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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mártir da superstição

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


 A beatificação de Benedict Daswa será eficaz se gerar um debate mais aberto e alargado sobre a questão da cura/medicina tradicional e transmitir claramente a mensagem libertadora do Evangelho.


‘A África do Sul acaba de beatificar o seu primeiro filho, Benedict Daswa. A cerimonia ocorreu no dia 13 de Setembro em Tshitanine, uma aldeia na província de Limpopo já próxima da fronteira com o Zimbabué e pertencente à diocese de Tzaneen, cujo bispo é João Rodrigues, um sul-africano de origem portuguesa.

Tshimangadzo Samuel Benedict Daswa era professor primário e pai de oito filhos, que viveu santamente : era um trabalhador diligente, um bom pai de família, um educador dinâmico, um leigo ativo, um catequista comprometido, um líder comunitário, um desportista, um homem atento aos pobres e de profunda espiritualidade e oração. Morreu como um mártir porque foi brutalmente assassinado pela sua oposição à prática da feitiçaria. Tinha 43 anos.

O seu martírio ocorreu da seguinte maneira : em Novembro de 1989, houve uma série de tempestades severas naquela região, fenomenos que não eram considerados naturais. A sua aldeia foi afetada em Janeiro de 1990. Os anciãos decidiram recorrer à magia de um feiticeiro. Cada residente teria de pagar cinco rands para que os ritos de «proteção» da aldeia fossem efetuados. Benedict recusou-se a pagar a taxa exigida, explicando que não lhe era permitido pela sua fé. No dia 2 de Fevereiro, foi emboscado pelos jovens e homens da aldeia, que primeiro o tentaram lapidar, e depois lhe fraturaram o crânio e lhe queimaram a cabeça com água a ferver. As suas últimas palavras foram : «Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito

Daswa, que se tinha convertido ao Cristianismo em 1963, com 17 anos, por meio de um amigo que encontrara em Joanesburgo, revela ainda uma atitude de grande liberdade em relação a outros costumes tradicionais, como a sua igualmente malvista colaboração nos trabalhos domésticos, geralmente reservados às mulheres, como lavar as fraldas das crianças no riacho mais próximo ou ir buscar água para a família. Porém, o que está na origem do seu martírio é claramente a sua oposição à feitiçaria. E é nesta prática que o Cristianismo encontra, porventura, o maior obstáculo ao grande desafio que representa a inculturação em África.

A superstição não é de maneira nenhuma exclusiva da África. Aliás, mesmo na Europa, é mais prevalente do que sabemos e do que estaremos preparados para admitir. Mas parece que a crença em bruxas e no seu poder está mais profundamente arreigado na alma africana. Os feiticeiros são consultados não só para a cura de doenças, mas também para a remoção de maldições ou para ter sorte nos amores, nos negócios e noutros empreendimentos. O grande problema é quando a sua consulta tem por finalidade causar mal a alguém e, deste modo, violar os seus direitos, a mais elementar justiça e sobretudo a dignidade humana. Segundo as notícias, não é raro matar crianças indefesas, como os albinos, para extrair partes e órgãos depois usados na preparação de pós (muti) com «propriedades curativas e/ou protetoras».

O Cristianismo, apesar do seu crescimento exponencial no continente, com a sua mensagem de um Deus-amor que é pai/mãe parece ainda não ter contribuído significativamente para debelar o medo causado pela crença no mundo sobrenatural dos espíritos. A beatificação de Benedict Daswa será eficaz se gerar um debate mais aberto e alargado sobre a questão da cura/medicina tradicional, transmitir claramente a mensagem libertadora do Evangelho e contribuir para dissipar o temor instintivo associado à relação com os espíritos.’


Fonte :

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

18 trapistas mártires serão beatificados na Espanha




‘Em 3 de outubro serão beatificados no Mosteiro de Viacoeli, na Província de Santander, Espanha, 18 mártires cistercienses. Trata-se de 16 monges da Abadia de Viaceli de Cóbreces (Santander) e de duas monjas do Mosteiro Fons Salutis de Algemesí (Valência). A Rádio Vaticano conversou a este respeito com o Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, Cardeal Angelo Amato. Eis o que disse :

Deflagrada a perseguição, o Mosteiro de Cóbreces, na Província de Santander, que então contava com cerca de sessenta pessoas, foi invadido por milicianos vermelhos em busca de armas. Foi proibido aos monges de sair e de usar a corrente elétrica. Em 20 de agosto de 1936, Festa de São Bernardo, foi comunicada a supressão do culto católico. Não foi mais possível celebrar a Santa Missa, nem receber a comunhão. Os revolucionários requisitaram todos os objetos sacros, destruindo e saqueando tudo que encontraram de precioso ou de útil. Os monges, após um período de detenção, de interrogatórios, de humilhações e de torturas, foram todos mortos em circunstâncias e tempos diferentes, a partir do verão de 1936 até o final de dezembro do mesmo ano’.


- Quem eram estes mártires de Cristo?

Era religiosos distantes de ideologias partidárias, desejosos somente de servir o Evangelho e de edificar o povo de Deus com a oração, o trabalho e o recolhimento. Eram humildes e inofensivos. Como exemplo, contamos brevemente a vida do chefe do grupo, Padre Pio Julián Heredia Zubía, nascido em 1875 em Larrea (Avala). Aos 14 anos entrou como oblato no Mosteiro cisterciense da Estreita Observância de Val San José, em Getafe, próximo a Madrid. Após a profissão solene, foi ordenado sacerdote em 18 de março de 1899. Em 1918 foi enviado ao novo Mosteiro de Santa Maria de Viaceli e nomeado mestre dos noviços. Eles, em seu depoimento, recordam dele como um formador preparado, paciente e com uma particular devoção mariana. Mais de uma vez foi surpreendido na igreja em profundo diálogo com a Santa Virgem. Após se tornar Prior do mosteiro, que recebeu dele uma extraordinária contribuição de santidade. Apenas ao contemplar a sua face plena de bondade e sorridente, se sentiam convidados a imitá-lo, a viver em Deus e desejar ardentemente a santidade. Era entusiasta da liturgia, tornando-se dela um fervoroso apóstolo. Para ele, a liturgia era a vida da vida do monge’.


- E em relação aos outros, o que o senhor poderia dizer?

Também os outros confrades mártires, todos jovens, eram pessoas boas, humildes, generosas e totalmente abandonadas à vontade de Deus. O menor do grupo era Frei Ezequiel Álvaro de la Fuente, de apenas 19 anos, que após uma infância atribulada em família, havia encontrado na comunidade monástica a serenidade e a alegria de viver. Frei Eulogio Álvarez López tinha apenas 20 anos. Um outro jovem, Frei Álvaro González López, de 21 anos, tinha desejado tanto consagrar-se ao Senhor junto ao seu irmão José, também ele monge Viaceli. Um outro mártir, Frei Ángel de la Vega González, alheio à perseguição em andamento, pede e consegue fazer a profissão solene na Festa de São Tiago, em 25 de julho de 1936. Entre os mártires está um noviço de 23 anos, Frei Marcelino Martín Rubio, aberto e alegre, que no momento da prisão não escondeu a sua condição de religioso, e um postulante, o sacerdote Padre José Camí Camí, nativo de Aytona, Província de Lérida, assassinado pouco antes de entrar no mosteiro’.


- Como ocorreu o martírio deles?

Em tempos e lugares diferentes, do final de julho até o final de dezembro de 1936. Alguns foram fuzilados, outros foram afogados com as mãos atadas e a boca amordaçada na Baía de Santander. A morte deles foi terrível, também porque alguns deles, após terem sido atingidos pela morte, foram esmagados diversas vezes pelas chamadas máquinas da morte dos revolucionários anticatólicos. A crueldade não se deteve nem mesmo diante de monges inofensivos. Por exemplo, Irmã María Micaela foi fuzilada junto à sua irmã Encarnación às 21 horas de 10 de novembro. Tendo ficado gravemente ferida, os vizinhos ouviram os seus lamentos por toda a noite. Na manhã seguinte, os milicianos finalizaram o crime, esmagando-lhe a cabeça. A outra monja, Irmã María Natividad, foi capturada em novembro e algemada com seus irmãos, dois carmelitas e o outro, José, leigo. Descendo pelas escadas, já consciente do fim iminente, gritou : ‘Viva Cristo Rei!’. Obrigada a entrar no carro da morte, foi fuzilada no meio da estrada. O automóvel assolava após o cadáver, passando diversas vezes sobre ele e esmagando a cabeça da irmã. Dias depois ainda permaneciam manchas de sangue sobre a estrada. Nenhum sinal de respeito e de humana piedade pelos corpos mutilados’.


- O que o martírio destes religiosos representa para seus irmãos e irmãs hoje?

Os Beatos Mártires de Viacoeli e de Fons Salutis convidam hoje seus irmãos e irmãs a perseverarem na fidelidade à sua vocação, feita de oração, de louvor ao Senhor, de apoio da Igreja com o seu sacrifício cotidiano. É este um verdadeiro martírio branco testemunhado a cada dia para a edificação da Igreja e para a redenção do mundo. É o incenso abençoado que se eleva ao céu. Em segundo lugar eles exortam a manter sempre aberta a porta do mosteiro àqueles que batem para buscar conforto, assistência, ajuda. A recordação da bondade e da generosidade dos Mártires pelos mais necessitados deve continuar a reviver com a mesma magnanimidade e gentileza. Sabemos, por exemplo, que ainda hoje a comunidade, que vive de seu próprio trabalho, dá ocupação a não poucos habitantes de Cóbreces, com os quais sempre estabeleceu uma relação justa e amigável. Sabemos também, que os pobres, como da tradição, encontram sempre hospitalidade e ajuda em seus mosteiros’.’ 


Fonte :
* Artigo na íntegra http://www.news.va/pt/news/18-trapistas-martires-serao-beatificados-na-espanh


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Benedict Daswa, primeiro beato sul-africano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  

‘Será beatificado em 13 de setembro próximo, em Tshitanini, na Diocese de Tzaneen, na África do Sul, o leigo Benedict Samuel Tshimangadzo Daswa. A cerimônia de beatificação será presidida pelo Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato.

Benedict Daswa foi um homem de dedicação, fé e integridade. Um homem de Deus, primeiro mártir sul-africano reconhecido pela Igreja, morto em 2 de fevereiro de 1990, dia em que foi anunciada - depois de 27 anos de prisão - a libertação de Nelson Mandela, líder sul-africano que lutou contra o apartheid.


Dom Slattery : Daswa como Mandela, símbolo da liberdade

Daswa e Mandela foram guiados por uma visão de libertação das pessoas da escravidão. Mandela passou a sua vida buscando libertar o seu povo do jugo do apartheid. Daswa libertou-se do poder da bruxaria e do mal. Depois, ele procurou ajudar outras pessoas a viverem esta liberdade, abrindo-se a Cristo e ao Evangelho’, disse o Bispo emérito de Tzaneen, Dom Hugh Slattery, que no ano 2000 deu início à causa de beatificação de Daswa.

Segundo o prelado, Daswa e Mandela são complementares, enquanto as pessoas precisam de liberdade interior e exterior para construir uma sociedade justa e saudável.


Benedict, pai amoroso de oito filhos, professor e catequista

Daswa passou toda a sua vida em Mbahe, na Diocese de Tzaneen, onde nasceu em 16 de junho de 1946, numa família não cristã. Durante a adolescência, se uniu a um grupo de catecúmenos e aos 16 anos pediu para ser batizado, escolhendo o nome Benedict. Tornou-se um pai amoroso de oito filhos. Trabalhou também no campo. Na sua horta, os pobres compravam sem ter dinheiro e os jovens trabalhavam para ganhar o que precisavam para pagar seus estudos.

Benedict se comprometeu muito no campo educacional : foi professor de ensino fundamental e depois diretor da escola primária local, catequista e animador da comunidade, guia e animador dos jovens durante os fins de semana e nas férias. Construiu um campo esportivo no povoado e treinou os jovens do time de futebol local.


O confronto com a comunidade para combater a bruxaria

Em janeiro de 1990, começaram os problemas. Uma tempestade se abateu contra a área e muitas cabanas foram incendiadas por causas de uma série de raios, que os chefes do povoado interpretaram como uma maldição, fruto de bruxaria. Decidiu-se então consultar um xamã para que, com suas artes mágicas, encontrasse o responsável pela maldição e o expulsasse do povoado. O único a se opor foi Benedict que se esforçava para explicar aos habitantes do povoado a origem natural dos raios.


Uma morte cruel. Em suas últimas palavras, uma oração

Visto como suspeito, foi vítima de uma emboscada feita por um grupo de agricultores que o atacou armado de pedras e paus. Benedict conseguiu fugir e se refugiar em sua casa, mas pouco depois saiu espontaneamente. Foi espancado sem piedade, escaldado com água fervente e apedrejado. Alguns contam ter ouvido ele rezar em alta voz antes de expirar. Em 22 de janeiro de 2015, o Papa Francisco autorizou a Congregação das Causas dos Santos a promulgar o decreto reconhecendo o martírio.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/benedict-daswa-primeiro-beato-sul-africano
  

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Expectativa pela beatificação de mártir sírio-católico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
‘É grande a expectativa pela proclamação de um novo beato, vítima do ‘Grande Mal’ de 1915, perpetrado contra os armênios e outras minorias pelo então Império Otomano. Trata-se de Michaelis Flavianus Melki (Malke), bispo da Igreja Sírio-católica, morto ‘in odium fidei’ em 29 agosto de 1915.

O Papa Francisco interessou-se pessoalmente pelo caso e a Congregação para a Causa dos Santos trabalha com rapidez para que sua santidade seja proclamada ainda em 2015, no centenário do martírio.

Melki nasceu próximo a Mardin, sudeste da atual Turquia. Foi ordenado sacerdote pela Igreja Sírio-católica e passou a viver em Tur Abdin. Durante a perseguição de 1895, sua igreja foi saqueada e queimada e sua mãe assassinada. Mais tarde foi nomeado bispo de Mardin e Gazarta. Em 24 de abril de 1915, com os massacres em Istambul, o ‘Triunvirato’ lançou a operação de perseguição contra armênios, assírios e gregos, ou seja, as minorias cristãs. No verão de 1915 Melki se encontrava em Azakh quando recebeu a notícia do que estava para acontecer em sua diocese, decidindo então retornar à Gazarta. Ele recusou-se a fugir, por conselho de amigos muçulmanos do lugar.

Foi preso em 28 de agosto junto ao Bispo caldeu Jacques Abraham. Segundo o testemunho de muçulmanos do local, foi pedido a ambos para converterem-se ao Islã, o que foi recusado. Abraham foi morto com um golpe de fuzil, Melki foi surrado até perder a consciência e após decapitado.

Após a beatificação de Dom Ignazio Maloyan, Arcebispo Armênio-católico de Mardin, proclamado Beato por João Paulo II em 2001, tratar-se-á do segundo bispo reconhecido mártir ‘in odium fidei’ durante o ‘Grande Mal’. Em abril passado o Papa Francisco havia presidido uma Missa na Basílica de São Pedro por ocasião do centenário da tragédia.

A determinação do Papa Francisco é um forte sinal de atenção e de apoio às comunidades cristãs do Oriente Médio, especialmente na Síria e Iraque, que estão sofrendo à distância de um século o que seus antepassados sofreram, mas desta vez, pelas mãos das milícias islâmicas e dos países que os apoiam.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/expectativa-pela-beatificacao-de-martir-sirio-cato

segunda-feira, 2 de março de 2015

Como nasce um mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano

  
‘Óscar Romero, o arcebispo de San Salvador assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia matinal no Hospital da Divina Providência, onde vivia, foi declarado mártir e vai ser beatificado. O Papa Francisco assinou o decreto segundo o qual ele foi morto ‘in odium fidei’ (em oposição à fé) – entenda-se, fé não tanto no seu aspecto doutrinal, mas na sua dimensão moral expressa na doutrina social da Igreja.

O postulador do processo, o arcebispo Vincenzo Paglia, ao dar a notícia no início do mês passado, classificou Romero como um ‘mártir da Igreja do Vaticano II’. O arcebispo explicou esta designação ao dizer que o assassínio ocorreu ‘num clima de perseguição contra um pastor que seguia a experiência evangélica, os documentos do Vaticano II, de Medellín (do episcopado Latino-Americano reunido naquela cidade colombiana em 1968) e tinha escolhido viver com os pobres para os defender da opressão.’ Romero foi morto, disse ainda Monsenhor Paglia, porque combatia um governo e um tipo de opressão ‘que privava de vida os mais pobres’.

Romero foi arcebispo de San Salvador durante três anos (1977-1980), num tempo de grande tensão que desembocou na guerra civil salvadorenha (1979-1992), durante a qual milhares de pessoas foram assassinadas. No seu último sermão, no dia anterior à sua morte, disse com particular veemência : ‘Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contrária à lei de Deus (…) Em nome de Deus, em nome deste povo sofredor cujos lamentos se elevam aos céus cada dia mais impetuosos, suplico-vos, exorto-vos, ordeno-vos em nome de Deus : cessai a repressão.’

Como é que o arcebispo Romero, considerado um conservador nas suas posições teológicas e sociais, chegou ao martírio? Ao escutar o povo simples da diocese de Santiago de Maria – uma diocese rural que serviu durante dois anos e meio e onde tiveram lugar as primeiras chacinas de camponeses – e comprovar a situação de opressão em que vivia. Essa ‘conversão à realidade’ tem um momento decisivo com o assassínio de um seu amigo jesuíta, o padre Rutilio Grande, em 1977, por ajudar agricultores pobres a organizarem-se e cujo processo de canonização foi aberto há cerca de quatro meses.

Romero sabia que seria morto e por isso teve uma longa luta interior’, disse o Professor Roberto Morozzo della Rocca na referida conferência de imprensa. A morte era-lhe anunciada diariamente através de ameaças transmitidas por fiéis e amigos, cartas cheias de insultos, telefonemas, advertências várias (até na televisão), e as emboscadas a que escapou por um triz. Sabia que estava em perigo, sentia o terror do fim, mas, como pastor, não quis abandonar o seu rebanho. Dizia : ‘Um pastor não deserta, deve ficar até ao fim com os seus.’

O grande número de sacerdotes e catequistas mortos levou Romero a meditar muito no martírio. No funeral de um dos seus padres assassinados pelos esquadrões da morte, o arcebispo pregou sobre o espírito do martírio e o valor sacrifical da vida dizendo (uma homilia que o Papa Francisco citou no dia 7 de Janeiro) : ‘Dar a vida não significa apenas ser morto; dar a vida, ter espírito de martírio é dar-se no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; dá-se a vida pouco a pouco, no silêncio da vida quotidiana, como a dá a mãe que, sem medo, com a simplicidade do martírio materno, dá à luz, amamenta, ajuda a crescer e cuida de seu filho com carinho.’’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukVFEpFlySFkZRecd
   

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

São Cornélio, Papa e São Cipriano, Bispo, Mártires

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

‘Nascido em Roma no ano 200, Cornélio viveu um momento complicado para os cristãos. Em meados do século de seu nascimento, o Imperador Décio perseguia os cristãos do Império Romano, chegando a ordenar que cometessem sacrifícios religiosos, em 250, pois, em caso contrário, seriam sentenciados à morte. A ameaça fez com que alguns cristãos apostatassem, outros realizassem os sacrifícios e alguns se recusassem, o que os levou à morte. Nesse cenário persecutório, o papa Fabiano se recusou a atender os ordenamentos do imperador e foi um dos cristãos martirizados. Para agravar a crise na Igreja Católica, Décio tentou impedir a eleição de um novo papa, mas, forçado a se ausentar de Roma para combater os godos, a eleição foi realizada. Na ocasião, Cornélio, contra sua vontade, foi eleito papa em 251.

O papado de Cornélio foi muito turbulento. Já havia um cenário anterior estimulado pelo Imperador Décio desfavorável, mas, semanas depois, Novaciano se proclamou antipapa, gerando um cisma. Novaciano achava que seria eleito papa e não concordou com a derrota. Só que Cornélio tinha o apoio de importantes religiosos da época e de diversas regiões cristãs, enquanto Novaciano era apoiado apenas por uma minoria do clero de Roma. Cornélio reagiu excomungando Novaciano.

O papa Cornélio enfrentou as perseguições contra os cristãos e o cisma da Igreja, demonstrando grande capacidade para ser um líder religioso, mesmo que não fosse seu interesse ser papa. Possuía dons diplomáticos também para solucionar problemas políticos. Perfil que o tornou um exemplo para todos os papas que o sucederam. A morte de Décio não aliviou a perseguição aos cristãos porque o sucessor, Treboniano Galo, também foi um opositor. O novo imperador exilou o papa em Civitavecchia. Após uma vida toda dedicada ao cristianismo, Cornélio faleceu em reclusão em 253.’
  
Fonte  :



 *Artigo de Bento XVI, Papa Emérito

‘Na série das nossas catequeses sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, chegamos hoje a um excelente Bispo africano do século III, São Cipriano, que ‘foi o primeiro bispo que na África conseguiu a coroa do martírio’. Em primeiro lugar a sua fama como afirma o diácono Pôncio, o primeiro que escreveu a sua vida está relacionada com a produção literária e com a actividade pastoral dos treze anos que decorrem entre a sua conversão e o martírio (cf. Vida 19, 1; 1, 1).

Nascido em Cartagena numa família pagã rica, depois de uma juventude dissipada Cipriano converte-se ao cristianismo com 35 anos. Ele mesmo narra o seu percurso espiritual : ‘Quando ainda jazia como que numa noite escura’, escreve alguns meses depois do baptismo, ‘parecia-me extremamente difícil e cansativo realizar o que a misericórdia de Deus me propunha... Estava ligado a muitíssimos erros da minha vida passada, e não pensava que me podia libertar, porque cedia aos vícios e favorecia os meus maus desejos... Mas depois, com a ajuda da água regeneradora, foi lavada a miséria da minha vida precedente; uma luz soberana difundiu-se no meu coração; um segundo nascimento restaurou-me num ser totalmente novo. De modo maravilhoso começou então a dissipar-se qualquer dúvida... Compreendia claramente que era terreno o que antes vivia em mim, na escravidão dos vícios da carne, e era ao contrário divino e celeste o que o Espírito Santo já tinha gerado em mim’ (A Donato, 3-4).

Logo depois da conversão, Cipriano, não sem invejas nem resistências, é eleito para o cargo sacerdotal e para a dignidade de Bispo. No breve período do seu episcopado enfrenta as primeiras duas perseguições sancionadas por um edito imperial, o de Décio (250) e o de Valeriano (257-258). Depois da perseguição particularmente cruel de Décio, o Bispo teve que se comprometer corajosamente para reconduzir a comunidade cristã à disciplina. De facto, muitos fiéis tinham abjurado, ou contudo não tinham tido um comportamento correcto diante da prova. Eram os chamados lapsi isto é ‘que caíram’ que desejavam ardentemente reentrar na comunidade. O debate sobre a sua readmissão chegou a dividir os cristãos de Cartagena em laxistas e rigorosos. A estas dificuldades é necessário acrescentar uma grave peste que assolou a África e colocou interrogações teológicas angustiantes, quer no interior da comunidade, quer em relação aos pagãos.

Por fim, é necessário recordar a controvérsia entre Cipriano e o Bispo de Roma, Estêvão, sobre a validez do baptismo administrado aos pagãos por cristãos hereges.

Nestas circunstâncias realmente difíceis, Cipriano revelou dotes eleitos de governo : foi severo, mas não inflexível com os lapsi, concedendo-lhes a possibilidade de perdão depois de uma penitência exemplar; perante Roma foi firme na defesa das tradições sadias da Igreja africana; foi muito humano e repleto do mais autêntico espírito evangélico ao exortar os cristãos a ajudar fraternalmente os pagãos durante a peste; soube manter a medida justa ao recordar aos fiéis demasiado receosos de perder a vida e os bens terrenos que para eles a verdadeira vida e os verdadeiros bens não são deste mundo; foi irremovível ao combater os costumes corruptos e os pecados que devastavam a vida moral, sobretudo a avareza. ‘Passava assim os seus dias’, narra a este ponto o diácono Pôncio, ‘quando eis que por ordem do pró-cônsul chegou improvisamente à sua cidade o chefe da polícia’ (Vida, 15, 1). Naquele dia o santo bispo foi preso, e depois de um breve interrogatório enfrentou corajosamente o martírio no meio do seu povo.

Cipriano compôs numerosos tratados e cartas, sempre ligados ao seu ministério pastoral. Pouco inclinado para a especulação teológica, escrevia sobretudo para a edificação da comunidade e para o bom comportamento dos fiéis.

De facto, a Igreja é o tema que lhe é mais querido. Distingue entre Igreja visível, hierarquia, e Igreja invisível, mística, mas afirma com vigor que a Igreja é uma só, fundada sobre Pedro. Não se cansa de repetir que ‘quem abandona a cátedra de Pedro, sobre a qual está fundada a Igreja, ilude-se de permanecer na Igreja’ (A unidade da Igreja católica, 4). Cipriano sabe bem, e formulou-o com palavras fortes, que ‘fora da Igreja não há salvação’ (Epístola 4, 4 e 73, 21), e que ‘não pode ter Deus como pai quem não tem a Igreja como mãe’ (A unidade da Igreja católica, 4).

Característica irrenunciável da Igreja é a unidade, simbolizada pela túnica de Cristo sem costuras (ibid., 7) : unidade da qual diz que encontra o seu fundamento em Pedro (ibid., 4) e a sua realização perfeita na Eucaristia (Epístola 63, 13). ‘Há um só Deus, um só Cristo’, admoesta Cipriano, ‘uma só é a Igreja, uma só a fé, um só povo cristão, estreitado em firme unidade pelo cimento da concórdia : e não se pode separar o que é uno por natureza’ (A unidade da Igreja católica, 23).

Falamos do seu pensamento em relação à Igreja, mas não se deve descuidar, por fim, o ensinamento de Cipriano sobre a oração. Eu amo particularmente o seu livro sobre ‘o Pai Nosso’, que muito me ajudou a compreender melhor e a recitar melhor a ‘oração do Senhor’ : Cipriano ensina como precisamente no ‘Pai Nosso’ é proporcionado ao cristão o modo correcto de rezar; e ressalta que esta oração está no plural, ‘para que quem reza não reze unicamente para si. A nossa oração escreve é pública e comunitária e, quando nós rezamos, não rezamos por um só, mas por todo o povo, porque com todo o povo somos uma coisa só’ (A adoração do Senhor 8). Assim oração pessoal e litúrgica mostram-se robustamente ligadas entre si. A sua unidade provém do facto que elas respondem à mesma Palavra de Deus. O cristão não diz ‘meu Pai’, mas ‘Pai nosso’, até no segredo do quarto fechado, porque sabe que em cada lugar, em cada circunstância, ele é membro de um mesmo Corpo.

Portanto, rezemos irmãos amadíssimos’, escreve o Bispo de Cartagena, ‘como Deus, o Mestre, nos ensinou. É oração confidencial e íntima rezar a Deus com o que é seu, elevar aos seus ouvidos a oração de Cristo. Reconheça o Pai as palavras de seu Filho, quando dizemos uma oração : aquele que habita interiormente no ânimo esteja presente também na voz... Quando se reza, além disso, adopte-se um modo de falar e de rezar que, com disciplina, mantenha a calma e a discrição. Consideremos que estamos diante do olhar de Deus. É preciso ser agradáveis aos olhos divinos tanto com a atitude do corpo como com a tonalidade da voz... E quando nos reunimos juntamente com os irmãos e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos recordar-nos do temor reverencial e da disciplina, não dispersar as nossas orações com vozes descompostas, nem fazer com tumultuosa verbosidade um pedido que deve ser recomendado a Deus com moderação, porque Deus ouve não a voz, mas o coração (non vocis sed cordis auditor est)’ (3-4). Trata-se de palavras que permanecem válidas também hoje e nos ajudam a celebrar bem a Santa Liturgia.

Em conclusão, Cipriano coloca-se nas origens daquela fecunda tradição teológico-espiritual que vê no ‘coração’ o lugar privilegiado da oração. Segundo a Bíblia e os Padres, de facto, o coração é o íntimo do homem, o lugar onde habita Deus. Nele se realiza aquele encontro no qual Deus fala ao homem, e o homem escuta Deus; o homem fala a Deus, e Deus ouve o homem : tudo isto através da única Palavra divina. Precisamente neste sentido fazendo eco a Cipriano Smaragdo, abade de São Miguel em Mosa nos primeiros anos do século IX, afirma que a oração ‘é obra do coração, dos lábios, porque Deus não vê as palavras, mas o coração do orante’(O Diadema dos monges, 1).

Caríssimos, façamos nosso este ‘coração em escuta’, do qual nos falam a Bíblia (cf. 1 Rs 3, 9) e os Padres : temos disso tanta necessidade! Só assim poderemos experimentar em plenitude que Deus é o nosso Pai, e que a Igreja, a santa Esposa de Cristo, é verdadeiramente a nossa Mãe.’

 (6 de junho de 2007)

Fonte  :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

São Maximiliano Maria Kolbe, Presbítero e Mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Maximiliano Maria Kolbe nasceu na Polônia no dia 8 de janeiro de 1894. Ainda adolescente, ingressou na Ordem dos Frades Menores Conventuais e foi ordenado sacerdote em Roma, no ano de 1918. Animado de filial piedade para com a Virgem Mãe de Deus, fundou uma confraria religiosa com o nome de ‘Milícia de Maria Imaculada’, que se propagou de modo extraordinário tanto em sua pátria como em outras regiões. Chegando ao Japão como missionário, aplicou-se em difundir a fé cristã sob os auspícios e patrocínio da mesma Virgem Imaculada. Finalmente, regressando à Polônia, tendo padecido, por ocasião da guerra que então grassava, terríveis atrocidades no campo de concentração de Auschwitz, distrito de Cracóvia, consumou sua fecunda vida num holocausto de caridade, a 14 de agosto de 1941.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Maximiliano Maria Kolbe,
presbítero e mártir :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Das Cartas de São Maximiliano Maria Kolbe
(O. Joachim Roman Bar, O.F.M. Conv., ed. Wybór Pism,
Warszawa 1973, 41-42;226)     (Séc.XX)

Do zelo apostólico que se deve ter ao procurar
a salvação e santificação das almas
Muito me alegra, caro irmão, o zelo que te inflama na promoção da glória de Deus. Pois observamos com tristeza, em nossos tempos, não só entre os leigos mas também entre os religiosos, a doença quase epidêmica que se chama indiferentismo, que se propaga de várias formas. Ora, como Deus é digno de infinita glória, nosso primeiro e mais importante ideal deve ser, com nossas exíguas forças, lhe darmos o máximo de glória, embora nunca possamos dar quanto de nós, pobres peregrinos, ele merece.

Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação das almas que Cristo remiu com seu próprio sangue, o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível. E quero brevemente dizer-te qual o melhor caminho para este fim, isto é, para conseguir a glória divina e a santificação de muitas almas. Deus, ciência e sabedoria infinita, sabendo o que, de nossa parte, mais contribui para aumentar sua glória, manifesta-nos a sua vontade sobretudo pelos seus ministros na terra.
 
É a obediência, e ela só, que nos indica a vontade de Deus com evidência. O superior pode errar, mas não é possível que nós, ao seguirmos a obediência, sejamos levados ao erro. Só poderia haver uma exceção se o superior mandasse algo que incluísse – mesmo em grau mínimo – uma violação da lei divina; pois, neste caso, o superior não seria fiel intérprete de Deus.

Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo e clementíssimo, Senhor, Criador e Pai nosso, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; tudo isso é Deus. Tudo que não seja Deus só vale enquanto se refere a ele, Criador de tudo e Redentor dos homens, último fim de toda a criação. É ele que nos manifesta a sua adorável vontade por meio daqueles que o representam, e nos atrai a si, querendo, deste modo, atrair por nós outras almas, unindo-as a si em amor cada vez mais perfeito.

Vê, irmão, quão grande é, pela misericórdia divina, a dignidade de nossa condição! Pela obediência com que ultrapassamos os limites de nossa pequenez e conformamo-nos à vontade divina, que nos dirige com sua infinita sabedoria e prudência, a fim de agirmos com retidão. Pode-se até dizer que, seguindo assim a vontade de Deus à qual nenhuma criatura pode resistir, nos tornamos mais fortes que tudo.

Esta é a vereda da sabedoria e da prudência, este é o único caminho pelo qual possamos dar a Deus maior glória. Pois, se existisse caminho diferente e mais alto, certamente Cristo no-lo teria manifestado com sua doutrina e exemplo. Ora, a divina Escritura resumiu a sua longa permanência em Nazaré com estas palavras : E era-lhes submisso (Lc 2,51), como nos indicou toda a sua vida ulterior sob o signo da obediência, mostrando que desceu à terra para fazer a vontade do Pai. 

Amemos por isso, irmão, amemos sumamente o amantíssimo Pai celeste, e deste amor seja prova a nossa obediência, exercida em grau supremo quando nos exige o sacrifício da própria vontade. Não conhecemos, para progredir no amor a Deus, livro mais sublime que Jesus Cristo crucificado.

Tudo isso conseguiremos mais facilmente pela Virgem Imaculada, a quem a bondade de Deus confiou os tesouros da sua misericórdia. Pois não há dúvida que a vontade de Maria seja para nós a própria vontade de Deus. E, quando nos dedicamos a ela, tornamo-nos em suas mãos como instrumentos, como ela própria, nas mãos de Deus. Portanto, deixemo-nos dirigir por ela, ser conduzidos por ela, e sejamos calmos e seguros por ela guiados: pois cuidará de nós, tudo proverá e há de socorrer-nos prontamente nas necessidades do corpo e da alma, afastando nossas dificuldades e angústias.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1188, 1191
               

domingo, 10 de agosto de 2014

São Lourenço, Diácono e Mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Era diácono da Igreja Romana e morreu mártir na perseguição de Valeriano, quatro dias depois do papa Sisto II e Seus companheiros, os quatro diáconos romanos. O seu sepulcro encontra-se junto à Via Tiburtina, no Campo Verano. Constantino Magno erigiu uma basílica naquele lugar. O seu culto já se tinha difundido na Igreja no século IV.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Lourenço, 
diácono e mártir :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 304,1-4: PL 38,1395-1397)     (Séc.V)

Serviu o sagrado Sangue de Cristo
A Igreja Romana apresenta-nos hoje o dia glorioso de São Lourenço quando ele calcou o furor do mundo, desprezou sua sedução e num e noutro modo venceu o diabo perseguidor. Nesta mesma Igreja – ouvistes muitas vezes – Lourenço exercia o ministério de diácono. Aí servia o sagrado sangue de Cristo; aí, pelo nome de Cristo, derramou seu sangue. O santo apóstolo João expôs claramente o mistério da ceia ao dizer : Como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos entregar as nossas pelos irmãos (1Jo 3,16). São Lourenço, irmãos, entendeu isto; entendeu e fez; e da mesmíssima forma como recebeu daquela mesa, assim a preparou. Amou a Cristo em sua vida, imitou-o em sua morte. 

Também nós, irmãos, se de verdade amamos, imitemos. Não poderíamos produzir melhor fruto de amor do que o exemplo da imitação; Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo para seguirmos suas pegadas (1Pd 2,21). Nesta frase, parece que o apóstolo Pedro quer dizer que Cristo sofreu apenas por aqueles que seguem suas pegadas e que a morte de Cristo não aproveita senão àqueles que caminham em seu seguimento. Seguiram-no os santos mártires até à efusão do sangue, até à semelhança da paixão; seguiram-no os mártires, porém não só eles. Depois que estes passaram, a ponte não foi cortada; ou depois que beberam, a fonte não secou.
 
Tem, irmãos, tem o jardim do Senhor não apenas rosas dos mártires; tem também lírios das virgens, heras dos casados, violetas das viúvas. Absolutamente ninguém, irmãos, seja quem for, desespere de sua vocação; por todos morreu Cristo. Com toda a verdade, dele se escreveu : Que quer salvos todos os homens, e que cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4).
 
Compreendamos, portanto, como pode o cristão seguir Cristo além do derramamento de sangue, além do perigo de morte. O Apóstolo diz, referindo-se ao Cristo Senhor : Tendo a condição divina, não julgou rapina ser igual a Deus. Que majestade! Mas aniquilou-se, tomando a condição de escravo, feito semelhante aos homens e reconhecido como homem (Fl 2,7-8). Que humildade!

Cristo humilhou-se : aí tens, cristão, a que te apegar. Cristo se humilhou : por que te enches de orgulho? Em seguida, terminada a careira desta humilhação, lançada por terra a morte, Cristo subiu ao céu; sigamo-lo. Ouçamos o Apóstolo : Se ressuscitastes com Cristo, descobri o sabor das realidades do alto, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl 3,1).


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1178, 1180
  

sábado, 28 de junho de 2014

São Pedro e São Paulo, Apóstolos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de 
São Pedro e São Paulo, Apóstolos :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 295,1-2.4.7-8 :PL38,1348-1352)       (Séc.V)

Estes mártires viram o que pregaram
O martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo consagrou para nós este dia. Não falamos de mártires desconhecidos. Sua voz ressoa e se espalha em toda a terra, chega aos confins do mundo a sua palavra (Sl 18,5). Estes mártires viram o que pregaram, seguiram a justiça, proclamaram a verdade, morreram pela verdade.

São Pedro, o primeiro dos apóstolos, que amava Cristo ardentemente, mereceu escutar : Por isso eu te digo que tu és Pedro (Mt 16,19). Antes, ele havia dito : Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo (Mt 16,16). E Cristo retorquiu : Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha Igreja (Mt 16,18). Sobre esta pedra construirei a fé que haverás de proclamar. Sobre a afirmação que fizeste : Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo, construirei a minha Igreja. Porque tu és Pedro. Pedro vem de pedra; não é pedra que vem de Pedro. Pedro vem de pedra, como cristão vem de Cristo.

Como sabeis, o Senhor Jesus, antes de sua paixão, escolheu alguns discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos. Dentre estes, somente Pedro mereceu representar em toda parte a personalidade da Igreja inteira. Porque sozinho representava a Igreja inteira, mereceu ouvir estas palavras : Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (Mt 16,19). Na verdade, quem recebeu estas chaves não foi um único homem, mas a Igreja una. Assim manifesta-se a superioridade de Pedro, que representava a universalidade e a unidade da Igreja, quando lhe foi dito : Eu te darei. A ele era atribuído pessoalmente o que a todos foi dado. Com efeito, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do Reino dos Céus, ouvi o que, em outra passagem, o Senhor diz a todos os seus apóstolos : Recebei o Espírito Santo. E em seguida : A quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos (Jo 20,22-23).

No mesmo sentido, também depois da ressurreição, o Senhor entregou a Pedro a responsabilidade de apascentar suas ovelhas. Não que dentre os outros discípulos só ele merecesse pastorear as ovelhas do Senhor; mas quando Cristo fala a um só, quer, deste modo, insistir na unidade da Igreja. E dirigiu-se a Pedro, de preferência aos outros, porque, entre os apóstolos, Pedro é o primeiro.

Não fiques triste, ó apóstolo! Responde uma vez, responde uma segunda, responde uma terceira vez. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que por três vezes o temor venceu a tua presunção. Desliga por três vezes o que por três vezes ligaste. Desliga por amor o que ligaste por temor. E assim, o Senhor confiou suas ovelhas a Pedro, uma, duas e três vezes.

Num só dia celebramos o martírio dos dois apóstolos. Na realidade, os dois eram como um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu. Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue dos apóstolos. Amemos a fé, a vida, os trabalhos, os sofrimentos, os testemunhos e as pregações destes dois apóstolos.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, 1392, 1394