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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Advento de conexões

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Estas preciosas quatro semanas que precedem a celebração do Natal, o Advento, têm na força da Palavra de Deus um convite a cada ser humano para se renovar. No Advento, ecoa forte a voz do profeta Isaías, que apresenta esse convite a partir de metáforas interpelantes. Conforme anuncia o profeta, o povo, ao afastar-se da luz de Deus-Pai, torna-se ‘pano sujo’, ‘folha seca’. Com isso, a humanidade sofre, convive com retrocessos e prejuízos. Assim, o Advento é uma ‘oportunidade de ouro’ concedida por Deus para que a humanidade reflita sobre suas desconexões.
Na perspectiva espiritual, essas desconexões são os pecados. Já no que se refere ao exercício da cidadania, relacionam-se com as incivilidades, desrespeito ao bem comum, à verdade e à justiça social. Invariavelmente, quando o ser humano se desconecta da luz de Deus, perde a paz. Para recuperá-la, cada pessoa deve engajar-se nas dinâmicas que façam nascer uma nova consciência moral, com incidência sobre a conduta individual, no poder público, nas instituições, nas famílias.
O Advento é oportunidade para se conectar novamente com a luz de Deus, inspirando cada pessoa a reconhecer que não basta buscar somente os ‘lugares confortáveis’, obter títulos, benesses e ganhos financeiros. O egoísmo incapacita as pessoas para estabelecerem conexões e as mantêm aprisionadas na faixa que gera desconexões. Essa inércia alimenta a corrupção, os desmandos, a indiferença, a mesquinhez, comprometendo a vida cidadã. O tratamento terapêutico e penitencial da atual condição humana, que compromete a paz, pede a reconfiguração das instituições e suas dinâmicas. Requer também investimentos na qualificação de processos socioculturais, educativos e da comunicação. É preciso, sobretudo, reconhecer a sacralidade das famílias. Para isso, cada pessoa precisa confrontar a própria consciência e se abrir ao Advento de conexões.
Urge, pois, uma reconfiguração nas mentalidades para alcançar as grandes mudanças que a sociedade demanda. Essas transformações significativas, quando ocorrem, são muito lentas, exatamente pela dificuldade individual em produzir e gerenciar as conexões imprescindíveis ao adequado exercício da cidadania. Desse modo, é indispensável sair da comodidade buscar a renovação pessoal necessária para assumir a responsabilidade na tarefa de transformar o mundo.
As desconexões que produzem ‘cegueira’ diante dos graves problemas sociais geram situações que enfraquecem as instituições. Sabe-se amplamente da existência de processos e procedimentos que comprometem a saúde financeira, a lisura moral, o cumprimento de metas. Mais preocupante ainda é o vício de indivíduos em buscar apenas ganhos pessoais, em seguir as leis do carreirismo, querendo alcançar posições hierárquicas mais elevadas, a qualquer custo. Há ainda um desajuste na gestão das instituições. Por preferir não lidar com os que já se consolidaram em suas comodidades, esse tipo de gestão condena a instituição a transitar entre a mediocridade e a conivência. Essa incompetência humana para relacionar-se com o próximo e com a própria realidade é claro sinal da desconexão com Deus.
É lamentável quando um indivíduo tem sólida formação intelectual e técnica, mas mantém uma condição afetivo-espiritual acanhada. Inevitavelmente, essa pessoa produzirá desconexões em série. Ao contrário, as várias áreas do conhecimento – a exemplo da neurociência e dos estudos da psicogenética – devem servir para apontar caminhos que possam ajudar no processo de renovação pessoal, tão necessário para evitar que a sociedade seja marcada pela delinquência e mediocridade.
O cérebro humano tem um número de conexões sinápticas que, em quantidade, se assemelham às dimensões de uma galáxia. Cada pessoa guarda no coração sentimentos que definem modos de agir e de perceber o mundo. Todos precisam reconhecer o próprio potencial para despertar e engajar-se em novos processos de qualificação humana e espiritual. Se cada cidadão não abrir seus próprios olhos para as muitas desconexões, a humanidade ficará ainda mais semelhante a um ‘pano sujo’ ou ‘folha seca’, bem diferente do plano de Deus. A mudança começa pelo humilde compromisso de bater no próprio peito, assumir responsabilidades, e exercitar a difícil tarefa de se observar.
Para ajudar cada pessoa a reconhecer-se como importante na transformação do mundo, a respeitar e a amar o seu semelhante, resgatando a dignidade humana, é que o Filho de Deus vem, nasce e entra na história, com o paradigma de sua encarnação : um broto de esperança para o mundo, Advento de conexões.’


Fonte :


domingo, 15 de outubro de 2017

Sinais de vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo da Irmã Joana Sofia Carneiro,
Missionária Comboniana


‘Aqui em Amã (Jordânia), além das minhas aulas de árabe, ajudo alguns refugiados na prática do seu inglês. Graças a Deus existem espaços de diálogo ecumênico e inter-religioso onde realizamos atividades, como, por exemplo, a biblioteca organizada pelas irmãs seculares da associação espanhola Poveda.

Testemunhas de Jesus
A maioria dos refugiados que se encontram neste lugar vem do Iraque e da Síria. Eles tiveram de fugir da guerra, de maneira que a Jordânia é para eles um lugar de passagem até que consigam ter a oportunidade de partir para outro lugar onde possam viver em paz. O processo de espera pela autorização de um país que os recebe é muito lento, motivo pelo qual muitos deles permanecem aqui por vários anos. Na Jordânia os refugiados não estão autorizados a trabalhar e várias gerações ficam paradas. Os jovens não estudam por falta de meios econômicos, as propinas da universidade são muito elevadas. Não obstante todas estas situações difíceis, eles não desesperam, antes pelo contrário, são um verdadeiro testemunho de esperança em Jesus e sabem ser conhecidos, amados e protegidos pelo Bom Pastor que toma conta deles. Eles são os verdadeiros crentes. Isto é maravilhoso! É só ver a grande comunidade dos iraquianos cristãos a celebrar a Eucaristia aqui em Amã, todos os domingos à tarde. Eles cantam, rezam, estão em paz porque sabem que aqui não cairá nenhuma bomba que lhes pode destruir a casa.

Famílias de refugiados
Além das horas que fico na biblioteca vou visitar algumas famílias com a irmã Pierina.
A maioria das famílias são provenientes do Iraque, da Síria e também do Sudão. Lamentavelmente, as famílias provenientes da África são as mais pobres. Elas não têm direito ao estatuto de refugiados porque, oficialmente, no Sudão não há guerra, embora todo o mundo saiba que a situação do Sudão é uma das mais terríveis. A nossa memória é curta quando não vivemos estas situações na nossa própria carne. Há dias, fomos visitar uma família sudanesa, um casal jovem, com três gêmeos. O meu primeiro pensamento, confesso, foi de fria lógica humana. «Se não conseguem alimentar-se a eles próprios, que farão com três crianças?» Mas, depois, rezando, consegui perceber toda a força do nosso Deus que sempre tem respostas de vida em abundância para todos, apesar da guerra e da violência que são os frutos do nosso egoísmo
Esta maneira de agir do nosso Deus vejo-a encarnada na Irmã Pierina. As visitas que fazemos juntas parecem insignificantes e pequenas, a nossa ajuda simplesmente inútil, segundo os critérios humanos. Mas, são estes gestos, repletos de compaixão e de esperança, que fazem toda a diferença.
Através da nossa insignificância, Deus cuida destes irmãos vulneráveis. Acredito que só através da nossa intimidade com o Senhor seremos sinais de luz e de vida.
Por favor, continuem a rezar por nós e, sobretudo, por todos os que, neste mundo, mais precisam da luz de Jesus. E, por favor, se virem alguém chegar do estrangeiro, não lhe virem as costas! O nosso planeta está a passar por um momento muito difícil, milhões de pessoas são obrigadas a abandonar tudo por razões que as ultrapassam...Somos instrumentos de paz, de acolhimento e de reconciliação! Os pequenos gestos concretos de cada pessoa a favor de outros têm uma grande repercussão na escala mundial.’

Fonte :

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Reflexões sobre o livro AS PERIPÉCIAS DE JENNIFER, de Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Manoel Cardoso

Livro que instiga inicialmente a curiosidade do leitor, pois tem como um dos protagonistas um murídeo, através do recurso literário, personificação (age como ser humano). Não é muito comum as narrativas utilizarem animais em seus contextos, a não ser nos Contos de Fadas e em textos destinadas às crianças.  Recorda-se que nos tempos atuais, depois da segunda metade do século XX, apenas dois livros de maior destaque foram lançados empregando esse recurso : Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, e Cândido Urbano Urubu, de Carlos Eduardo Novaes. Dom João Baptista pode inscrever seu livro nesse cenário de simbologia, que prende muito o leitor, cuja curiosidade é despertada, pois uma Ratinha, de nome Jennifer, participará de todos as peripécias da obra, através da investigação, do abandono familiar, da busca da luz, fugindo das trevas de sua profunda cova.



O Autor, portador de invejável cultura, senhor de mil atributos, intima o leitor a participar das peripécias desse pequeno roedor, toma-o pela mão e vai conduzindo-o do jardim à intimidade de um mosteiro que tão poucos conhecem, em profundidade. E travestido como um pequeno murídeo, o leitor penetra na fundura daquele mundo, capela, refeitório, biblioteca, cela, pois a curiosidade se aguça à medida que a narrativa se desenrola. Soma-se a Jennifer e convive mais tempo junto ao protagonista, na biblioteca, seu espaço de atividade, e em todos os demais lugares pelos quais transita o narrador.

Quando o leitor quase está certo de que o espaço da narrativa é um Mosteiro Brasileiro, no capítulo VII, experimenta grande surpresa, ao constatar que o espaço real é a Abadia de São Miguel, na Áustria, onde predomina a arte barroca com toda a sua riqueza arquitetônica, em voga no século XVIII... E a narrativa se faz grande, através das informações sobre o mundo sombrio, em aparência, e luminoso na realidade, de um mosteiro.  O leitor segue os passos do narrador e de Jennifer, inteira-se das atividades diárias, do trabalho do bibliotecário, do encarregado da cozinha, da horta e dos passos essenciais à espiritualidade, necessários ao ingresso na Ordem.

O leitor é ainda seduzido pela rica cultura revelada, pelas armadilhas que se lançam, através de uma narração dinâmica, de um vocabulário erudito, mas plausível, e pelo profundo conhecimento de todos os recantos de uma Abadia, espaço da obra, e onde se desenrola a vida monástica.

Aplausos ao autor que se inaugura num patamar bem alto no mundo da literatura. 

sábado, 4 de março de 2017

Abismo da Consciência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O 'abismo da consciência' é o núcleo determinante da conduta humana.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘O ‘abismo da consciência’ é o núcleo determinante da conduta humana. É o lugar mais importante da configuração da personalidade e da definição do caráter, onde se encontra a ‘central de comando’, que pode orientar uma conduta digna. Por isso, requer permanentes investimentos e cuidados, fundamentais para que o ser humano não seja instrumento de psicopatias, dubiedades e descompassos - males que atrapalham a regência adequada das relações sociais e políticas.

Cada indivíduo é responsável por sua ‘central de comandos’, mas conta também com os tecidos institucionais e a rede de relações sociais para alcançar o equilíbrio necessário à convivência, ao respeito, ao compromisso com a justiça e com o bem comum. Ainda assim, é oportuno destacar a dimensão do ‘abismo da consciência’ e sua relevância. Sua materialidade e formalidade ético-moral são tão amplas que permitem fazer uma correlação com o número de sinapses cerebrais – semelhante ao de uma galáxia. Essa complexidade e centralidade torna possível reconhecer uma necessidade : o ‘abismo da consciência’ carece de uma luz que não lhe é própria, vem da Luz maior. Sem a Luz maior, o ‘abismo da consciência’ perde seu rumo, encobre-se de escuridão. E as escolhas tornam-se comprometidas, os discernimentos não são orientados pelo amor e honestidade. A presidência da conduta pessoal passa a ser regida por parâmetros desastrosos.

Por isso, há urgência em deixar que a Luz maior encontre o ‘abismo da consciência’. Abrir mão dessa Luz e pretender reger-se por conta própria é arriscado. Isso fica comprovado quando são observados os descompassos que afligem a humanidade, em razão de escolhas obscuras, mesquinhas, e da indiferença que ameaça a paz mundial. Os fundamentos da consciência, assimilados sempre nos processos educativos, familiares, culturais e religiosos, precisam ser tocados pela Luz maior. Para isso as pessoas precisam vivenciar, no cotidiano, a espiritualidade que reúne o conjunto das experiências pessoais e comunitárias, sociais e políticas, tocadas pela presença de Deus. A espiritualidade ultrapassa, assim, o aspecto devocional e as práticas simplesmente piedosas. É um diálogo permanente e indispensável com Deus, porque só Deus alcança as profundezas do ‘abismo da consciência’ de todos.

A indiferença e a ausência de esforço para essa imprescindível busca por Deus são incapacitantes. Deixam as pessoas sem condições para reger a própria consciência. A dimensão abissal da consciência precisa ser preenchida com valores e referências capazes de manter as atitudes individuais nos parâmetros éticos. E o ‘abismo da consciência’ não é simplesmente controlável por mecanismos sociais. Esses mecanismos têm força reguladora indispensável, mas o alcance é limitado. O necessário equilíbrio humano requer mais que a dimensão organizacional e sistêmica da configuração social, política, cultural e religiosa de um povo ou nação. Mesmo porque está em permanente ebulição a vida de grupos diversos, segmentos políticos e culturais, povos e etnias. Rumos inadequados são dados a processos, escolhas equivocadas enrijecem e enfraquecem as instituições. Há pouca versatilidade para oferecer respostas aos problemas contemporâneos e priorizam-se as ações que buscam apenas as benesses, a satisfação da mesquinhez de grupos familiares, políticos, religiosos e tantos outros. Resultado da desarticulação do ‘abismo da consciência’, que traz consequência avassaladora para a conduta humana. Sinais de que a luz própria da razão, que é indispensável, ao mesmo tempo é insuficiente para garantir atos e escolhas corretos. Essencial é o investimento nas dimensões humana e espiritual capazes de fazer brilhar, no ‘abismo da consciência’, a Luz maior.

Esse é um passo decisivo para evitar que se repitam as muitas irracionalidades que ameaçam a vida : as guerras, as catástrofes causadas pela ganância que dizimam o meio ambiente, além das disputas ferrenhas e manipulações que ocorrem nas instituições e refletem escolhas fundamentadas na mediocridade. É preciso evitar que a sociedade continue a sofrer com as graves perdas, que atingem, de modo ainda mais forte, a vida dos pobres. Nesse sentido, vale seguir o exemplo de Santo Agostinho, apresentado na sua famosa e monumental obra Confissões, do século V. Nesse livro estão reunidos exercícios oportunos para este tempo da Quaresma, um investimento, pessoal e comunitário, na qualificação dos ‘abismos da consciência’.

O convite é para a oração e o diálogo com Deus, de modo semelhante ao que fez Santo Agostinho.  Que cada pessoa possa se dirigir à Luz maior, Deus, com as palavras e a oração desse Santo : ‘Que eu te conheça, ó conhecedor meu! Que eu também te conheça como sou conhecido! Tu, ó força de minha alma, entra dentro dela, ajusta-a a ti, para a teres e possuíres sem mancha nem ruga. Essa é a minha esperança e por isso falo. Nessa esperança, alegro-me quando sensatamente me alegro. Tudo o mais nessa vida tanto menos merece ser chorado quanto mais é chorado, e tanto mais seria de chorar quanto menos é chorado. Eis que amas a verdade, pois quem o faz, chega-se à luz. Quero fazê-lo no meu coração, diante de ti, em confissão, com minha pena, diante de muitas testemunhas. A ti, Senhor, a cujos olhos está a nu o abismo da consciência humana, que haveria de oculto em mim, mesmo que não quisesse confessá-lo a ti? Eu te esconderia a mim mesmo, e nunca a mim diante de ti.’  Este é o caminho, o mais eficaz para iluminar com a Luz maior, que é Deus, o ‘abismo’ da própria consciência.’


Fonte :


domingo, 29 de janeiro de 2017

O ser humano, a história e a criação à luz da fé cristã

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.


‘Vivemos em um mundo cada vez mais plural. E para que esta pluralidade possa ser acolhida como desafio e chance e, assim, possa produzir seus melhores frutos, é fundamental que criemos a consciência do respeito por cada uma das singularidades que compõem juntas essa imensa e variegada civilização plural. A acolhida e o respeito face a esta nova configuração plural pode se constituir, inclusive, em uma excelente estação em que nos sentimos desafiados positivamente a recuperarmos nossa própria singularidade em atitude dialógica e respeitosa.

Salvação, na perspectiva cristã, não consiste, como muitos pensam, em uma doutrina hermética acessível unicamente a alguns poucos iniciados, nem tampouco um receituário de princípios ou de valores, nem muito menos um conjunto de mitos fundadores ou de lendas edificantes. Esta salvação, que nos é oferecida na pessoa de Jesus Cristo, se realiza no aqui e agora de cada pessoa e da comunidade cristã ‘no Espírito’. Na verdade, é o Espírito Santo quem cria as condições para que este evento da nossa salvação, realizado uma vez por todas em Jesus Cristo, possa ser recriado em todos os tempos e lugares, como possibilidade oferecida a cada pessoa. Somente ‘no Espírito’, eu posso experimentar que o evento pascal de Jesus Cristo se deu para a salvação minha e de todo o gênero humano. O Espírito Santo atualiza a redenção de Cristo, tornando-a uma experiência pessoal, vale dizer, bem concreta e circunstanciada. E ao atualizar a obra da salvação, o Espírito a universaliza, tornando-a uma experiência possível e, portanto, dirigida a todos os seres humanos e a cada ser humano. Pois, na verdade, toda autêntica universalização pressupõe a atualização nas mais variadas circunstâncias, como sua condição de possibilidade.

Buscando, portanto, recuperar a específica compreensão do ser humano, da história e da criação na perspectiva da fé cristã, importa ter presente algumas dimensões fundamentai s: graça/pecado, liberdade e escatologia.

A gratuidade da vida é o eixo ao redor e em torno do qual toda a vida se dá. O desígnio amoroso de Deus com relação ao ser humano é gratuito. Por livre decisão de sua vontade, Deus cria o ser humano para poder estabelecer com ele uma profunda relação de comunhão. Ainda como expressão do seu grande amor, enviou-nos Seu Filho para que, mediante o Espírito Santo, possamos participar plenamente do inaudito dom da filiação divina. Somos assim, por graça do Pai, filhos no Filho, no vigor do Espírito Santo. A história, por sua vez, é chamada a corresponder aos desígnios do Criador e Pai. O encontro com o Deus de Jesus Cristo se dá no ‘tempo’, configurando-se como uma experiência intrinsecamente histórica. As Escrituras Sagradas nomeiam a complexa trama dos eventos singulares da revelação divina no quotidiano da vida do povo eleito como ‘história da salvação’. Pelo fato de ser intrínseca e constitutivamente histórica, a experiência de Deus deve ser continuamente atualizada, em cada época e, portanto, também no aqui e agora de nossa experiência de fé.

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou, diz enfaticamente o apóstolo Paulo. A gratuidade da relação de Deus para conosco pressupõe a nossa existência como criaturas livres. Graça e liberdade são, portanto, como que dois lados de uma mesma moeda. Deus espera que correspondamos ao seu dom de maneira livre e responsável. Não pretende que o façamos e nem constringe ninguém a fazê-lo. O amor de Deus para conosco é gratuito e, portanto, sem condições e sem reservas. Somente assim se salvaguarda a dimensão do encontro como característica fundamental da nossa relação com Deus. Este dom primordial da liberdade se revela sobretudo nas decisões humanas históricas e no seu caráter de projetualidade, bem como na sua convivência ordinária com as criaturas todas. Salvação, neste sentido, corresponde àquela específica experiência que nos é oferecida mediante o evento singular no qual Deus mesmo toma a iniciativa de se revelar, entregando-se pessoalmente a nós e comunicando-nos os desígnios de sua vontade. Esta autocomunicação se dá mediante uma sutil interpelação lançada à nossa liberdade. Por essa razão, a salvação jamais poderá ser reduzida a uma doutrina. Se a salvação é, fundamentalmente, a proposta que, na sua inusitada discrição, Deus faz aos seres humanos, então ela só pode se dar como encontro entre duas liberdades que se sentem movidas e sustentadas pelo amor recíproco. Deste modo, a salvação é uma experiência autenticamente humana e, portanto, penetra a totalidade da nossa existência atingindo aqueles nós fundamentais que constituem nossa existência enquanto tal. O ser humano criado por Deus e chamado à comunhão plena com Ele encontra-se, historicamente, sob o signo do pecado, vale dizer, da infidelidade ao projeto de Deus. O dom gratuito da filiação divina encontra em nós, na maioria das vezes, pouca acolhida e até mesmo indiferença e rejeição. Neste sentido, o pecado é expressão do mau uso que fazemos da liberdade. E suas conseqüências se fazem sentir na história e na inteira criação. O pecado, portanto, assume dimensões que vão além da simples experiência pessoal e inter-pessoal. Por esta razão, fala-se do pecado social e, mais recentemente, tem-se explicitado as características do assim chamado pecado ecológico.

Somos destinados a um final bom e reconciliador. Vocação à qual Deus nos chama, a promessa de uma vida transfigurada corresponde ao estado da plenitude da humanidade, da história e da criação agraciadas por Deus. O pecado não atrapalhou o projeto de Deus a nosso respeito e com relação à inteira criação. Em Jesus Cristo, Deus assume o nosso pecado, vale dizer, nossa infidelidade, indiferença e rejeição, e os transforma a partir de dentro. Operando uma autêntica reconversão do sentido, ele faz do pecado experiência de ressurreição e de vida nova. Este é precisamente o sentido cristão da salvação com redenção. E, deste modo, Deus leva à perfeição seu desígnio gratuito e amoroso. A genuína fé cristã professa que também a História e o Cosmos estão destinados à salvação. Emergem, assim, as reais dimensões do evento pascal de Cristo: numa direção, a que retorna às suas origens mais remotas, a história e a criação aparecem como fruto do movimento do Pai pelo Filho no Espírito Santo; noutra direção, a que avança para a plenitude de todo tempo, a história e o inteiro cosmos retornam no Espírito Santo pelo Filho ao Pai. Assim, protologia e escatologia se encontram no momento concreto e denso de significação no qual este dinamismo nos é revelado: a ressurreição do Filho unigênito, Jesus Cristo, e a efusão do Espírito Santo como primícias dos tempos derradeiros e definitivos.’


Fonte :



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Duas missões

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Padre António Rego,
Jornalista


‘Sair. Uma palavra de ordem do Papa Francisco que não entendemos à primeira, apesar de ter sido dita logo no início do seu pontificado : sair. Sim, para os que estão indiferentes, surdos, desiludidos com a Igreja, alheios à fé. Para que neles desperte a nostalgia de Deus, estejam perto ou longe da nossa porta. Mesmo os que passam pela igreja, pelas casas mortuárias, pelo cartório a pedir o batismo ou o casamento para si ou para um filho, ou a unção para um moribundo. Não querem encontrar mais uma repartição de serviço que lhes forneça um horário, uma agenda e uma tabela. Precisam de uma boa notícia de Deus, como Pai, amigo e irmão, um afeto do olhar de Jesus que vê, escuta, perdoa, abraça. Que não veio para condenar, mas para transbordar misericórdia para todos os que se sentem órfãos de Deus, ou estão caídos na estrada e são socorridos com o gesto do samaritano, ou os que, como a mulher adúltera, vêm abandonar os que a queriam apedrejar porque chegou Jesus e não a condenou. Ou como Zaqueu, que foi visto no sicômoro e nessa noite recebeu Jesus em sua casa. E não esquecer os muitos milhares que vão a peregrinações, procissões e romarias, os três milhões que por ano visitam os Jerónimos, mas não captam a força espiritual e os símbolos que esses elementos comportam. É um mundo muitas vezes arredado da Igreja e dos seus rituais porque não sabe rezar com eles nem percebe o que é a Igreja. Poderíamos enumerar uma longa lista de periferias que supera os que estão no «centro». Muitos têm «a sua fé», andaram na catequese e receberam sacramentos, mas partiram para outro planeta que nem eles próprios sabem definir. Todos procuram algo e a Igreja a todos tem de procurar e não apenas aguardar. É a sua missão.

Missão. E os que a milhares de quilômetros vivem a miséria humana e espiritual, sem pão para o corpo ou para a alma, sem ter quem lhes fale da vida, da família, da escola, da saúde, da sua dignidade, da fé cristã, da comunidade celebrante, da responsabilidade de construir a cidade – quem os procura, escuta e responde? Quem lhes fala de Jesus Cristo?

A Igreja está neste momento complexo da História a sair ou a encolher-se no seu conforto de ar condicionado, sem asas nem coragem para atravessar mares e fazer aquilo que tão bem soube fazer em tantos anos e lugares de missão?

É de perguntar : onde estão os jovens? Que fazem do seu sonho, da sua coragem, da aventura, da vontade de encontro e até daquele desejo profundo de celebrar e partilhar a fé com outras culturas e religiões para contar a originalidade de Jesus Cristo? Como se encontra esse vulcão de generosidade que há em cada jovem : extinto, sufocado, coberto pelas cinzas? Fecharam-se em casa a acariciar, noite e dia, os seus smartphones, de portas trancadas, sem tentarem uma única vez sair ao encontro dos outros, sem rede, na periferia?

Sair. Palavra com significados sempre novos. Mas o partir, gesto decisivo do missionário, merece cada vez mais um amor transferido para o outro lado da fronteira. Em missão. Lá longe ou rente à nossa porta.’


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Festa da Epifania

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Thomas Hopko,
teólogo e sacerdote cristão ortodoxo
(28.03.1939 – 18.03.2015)


‘No dia 6 de janeiro celebra-se a festa da Epifania ou da Teofania. Originalmente, era a única festa cristã da manifestação de Deus ao mundo na pessoa de Jesus de Nazaré. Incluía a celebração do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a adoração dos Rei Magos e todos os acontecimentos da infância de Jesus como a Circuncisão, a Apresentação no Templo, assim como o seu Batismo por São João no Rio Jordão. É quase certo que esta festa, como a Páscoa da Ressurreição e Pentecostes se entendia como o cumprimento de uma festa judaica, neste caso, a Festa das Luzes.

A palavra Epifania significa manifestação. Freqüentemente se refere a esta festa como a Teofania, tal como se diz nos livros litúrgicos da Igreja Ortodoxa, palavra que significa Manifestação de Deus. A ênfase que se dá a esta festa hoje em dia está na vinda de Jesus como o Messias de Israel e o Filho de Deus, Um da Santíssima Trindade, junto com o Pai e o Espírito Santo.

Assim, em seu batismo por João no Jordão, Jesus se identifica diante dos pecadores como o «Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29), o «Bem-Amado» do Pai, cuja tarefa messiânica é a de redimir os seres humanos de seus pecados. (Lc 3, 21; Mc 1, 35) É revelado como um da Santíssima Trindade de quem dá testemunho a voz do Pai e o Espírito Santo em forma de pomba. Os hinos da festa glorificam esta Epifania transcendental, isto é, manifestação.

Em teu batismo no Jordão, Senhor,
manifestou-se a adoração da Trindade;
pois a voz do Pai deu testemunha,
chamando-te Filho bem-amado;
e o Espírito, sob forma de pomba,
confirmou a verdade desta palavra.
Ó Cristo Deus que te manifestaste e iluminaste o mundo,
Senhor, glória a Ti! (Tropário de la Fiesta)

Hoje, Senhor, te manifestaste ao Universo
e a tua voz brilhou sobre nós,
que, conhecendo-te, cantamos:
Vieste, apareceste, ó Luz Inacessível! (Kondakion)

Os ofícios litúrgicos da Teofania reproduzem os da Natividade, ainda que, o mais provável é que tenha sido a Epifania a que servir de modelo para a Natividade, já a Natividade só mais tarde foi estabelecida como festa, Na manhã da véspera da festa celebram-se as Horas Reais junto com as Vésperas e a Divina Liturgia de São Basílio, o Grande. A vigília da festa consiste em Completas Maiores e Matinas.

As profecias que são lidas na Teofania repetem as palavras de Isaías ‘Deus-conosco’, e enfatizam a predita vinda de seu precursor, São João Batista :

«Esta é a voz Daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus.» (Is 40, 3-5; Lc 3, 4-6)

O versículo batismal de Gálatas 3, 27 situa outra vez o Triságion. As leituras do Evangelho selecionadas para todos os ofícios da Teofania falam do Batismo de Jesus por João no Rio Jordão. A leitura da Epístola na Divina Liturgia fala das conseqüências da manifestação do Senhor :

«A graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens. Essa graça nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas, para vivermos neste mundo com autodomínio, justiça e piedade, aguardando a bendita esperança, isto é, a manifestação da glória de Jesus Cristo, nosso grande Deus e Salvador. Ele se entregou a si mesmo por nós, para nos resgatar de toda iniqüidade e para purificar um povo que lhe pertence, e que seja zeloso nas boas obras.» (Tt 2, 11-14)

A característica principal da festa da Epifania é a Grande Bênção das Águas. De acordo com as indicações da Igreja, esta bênção deve ser celebrada depois da Divina Liturgia, tanto na véspera da festa como na festa mesma. Na maioria das paróquias, não obstante, faz-se geralmente uma só vez e numa oportunidade em que um maior número de fiéis possam participar. Tem início com a entoação dos hinos especiais da Festa e, logo, o celebrante incensa a água posta antes num recipiente no meio do templo. Cercado por velas e, em alguns casos, também por flores, esta água representa o belo mundo da criação original de Deus e o mundo glorificado por Cristo no Reino de Deus. As vezes esta bênção é feita fora, quando a igreja está situada próxima de um rio.

A voz do Senhor faz-se ouvir sobre as águas, dizendo :
Vinde, todos, receber o espírito de sabedoria,
o espírito de inteligência, o espírito de temor de Deus,
do Cristo que se manifestou!

Hoje a natureza das águas se santifica
o Jordão se divide e suas águas deixam de correr;
porque nele se vê o Senhor sendo batizado.

Ó Cristo Rei, como homem vieste ao rio para batizar-te.
Tomaste a iniciativa para receber o batismo da mão do Precursor
como escravo, por nossos pecados,
ó amante da humanidade (Hinos da Grande Bênção das Águas)

São lidas, na seqüência, as três leituras da Profecia de Isaías sobre a era messiânica :

«Alegrem-se o deserto e a terra seca, o campo floresça de alegria; como o narciso, cubra-se de flores transbordando de contentamento e alegria» (Is 35, 1-10)

Atenção! Todos os que estão com sede, venham buscar água. Venham também os que não têm dinheiro: comprem e comam sem dinheiro e bebam vinho e leite sem pagar... (Is 55, 1-13)

Com alegria vocês todos poderão beber água nas fontes da salvação».

E nesse dia, vocês dirão : «Agradeçam a Javé, invoquem o seu nome, contem aos povos as façanhas que ele fez, proclamem que seu nome é sublime; cantem hinos a Javé, pois ele fez proezas; que toda a terra as reconheça. Gritem de alegria e exultem, moradores de Sião, pois o Santo de Israel é grande no meio de vocês» ... (Is 12, 3-6)

Depois da Epístola (I Corintios 10, 1-4) e a leitura do Evangelho (Marcos 1,9-11), entoa-se uma litania maior especial na que se invoca a graça do Espírito Santo sobre a água e sobre todos aqueles que participaram dela. Encerra-se com a grande oração da glorificação cósmica a Deus na qual se suplica e se invoca Cristo que venha santificar a água, todos os seres humanos e a criação inteira pela manifestação de Sua Presença Divina, Salvífica e Santificadora, mediante a vinda do Santo, Bom e Vivificador Espírito.

Enquanto o tropário da festa é cantado, o celebrante submerge a cruz três vezes na água e logo procede sua aspersão para os quatro pontos cardeais. Ato contínuo, asperge todos os presentes com esta mesma água. Durante os dias que se segue à festa, prossegue abençoando as pessoas e os lugares com esta água abençoada que representa a salvação de toda humanidade e da criação inteira, que Cristo levou a cabo mediante sua Epifania na carne pela vida do mundo.

Algumas vezes se pensa que a bênção da água e a prática (costume) de tomá-la e aspergir sobre todas as pessoas e coisas é um costume pagão que, erroneamente, teria entrado na Igreja Cristã. Sabemos, não obstante, que este ritual foi praticado pelo povo de Deus no Antigo Testamento e que na Igreja Cristã tomou um significado novo e especial.

Pois, em nossa fé cristã, pela imersão de Cristo nas águas do Jordão, toda a matéria foi santificada e purificada nEle, limpa de seus germes mortíferos herdados do demônio e da corrupção dos seres humanos. Na Epifania do Senhor, toda a criação foi restaurada, voltando a ser boa de novo, por certo ‘muito boa’, tal como Deus mesmo a fez e proclamou que era no princípio quando ‘o Espírito de Deus se movia sobre as águas’ (Gn 1, 2) e quando o ‘Espírito de Vida’ estava no ser humano e em todo ser feito por Deus. (Gn 1, 30; 2,7)

O mundo e tudo quanto há nele certamente é ‘muito bom’ (Gn 1, 31) e quando se torna contaminado, corrompido e morto, Deus novamente o salva mediante a ‘nova criação’ em Cristo, seu Filho Divino e Nosso Senhor, pela graça do Espírito Santo. (Gl 6,15) Isto é o que se celebra na Epifania, e de modo muito especial, na Grande bênção das Águas. A consagração das águas nesta festa coloca o mundo inteiro, através de sua matéria elementar, à água, na perspectiva da re-criação, santificação e glorificação cósmicas do Reino de Deus em Cristo e no Espírito. Diz-nos que o fim último do ser humano e do mundo é ser ‘plenos de toda a plenitude de Deus’ (Ef 3, 19), ‘a plenitude Daquele que tudo preenche’. (Ef 1, 23) Diz-nos que Cristo, em Quem ‘habita corporalmente toda a plenitude da Divindade’, é e verdadeiramente será ‘tudo em todos’. (Cl 2, 9; 3,11) Diz-nos, ainda, que ‘o novo céu e a nova terra’ que Deus nos prometeu pelos seus profetas e apóstolos (Is 66, 22; II Pd 3, 13; Ap 21, 1) em verdade já estão ‘conosco’ no mistério de Cristo e Sua Igreja.

Assim, a santificação da água na Festa da Epifania e o aspergir da água da Epifania não é nenhum ritual pagão, estranho a Igreja Cristã dos primeiros tempos. É a expressão da autêntica visão cristã do ser humano, de sua vida e de seu mundo. É o testemunho litúrgico de que a vocação e o destina da criação é de ser plenificada ‘de toda a plenitude de Deus’. (Ef. 3,19)


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Fonte :

Tradução : Monges da Comunidade Monástica São João, o Teólogo