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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Como a humildade leva à gratidão, segundo São Vicente de Paulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Philip Kosloski,
escritor e designer gráfico


‘Muitas pessoas, religiosos ou leigos, apontam para a importância da gratidão na busca de uma vida feliz. A capacidade de agradecer a Deus e aos outros é uma habilidade essencial para todos nós aprendermos.

No entanto, é mais fácil falar do que fazer, pois temos uma tendência natural de tomar as coisas como garantidas, especialmente se nossas vidas são abençoadas com muitos bens materiais. De fato, é mais fácil para nós querer mais do que agradecer pelo que temos.

A chave para superar essa inclinação gananciosa e promover um espírito de ação de graças é a virtude da humildade.

São Vicente de Paulo explica esse princípio espiritual :

Uma apreciação viva da graça dada a você deve torná-lo humilde, pois a apreciação gera gratidão … Qualquer um que considerar calmamente o que fez sem Deus não pode deixar de perceber que o que faz com Deus não é mérito próprio.

Ao mesmo tempo, São Vicente de Paulo mostra como a gratidão pode levar à humildade :

Nada tende a nos humilhar diante da misericórdia de Deus como a multidão de Seus dons para conosco; assim como nada tende a nos humilhar diante de Sua justiça como a multidão de nossos erros. Vamos considerar o que Ele fez por nós.

A Virgem Maria é um dos principais exemplos de humildade. Ela sempre agradeceu a Deus por seus feitos maravilhosos :

Foi nesse espírito que a Santíssima Virgem confessou que Deus lhe havia feito ‘grandes coisas’; apenas para que ela possa se humilhar e exaltá-Lo. ‘Minha alma glorifica o Senhor’, disse ela, em razão dos presentes que Ele havia lhe dado.

Se tivermos dificuldade em agradecer por tudo o que nos foi dado, promovamos em nossa alma um espírito de humildade, reconhecendo a presença de Deus em nossas vidas. Ele é quem nos guia e nos fornece diariamente.

Quando reconhecemos o cuidado providencial de Deus por nós, podemos elevar nossos corações a Ele e agradecê-lo por tudo o que Ele nos deu. Esse mesmo espírito de humildade também direcionará nossas ações para os outros, reconhecendo o quão dependentes somos das pessoas e das coisas que elas fazem por nós.

Gratidão e humildade andam de mãos dadas e ambos nos ajudam a desvendar a chave para uma vida cheia de alegria.’


Fonte :

terça-feira, 2 de julho de 2019

A herança de São José para Jesus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 SAINT JOSEPH ICON
*Artigo do Frei Kleber Moresco, OFMcap


‘Por muito tempo o trabalho braçal foi entendido como um castigo. No relato de Gênesis, depois do pecado, Deus diz a Adão : ‘Com o suor do teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo’ (3,19).

Os trabalho por muito tempo foi considerado como tarefa dos escravos, pois quem trabalha não tem liberdade. Na Idade Média essa ideia se tornou tão clara que o Império Romano usava um objeto para tortura chamado Tripalium, e deste objeto proveio a palavra ‘trabalho’.

Muitas pessoas continuam pensando como na Idade Média, deixam de aproveitar o tempo que têm, sonhando com o dia em que serão ‘libertas’ disso por meio de uma aposentadoria. Fazem o seu trabalho com mal humor, pois apenas suportam esse tempo, para ganhar um salário. O trabalho não é um castigo, o trabalho é um dom; o próprio Deus nos convida a colaborar com Ele na Criação.

Os relatos bíblicos mostram José como um homem muito silencioso, mas fazem questão de afirmar que ele era carpinteiro. Deus escolheu José para ser o Pai adotivo de Jesus. A herança de José para Jesus, além da educação e caráter, foi o seu ofício de carpinteiro (Mc 6,3). Jesus herdou da humanidade o dom de trabalhar.

São José não trabalhava simplesmente para ganhar dinheiro, ele trabalhava porque trabalhar é um dom. Quando a intenção do trabalho é simplesmente acumular bens esquecendo as relações de justiça, assim como o império romano, somos torturados ou torturadores dos fracos. Contudo, quando o trabalho é oferecido a Deus como manifestação de colaboração e gratidão, ele se torna fonte de vida.

A Trindade é um exemplo de trabalho contínuo por amor. Deus Pai através do trabalho ‘pede a ajuda da humanidade’ para construção do Reino (CIC 378). Jesus chama as pessoas a trabalharem com o coração e não com as redes : ‘Farei de vós pescadores de homens’ (Mt 4,19). Tudo isso só é possível porque a todo momento o Espírito Santo está tocando os corações ‘O Espírito sopra onde quer’ (Jo 3,8). Deus trabalha continuamente no coração e na vida das pessoas, apenas com o sopro do Espírito abrimos os ouvidos ao chamado de Jesus para colaborar na construção de um mundo com mais respeito, justiça e gratidão.

O trabalho é uma virtude dos humildes, dos santos, e característica do próprio Deus (Jo 5,17).’


Fonte :

domingo, 9 de julho de 2017

A gratidão e outras gentilezas que nos faltam

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'Fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável'
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Uma das mais belas e pedagógicas passagens dos Evangelhos está descrita por Lucas, no capítulo 17 de seu livro, onde conta que dez leprosos vieram até Jesus pedir por sua cura. Compadecendo-se deles, curou-os e os enviou, como era praxe na época, para se apresentarem aos sacerdotes que constatariam a cura e os libertariam da exclusão social imposta aos portadores daquela doença. Pouco tempo depois, somente um deles retornou para agradecer o imensurável bem que recebera. Curiosamente ele era o único estrangeiro daqueles dez. E Jesus se admirou, comentando com seus discípulos : ‘Eram dez os curados, e somente este estrangeiro voltou para agradecer o que recebeu!

Desde que me entendo por gente, aprendi a agradecer tudo o que recebia. Era uma frase comum na boca de meus pais, quando me viam recebendo alguma coisa, e distraia-me com o que recebera : ‘O que você vai dizer?’ E aquele toque despertava-me para expressar : ‘Muito obrigado!’. E de tanto ser lembrado, aprendi que sempre deveria fazer isso. Contudo, mais do que decorar as palavras, aprendi que elas manifestavam minha gratidão por ter ganho alguma coisa de alguém. Aos poucos fui descobrindo como era bom dizer ‘obrigado’ para quem me proporcionava algo, e também como me era agradável ouvir o mesmo, quando era eu quem dava alguma coisa. Depois aprendi que gratidão é uma palavra de origem latina, gratia ou gratus, que significa agradável, portanto algo que nos traz satisfação. Ou seja, quando me sinto grato e consequentemente movido a agradecer, o faço porque aquilo me trouxe satisfação. Da mesma forma que me compraz a satisfação daquele que recebeu algo dado por mim.

Mas isso não é somente uma coisa superficial e passageira. Pesquisas científicas sugerem que sentimentos de gratidão são benéficos ao bem estar emocional subjetivo, como descrevem os psicólogos e pesquisadores da Universidade de Miami, Emmons & McCullough, em seu livro ‘A psicologia da gratidão’, de 2004. Em outras palavras, a gratidão nos faz bem, tanto quando damos como quando recebemos alguma coisa.

Refletindo sobre esse assunto, fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável a ponto de pessoas se afastarem do convívio familiar e social, buscando refúgio em lugares mais isolados ou limitando sua vida a ambientes afastados de multidões. Onde não existe a gratidão, onde as pessoas perderam o hábito saudável de dizer ‘obrigado!’, ‘agradecido!’, a convivência entre humanos se torna pouco ou nada agradável.

Mas não é somente a gratidão, que tanto bem nos faz, a gentileza que hoje nos falta. Também outras atitudes, no rotineiro de nossas vidas, contribuem significativamente para a nossa felicidade, nosso bem estar e consequentemente para a nossa saúde. Entre elas, destaca-se o corriqueiro pedido de ‘licença!’. Com o crescimento das cidades, os ambientes públicos tornaram-se repletos de pessoas agitadas, apressadas, intranquilas, e por consequência, ignorando quase totalmente a presença de outras pessoas em torno de si. Tomemos um supermercado, como exemplo. Preocupadas com as compras, a escolha dos produtos e a seleção de preços mais accessíveis, as pessoas são incapazes de dizer ‘com licença!’ ao passar num dos corredores semiobstruídos por outros compradores.

Nas portas de entrada e saída, pessoas têm o péssimo hábito de parar em conversas despreocupadas. Mesmo que nossa vontade seja a de passar por ali como um trator, nada nos custa pedir : ‘com licença!’. Da mesma forma, ao ter de atravessar por uma fila num banco ou em qualquer outro lugar, para passar para o outro lado, também um ‘com licença’ com certeza nos ajudará a aliviar a tensão do dia a dia.

E o que nos custa pedir desculpas, quando esbarramos em alguém, ou quando derrubamos algo que estava em suas mãos, num ônibus, num lugar qualquer? Esta é, aliás, uma das formas mais eficientes para desarmarmos a agressividade das pessoas que se sentem por demais incomodadas quando lhes esbarramos.

Poderia desfiar um longo rosário dessas pequenas, mas necessárias atitudes de cortesia, mas encerro com uma que pode ser considerada a mãe de todas as outras. Quando criança, aprendi a pedir a benção dos meus pais, tios e avós, sempre que os encontrava pela primeira vez no dia. Enquanto minha mãe esteve viva, eu já com mais de 70 anos de idade, nunca cheguei em sua casa sem lhe pedir a benção. O mesmo fiz com meus tios. E hoje tenho a doce saudade de ouvir o suave ‘Deus te abençoe!’ que tanto representava para mim.  Nos dias atuais, vejo filhos, netos, chegarem juntos dos seus pais, avós, e mal balbuciarem um ‘Oi’. E isso, quando o fazem...  Percebo que eles não têm a menor noção do significado e da plenitude do pedido de benção, independentemente de filiações religiosas.

Hoje todos têm pressa, mal enxergam os outros humanos em sua volta. Corpo e mente estão ocupados, apressados, superlotados de compromissos, a maioria totalmente inútil. Por isso mesmo esquecem-se da importância do ‘obrigado’, do ‘por favor’, do ‘com licença’ do ‘sua benção!’. E por isso mesmo, o mundo anda tão amargo, tão fútil, tão pragmático, deixando a vida sem sabor, sem alegria, até mesmo sem sentido. Resgatando as gentilezas que estão em extinção, quem sabe resgatamos também a satisfação de sermos realmente humanos?’


Fonte :


sábado, 8 de outubro de 2016

Gratidão : o agradecimento é a memória do coração

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O maior drama vivido por um ateu é não ter a Quem agradecer.
*Artigo de Padre Adroaldo Palaoro, Jesuíta


‘A tradição judaica transmite este ensinamento : Aquele que desfruta de um bem qualquer neste mundo sem dizer antes uma oração de gratidão ou uma benção, comete uma injustiça.

A ação de graças está no coração mesmo da liturgia e da oração cristãs. A sorte e a felicidade do cristão consistem em poder dar graças a Alguém. O maior drama vivido por um ateu é não ter a Quem agradecer.

A pessoa compreende que tudo é dom e graça de Deus e esquecer de agradecer é passar ao lado daquilo que constitui a beleza da vida. Agradecer é muito mais que dar graças. Implica reconhecimento e correspondência. Ali onde não há gratidão, o dom fica perdido (Bruno Forte).

Lucas situa o relato no caminho de subida a Jerusalém, no limite entre Galileia e Samaria, lugar chave de disputas religiosas. Os leprosos que saem ao encontro de Jesus e gritam de longe pedindo-lhe que os cure, são dez. Significativamente, a lepra não distingue entre judeus e gentios, galileus e samaritanos. Todos são irmãos na miséria.

No relato podemos identificar os mesmos componentes presentes em outras narrações semelhantes de curas : apresentação da situação de enfermidade (dez leprosos vieram ao seu encontro), petição de cura (Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!), intervenção de Jesus (Ide apresentar aos sacerdotes), cura (enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados) e reação diante do milagre.

É este último elemento que está mais desenvolvido na cena, e nele enfatiza-se o contraste da atitude de um dos leprosos (um samaritano que volta para agradecer a Jesus) com a dos outros nove. Na realidade, os outros nove leprosos curados não fazem senão cumprir as instruções de Jesus : ir e apresentar-se aos sacerdotes. Mas só um tem a suficiente finura espiritual para reconhecer profundamente o dom recebido e, deixando de lado as prescrições legais, dá primazia à expressão de agradecimento.

A gratidão parece apresentar-se aqui como um plus, como algo que deveria brotar com naturalidade nas relações humanas e na vida de fé, e não como uma atitude estatisticamente minoritária (um entre dez).

O samaritano sente que para ele começa uma vida nova; de agora em diante, tudo será diferente : poderá viver de maneira mais digna e ditosa. Sabe a quem ele deve isso. Precisa encontrar-se com Jesus.

Esta é a fé do samaritano que confia em Jesus, que crê no agradecimento mais que nas leis do sistema religioso. O agradecimento como atitude vital parece requerer, pois, uma especial sensibilidade espiritual, precisamente essa que encontramos nos santos e santas.

Caberia perguntar-nos quais são as razões que nos dificultam esta vivência da gratidão, quando esta deveria brotar de modo espontâneo e natural frente a tanto bem recebido.

No início de uma carta de Santo Inácio a um de seus primeiros companheiros, Simão Rodrigues, lemos isto : À luz da divina bondade me parece que, embora outros possam pensar de modo diferente, a ingratidão é o mais abominável dos pecados aos olhos de nosso Criador e Senhor, e de todas as criaturas capazes de aproveitar-se em sua divina e eterna glória. Já que é esquecimento das graças, bens e bençãos recebidas; e além disso aqui se encontra a causa e começo de todos os pecados e desgraças. Pelo contrário, a gratidão que reconhece as bênçãos e bens recebidos é estimada e amada não só na terra senão também no céu (18 de março – 1542).

Na vivência cristã, a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.

Elas adquirem a fina percepção de que tudo é Graça, tudo é de graça, são agraciadas, cheias de graça... Precisamente porque perceberam suas vidas como um presente, voltam-se para Deus, entregando-lhe tudo o que têm e possuem.

Marcada pela gratidão, a pessoa deseja sempre corresponder o melhor, rejeitando todo tipo de mediocridade na entrega e no serviço.

O agradecimento é uma atitude fundante e fecunda que possibilita viver o cotidiano com outro sabor, com outro ar. Do agradecimento brota um estado interior de consolação, de disponibilidade, de agilidade em dar resposta às demandas da vida, de uma sensibilidade mais viva para perceber tudo aquilo que a vida cotidiana tem de dom e sem ansiedade por não receber compensações ou recompensas.

O agradecimento é a experiência humana que mais ativa a generosidade como atitude vital de nossa existência de criaturas amadas e presenteadas por Deus.

O agradecimento como atitude básica na vida é a tomada de consciência daquilo que estamos recebendo, a acolhida dos bens que nos são dados e das pessoas que nos vêm ao encontro; é viver não tanto dependente daquilo que cremos que merecemos e não nos dão, quanto daquilo que, sem haver merecido, nem esperado, nem pedido, recebemos e continuamos recebendo no dia a dia.

Esse agradecer de fundo, esse viver agradecidamente não nos é favorecido pela cultura consumista que nos incita a estar sempre mais dependentes daquilo que não temos que daquilo que nos é dado com abundância; uma cultura que fomenta e aviva uma eterna insatisfação, matando a capacidade de recordar tantos benefícios recebidos pela criação, redenção e dons particulares (S. Inácio).

O que é que se encontra de graça? Onde? Quem pratica essa aventura da mão aberta, da largueza de coração? Há aqueles que não conhecem a palavra gratuito e, por isso, são petrificados frente à gratidão. São surdos e mudos para o muito obrigado.

A gratidão é alegria, a gratidão é amor. É por isso que ela se aproxima da caridade, que seria como uma gratidão sem causa, uma gratidão incondicional. Que virtude mais leve, mais luminosa, mais humilde, mais feliz!!! Gratidão = desfrutar a eternidade no cotidiano da vida.


Para meditar na oração :

É importante cuidar de nossa gratidão, mantê-la viva e ativa. Não é natural que percamos a memória, a consciência do muito que temos recebido e continuamos recebendo, como possibilidades de vida e de sentido, como dons e capacidades, como criatividade e sonhos...

Cabe a nós, como seguidores de Jesus, pensar e falar agradecidamente, ter gestos de gratuidade. Ser agradecido se aprende agradecendo e tudo se pacifica quando o gratuito marca nosso ser por inteiro. A vida nova vem da Vida recebida e partilhada; ela nos coloca acima do êxito e do fracasso, pois está no nível da gratuidade.

- Diante d’Aquele de quem tudo procede, faça memória de todos os dons recebidos, deixando brotar do seu coração uma atitude de contínua ação de graças.’


Fonte :


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Confrontar o programa de atividades de Jesus com a própria rotina de trabalho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

‘O Livro de Jó é uma preciosa meditação a respeito da condição humana nesta terra, permeada pela pergunta provocante a respeito do mistério do sofrimento. Uma das constatações feitas pelo personagem, em cujo lugar poderíamos estar todos nós, é a rapidez com que corre o tempo e a fragilidade do dia a dia. ‘Se me deito, penso : Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até o anoitecer. Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança’ (Jó 7, 4-6). O tempo nos escapa velozmente pelos dedos, pelo que deve ser valorizado e aproveitado adequadamente. Que remédio temos para a correria interna e externa na qual fomos mergulhados? Como dar valor permanente aos frágeis gestos e atitudes que preenchem nosso dia a dia? Como dar sentido novo às agendas de todo tipo que se multiplicam, com os alertas cotidianos para o compromisso que se segue?

Nosso Salvador, Jesus Cristo, entrou nas estruturas humanas e no ritmo de vida da Palestina de seu tempo. Percorreu estradas, lagos e montanhas, encontrou pessoas e se deparou com uma imensa diversidade de situações. Todos foram tocados pela sua presença e ninguém passou em vão ao seu lado. Seu amor redentor consola, reanima, impulsiona. Morto e Ressuscitado, continua presente na Igreja! Basta experimentar o silêncio eloquente do Sacrário. Quantas lágrimas, exclamações, sorrisos e gratidão são desfiados diante de nossos Tabernáculos! Mas vale abrir o Evangelho e verificar como, de forma muito prática, Jesus conseguia trabalhar tanto e estar sempre ‘inteiro’ diante das pessoas, fossem estas as mais pecadoras ou as mais simples, como fez com as crianças.

O Evangelista São Marcos descreve a jornada de Jesus (Cf. Mc 1, 29-39). Deixemos que seja nosso guia, ao acompanharmos o percurso feito pelo Senhor. Pela manhã, vai à Sinagoga, onde liberta um homem do demônio. Traz um ‘ensinamento novo, e com autoridade’. Em seguida, junto com Tiago e João, é hóspede na casa de Simão e André, onde se achava de cama, com febre, a sogra de Simão. Jesus não perde tempo! Aproxima-se, tomando-a pela mão, levantou-a, a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los. Certamente a convivência em torno da mesa terá sido recheada de alegria e gratidão, tempo gasto com os outros! Ao anoitecer, depois do pôr do sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que tinham demônios e a cidade inteira se ajuntou à porta da casa. Curava as pessoas e expulsava os demônios. De madrugada, ainda estava bem escuro, Jesus vai a um lugar deserto para rezar. Quando os discípulos o encontram, abre-lhes novos horizontes de missão, noutros lugares, pelas aldeias da redondeza, para proclamar a Boa Nova. Qualquer pessoa pode confrontar o programa de atividades de Jesus com a própria rotina de trabalho. Para reencontrar o equilíbrio necessário, superando a tentação de superficialidade oferecida pela correria, saibamos acolher as propostas do Senhor.

Faz bem estar radicalmente rompido com a maldade e com o pecado. Nenhuma concessão à corrupção à mentira e a iniquidade. Tal objetivo limpa a nossa vista ao começar cada dia, desintoxicando o relacionamento com o próximo. Mesmo quando não temos a missão de expulsar demônios formalmente, exorcizar é enfrentar corajosamente nossas conversões adiadas. Mas também prodigalizar ânimo e consolação, perdão, denúncia do mal. Nasce a alegria em quem se libertou do demônio! E o melhor exorcismo está na boca de quem sabe bendizer!

Na companhia de Jesus e sustentados pela sua graça, o dia não passe sem alguma iniciativa gratuita do bem, de forma especial pelos mais sofredores e marginalizados, como o Senhor fez com a Sogra de Simão. Viver para si envenena nosso coração e nosso tempo! Além disso, nossa conversão a Cristo exige disposição para gastar tempo com os outros. Talvez nossas refeições venham a demorar mais e ser mais humanas, para a elas acrescentar um pouco de conversa e convivência! Basta verificar o quanto nos sentimos bem nos encontros familiares mais longos, ou a refeição com amigos queridos. Não é desperdício de tempo!

O cair da tarde de Jesus foi magnífico, com uma fila de gente machucada pela vida e pelas enfermidades. Todos eram levados a ele e em todos ficava a marca de seu amor. Nossa vida tem também grandes chances de maior equilíbrio e sentido, se crescer nossa sensibilidade pelas necessidades alheias. Ampliar o horizonte para a sociedade e para as possibilidades que nos foram concedidas para fazer o bem! Aqui entram em cena os dons e carismas concedidos a cada cristão. Viver apenas para se enriquecer, ou a busca desenfreada do prazer e dos destaques na sociedade esvazia a alma. O Evangelho suscite em todos nós uma revisão do projeto de vida que orienta nossas opções!

De madrugada, podemos encontrar Jesus em oração! Sem o tempo para Deus, a escuta da Palavra do Senhor, o fecundo silencia, a abertura da alma para as alturas, não é possível ter uma vida equilibrada. Quem vive apenas da herança da formação cristã recebida em tenra idade, ou das orações feitas no passado, gasta depressa os presentes recebidos e se esvazia logo.

Enfim, Jesus nos faz olhar para as aldeias, cidades, metrópoles ou multidões que aguardam nosso zelo missionário. Cristão que se faz discípulo verdadeiro se transforma imediatamente em missionário! Abram-se os horizontes e cada pessoa descubra seu modo de servir no anúncio corajoso do Evangelho. Há muitos tesouros escondidos no coração das pessoas e que podem transformar-se em serviço ao Reino de Deus. Que ninguém se exclua do apelo que vem de Deus!

As respostas para os dilemas da correria ou do sofrimento humano não estão escritas num código de conduta, mas se encontram em alguém, Jesus Cristo! Quem se dispuser a segui-lo, encontrará o sadio equilíbrio para a vida e arregaçará as mangas para servir a Deus e ao próximo. Esta é a chave da realização. Mãos à obra!


Fonte :
* Artigo na íntegra de
http ://www.zenit.org/pt/articles/confrontar-o-programa-de-atividades-de-jesus-com-a-propria-rotina-de-trabalho



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O soco, os coelhos e os pretextos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Padre Antonio Grappone

‘Primeiro, o soco. O grupinho ‘pacifista e evangélico’ está escandalizado : ‘Nós sempre damos a outra face’, declaram. Talvez seja verdade.

Depois, a história dos coelhos. Os jovens que são pura tradição (mas será que sabem do que falam?), com a medalha de católicos perfeitos, estão feridos. Mas...

Estas reações demostram apenas ignorância, meus caros jovens. Será que nós lemos o que o papa disse? Tentamos entender? Ou só vimos as manchetes na internet, que, em muitos casos, são fuxicos miseráveis e nem um pouco inocentes de ‘ilustres’ jornalistas ou ‘autodenominados’ teólogos?

O papa Francisco ama a comunicação direta e não se preocupa em ser sutil, especialmente nas conversas informais. Mas ele sempre diz a verdade. Ele não se preocupa em equilibrar cada coisa que diz : ele é o papa, fala dentro de um contexto mais amplo, que é o Magistério da Igreja, e dentro do magistério pessoal, que, não custa lembrar, é o magistério petrino.

A jogada dos senhores da informação, dos vendedores de fumaça, é precisamente a de desacreditar o magistério, seja diante de quem se opõe a ele, seja diante de quem o apoia, embora vários apoiem o que lhes convém, deformando todo o sentido. Querem dividir a Igreja. ‘Divide et impera’, como de fato acontece. E não poucos (e bons) católicos se prestam a esse jogo. Não podemos continuar caindo na armadilha!

O papa Francisco conhece muito bem esses problemas e por isso escreveu a Evangelii gaudium, a exortação apostólica que contém as diretrizes do seu modo de agir e de todas as suas afirmações. É preciso estudá-la melhor! O papa quer evangelizar, chegar a todos, não pode usar sempre uma linguagem especializada e pomposa. Ele quer chamar a todos à conversão, começando por si mesmo.

Até os pais de muitos filhos, que o Santo Padre estima e encoraja, precisam ser chamados à conversão. Ter filhos, em si, não é garantia de nada : em muitas partes do mundo existe uma frequente irresponsabilidade com os filhos, gerados e abandonados a si mesmos e às ruas. O papa vem desses lugares, dessas situações.

E depois, meia dúzia de ocidentais que clamam o direito de insultar impunemente as religiões (ah, vejam que curioso, em particular a nossa!)... E, no mesmo país, se alguém afirma que o casamento é entre um homem e uma mulher, corre o risco de ir para a cadeia!

Mas a questão é outra. O papa é amado ‘independentemente’. É o sinal visível da unidade da Igreja. Ele é, na terra, a Cabeça do Corpo de Cristo entre os homens do nosso tempo. Nele a Igreja encontra unidade e é universal. Muitas confissões cristãs não têm o presente do papa e, sejamos claros, isso é algo que se faz notar. A comunidade desmorona, a Tradição se perde ou se mumifica, a Igreja se deteriora.

Santa Catarina, que é Doutora da Igreja, chamava os papas de ‘doce Cristo na terra’. E os papas do tempo dela foram Gregório XI e Urbano VI, ambos discutíveis e discutidos. Basta pensar que com o papa Urbano aconteceu um grave cisma. Catarina, porém, amou os dois, apoiou os dois. Se ela os chamou a honrar o seu dever, foi porque Cristo diretamente lhe deu esta ordem, que ela cumpriu de forma estritamente privada, pessoalmente ou por meio de cartas, que se tornaram públicas só depois da morte da santa e dos papas. Não eram artigos de jornal!

Diante de Pedro, mesmo que ele diga ou faça coisas que não nos agradam, só tem sentido o respeito e a gratidão. A menos que sejamos perfeitos alienados. Não é questão de ver quem tem razão, mas de considerar os papéis que Deus deu à Igreja.

Eu também, às vezes, demoro a entender o papa. Nesses casos, quando se trata de algo importante, escuto com mais atenção e leio melhor as declarações sobre o tema, porque não acho sensata a ideia de que eu tenha toda a verdade católica no bolso e o papa não.

No final das contas, estou sempre de acordo com o Santo Padre. Aprendi a compreender as preocupações dele, mesmo que inicialmente não fossem as minhas, e, assim, elas se tornaram minhas também. Além do mais, o papa é o papa. Demos graças a Deus por ele e rezemos por ele!


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/o-soco-os-coelhos-e-os-pretextos