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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O Brasil das exclusões

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pessoas com deficiências são subjugadas socialmente.
*Artigo de Tânia da Silva Mayer
Mestra e Bacharela em Teologia

‘‘Por que bonita, se coxa?’ É assim que Brás Cubas, personagem de Memórias Póstumas, de Machado de Assis, define a personagem de Eugênia, filha de dona Eusébia, uma moça de família pela qual havia se encantado. A voz do povo compreendeu que a arte imita a vida, e não somente Brás Cubas incomodou-se com a deficiência motora que a Eugênia tinha. A sociedade, na qual Brás se situa, era, certamente, o fundamento e o berço da exclusão social das pessoas com deficiências. Mas isso não é uma particularidade na literatura e nem das épocas passadas, a nossa sociedade é, ainda hoje, segregadora e preconceituosa com aqueles e aquelas que fogem aos seus padrões e ideais de perfeição.

Não é preciso ter um olho muito clínico para perceber como as pessoas com deficiências são subjugadas socialmente, como pessoas inferiores com relação às outras, entendidas como ‘perfeitas’. E isso se dá de diversas maneiras, desde o olhar piedoso que esconde a ideia de que pessoas com deficiência são menos capazes, até a ausência de políticas sociais específicas que atendam as demandas desses grupos. Aliado a isso está o desrespeito e o menosprezo sofrido por essas pessoas, por causa das deficiências que portam. Vale ressaltar que as deficiências podem variar e assumir diferentes aspectos, de modo que algumas são as pessoas com deficiências físicas, com deficiências motoras, com deficiências mentais e psicológicas, entre outras. De um modo geral, o preconceito e a indiferença ocorrem a todos, aos homens e às mulheres.

Como era de se esperar, há pouquíssimo conhecimento e reconhecimento das potencialidades que as pessoas com deficiências possuem. Essas potencialidades podem ser percebidas no contato diário com elas, seja em casa, nos locais de trabalho ou em outro ambiente em que se devote tempo para o encontro do outro. Quem convive com pessoas que portam deficiências, sabe o quanto elas estão preparadas e dispostas para encarar a vida sempre por vir. Tão competentes e tão melhores profissionais as pessoas com deficiências o serão, basta que lhes sejam garantidos os direitos e as oportunidades. E não é óbvio, na sociedade em que vivemos, que essas pessoas alcançarão seus direitos e espaços para crescerem e se desenvolverem profissionalmente, por exemplo.

Em matéria de atletismo, as e os atletas paraolímpicos são nossos heróis, não somente porque estão aptos para praticarem esportes e competirem em modalidades extremamente difíceis para o corpo, mas, sobretudo, porque nos ensinam a constância e perseverança dos que buscam vencer. As e os atletas olímpicos também ensinam isso, mas eles não gozam da falta de reconhecimento por parte dos cidadãos e da mídia, que trata com diferença absurda dois eventos esportivos que poderiam despertar os desejos de superação e ir além, próprios de quem tem metas e objetivos a alcançar. A mídia brasileira é, salvas exceções, preconceituosa, mas não só. Ela é, também, machista, homofóbica, misógina, racista, eugenista e fascista, promovendo verdadeiros cultos a estereótipos padrões estabelecidos por grupos de poder.

Qualquer pessoa com o mínimo de leitura crítica saberá dizer, em maior ou menor grau, como a mídia age para incutir nas mentes os seus padrões de estética, veiculados pela imagem de corpos construídos ideologicamente sobre pilares de perfeição. A mídia, sobretudo no que se refere à cobertura dos jogos paraolímpicos, tem demonstrado seu descaso com delegações e atletas com deficiências, coisa que se verifica na cobertura fajuta e inexpressiva que tem feito dos atletas e dos jogos, bem como a canalhice de esconder a cerimônia de abertura do evento, não dando o lugar e o destaque devidos na programação aberta a esse importante momento para os países e para os seus atletas. Qualquer matemática é capaz de considerar que a cobertura dos jogos paraolímpicos não corresponde a 1% daquela que teve a Olimpíada. E por que dois pesos e duas medidas? Porque os ideais eugenistas de perfeição e limpeza não conseguem tolerar o fato de que pessoas com deficiências fazem coisas impensáveis e irrealizáveis para a maioria da população sem deficiências. Porque os grupos de poder não toleram a ideia de que grupos minoritários sejam ovacionados por suas grandiosas conquistas. Porque não é interesse que mais pessoas se sintam inspiradas e motivadas a ir além na tentativa obstinada de superar desafios e alcançar objetivos.

Nesse cenário de exclusão e preconceito, as cristãs e os cristãos são confrontados a agirem pautados na dinâmica evangélica de empenhar forças para promover a dignidade dos que a têm usurpada pelos poderosos, que controlam mentes e sociedades, infundindo seus padrões segregadores. Por isso, é urgente voltar às fontes do evangelho para ouvir e ver de Jesus sua práxis libertadora de restauração da dignidade das pessoas, que foi furtada pelas injustiças dos homens. Até que o Reino se plenifique, cabe a denúncia dos sistemas e dos esquemas que impedem as pessoas de serem aquilo que elas são : pessoas plenas.’


Fonte :


quarta-feira, 4 de maio de 2016

A China e os habitantes com deficiência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Missão Fen Xiang


‘Quando Wu Wen De, católico chinês, portador de deficiência, sacrificou a sua vida para defender uma menina de um ladrão, os católicos seus conterrâneos reconheceram nele um autêntico testemunho de fé : seguiu o exemplo de Jesus Cristo que deu a sua vida por amor ao próximo. E o seu gesto trouxe para a praça pública a situação das pessoas com deficiência na China. O episódio remonta a Maio de 2011. Na pequena cidade de Gaio Cheng, o grito desesperado por socorro de uma menina parecia não quebrar a rotina dos transeuntes, que passavam a pé ou de carro. Ninguém parou para ajudar a rapariga que resistia a um ladrão.

Wu Wen De, que limpava a chaminé de uma fábrica de ferro nas proximidades, ouviu os gritos e correu imediatamente para o lugar onde o roubo estava a acontecer. Apesar de ser portador de deficiência desde o nascimento, devido a poliomielite, não hesitou em enfrentar o ladrão. Este, porém, enfurecido, esfaqueou-o onze vezes e Wu Wen De morreu já no hospital.

No seu funeral, estava presente não só toda a comunidade católica, mas também outras pessoas da cidade, além de autoridades municipais e provinciais. Wu foi oficialmente louvado e nomeado «herói da justiça e da coragem».


A religião e as pessoas com deficiência

O Confucionismo vê o corpo como parte de uma cadeia que liga o indivíduo aos seus antepassados e que transmite aos seus descendentes. Nesta visão, algumas pessoas podem culpar faltas nas práticas médicas e superstições para um corpo deformado.

Nas tradições budistas, a deficiência é um castigo pelos pecados praticados numa vida anterior. A perfeição física do corpo de um Buda reflete a excelência do seu espírito.

A Igreja Católica na China tem uma longa história ao serviço do povo chinês. As estatísticas do Instituto Fé de Estudos Culturais até 2009 afirmam que a Igreja havia estabelecido 220 clínicas, 11 hospitais, 81 lares para idosos, 44 creches, 22 casas ou centros de reabilitação para os bebês deficientes e serviam as vítimas da doença de Hansen, bebês deficientes e abandonados.


As pessoas com deficiência

Antes de 1980, as pessoas portadoras de deficiência eram referidas em termos discriminatórios como «coitadinhos», «deficientes», «inúteis». Atualmente, a expressão can ji renpessoas portadoras de deficiência») é comumente utilizada pela população e em documentos oficiais.

Os dados disponíveis remontam a 1987, ao Primeiro Censo Nacional sobre Deficiência, e referiam existirem mais de sessenta milhões de chineses portadores de algum tipo de deficiência.

Seguiram-se algumas iniciativas legislativas e, como resultado do trabalho de organizações de apoio a deficientes, as condições de vida destas pessoas e as atitudes sociais em relação a elas têm melhorado. No entanto, continuam a ser um grupo vulnerável, encontrando dificuldades específicas numa sociedade orientada para a economia e o mercado.

Do ponto de vista jurídico, a China tem muitas leis destinadas a proteger as pessoas com deficiência. O artigo 45.º da Constituição estabelece que «todos os cidadãos têm o direito […] à assistência material do Estado e da sociedade, quando são velhos, doentes ou deficientes». E na Lei para a Proteção das Pessoas com Deficiência, de 1991, as questões como a educação, a reabilitação, a vida cultural, o bem-estar e o emprego são tratadas de forma minuciosa.


Mudanças

Os Jogos Paraolímpicos de Pequim de 2008 trouxeram uma mudança de atitude na forma como a sociedade vê as pessoas com deficiência na China. Um manual bem-intencionado lembrava aos voluntários para não olhar fixamente para os atletas, e que as pessoas portadoras de deficiência física eram «muitas vezes mentalmente saudáveis». Não obstante, enquanto isso, os mendigos – incluindo as pessoas com deficiência – foram retiradas das ruas durante os jogos para não manchar o rosto da capital. E, quando a febre olímpica acabou, a vida das pessoas com deficiência continuou o seu penoso caminho de marginalização.

O presidente, Xi Jinping, no Governo desde 2013, tem demonstrado a sua preocupação com a situação. Em Março de 2015, numa cerimônia realizada no Grande Salão do Povo, saudou de uma maneira particular as pessoas com deficiência do país e pediu maiores esforços para melhorar as suas vidas. Da mesma forma, a primeira-dama tem apelado para uma sociedade mais justa e tolerante para com as pessoas com deficiência.

No entanto, na vida real, ainda há um longo caminho a percorrer antes que essas leis e boas intenções sejam plenamente aplicadas, especialmente nas zonas rurais, onde as pessoas com deficiência sofrem mais. De acordo com funcionários de várias ONG, as pessoas com deficiência são mantidas longe da vista e encurraladas no medo, especialmente as crianças. Às vezes os adultos com deficiência são escravizados, como demonstrado quando dezenas de pessoas foram resgatadas de trabalho forçado em fábricas de tijolos na China Ocidental.

Igualdade de direitos e igualdade de oportunidades para a população com deficiência é um imperativo humano. As dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam quando procuram trabalho resultam, em parte, da sua falta de habilitações, por não terem podido frequentar o ensino. Para que as pessoas com deficiência sejam verdadeiramente integradas na sociedade chinesa, será necessário exigir um esforço concentrado tanto de pessoas com deficiência como sem deficiência.’

Números :

60 milhões : o número de chineses portadores de deficiência, segundo dados oficiais (5 % da população total)
20 milhões : deficiências de audição
11 milhões : deficiências intelectuais
8 milhões : deficiências físicas
8 milhões : deficiências psiquiátricas
11 milhões : deficiências várias


Fonte :
* Artigo na íntegra