textos chaves do que se pode chamar de ‘literatura de conversão’, cujo tema principal é a consciência da necessidade da misericórdia de Deus.
A vida de Maria Egipcíaca’ é composta de duas partes. A primeira trata da vida e conduta de Abba Zózima, monge sacerdote da Palestina, e a segunda da vida de Santa Maria Egipcíaca contada por ela mesma ao Abba Zózima, quando os dois se encontram no deserto. O relato da história de sua vida é, em si mesmo, o maior ensinamento de Maria Egipcíaca. A sua história combina elementos de várias fontes, por trás das quais há prostitutas e penitentes, que existiram de fato. Segundo Benedicta Ward, ‘por trás do gênero literário estão presentes numerosos detalhes históricos : a existência em Alexandria e em Jerusalém, como na maior parte das grandes cidades, de mulheres que se prostituíam e, também o dado de que o impacto do cristianismo no Egito e na Palestina assumiu frequentemente a forma de fuga para o deserto’.
Na história de Maria Egipcíaca, há um interessante contraste entre Abba Zózima, um monge sábio e piedoso e a pecadora Maria, que recebe de Cristo o dom da salvação sem nenhuma boa obra, simplesmente pela grande consciência que tinha da sua necessidade de salvação. Aqui volta a pergunta fundamental dos Pais e Mães do deserto : ‘O que devo fazer para ser salvo?’ Maria foi para o deserto para ser salva, e sabia disso. Graças ao seu arrependimento, à contrição de seu coração e à sua total confiança na misericórdia de Deus, ela se transformou naquilo que Abba Zózima desejava ser e não conseguia, pois, no seu íntimo, ele acreditava que alcançaria a salvação com suas próprias obras. Por isso, caía no orgulho, pois pensava consigo :
Haverá sobre a terra algum monge que possa ensinar-me algo de novo, alguém que possa me ajudar a conhecer algo que ainda não conheço ou que tenha feito alguma obra na vida monástica que eu não tenha feito?
Como Deus não quer que o monge seja somente como um servo zeloso, mas que seja um amigo com quem possa falar ao coração, Abba Zózima foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde, a partir de seu encontro com Maria Egipcíaca, adquiriu um olhar novo sobre Deus, e esta abertura dos olhos espirituais lhe permitiu contemplar e compreender os caminhos de Deus.
Maria Egipcíaca começa o relato de sua história dizendo :
Minha pátria é o Egito. Enquanto ainda viviam meus pais, aos doze anos de idade, desprezando o afeto deles, fui para Alexandria, e me envergonho somente em pensar como permaneci subjugada pelo vício da luxúria.
Para Hierome Nicolas, ‘esta idade indica a mudança de um status social. A criança não é mais considerada como tal embora não tenha ainda totalmente as prerrogativas de uma pessoa adulta. Como em todas as mudanças, as passagens da vida social e a aquisição de uma liberdade nova, embora limitada, é ocasião de uma crise que afeta não somente a adolescente, mas também o seu meio’. Por isso, ele conclui, a raiz do pecado de Maria Egipcíaca é uma revolta profunda em relação a seus pais, todavia não conscientizada. Ao negar o afeto paterno, ela nega a paternidade de Deus. O pecado de Maria Egipcíaca, mais do que uma violação de uma ordem moral ou social, é uma ruptura da comunhão com Deus que a deixou seguir livre seu caminho, confiada às suas próprias forças.
Maria Egipcíaca seguiu sua experiência de ateísmo vivendo uma vida irresponsável, sem ter o domínio de seus sentidos e paixões. Até que um dia, por pura curiosidade, se uniu aos peregrinos, ‘uma multidão de líbios e egípcios’, que iam de Alexandria para Jerusalém. Ela perguntou a um dos peregrinos : ‘Para onde vão correndo estes homens tão rapidamente?’ E este respondeu que todos subiam ‘para Jerusalém, para a Exaltação da Santa Cruz’. Ela se uniu à tripulação do barco, pagou a passagem com o próprio corpo, e atravessou Mar Mediterrâneo em direção à Terra Santa. Chegando o dia da Exaltação da Santa Cruz, Maria foi com os peregrinos à Igreja do Santo Sepulcro onde estava exposta a relíquia da verdadeira Cruz, mas foi impedida de entrar na igreja, como que por uma força invisível, ‘como se um exército de soldados tivesse sido pago para impedir meu acesso’, ela explica. Foi então que Maria percebeu sua excomunhão :
Finalmente, diz ela, ficou claro para mim o motivo pelo qual me era proibido ver o madeiro vivificante. Com efeito, o conhecimento da salvação havia tocado minha mente e os olhos do meu coração, ao me dar conta de que eram as miseráveis desordens de minhas ações que me impediam de entrar. Comecei então a sentir-me fortemente perturbada e golpeando o peito, suspirava desde o profundo do meu coração, gemendo e lamentando.
Vendo a imagem de Nossa Senhora, orou para a Mãe de Deus para que a ajudasse e rompeu em lágrimas. Na manhã seguinte pôde entrar na igreja e venerar a Santa Cruz. Depois deixou Jerusalém, atravessou o Jordão e seguiu para o deserto, onde viveu por dezessete anos, em contraposição aos dezessete anos que viveu na luxúria.
No átrio da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, Jesus Cristo veio ao encontro de Maria e, mostrando-lhe a luz verdadeira, libertou-a. No momento de sua conversão, as lágrimas derramadas foram sinal de que a invasão do Espírito Santo provocou a abertura de seu coração. Ela aceitou seu coração como o lugar onde o Espírito Santo pôde fazer sua obra. A partir de sua conversão, Maria convergiu todo o seu ser de pecadora para o amor de Deus que a salvou. O sacrifício de Maria Egipcíaca foi aceito por Deus, e uma vez reconciliada, se reintegrou na comunidade. Paradoxalmente, ela saiu vitoriosa por causa de sua fraqueza, pois sustentada pela rocha que é o Cristo, e com a intercessão de Nossa Senhora, ela restaurou a sua virgindade espiritual e voltou a ser ela mesma, tal como Deus a desejou dede a criação do mundo.
É rica a simbologia que expressa a nova vida de Maria no deserto. Ela fez a experiência da fé e pela fé foi introduzida no mistério de uma existência eucarística, por isso quando foi para o deserto, Maria levou consigo três pães, que como os pães do profeta Elias, nunca acabaram. Com a travessia do rio Jordão, símbolo do Batismo, ela se expôs à ação salvadora de Jesus Cristo. No deserto ela foi Teodidata, isto é, ensinada por Deus, e introduzida no conhecimento das Escrituras sem saber ler. A ascese do deserto e a graça divina deram a seu corpo tal leveza espiritual, que ela pôde atravessar o Jordão caminhando sobre as águas.
Antes de Maria Egipcíaca falecer, Abba Zózima levou para ela a eucaristia e ela comungou, terminando sua vida em total comunhão com o Senhor. Era época da Páscoa quando Zózima encontrou o corpo da santa com as mãos voltadas em oração para o Oriente. Como o verdadeiro eremita está em comunhão com a Igreja, a inscrição na areia encontrada ao lado do corpo da santa revela a união entre a vida eucarística e pascal de Maria no deserto e a Igreja :
Enterra, Abba Zózima, o pequeno corpo da miserável Maria. Restitui à terra o que é seu e junta o pó ao pó. Somente ora por mim, em nome do Senhor, que faleceu neste primeiro dia do mês de Pharmuti, segundo os egípcios, e que segundo os romanos é o nono dia, quer dizer, o quinto dos idos de abril, o dia da Paixão salvífica, depois da Comunhão da divina e sagrada Ceia.
Zózima lavou os pés da santa com suas próprias lágrimas, como a pecadora do Evangelho lavara os pés de Jesus, pois seu coração fora tocado pela compunção. Como já era avançado em idade, - ele morreria logo depois de Maria - Zózima não tinha forças para cavar a sepultura. Mas eis que no meio do deserto apareceu um leão manso, que fez este trabalho para Zózima. Um leão pacificado, assim como as paixões de Maria e o coração de Zózima. Em presença do leão, Zózima cobriu o corpo da santa com terra e fez as orações. Em seguida cada um tomou seu rumo : o leão adentrou no deserto, e Zózima voltou ao seu mosteiro ‘bendizendo e louvando a Deus, e cantando um hino em louvor a nosso Senhor Jesus Cristo’, pois viu ainda uma vez mais a evidência da ação do Espírito Santo na vida daquela serva que tanto agradou a Deus, Maria Egipcíaca.
Uma vez que um olhar sobre as Mães do Deserto pode apresentar a realidade do arrependimento e da salvação, com profundidade e clareza, a história de Maria Egicíaca, por sua vez, consegue transmitir a verdade teológica da salvação com um rosto humano para os leitores e ouvintes de todos os tempos. Além disso, estas mulheres tinham consciência do poder da ação de Deus na vida do cristão por meio da sua Palavra, por isso Maria Egipcíaca diz que ‘a Palavra de Deus, viva e eficaz (Hb 4,12), instrui a inteligência humana desde o seu interior’. Uma leitura orante da vida de Maria Edipcíaca com certeza pode trazer muitos bons frutos para nossas jovens de hoje, especialmente por conduzí-las a uma experiência da misericórdia de Deus, que converte e purifica os corações. Por este motivo, a Igreja do Oriente celebra Maria Egipcíaca no V Domingo da Quaresma como modelo de contrição. Em seu Cânon ela reza : ‘A força de tua cruz, ó Cristo, operou maravilhas, por até esta mulher, que outrora foi prostituta, escolheu seguir o caminho ascético. Abandonada à própria debilidade, se opôs fortemente ao demônio, e obtendo o prêmio da vitória, intercede por nossas almas’. Amém.

 

sábado, 13 de abril de 2013

Mulheres que seguiram a Jesus Cristo (Capítulo 1 de 2)

 
Sinclética
 * Artigo de Ir. Roberta Peluso, OSB
 
Entre os Pais e Mães do deserto costuma-se dizer que uma pessoa pode vir a escolher o caminho ascético ‘por fortaleza’ ou ‘por fraqueza’. No primeiro caso, escolhe quando encontra neste estilo de vida uma maneira de continuar sua caminhada de perfeição cristã. No segundo, quando encontra um caminho que lhe permite uma ruptura com a vida antiga e oferece a oportunidade de uma vida nova, usualmente após uma experiência de conversão. Como exemplo do primeiro caso temos Santa Sinclética e do segundo, Santa Maria, a Egípcia (ou Egipcíaca). Estas mulheres que deixaram o mundo por amor a Cristo e que no deserto combateram contra os vícios do corpo e do pensamento, são conhecidas como Ammas do Deserto, ou seja, Mães do Deserto.
Os relatos das vidas destas santas ilustram a caminhada da vida espiritual cristã. Tanto o relato da ‘Vida e ensinamentos de Sinclética’, de autor anônimo do século V, quanto da ‘Vida de Maria Egipcíaca’, escrita por São Sofrônio, bispo de Jerusalém (séc. VI), têm como pano de fundo a ‘Vida e Conduta de Santo Antão’, escrita por Santo Atanásio de Alexandria no séc. IV. Conta Santo Atanásio que Santo Antão era egípcio de nascimento. Seus pais eram bem posicionados, e como eram cristãos, Santo Antão teve uma sólida formação cristã desde o berço. Depois da morte de seus pais, Santo Antão ficou sozinho com sua irmã mais jovem. Certo dia, quando tinha cerca de dezoito anos, como era seu costume, estava se dirigindo para a igreja, e caminhava pensando sobre a fé e o despojamento dos primeiros cristãos descritos nos Atos dos Apóstolos. Estava tão absorto em seus pensamentos, que chegou atrasado na missa, na hora da leitura do Evangelho. Estavam lendo justamente a passagem em que Jesus diz ao jovem rico : ‘Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me e terás um tesouro nos céus’ (Mt 19,21). A escuta desta Palavra tocou tão profundamente o coração de Santo Antão,...que ao sair da igreja, distribuiu sua herança com as pessoas da aldeia e com os pobres. Deixou sua irmã aos cuidados de umas virgens conhecidas e fiéis. Em seguida, se dedicou à vida ascética, mas perto de sua própria casa, pois segundo Santo Atanásio, ‘não havia ainda no Egito mosteiros tão numerosos, e o monge não sabia absolutamente nada do grande deserto. Quem queria aplicar-se a si mesmo, exercitava-se não longe de sua aldeia’. Sob uma ferrenha disciplina, orientado por outro asceta mais experiente, Santo Antão progrediu na vida espiritual, orando e trabalhando, se instruindo nas virtudes e na ascese e se adestrando no combate contra o demônio. Mais tarde, triunfando nos combates, se dirigiu para os sepulcros e entrando num túmulo, símbolo da gestação para uma vida nova, permaneceu lá sozinho. Depois desta etapa, Santo Antão foi para o deserto, onde morou numa fortificação abandonada definitivamente. Escreve Santo Atanásio que, visitado por monges seculares, ‘em frequentes colóquios, Antão encorajava os monges e determinou vários visitantes a se tornarem monges. Era como que o pai de todos esses mosteiros’.  

Sinclética
O autor – ou autora, não se sabe – da ‘Vida e Ensinamentos de Sinclética’, conta que este nome significa ‘assembléia’, em grego, por isso ela é aquela que congrega em torno de si muitas discípulas. Sinclética nasceu na Macedônia, uma região da Grécia. Seus pais ao terem conhecimento de que as pessoas que viviam em Alexandria, uma cidade do Egito, amavam a Deus e a Cristo, decidiram sair da Macedônia e partir para Alexandria. Atravessaram o Mar Mediterrâneo e foram muito bem acolhidos no novo país. Mas o que lhes agradou não foram os monumentos ou o grande número de habitantes de Alexandria, e sim a fé simples e o amor sincero dos cristãos daquela cidade, por isso o Egito se tornou para eles uma segunda pátria. Como Sinclética era muito bonita, e sua família era bem posicionada, havia muitos jovens que a queriam em casamento, e seus pais esperavam dela o mesmo destino. Mas os planos da jovem eram outros e pouco se interessava pelos seus pretendentes, uma vez que o único esposo que ela desejava era Jesus Cristo. Começa, então, a cena vocacional clássica que bem conhecemos; seus pais, parentes e amigos tentam mudar sua decisão, para que escolha o matrimônio, mas Sinclética permanece ‘sólida como um diamante e não muda seus sentimentos’, descreve o autor. E acrescenta que ela fecha as portas de seus sentidos e conversa somente com Cristo, seu esposo, repetindo as palavras do Cântico dos Cânticos : ‘O meu amado é meu, e eu sou dele’ (Ct 2,16). Quando seus pais morreram, ela e sua irmã cega deixaram a família, e como Santo Antão, venderam seus bens e distribuíram a herança de sua família aos pobres. Em seguida, as duas cortaram os cabelos diante de um sacerdote, e com o coração simples e puro, receberam o nome de virgem. Para os antigos uma virgem era uma mulher inteiramente consagrada a Deus, e que por isso não se casava. Assim como o Pai dos Monges, no começo de sua vida ascética, vão morar nos arredores de Alexandria onde passam o resto de suas vidas.
Se Sinclética não morou no deserto, mas levou uma vida escondida nos arredores da grande cidade de Alexandria, por que ela é considerada uma Mãe do Deserto? Porque conheceu todos os combates do deserto, e não agindo conforme suas capacidades intelectuais, mas conforme a inspiração do Espírito Santo, vivenciou tudo o que ensinou, servindo assim de modelo para aquelas que quisessem seguir o mesmo caminho. Em sua caminhada espiritual, Sinclética progrediu na prática das virtudes, e com a ajuda de Deus, venceu os combates contra os maus pensamentos e os vícios. Seu biógrafo relata que ‘com o passar do tempo, suas virtudes de desenvolveram e o bom odor de seus esforços e de suas vitórias se tornou conhecido... Assim, como os que estão atentos à Palavra de Deus se corrigem e dão fruto, algumas jovens que desejavam avançar na sua vida para Deus começaram a vir até Sinclética para receber seus ensinamentos’.
As jovens discípulas vinham frequentemente para ser orientadas e conhecer o estilo de vida que Sinclética levava. Perguntavam segundo o costume : ‘O que devo fazer para ser salva?’ Eis aí a pergunta chave para entender o monaquismo do deserto : as jovens não perguntavam o que devo fazer para ser feliz? Ou com serei bem-sucedida na vida? Mas o que devo fazer para ser salva? É a mesma pergunta que os discípulos faziam aos Pais do Deserto, em especial a Santo Antão. Isso remete a uma ‘praxis’, - o que fazer – e a um objetivo : a salvação. Por isso os ensinamentos de Sinclética começam com esta máxima : ‘Ser salvo é amar a Deus e a seu próximo’. Sinclética é uma guerreira e seu inimigo principal, como personificavam os antigos, era o demônio com pensamentos maus e grandes tentações. Ela enfrentava corajosamente o adversário e vencia, pois anulava os maus pensamentos com bons pensamentos e as más ações com boas ações. Por isso ela usa muitas imagens fortes para aconselhar suas jovens discípulas :
Lutem contra as armadilhas do inimigo com toda a inteligência’, e acrescentava que ‘os medicamentos comuns que devemos usar contra os pensamentos maus são a ascese e a oração pura’, e ‘antes de mais nada, sejam mestras de seus estômagos, pois isto permite dominar todos os desejos maus’.
Sinclética exercia com suas discípulas aquilo que chamamos hoje de uma ‘autoridade dialogada’. Seus ensinamentos brotaram do diálogo com as jovens, a partir de suas necessidades concretas e não de um ideal que elas deveriam alcançar. Como viviam em Alexandria, que é perto do mar, Sinclética ensina sobre a humildade :
Assim como é impossível construir um barco sem pregos, é impossível ser salva se não se é humilde.
Perguntam as jovens se a pobreza é um grande bem, e Sinclética mostra, com outro exemplo marítimo, que a verdadeira riqueza é o progresso espiritual :
Os caçadores de tesouros suportam as tempestades que fazem cambalear os barcos e combatem contra os outros caçadores que os atacam em alto-mar. Mas quando chegam à terra, caem nas mãos dos bandidos. Nós ao contrário, não precisamos enfrentar tão grandes perigos por causa de nossa verdadeira riqueza!’.
E sobre a vigilância dos pensamentos adverte :
Devemos ficar atentas aos pensamentos maus que nos atacam a partir de dentro e a partir de fora. Quando há uma tempestade, os marinheiros começam a gritar, e os barcos que estão próximos se aproximam para salvá-los. Mas se eles dormem porque o mar está calmo, a água pode entrar por um furo no fundo do barco, e não se dando conta, sucumbem e morrem’. Assim, ‘podemos nos perder tanto pelas faltas exteriores, quanto pelos pensamentos interiores’.
E ainda dá um conselho vocacional : Tudo não convém a todos. Cada qual deve se conhecer bem para escolher bem. Para umas a vida em uma comunidade é boa, para outras é melhor viver só. Há plantas que se dão bem numa terra úmida. Há outras que se dão bem numa terra seca. Acontece o mesmo com os seres humanos’.
            Sinclética viveu até os 80 anos enfrentando até o fim os ataques do inimigo. E ainda encontrava forças para encorajar suas companheiras dizendo-lhes : ‘Sejam fortes e tenham coragem nos momentos difíceis’. No momento de alcançar a vitória e receber a coroa, Sinclética viu coisas extraordinárias : viu o paraíso e uma luz tão brilhante que não conseguiu descrever com suas palavras. Quando chegou o dia e a hora em que aconteceria seu trânsito, acontecimento que ela já havia previsto, Sinclética partiu para o encontro de seu Senhor, e recebeu o Reino dos Céus como recompensa de suas lutas. Pelas virtudes e ensinamentos de Sinclética, o convite que Santo Atanásio faz para ler a ‘Vida e Conduta de Santo Antão’, pode também ser feito por nós às jovens que se aproximam de nossos mosteiros para que conheçam a vida desta santa : ‘Lede essas coisas aos outros irmãos para lhes ensinardes como deve ser a vida dos monges e persuadi-los de que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo glorifica aqueles que o glorificam, e não só conduz ao reino aqueles que o servem até o fim, mas também, por causa de sua virtude e utilidade dos outros, manifesta e torna célebres em toda parte aqueles que se ocultam e procuram retirar-se’.
 

Fonte :
* Ir. Roberta Peluso, OSB, monja do Mosteiro da Santíssima Trindade – Santa Cruz do Sul – RS
Revista Beneditina nrº 36, Novembro/Dezembro de 2009, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.