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sábado, 2 de maio de 2015

Trágedias no Mediterrâneo : as pessoas atrás dos números

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

‘O drama dos imigrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa atinge níveis assustadores. Além da tragédia dos mortos, a Itália precisa cuidar dos sobreviventes, muitos deles doentes, outros menores de idade.

Rafael Belincanta e Bianca Fraccalvieri estiveram no Sul da Itália aonde ouviram o relato de alguns sobreviventes e de quem trabalha na acolhida de pessoas, não de números.

O mar está calmo. Madhi Isaac, porém, olha para o Mediterrâneo com perplexidade. Não acredita que sobreviveu à travessia.

Não é algo que um ser humano possa enfrentar. Estamos arriscando nossa vida. Estamos arriscando nossa vida’.

Madhi tem 40 anos. Saiu do Benin há 7 meses. Atravessou a pé e na boleia o Níger e o deserto até chegar a Trípoli, na Líbia.


A travessia

Eu paguei duas vezes. Paguei para que não me empurrassem (para fora do barco) e paguei a outro 1,4 mil dinares (cerca de mil euros) para vir de Trípoli até aqui. Fomos colocados num barco pequeno em Trípoli. Agradecemos a Deus. Quando entramos no barco, cristãos e muçulmanos, começamos a rezar para que chegássemos. Deus ouviu nossas preces : chegamos’.

A travessia da Líbia para a Itália demorou 15 horas. Madhi foi resgatado em alto mar junto com outros 60 imigrantes. Por que ele arriscou a vida?

Foi por causa do meu futuro que eu vim. Se eu tivesse um futuro no meu país eu não sairia de lá. Eu teria ficado no meu país para construir meu futuro. Mas no Benin não há futuro. Eu tive que encontrar uma solução fora do Benin, é por isso que eu vim’.

Outro sobrevivente, Gibrail Sowe, de 22 anos, do Gâmbia, também justifica a travessia mortal. ‘Não é fácil. A vida é colocada em risco. Tudo se resume à pobreza. Você não vai conseguir nada ficando lá’.

Madhi e Gibrail estão em um abrigo improvisado em um ginásio para onde os sobreviventes foram encaminhados. Eles sofreram com sarna e piolhos e não podem seguir viagem – seja lá para onde forem – até que estejam completamente curados.

Lá também está Nahom Aron, de 21 anos, da Eritreia. Depois de ser resgatado, ficou dois dias embarcado em um navio da marinha italiana. Durante a travessia, ficou a maior parte do tempo no porão do barco.

Faltava ar, era muito quente. Vomitaram em cima de mim, dentro das minhas roupas. É muito difícil recordar isso’.

Nahom sonha em ir para a Suíça, onde teria amigos e parentes. Quando perguntei como pagou, concretamente, os atravessadores, uma vez que havia dito que não tinha dinheiro, disse que se tratava de ‘blood money, black market’, e se afastou.


Menores

Em outro abrigo, meninos de 10, 11 anos jogam bola no pátio. Algo trivial se estes meninos não fossem sobreviventes dos recentes naufrágios no Mediterrâneo. A creche em Reggio Calábria, no sul da Itália, virou um centro de acolhimento de emergência somente para os menores imigrantes. Eles se negaram a ser identificados pela imigração. Por serem menores, têm assim mesmo a proteção do Estado italiano até completarem 18 anos. Mas também querem evitar serem registrados na Itália, já que muitos deles pretendem chegar em outros países da União Europeia.

O clima é de tensão. Um ônibus do Ministério da Imigração italiano aguarda do lado de fora : deveria seguir viagem com ao menos quarenta menores. Destino : centros de educação sociais na Itália. Muitos não aceitam, não querem que o grupo se separe. Evitam conversar comigo, escondem o rosto diante da máquina fotográfica. São mais de 150 menores, entre meninos e meninas, que, sem documentos, são apenas números. Números de uma suposta rede internacional de tráfico de pessoas que ninguém afirmou existir, mas que se faz perceber pelos 'olheiros' entre os menores.

A missionária italiana Lina Guzzo estava lá. Para ela, a presença destes ‘olheiros’ que controlam todos os passos dos menores é um sinal claro desta rede.

Para mim, deu a entender que eles têm domínio sobre os pequenos. Uma vez que eles estão fora, eu não sei o que vai acontecer destes pequenos. Ou eles se tornam como este aqui, opressores, ou eles acabam mortos, desaparecem’. 

Junto com Madhi, Gibrail, Mahon está o padre Bruno Mioli, 86 anos, que leva esperança aos imigrantes, concreta. Empresta o telefone celular, com consentimento da polícia, para que possam entrar em contato com parentes e amigos na Europa. O telefone é monitorado pela Interpol.

Padre Bruno levanta a voz contra Estrasburgo. Diz que a ajuda financeira à operação Triton veio tarde e diz que é preciso atacar o problema na raiz.

Certo que do outro lado estão os atravessadores que se sentem encorajados deste qualquer um que os recruta, quem será? Esta é a contradição que existe. O problema não está resolvido. E nós estamos vivendo nessa emergência de uma emergência’.’



Fonte :
* Artigo na íntegra de www.news.va/pt/news/tragedias-no-mediterraneo-as-pessoas-atras-dos-num

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Cáritas : as 400 pessoas afogadas no Mediterrâneo não eram descartáveis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

‘Após a trágica morte de 400 pessoas em águas do Mediterrâneo, durante uma tentativa de fuga rumo à Europa, a Cáritas espanhola expressou com ênfase ‘que não queremos nem podemos nos acostumar com estes fatos’. A organização eclesial também afirmou que ‘os dispositivos de busca e resgate são insuficientes’.

Não aceitamos que estes dramáticos acontecimentos sejam meras notícias que dão lugar às próximas. Nem que se limitem à publicação recorrente de imagens anônimas, de estatísticas ou de dados’.

Cada uma dessas 400 pessoas afogadas, entre as quais há menores de idade, muitos viajando sozinhos, tinha nome, família. Eram donos da sua própria história e dos seus sonhos. Eram seres humanos como nós, únicos e irrepetíveis. Como crentes, não podemos esquecer que eles eram irmãos e irmãs nossos’.

Nenhum dos falecidos tinha tomado livremente a decisão de embarcar para a Europa. Sabemos que a maioria fugia da guerra, das matanças, da irracionalidade dos conflitos que, quase como uma macabra salmodia, são veiculados diariamente pelos meios de comunicação’.

‘Não é por se repetir que perde valor diante desta tragédia a exortação do papa Francisco por ocasião da tragédia de Lampedusa : ‘Que não falte a ninguém o socorro necessário’. Mais uma vez, porém, temos de afirmar de maneira categórica que estas 400 mortes poderiam ter sido evitadas’, lamenta a Cáritas espanhola.

Todos sabemos, e os responsáveis da União Europeia também, que os dispositivos de busca e resgate estabelecidos, além de insuficientes, são a consequência de reajustes orçamentários. Quem terá a coragem de avaliar esta decisão? Qual está sendo o preço?’.

Ao mesmo tempo em que convidamos toda a comunidade eclesial e a sociedade em geral a se unir em oração por tantas vidas perdidas, expressamos a nossa dor, a nossa solidariedade e condolência às famílias. E fazemos um apelo para manter viva a sensibilidade, não deixar de padecer com todos esses homens, mulheres e crianças que assumem riscos porque querem simplesmente viver com dignidade e em liberdade’.

Por fim, a entidade católica recordou que, ‘se existe algo verdadeiramente alheio ao Evangelho, é a ‘cultura do descarte’, que impregna hoje a nossa sociedade. Estas 400 pessoas mortas no mar não eram descartáveis, mas seres humanos imprescindíveis para construir a sociedade justa e fraterna em que acreditamos’.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/caritas-as-400-pessoas-afogadas-no-mediterraneo-nao-eram-descartaveis