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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Liturgia : a poesia de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Daniel Reis, 
graduando em Teologia e em Direito (PUC Minas); 
cursa Especialização em Liturgia (Universidade Salesiana de São Paulo)


‘A arte, amplamente considerada, tem o condão de revelar o que a razão não consegue. Há uma frase atribuída a Leonardo da Vinci que ilustra bem esta ideia : ‘A arte diz o indizível, exprime o inexprimível e traduz o intraduzível’. A poesia, compreendida como produção artística ou ato criador de arte - seja pelo poema, pela música ou pela imagem - em sua forma final pode parecer mais real que a realidade que se apresenta aos olhos, pois consegue exprimir e desvelar um significado que, em semiótica, sempre está oculto de alguma forma. Para corroborar esta ideia, vale lembrar a belíssima afirmação poética de Antoine de Saint-Exupéry, em sua célebre obra ‘O Pequeno Príncipe’ : ‘Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos’. Desta forma, um coração poético nos auxilia numa compreensão simbólica da fé. Nos ajuda a percorrer, pelos sinais, os significados que querem se revelar. Nos liberta das visões fundamentalista e literalista, que costumam avidamente ‘saltar aos olhos’. E uma vez livres, podemos perceber a textura e a tonalidade do nosso modo de entender e de nos comunicar com Deus.

A Liturgia, sendo a mais primorosa obra de arte que Deus dedicou à humanidade, não é outra coisa senão uma poesia que declama, de forma ritual e simbólico-sacramental, o amor salvífico do Criador às suas criaturas. Nossa comunicação com Deus se dá, por excelência, pela linguagem litúrgica, cujo conteúdo exprime, invoca e evoca o Mistério que não pode ser contido nas palavras da linguagem humana. Esta linguagem litúrgica traz em si uma forma poética, que é expressiva, rítmica, possui cadência, como no exemplo do hino laudatório do Sanctus, onde a repetição ‘Santo, santo, santo’ faz entender que a realidade do Deus a quem falamos escapa a qualquer descrição verbal adequada, não só pela pobreza da língua hebraica, onde a tripla repetição corresponde, para nós, ao superlativo, mas pela própria pobreza e insuficiência de toda a linguagem humana para falar de Deus e a Deus. Nesta toada, o liturgista Cesare Giraudo, comentando sobre o Sanctus, diz ser ‘a forma suprema com que a criatura, no momento em que toma consciência da sua própria condição, fala a Deus; e não pode falar outra coisa senão declarando-o Santo’, dada a limitação comunicacional humana. Também T.S. Eliot, em sua obra ‘Quatro Martelos’, afirma que ‘nossas palavras forçam, rompem, escorregam, resvalam, correm e transportam a carga do significado em nossa fala das coisas de Deus’.

Como a poesia, a liturgia também está impregnada de metáforas. A palavra ‘metáfora’ vem de um verbo grego que significa ‘transferir para outro lugar’ ou ‘transportar o significado de uma palavra ou imagem de um referente para outro’, de tal forma que, com base em uma semelhança ou aparência percebida, ‘a’ seja visto como ‘b’. É o exemplo deste verso poético de Camões : ‘Amor é fogo que arde sem se ver.’ Esta linguagem metafórica, figurada - que se vale de figuras (imagens) para dizer como as coisas são - é plenamente verdadeira. Assim, como no verso de Camões, podemos dizer autenticamente que, por exemplo, a Palavra de Deus proclamada na Liturgia ‘é fogo que arde’ em nós, como experimentaram os discípulos de Emaús : ‘É por isso que os nossos corações ardiam enquanto Ele nos explicava as Escrituras pelo caminho’ (Lc 24,32). Portanto, também a Liturgia, unida à poesia, nos revela uma coisa por meio de outra, metafórica e poeticamente. O Mistério Pascal de Cristo nos é revelado nos sinais sensíveis componentes de toda e qualquer celebração litúrgica : vemos pão e vinho, mas sabemos que, através da linguagem litúrgico-poética, são-nos comunicados o Corpo e o Sangue do Senhor. No Batismo, salta aos olhos em primeiro plano um banho de água na criança; mas pela fé celebrada naquele gesto litúrgico-poético, sabemos que ela está sendo mergulhada na morte com o Cristo e, ao sair da água, ressuscitando juntamente com Ele (cf. Rm 6,4). Assim, a linguagem poética da liturgia é como um telescópio que nos ajuda a captar uma verdade mais profunda e menos óbvia, escondida : a verdade da graça salvífica! Fernando Pessoa afirma que ‘O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, e o fim da arte superior é libertar’. Sendo a Liturgia a mais ‘superior’ de todas artes, pois tem o próprio Deus como artista, ela nos liberta, colocando ao nosso alcance a libertação oferecida por Jesus Cristo. Porém, mesmo não sendo ‘inferior’ ou ‘média’, nos termos de Pessoa, ela também nos ‘agrada’ e nos ‘eleva’ à dignidade de Filhos e Filhas de Deus, por Ele muito amados.

Se a vocação da poesia é revelar o que a razão não consegue, assim será também a vocação da Liturgia, com um certo acréscimo, pois consiste em assimilar e encaminhar as pessoas para a graça divina, tantas vezes imperceptível aos olhos da razão, mas plenamente cognoscível à luz da arte poética que deve estar intimamente ligada à Liturgia, como afirma o Concílio Vaticano II :

Entre as mais nobres atividades do espírito humano estão, de pleno direito, as belas artes, e muito especialmente a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza, a exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir piamente e o mais eficazmente possível, através das suas obras, o espírito do homem até Deus’ (Sacrossanctum Concilium, nº 122)

Sintonizamos os nossos ouvidos à voz da poesia para saber o que ela pode nos dizer, inflamando a nossa imaginação muitas vezes insensível, ajudando-nos a ver coisas ainda desconhecidas e nos mostrando de novo os encantos do nosso mundo extenuado, fazendo-nos vivenciar a glória da salvação, bem como a maravilha de nos encorajar para tornar reais as possibilidades de mudança e transformação que este mundo reclama. A poesia é uma forjadora que martela a matéria incandescente do amor em sua forja artística, apara as arestas do significado de ser cristão e remodela as nossas percepções do mundo. Já dizia a poetisa inglesa Elizabeth Jennings : ‘A poesia deve mudar e fazer o mundo parecer novo em cada plano’.  No plano da fé, também a Liturgia deverá fazer o ‘mundo parecer novo’, mais parecido com o Reino de Deus! E a arte poética que ela carrega contribui essencialmente para isso : para um mundo mais belo evangelicamente, onde cada um de nós possa um dia afirmar, a exemplo do Santo Padre Paulino de Nola (séc. IV), que ‘Para mim a única arte é a fé, e Cristo a minha poesia’!’


Fonte :


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Palavra de Deus e Liturgia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pela Liturgia Deus se comunica conosco e, por essa comunicação, habita entre nós.
*Artigo de Padre Márcio Pimentel, 
presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, 
especialista em música ritual pela FACCAMP, em Liturgia pela PUC-SP, 
licenciando em Educação Musical pela UEMG


‘Certa feita, conversando com uma monja beneditina sobre a relação entre música e liturgia, ela confessava : ‘para mim é a mesma coisa, não há como separar!’. De fato, na tradição monástica, o canto e a liturgia se confundem. Da mesma forma, o binômio Verbo-Liturgia. Temos, na verdade, em certo sentido, uma redundância. Não apenas porque a Palavra de Deus seja o fundamento primeiro e último das celebrações, como que configurando seu arrazoado, mas sobretudo porque a Liturgia – na compreensão mais exata legitimada pela tradição antiga da Igreja – é próprio o Verbo feito carne. Tanto Ambrósio quanto Leão Magno dão testemunho disso quando afirmam que o nosso Salvador, Jesus Cristo (Verbo de Deus) pode ser encontrado quando a Igreja celebra.

A Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina do Concílio Vaticano II, Dei Verbum, tem seu proêmio fixado na constatação do anúncio de que a Igreja faz da Palavra de Deus como algo que se pode ver e tocar : ‘anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu : anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo’ (1 Jo 1, 2-3).  É a ritualidade, como componente antropológico constitutivo e por isso essencial das ações litúrgicas, que proporciona a continuidade entre o tempo do Verbo e o tempo da Igreja, sem rupturas. A encarnação, neste sentido, faz-se leitmotiv dos gestos e palavras da Igreja em oração. Por ela, a Liturgia, nós continuamos a oferecer nossa humanidade para que Deus conosco se comunique e por esta comunicação Deus, em seu Verbo, venha habitar entre nós : Verbum caro factum est (o Verbo se fez carne). Nos ritos com os quais a comunidade dos fiéis celebra o Mistério Pascal de Jesus, resplandece a Palavra de Deus e essa, por sua vez, faz-se inteligível como fato estético não só para a assembleia reunida, mas nela mesma, mediante sua corporeidade, pessoal e comunitária.

Seguindo esse raciocínio, concluímos que a Liturgia, por definição, aborda a Palavra de Deus como um acontecimento sacramental. O sacrammentum é exatamente a Palavra visível, se tomarmos como referência as noções teológicas de Orígenes e Agostinho : tira a Palavra e o que sobra? Água, Óleo, Pão. Cláudio Pastro oferece um conceito sintético de Liturgia que vai nesta mesma direção : ‘a encarnação do Mistério Pascal em nosso corpo[1] Por trás desta perspectiva ressoa um antigo ensino patrístico: caro salutis cardo, ou seja, a carne é instrumento da salvação. Escreve Tertuliano, em seu De Ressurrectione Mortuorum :

Quando entre a alma e Deus se estabelece um elo de salvação, é a carne que faz com que ele exista. Assim, a carne é lavada para que a alma seja purificada; a carne é ungida, para que a alma seja consagrada; a carne é marcada com o sinal da cruz, para que a alma seja fortalecida; a carne é coberta com a sombra da imposição das mãos, para que a alma seja iluminada pelo Espírito; a carne é alimentada com o Corpo e Sangue de Cristo, para que a própria alma seja saciada. [2]

A Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, ensina que ‘a Liturgia (...) edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito[3]. Essa afirmação, que tem seu fundamento na Sagrada Escritura [4], ecoa em toda ação litúrgica cristã. O culto dos cristãos como empreendimento religioso somente se explica e sustenta se assumido nessa direção. E é exatamente nesse item que se diferencia das outras tradições e caminhos espirituais. No cerne de toda Liturgia está a nossa humanidade como lugar e condição para que se efetue a salvação. Humanidade assumida por Deus na encarnação de seu Filho e que, segundo a mesma Sacrosanctum Concilium, tornou-se ‘instrumento da nossa salvação.’ [5]

Tudo isso nos leva a considerar a assembleia litúrgica como sendo o contexto por excelência para a leitura e interpretação da Sagrada Escritura. ‘É na Liturgia que Deus fala ao Seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho’. [6] A Bíblia, testemunho mais eloquente da Revelação, unida à Tradição da Igreja, tem na Liturgia seu lugar de cumprimento. Ao celebrar, o Povo de Deus professa a fé, narrando-a, experimentando-a e a exprimindo mediante os ritos e preces. Assimilam o Verbo da Vida que hospedam em seu corpo, de maneira a transformar-se nEle próprio, conforme rezamos no 27º Domingo do Tempo Comum após a comunhão : ‘sejamos transformados naquele que agora recebemos’. Por esse motivo, os padres conciliares solicitaram maior abundância de textos escriturísticos nas celebrações da Igreja, bem como se tornasse clara a conexão entre Palavra de Deus e Rito. [7]

Enfim, porque a Liturgia é a própria vida do Filho em nós [8], Palavra feio carne nele e – como prolongamento – também em nós, deve-se concluir que somente através do rito nos é possível a experiência do Mistério de Deus. [9] Esse ‘somente’ não é exclusivo, porque a Liturgia ‘não esgota toda a ação da Igreja’ [10]. Entretanto, porquanto ela (a Liturgia) seja ‘simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força[11] a ritualidade é condição inclusiva de todas as demais atividades da Igreja como ocasião para que a Revelação continue a reverberar no seio da humanidade. Em suma, não há fé cristã sem ritos, porque não há mundo sem Palavra e não há – na ordem da criação e da encarnação, sacramentalmente falando – Palavra sem Liturgia. A Liturgia é a própria carne do Verbo, pois Cristo se fez lugar no qual Deus mesmo se faz Servo, arma a tenda, põe a mesa e, dando-se, convive conosco, de modo que é na carne humana do Filho que se dá que o culto divino se faz pleno. [12]

[1] PASTRO, Cláudio. O Deus da beleza. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 32.[2] Tertuliano. De ressurrectione mortuorum, 8,3. In. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p. 220, n. 741.
[3] Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 2. In.http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html
[4] Cf. 1Pd 2,4-10.
[5]  Sacrosanctum Concilium, 5.
[6] Sacrosanctum Concilium, 33.
[7] Cf. Sacrosanctum Concilium, 35.
[8] Cf. MARINI, Piero. Primum Celebrare. In. GRILLO, Andrea, RONCONI, M. La reforma della Liturgia. Milano: Periodici San Paolo, 2009, p. 4.
[9] Cf. MARINI, Piero. Prospettive per una pedagogia della fede celebrata. In. Il Misale expressione della Traditio Ecclesiae. Rivista Liturgica, n.97. Padova: Edizioni Messagero, 2010, p.438.
[10] Sacrosanctum Concilium, 9.
[11] Sacrosanctum Concilium, 10.
[12] Cf. Sacrosanctum Concilium, 5.
 Fonte :


domingo, 4 de setembro de 2016

Entre a legítima Tradição e o necessário progresso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Márcio Pimentel, 
presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, 
especialista em música ritual pela FACCAMP, em Liturgia pela PUC-SP, 
licenciando em Educação Musical pela UEMG


‘A reforma litúrgica só pode ser compreendida com justeza no marco da pungente renovação eclesial querida e proporcionada pelo Concílio Vaticano II. Ela é, simultaneamente, expressão desta renovação e também sua promotora mais autorizada. Na abertura do segundo período do Sagrado Sínodo, que trouxe como um de seus frutos mais ricos a Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, Paulo VI afirmou que ‘a renovação, tal como a entendemos, decorre da consciência de que a Igreja tem de estar unida a Cristo. Vê-se como um espelho, reflexo da imagem de Cristo’.[1] Esta percepção predominou na justificativa teológico-pastoral para a reforma : ‘O objetivo do Concílio é intensificar a vida cristã, atualizando as instituições que podem ser mudadas, favorecendo o que contribui para a união dos fiéis em Cristo e incentivando tudo que os leva a viver na Igreja.’[2]

Já em 1909, o beneditino Lambert Beaudim chamava atenção para o fato de a Liturgia não se configurar fonte da vida cristã. Uma das grandes dificuldades, certamente, era a ininteligibilidade tanto da língua (latim) como também dos ritos, dada a sua sugestão de traduzir o Missal e colocá-lo nas mãos dos fiéis, bem como de promover a participação pelo exercício da música ritual. Durante o século XX, inúmeras iniciativas ensaiaram a retomada da fecundidade celebrativa. Teólogos se aventuraram em pesquisas e ensaios vislumbrando a refontalização da prática litúrgica da Igreja, de modo que, de fato, todo homem e mulher batizados encontrassem, pela mediação dos ritos, a Cristo Mestre e Senhor. Os padres conciliares reconheceram o quanto era importante restaurar elementos litúrgicos tradicionais que se perderam com o passar dos anos ou, no mínimo, se tornaram secundários. O Salmo Responsorial, a Homilia, a Oração dos Fiéis, a Comunhão são alguns exemplos. Já uma década antes do Concílio, Pio XII retomara a riqueza do Tríduo Pascal e com a Carta Encíclica Mediator Dei compilou as contribuições do Movimento Litúrgico oficialmente, para uma urgente redescoberta da Liturgia.

A preocupação maior evidenciada na Sacrosanctum Concilium diz respeito à participação efetiva de todo o povo batizado na vida de Jesus, celebrada pela Igreja em sua Liturgia. Compreendida como cumen et fons da vida cristã, a celebração necessitava redescobrir aquela nobre simplicidade obscurecida pelos acréscimos e repetições nos diversos rituais. A ampliação do repertório escriturístico se fez uma exigência. A celebração comunitária deveria retornar ao seu posto primaz. A reforma litúrgica precisaria ‘tornar claro o nexo entre palavra e rito’. O caminho mais eficiente para isto seria o tratamento a ser dado à língua litúrgica. Os padres conciliares recomendaram corajosamente aquilo que, em Trento, já se havia discutido, mas não fora conseguido realizar, a introdução do vernáculo.  E com ele, se abrem as portas para a inculturação.

Para que este propósito chegasse a seu termo, era necessário, ainda, oferecer um adequado processo de formação. Neste sentido, o Concílio reclama que a catequese sobre a reforma seja oferecida ‘em continuidade com a liturgia[3] de modo que a assembleia seja preparada devidamente para participar de maneira ativa, pia, consciente e frutuosa das celebrações. Atrelada a esta recomendação, esteve também a Pastoral Litúrgica em todos os níveis (paroquial, diocesano e nacional).

Essa ‘reforma geral da Liturgia’ aconteceu e foi exemplarmente bem-sucedida. Ainda que hajam críticas a se fazer tanto em relação à reforma em si mesma e quanto à sua recepção, pois a vida litúrgica é realização da Igreja e esta é semper reformanda, os empenhos foram indiscutivelmente ricos e fecundos. Entretanto, nas últimas três décadas, assistimos a um desmonte da perspectiva conciliar em vários níveis, e dentre eles também da Liturgia. Começando pela Liturgia Autenticam e culminando com a Summorum Pontificum, vimos enfraquecer paulatinamente as intuições e conquistas advindas do Concílio. Uma tendência restaurocionista de matiz curial e – consequentemente – centralizadora, diagnosticou uma crise eclesial derivada da perda da noção de sagrado, cuja responsabilidade encontrou-se no edifício da reforma litúrgica. Este discurso popularizou-se e se tornou o ‘carro-chefe’ de personalidades e movimentos ultraconservadores que passaram a defender e mesmo, promover o ‘teorema[4] da reforma da reforma. Recentemente esta perspectiva foi oficialmente corrigida e educadamente reprovada na resposta vaticana às sugestões do Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino de se retomar a orientação versus Orientem.

Um dos problemas a se considerar é que este fenômeno levou alguns setores eclesiais aderentes à ‘reforma da reforma’ à negação da legitimidade teológica assumida no Concílio e nos trabalhos que confluíram na reforma litúrgica. Para estes grupos a descontinuidade com a tradição imediatamente precedente naquilo que esta já não tinha condições de responder, veio a conspurcar a pureza das celebrações cristãs. Tampouco esta ala consegue reconhecer a radical fidelidade à tradição litúrgica que os peritos da reforma propugnaram, ao vincular suas intervenções nos ritos na riqueza teológico-litúrgica e também pastoral do primeiro milênio. Não para copiar o passado, mas para fidelizar sua criatividade : um retorno ao coração da Tradição no intuito de ‘voltar à autenticidade das celebrações antigas, segundo ‘a antiga norma dos padres (da Igreja)’’.[5] Afinal, esta foi uma época de grande desenvolvimento orgânico da Liturgia e da teologia, marcada pela contribuição patrística do Oriente e do Ocidente. Período em que o grande cisma não havia ainda sido perpetrado.

Haja vista a lenta recepção do Concílio, como um todo, e de modo particular da própria reforma litúrgica, urge recuperarmos sua importância ímpar para a espiritualidade, para a pastoral e também para a teologia. Muitos passos foram dados e se chegou muito além do que, talvez, os padres conciliares esperassem quando recomendaram a reforma. Não se pode ler esta constatação de maneira negativa, no entanto. A Liturgia é um organismo vivo e seu contato com a diversidade de culturas, contextos e mentalidades exige uma perspectiva contínua de enriquecimento, mediante revisões e experiências. Já se verifica, por exemplo, como a questão ecológica amplamente tratada por Francisco na Laudato si urge traduzir-se também em perspectiva litúrgica.[6] De todos os modos, vale reconhecer, contemplando nossas celebrações e lembrando algumas palavras de Annibale Bugnini, grande homem por trás da reforma da Liturgia, o sucesso da empreitada :

Era o escopo da reforma rejuvenescer, por ao dia a expressão orante da Igreja, gestos, ritos, palavras, formas mediante uma restauração delicada e atenta, com uma ordem racional e humana, simultaneamente, às vezes criando ex novo, partindo das formas existentes, para suturar e não para criar fraturas, pondo as bases de uma adaptação inteligente, que realizasse as exigências da sensibilidade dos vários povos.’[7]


[1] Paulo VI. Discurso na abertura do segundo período do Concílio. In. Vaticano II. Mensagens, Discursos, Documentos. São Paulo: Paulinas, 2013, p. 52.

[2] Constituiçao sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium. Vaticano II. Mensagens, Discursos, Documentos. São Paulo: Paulinas, 2013, n.1, p. 141.

[3] SC 59.

[4] Opinião do teólogo Andrea Grillo. In. http://www.ihu.unisinos.br/557763-o-fim-da-qreforma-da-reformaq-uma-pequena-historia-de-um-delirio-autorreferencial-artigo-de-andrea-grillo.

[5] Cf. BÉGUERIE, Philippe. BEZANÇON, Jean-Noël. A Missa de Paulo VI. Retorno ao coração da Tradição. São Paulo: Paulus, 206, p. 20.

[6] Cf. artigo de James Hug, intitulado ‘Laudato si’ e o trabalho litúrgico daqui em diante. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/558307-laudato-si-e-o-trabalho-liturgico-daqui-em-diante.

[7] BUGNINI, Annibale. La reforma litúrgica. Roma: C.L.V. Edizioni Liturgiche, 1997, p.12.


Fonte :


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Kyrie eleison

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 Esta antiga oração da liturgia cristã não é apenas um pedido de perdão, mas também um pedido de amor


‘O Kyrie eleison é uma das orações mais antigas da liturgia cristã. Há expressões semelhantes em alguns salmos e nos Evangelhos. Os testemunhos de uso litúrgico remontam ao século IV, na igreja de Jerusalém, e ao século V na missa de rito romano. É usada como resposta a determinadas invocações. No rito tridentino, pronuncia-se após o ato penitencial e logo depois da antífona de entrada; no rito ambrosiano, é dita no ato penitencial e repetida três vezes no final da missa, antes da bênção final. O Kyrie, como é geralmente abreviado, também faz parte das missas cantadas, seguindo-se imediatamente ao introito. Depois da reforma litúrgica, foi traduzido no rito romano como ‘Senhor, tende piedade de nós’ e ‘Cristo, tende piedade de nós’.

A expressão grega Κύριε λέησον, da qual ‘Kyrie eleison’ é uma transliteração em latim, poderia ser traduzida como ‘Senhor, tende misericórdia’ ou ‘tende benevolência’. Alguns teólogos chegaram a propor ‘Senhor, amai-me com ternura’. Essa invocação tripla, ‘Kyrie eleison - Christe eleison - Kyrie eleison’, expressa um pedido claro de perdão, em resposta a uma fórmula da absolvição sacerdotal que normalmente encerra os atos penitenciais de rito romano. Também é verdade que esta fórmula, especialmente na tradução, tem um caráter penitencial que originalmente era secundário, como evidenciado pelo rico desenvolvimento musical do texto na tradição musical gregoriana.

Na missa tridentina, a invocação não se limita ao momento penitencial, assim como na liturgia bizantina. É difícil, por conseguinte, chegar a uma tradução totalmente satisfatória desta expressão, que deveria ser preservada tal como ainda é usada no rito ambrosiano. Quanto ao significado, é muito bonito entendê-la como uma invocação de bondade : ‘Senhor, mostrai-nos a vossa benevolência’.

A benevolência completa a misericórdia. É um termo menos usado, mas que poderia ser plenamente recuperado em todo o seu significado. A benevolência é o amor não focado no ‘eu’, mas no próximo, no outro. Um fruto do amor do Espírito, que infunde na alma serenidade, tranquilidade e paz, envolvendo quem nos rodeia. Este amor nos faz olhar para os outros com olhos limpos e descobrir neles muitas coisas belas. É a atitude que nos torna ‘longânimes’, que nos ajuda a ir além dos defeitos dos outros, confiantes de que o bem os supera se soubermos ser pacientes. ‘Benevolência’ significa ‘bem querer’ e é característica da pessoa amorosa, afável, gentil, generosa, que dá ao seu comportamento em relação aos outros um sentido de alegria, de suavidade e doçura que ganha o coração. A palavra ‘benevolência’ expressa relação. Não é bom saber que há Alguém que nos quer bem?

O Kyrie eleison se torna, assim, um pedido de perdão, mas também um pedido de amor. Jesus é gentil e paciente com todos. Mesmo numa dura controvérsia com seus inimigos, Ele diz : ‘Eu vos digo isso para que sejais salvos’ (Jo 5,34). São palavras de paciência e longanimidade para com todos. Assim como o Pai, Ele é também é benévolo : e a salvação é a maior revelação da ‘benevolência divina’.

A esta luz, podemos entender melhor quando Ele fala da ‘boa vontade’ do Pai: ‘Amai os vossos inimigos, fazei o bem sem esperar nada em troca e a vossa recompensa será grande e vos tornareis filhos do Altíssimo, porque Ele é benévolo até para com ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso’ (Lc 6,35s). Viver esses imperativos é entrar em sintonia com a ação do Pai e de Jesus; é ser ‘benevolentes’ com todos, porque só assim podemos ‘provar e saborear o quanto é amável e gentil nosso Senhor’ (Salmo 33,9; 1 Pd 2,3). Pedro, citando este salmo, exprime a identidade do amor misericordioso de Deus agindo em Cristo ao referir a Cristo o nome de Deus (Senhor) que o salmo exalta como ‘benevolente’.’  


Fonte :


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

São Pio X, Papa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Nasceu na aldeia de Riese, na região de Veneza (Itália), em 1835. Depois de ter desempenhado santamente o ministério sacerdotal, foi sucessivamente bispo de Mântua, patriarca de Veneza, e papa, eleito no ano 1903. Adotou como lema do seu pontificado ‘Restaurar todas as coisas em Cristo’, ideal que de fato orientou a sua ação pontifícia, na simplicidade de espírito, pobreza e fortaleza, dando assim um novo incremento à vida cristã na Igreja. Teve também de combater energicamente contra os erros que nela se infiltravam. Morreu no dia 20 de Agosto de 1914.

A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Pio X, papa :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Constituição Apostólica Divino aflatu, de São Pio X, papa
(AAS3[1911],633-635)     (Séc.XX)

A voz da Igreja que canta suavemente
Compostos por divina inspiração, os salmos colecionados na Sagrada Escritura foram desde os inícios da Igreja empregados, como se sabe, não apenas para alimentar maravilhosamente a piedade dos fiéis que ofereciam sempre a Deus o sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que louvam seu nome (cf. Hb 13,15; Os 14,3); mas também, como já era costume na antiga Lei, para ocupar lugar eminente na sagrada liturgia e no ofício divino. Daí nasceu, na expressão de Basílio, ‘a voz da Igreja ’ e a salmodia. Salmodia que é ‘filha de sua hinodia, que sempre a Igreja canta diante do trono de Deus e do Cordeiro’, como expõe nosso predecessor Urbano VI. Assim a Igreja ensina aos homens particularmente devotados ao culto divino, conforme as palavras de Atanásio, ‘de que modo se deve louvar o Senhor e com que palavras dignamente’ confessá-lo. A este respeito disse muito bem Agostinho : ’Para ser bem louvado pelo homem, Deus mesmo se louvou; e, aceitando louvar-se, deu ao homem encontrar o modo de louvá-lo’.

Além disto, nos salmos há uma maravilhosa força para despertar nos corações o desejo de todas as virtudes. Pois, ‘embora toda a nossa Escritura, tanto a antiga quanto a nova, seja inspirada por Deus e útil para a instrução, como está escrito (cf. 2Tm 3,16), o livro dos salmos porém, semelhante a um paraíso, que contém em si os frutos dos demais livros, produz o canto, e, ainda mais, oferece seus próprios frutos unidos aos dos outros durante a salmodia’. Essas palavras são novamente de Atanásio, que acrescenta: ‘A mim me parece que os salmos são como um espelho para quem salmodia, onde este se contempla a si e os movimentos de seu espírito, e, assim impressionado, os recita’. Também diz Agostinho nas Confissões : ‘Como chorei por causa de teus hinos e cânticos, vivamente comovido pelas suaves palavras do canto de tua Igreja! As palavras fluíam em meus ouvidos e instilava-se a verdade em meu coração, fazendo arder a piedade; corriam-me as lágrimas e sentia-me bem com elas’.

Na verdade, a quem não comovem aquelas frequentes passagens dos salmos onde se canta profundamente a imensa majestade de Deus, a onipotência, a indizível justiça, a bondade ou a clemência e todos os outros infinitos louvores? A quem não inspiram iguais sentimentos as ações de graças pelos benefícios recebidos de Deus, ou as humildes e confiantes preces pelo que se deseja, ou os clamores do arrependimento dos pecados? A quem não inflama a cuidadosamente velada imagem do Cristo Redentor ‘cuja voz ouvia Agostinho em todos os salmos a salmodiar, a gemer, a alegrar-se na esperança ou a suspirar pela realização? ’.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1212, 1214
               

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Movimento Litúrgico e os efeitos do Concílio Vaticano II na Liturgia (Capítulo 3 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



4. OS EFEITOS DO CONCÍLIO VATICANO II
NA LITURGIA DA IGREJA CATÓLICA

W  25 de dezembro de 1961 convocação deste Concílio, o XXI Concílio Ecumênico, pelo papa João XXIII

W  11 de outubro de 1962 início em ritmo extraordinário

João XXIII
W  8 de dezembro de 1965 término sob o papado de Paulo VI  

Paulo VI

A Reforma Litúrgica (de 1963 a 1990 )

            A reforma litúrgica, decorrente do movimento litúrgico, foi o resultado mais notório deste Concílio.

            Com a promulgação da constituição ‘Sacrosanctum concilium’, que reproduz e am­plia a ‘Mediator Dei’, exatamente 400 anos após o fim do Concílio de Trento (04.12.1563 – 04.12.1963), testemunhamos um colegiado ocupando-se do tópico liturgia pela primeira vez na caminhada histórica da Igreja perante uma assembléia ecumênica.

            O propósito do Concílio Vaticano II era:

W  ‘Fomentar a vida cristã entre os fiéis’
W  ‘Adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mu­dança’
W  ‘Promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo’ e
W  ‘Fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja

            E a finalidade da reforma era avivar a fé, proporcionar a justa medida entre tradição e adequações necessárias na liturgia – sem limitar-se a ritos, cerimônias e textos – e incen­tivar a participação ativa do fiel leigo. Sua importância foi inexorável para distinguirmos a liturgia como a luz primordial do ser cristão e o povo de Deus como o indivíduo da ação litúrgica. Impulsionou, ainda, a centralização da Palavra de Deus na liturgia e o reconheci­mento das Igrejas locais.

            Embora a reforma tenha sido relativamente bem aceita na Igreja de Rito Romano, ela não foi de todo compreendida, expondo atitudes equivocadas e contraditórias.

            Vale destacar que a reforma litúrgica não ocorreu sozinha, apartada de outros gru­pos. Na verdade, a atuação foi de maneira integrada ao movimento bíblico, ao ecumênico, às frentes missionárias, à pesquisa das várias religiões e à averiguação do elo entre a religião e as necessidades humanas antes e após o Concílio. Acima de tudo, a reforma litúrgica esta­beleceu um legado vigoroso :

W  Ampliou a vivência cristã ao incentivar a participação deliberada e ativa do fiel na litur­gia
W  Aumentou o sentido comunitário da vida litúrgica
W  Sancionou o uso da língua vernácula
W  Prestigiou o enriquecimento doutrinal e catequético
W  Incentivou a leitura bíblica
W  Adequou as instituições eclesiais ao contemporâneo
W  Estimulou o ecumenismo pela união dos cristãos
W  Recomendou a participação de todos na missão da Igreja
W  Simplificou e permitiu a transparência na brevidade dos ritos

            Contudo, passados os primeiros anos da promulgação conciliar, era nítido que a litur­gia atravessava momentos difíceis. Da exaltação inicial, ávidos por granjear resultados apressadamente, migrou-se para a desilusão.

            Alguns problemas não estavam previstos com clareza no Concílio. Por exemplo : as atenções estiveram focadas na liturgia em si e não no sacerdote; priorizaram a renovação de livros litúrgicos e não a reciclagem das assembléias celebrantes; assim como o problema da inculturação ou adaptação da liturgia às diversas culturas.

            Diferentes fases permearam estes anos:

Fase do Entusiasmo

            A década de 60, num geral, foi assinalada pela expectativa de aplicação da reforma :
ü  liturgia elaborada na língua pátria (ou vernácula)
ü  maior relevância às Conferências Episcopais
ü  reabilitação da concelebração e da comunhão sob as duas espécies
ü  sintetização do Ofício Divino
ü  impulso às frentes missionárias
ü  ênfase no mistério pascal, isto é, na paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo
ü  fiel participativo
ü  exaltação do culto

Fase do Desencanto

            Na década de 70, o desapontamento era reflexo de uma renovação de cunho raso e que, talvez, não estivesse preparada para imersões mais profundas. A partir daí, a preocu­pação pastoral recorreu à evangelização ao entender que a liturgia não solucionava todas as questões de base :
ü  surgem novos livros litúrgicos
ü  a consolidação das celebrações
ü  a abertura da Igreja para a dimensão social reflete-se na liturgia
ü  propagação veloz da secularização na sociedade
ü  a deficiente formação litúrgica nos seminários
ü  a insuficiente reciclagem oferecida ao clero e
ü  sacerdotes em conflito 

Fase da Recuperação

            A reorientação litúrgica, na década de 80, reacendeu pesquisas e proporciou um novo estilo de celebração:
ü  pesquisa sobre a situação da vida litúrgica no Brasil (1983) e ampla avaliação das Dire­trizes Gerais da Ação Pastoral da CNBB (1987)
ü  a reciprocidade celebração-evangelização tornou-se mais dinâmica e conciliatória 

Fase da Pastorial Litúrgica

            Na década de 90, notabiliza-se a pastoral litúrgica e um renovado empenho pela Pala­vra de Deus:
ü  edição de novos Lecionários
ü  reconhecimento e uma certa apreciação da Liturgia das Horas e
ü  a prática do silêncio na oração


A Espiritualidade Litúrgica (de 1990 em diante)
           
      Espiritualidade é ‘a vida do cristão movida pelo Espírito’ e Espiritualidade litúr­gicafaz da liturgia (Eucaristia, Sacramentos e Ofício Divino) o grande referen­cial da vida do cristão’, conforme Dom Estevão Bettencourt, do mosteiro do Rio de Ja­neiro. A espiritualidade litúrgica não elimina ‘as respostas pessoais do cristão à graça de Deus ou às devoções particulares’. Porém, inexiste para muitos fiéis pela falta de uma formação ou catequese adequada. 
Dom Estevão Bettencourt
       Características :

ü  Sentir (pulsar) com a Igreja
o   O lema ‘Sentire cum Ecclesia’, isto é, pensar e viver com a Igreja, divulgado no princípio da restauração litúrgica, conscientiza o fiel de que, para ser Igreja, tem que se alimentar da Palavra de Deus.

ü  A leitura eclesial da Bíblia
o   Para entende-la é preciso interpretá-la sob o impulso do Espírito que a ins­pirou’ (Cons. Dei Verbum nr. 12).

ü  Formação doutrinária
o   Através da Bíblia e da tradição oral, a liturgia e a fé relacionam-se de acordo com a máxima dos antigos: lex orandi lex credendi (‘o conteúdo da oração deve condizer ao conteúdo da fé’)

ü  A Eucaristia e os sacramentos
o   Ser cristão é pertencer a um Corpo cuja Cabeça é Cristo e o tronco é Jesus. O embasamento no Corpo ou no tronco se faz primeiro pelo Batismo, é confirmado pela Crisma e nutrido periodicamente pela Eucaristia.

ü  Sacramentais 
o   São os ritos (bênçãos) ou objetos (rosário, crucifixos, etc...) pelos quais Deus difunde suas graças. Por exemplo : a Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, expressa a oração da Igreja para as várias fases do dia e a santifica­ção do tempo.
ü  As devoções ou a piedade particular
o   Piedade objetiva (litúrgica) e piedade subjetiva (particular) não se opõem; mas a Igreja interpela para que o cristão tenha um elo doutrinário entre a liturgia e a oração individual.

ü  Sacerdócio comum dos fiéis
o   Segundo a doutrina da Igreja, todos os batizados participam do sacerdócio de Cristo, sem confundir com o sacerdócio ministerial, que é um sacra­mento da Ordem.

ü  Arte Litúrgica
o   Sendo um dos modos de representar o inefável ou invisível, está vinculada à liturgia, porém, a arte na Igreja ‘é um meio e não um fim e que o artista entenda o porquê e o para quê de cada objeto de arte, no contexto do templo sagrado’. 


5.   CONCLUSÃO

Da liturgia para a vida cotidiana

O Vaticano II sumarizou todas as ânsias do movimento litúrgico, ultrapassando precon­ceitos sem fundamento e o fiel transcendeu da liturgia para a vida, propagando no mundo essa transformação, que é obra do Espírito Santo.

A liturgia é o meio que Deus nos concede para falar com Ele, por isto, ela não se es­gota na celebração, mas existe um antes e um depois que devem ser cuidados pondera­damente : ‘a celebração litúrgica incorpora-nos na igreja de hoje e projeta-nos para o amanhã, num progresso contínuo, porque o Espírito que ressuscitou Jesus Cristo den­tre os mortos está presente na Igreja e acompanha-a através dos séculos’.