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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bento XVI, Papa Emérito

‘Prosseguindo o nosso caminho entre os Padres da Igreja, verdadeiros astros que brilham de longe, falaremos sobre a figura de um Papa, que em 1754 foi proclamado por Bento XIV Doutor da Igreja : trata-se de São Leão Magno. Como indica o apelativo que depressa lhe fora atribuído pela tradição, ele foi verdadeiramente um dos maiores Pontífices que honraram a Sede romana, contribuindo muitíssimo para fortalecer a sua autoridade e prestígio. Primeiro Bispo de Roma com o nome de Leão, adotado depois por outros doze Sumos Pontífices, é também o primeiro Papa do qual chegou até nós a pregação, por ele dirigida ao povo que o circundava durante as celebrações. É espontâneo pensar nele também no contexto das atuais audiências gerais de quarta-feira, encontros que nos últimos decênios se tornaram para o Bispo de Roma uma forma habitual de encontro com os fiéis e com muitos peregrinos provenientes de tantas partes do mundo.

Leão era originário da Toscana. Tornou-se diácono da Igreja de Roma por volta do ano 430, e com o tempo adquiriu nela uma posição de grande realce. Este papel de relevo levou em 440 Gala Placídia, que naquele momento regia o Império do Ocidente, a enviá-lo para a Gália a fim de resolver uma situação difícil. Mas no Verão daquele ano o Papa Sisto III cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos de Santa Maria Maior faleceu, e na sucessão foi eleito precisamente Leão, que recebeu a notícia quando estava a desempenhar a sua missão de paz na Gália. Tendo regressado a Roma, o novo Papa foi consagrado a 29 de Setembro de 440. Tinha assim início o seu pontificado, que durou mais de 21 anos, e que foi sem dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Quando faleceu, a 10 de Novembro de 461, o Papa foi sepultado junto do túmulo de São Pedro. As suas relíquias estão conservadas ainda hoje num dos altares da Basílica Vaticana.

Os tempos nos quais viveu o Papa Leão eram muito difíceis : o repetir-se das invasões bárbaras, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial e uma longa crise social tinham imposto que o Bispo de Roma como teria acontecido com evidência ainda maior um século e meio mais tarde, durante o pontificado de Gregório Magno assumisse um papel de relevo também nas vicissitudes civis e políticas. Isto não deixou, obviamente, de aumentar a importância e o prestígio da Sé romana. Permaneceu célebre sobretudo um episódio da vida de Leão. Ele remonta a 452, quando o Papa em Mântua, juntamente com uma delegação romana, encontrou Átila, chefe dos Unos, e o dissuadiu de prosseguir a guerra de invasão com a qual já tinha devastado as regiões norte-orientais da Itália. E assim salvou o resto da Península. Este importante acontecimento tornou-se depressa memorável, e permanece como um sinal emblemático da ação de paz desempenhada pelo Pontífice. Infelizmente não foi de igual modo positivo, três anos mais tarde, o êxito de outra iniciativa papal, contudo sinal de uma coragem que ainda nos faz admirar : de facto, na Primavera de 455 Leão não conseguiu impedir que os Vândalos de Genserico, tendo chegado às portas de Roma, invadissem a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas. Contudo o gesto do Papa que, inerme e circundado pelo seu clero, foi ao encontro do invasor para implorar que se detivesse impediu pelo menos que Roma fosse incendiada e obteve que do terrível saque fossem poupadas as Basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou uma parte da população aterrorizada.

Conhecemos bem a ação do Papa Leão, graças aos belíssimos sermões deles estão conservados quase cem num latim maravilhoso e claro e graças às suas cartas, cerca de cento e cinquenta. Nestes textos o Pontífice manifesta-se em toda a sua grandeza, dirigido ao serviço da verdade na caridade, através de uma prática assídua da palavra, que o mostra ao mesmo tempo teólogo e pastor. Leão Magno, constantemente solícito pelos seus fiéis e pelo povo de Roma, mas também pela comunhão entre as diversas Igrejas e pelas suas necessidades, foi defensor e promotor incansável da primazia romana, propondo-se como herdeiro autêntico do apóstolo Pedro : disto se mostram bem conscientes os numerosos Bispos, em grande parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia.

Tendo sido realizado em 451, com os trezentos e cinquenta Bispos que nele participaram, este Concílio foi a mais importante assembleia até então celebrada na história da Igreja. Calcedônia representa a meta certa da cristologia dos três Concílios ecumênicos precedentes : o de Niceia de 325, o de Constantinopla de 381 e o de Éfeso de 431. Já no século VI estes quatro Concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram de facto comparados com os quatro Evangelhos : é quanto afirma Gregório Magno numa famosa carta (I, 24), na qual declara ‘acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho, os quatro Concílios’, porque sobre eles explica ainda Gregório ‘como sobre uma pedra quadrada se eleva a estrutura da santa fé’. O Concílio de Calcedônia ao recusar a heresia de Eutiques, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus afirmou a união na sua única Pessoa, sem confusão e sem separação, das duas naturezas humana e divina.

Esta fé em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem era confirmada pelo Papa num importante texto doutrinal dirigido ao Bispo de Constantinopla, o chamado Tomo a Flaviano, que, lido em Calcedônia, foi recebido pelos Bispos presentes com uma eloquente aclamação, da qual é conservada notícia nas atas do Concílio : ‘Pedro falou pela boca de Leão’, prorromperam em uníssono os Padres conciliares. Sobretudo desta intervenção, e de outras feitas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, sobressai com evidência como o Papa sentia com particular urgência as responsabilidades do Sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, porque ‘a um só apóstolo está confiado o que a todos os apóstolos é comunicado’, como afirma Leão num dos seus sermões para a festa dos santos Pedro e Paulo (83, 2). E o Pontífice soube exercer estas responsabilidades, no Ocidente e no Oriente, intervindo em diversas circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez através dos seus escritos e mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana fosse necessária então, como também hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.

Consciente do momento histórico no qual vivia e da transformação que se estava a verificar num período de profunda crise da Roma pagã para a cristã, Leão Magno soube estar próximo do povo e dos fiéis com a ação pastoral e com a pregação. Incentivou a caridade numa Roma provada pelas carestias, pela afluência dos prófugos, pelas injustiças e pela pobreza. Contrastou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueus. Relacionou a liturgia com a vida quotidiana dos cristãos : por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola sobretudo por ocasião das Quatro têmporas, que marcam no decorrer do ano a mudança das estações. Em particular Leão Magno ensinou aos seus fiéis e ainda hoje as suas palavras são válidas para nós que a liturgia cristã não é a recordação de acontecimentos do passado, mas a atualização de realidades invisíveis que agem na vida de cada um. É quanto ele ressalta num sermão (64, 1-2) a propósito da Páscoa, que deve ser celebrada em todos os tempos do ano ‘não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente’. Tudo isto se insere num projeto determinado, insiste o santo Pontífice : de facto, como o Criador animou com o seu sopro da vida racional o homem plasmado com o pó da terra, depois do pecado original, enviou o seu Filho ao mundo para restituir ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo com a vida nova da graça.

Eis o mistério cristológico para o qual São Leão Magno, com a sua carta ao Concílio de Éfeso, deu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos através desse Concílio quanto disse São Pedro em Cesareia de Filipe. Com Pedro e como Pedro confessou : ‘Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo’. E por isso Deus e Homem juntos, ‘não alheio ao gênero humano, mas contrário ao pecado’ (cf. Serm. 64). Em virtude desta fé cristológica ele foi um grande portador de paz e de amor. Mostra-nos assim o caminho : na fé aprendemos a caridade. Aprendemos portanto com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a realizar esta fé todos os dias na ação pela paz e no amor ao próximo.’

 (5 de março de 2008)

Fonte :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  

quinta-feira, 26 de junho de 2014

São Cirilo de Alexandria, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  * Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
  
‘Também hoje, continuando o nosso itinerário que está a seguir os passos dos Padres da Igreja, encontramos uma grande figura : São Cirilo de Alexandria. Ligado à controvérsia cristológica que levou ao Concílio de Éfeso em 431, e último representante de relevo da tradição alexandrina, no Oriente grego Cirilo foi mais tarde definido ‘guardião da exactidão’ que se deve entender como guardião da verdadeira fé e mesmo ‘selo dos Padres’. Estas antigas expressões manifestam oportunamente um dado de facto que é característico de Cirilo, ou seja, a referência constante do Bispo de Alexandria aos autores eclesiásticos precedentes (entre eles, sobretudo Atanálio), com a finalidade de mostrar a continuidade da própria teologia com a tradição. Ele insere-se intencional e explicitamente na tradição da Igreja, em que reconhece a garantia da continuidade com os Apóstolos e com o próprio Cristo. Venerado como Santo quer no Oriente quer no Ocidente, em 1882 São Cirilo foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Leão XIII, que atribuiu contemporaneamente o mesmo título também a outro importante representante da patrística grega, São Cirilo de Jerusalém. Revelam-se assim a atenção e o amor pelas tradições cristãs orientais daquele Papa, que em seguida desejou proclamar Doutor da Igreja também São João Damasceno, mostrando deste modo que tanto a tradição oriental como a ocidental exprimem a doutrina da única Igreja de Cristo.

As notícias sobre a vida de Cirilo antes da sua eleição para a importante sede de Alexandria são muito escassas. Sobrinho de Teófilo, que desde 385 como Bispo administrou com mão firme e com prestígio a diocese alexandrina, Cirilo nasceu provavelmente na mesma metrópole egípcia entre 370 e 380, foi depressa iniciado na vida eclesiástica e recebeu uma boa educação, tanto cultural como teológica. Em 403 estava em Constantinopla, no séquito do poderoso tio, e ali participou no Sínodo chamado do Carvalho, que depôs o Bispo da cidade, João (mais tarde chamado Crisóstomo), assinalando assim o triunfo da sede alexandrina sobre a tradicionalmente rival de Constantinopla, onde residia o imperador. Quando o tio Teófilo faleceu, em 412 o jovem Cirilo foi eleito Bispo da influente Igreja de Alexandria, que governou com grande energia durante trinta e dois anos, visando sempre afirmar o seu primado em todo o Oriente, fortalecido inclusive pelos tradicionais vínculos com Roma.

Dois ou três anos depois, em 417 ou em 418, o Bispo de Alexandria demonstrou-se realista ao recompor a ruptura da comunhão com Constantinopla, que já estava em acto desde 406, como consequência da deposição de João Crisóstomo. Mas o antigo contraste com a sede constantinopolitana voltou a inflamar-se cerca de dez anos mais tarde, quando em 428 foi eleito Nestório, um autorizado e severo monge de formação antioquena. Com efeito, o novo Bispo de Constantinopla depressa suscitou oposições porque na sua pregação preferia para Maria o título de ‘Mãe de Cristo’ (Christolókos), no lugar daquele já muito querido à devoção popular de ‘Mãe de Deus’ (Theotókos). Motivo desta escolha do Bispo Nestório era a sua adesão à cristologia de tipo antioqueno que, para salvaguardar a importância da humanidade de Cristo, terminava por afirmar a sua divisão da divindade. E assim já não era verdadeira a união entre Deus e o homem em Cristo e, naturalmente, já não se podia falar de ‘Mãe de Deus’.

A reacção de Cirilo, então máximo representante da cristologia alexandrina, que aliás tencionava sublinhar fortemente a unidade da pessoa de Cristo foi quase imediata, e desenfreou-se com todos os meios já a partir de 429, dirigindo-se também com algumas cartas ao próprio Nestório. Na segunda missiva (PG 77, 44-49), que Cirilo lhe enviou em Fevereiro de 430, lemos uma clara afirmação do dever dos Pastores de preservar a fé do Povo de Deus. Este era o seu critério, de resto válido também hoje : a fé do Povo de Deus é expressão da tradição, é garantia da sã doutrina. Assim ele escreve a Nestório : ‘É preciso expor ao povo o ensinamento e a interpretação da fé do modo mais irrepreensível, recordando que quem escandaliza um só dos pequeninos que crêem em Cristo há-de padecer um castigo intolerável’.

Na mesma carta a Nestório carta que mais tarde, em 451, fora aprovada pelo Concílio de Calcedónia, o IV ecuménico Cirilo descreve com clareza a sua fé cristológica : ‘Afirmamos, assim, que são diferentes as naturezas que se reuniram numa verdadeira unidade, mas de ambas derivou um único Cristo e Filho, não por ter sido eliminada por causa da unidade a diferença das naturezas, mas sobretudo porque a divindade e a humanidade, reunidas em união indizível e inenarrável produziram para nós o único Senhor, Cristo e Filho’. E isto é importante : realmente a verdadeira humanidade e a autêntica divindade unem-se numa única Pessoa, nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, continua o Bispo de Alexandria, ‘professaremos um só Cristo e Senhor, não no sentido que adoramos o homem juntamente com o Logos, para não insinuar a ideia da separação, ao dizer ‘juntamente’, mas no sentido que adoramos um só e o mesmo, porque não é estranho ao Logos o seu corpo, com o qual está também sentado ao lado do seu Pai, não como se sentassem ao seu lado dois filhos, mas um só, único à própria carne’.

E depressa o Bispo de Alexandria, graças a alianças prudentes, obteve que Nestório fosse reiteradamente condenado : por parte da sé romana, e depois com uma série de doze anatematismos por ele mesmo compostos e, enfim, pelo Concílio realizado em Éfeso no ano 431, o III ecuménico. A assembleia, reunida com vicissitudes alternadas e tumultuosas, concluiu-se com o triunfo da devoção a Mariae com o exílio do Bispo constantinopolitano, que não queria reconhecer à Virgem o título de ‘Mãe de Deus’ por causa de uma cristologia errónea, que trazia divisão ao próprio Cristo. Assim, depois de ter prevalecido sobre o rival e sobre a sua doutrina, Cirilo soube porém alcançar, já em 433, uma fórmula teológica de compromisso e de reconciliação com os antioquenos. E também isto é significativo : por um lado, há a clareza da doutrina de fé, mas por outro também a busca intensa da unidade e da reconciliação. Nos anos seguintes, dedicou-se de todos os modos à defesa e ao esclarecimento da sua posição teológica até à sua morte, ocorrida no dia 27 de Junho de 444.

Os escritos de Cirilo deveras muito numerosos e difundidos amplamente também em diversas traduções latinas e orientais já durante a sua vida, como testemunho do seu sucesso imediato são de importância primordial para a história do cristianismo. São importantes os seus comentários a muitos livros do Antigo e do Novo Testamento, entre os quais todo o Pentateuco, Isaías, os Salmos e os Evangelhos de João e de Lucas. São também relevantes as numerosas obras doutrinais, em que é recorrente a defesa da fé trinitária contra as teses arianas e contra as teses de Nestório. Base do ensinamento de Cirilo são a tradição eclesiástica e, em particular como já mencionei os escritos de Atanásio, o seu grande predecessor na sede alexandrina. Entre os outros escritos de Cirilo, devem recordar-se finalmente os livros Contra Juliano, a última grande resposta às polémicas anticristãs, ditada pelo Bispo de Alexandria provavelmente nos últimos anos da sua vida para responder à obra Contra os Galileus, composta muitos anos antes, no ano 363, pelo imperador que era chamado o Apóstata por ter abandonado o cristianismo em que tinha sido educado.

A fé cristã é sobretudo um encontro com Jesus, ‘uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte’ (Encíclica Deus caritas est, 1). De Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, São Cirilo de Alexandria foi uma testemunha incansável e determinada, sublinhando acima de tudo a sua unidade, como ele reitera no ano 433 na primeira carta (PG 77, 228-237) ao Bispo Sucenso : ‘Um só é o Filho, um só é o Senhor Jesus Cristo, tanto antes como depois da encarnação. Com efeito, não era um Filho o Logos nascido de Deus Pai, e outro o Filho nascido da Santa Virgem; mas acreditamos que precisamente Aquele que existe antes dos tempos nasceu também segundo a carne de uma mulher’. Esta afirmação, para além do seu significado doutrinal, mostra que a fé em Jesus Logos nascido do Pai está também bem arraigada na história porque, como aifrma São Cirilo, este mesmo Jesus entrou no tempo com o nascimento de Maria, a Theotókos e, em conformidade com a sua promessa, há-de ficar connosco para sempre. E isto é importante : Deus é eterno, nasceu de uma mulher e permanece connosco todos os dias. Vivamos nesta confiança, e nesta confiança encontremos o caminho da nossa vida.’

 (outubro de 2007)

Fonte :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  


sexta-feira, 4 de abril de 2014

São Leão Magno e a fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano),
reflete sobre a quarta pregação da quaresma de 2014


1. Oriente e ocidente unânimes sobre Cristo

Existem vários caminhos, ou métodos, para aproximar-se à pessoa de Jesus. Pode-se, por exemplo, partir diretamente da Bíblia e, também neste caso, é possível seguir várias vias : a via tipológica, seguida na mais antiga catequese da Igreja, que explica Jesus à luz das profecias e das figuras do Antigo Testamento; a via histórica, que reconstrói o desenvolvimento da fé em Cristo a partir das várias tradições, autores e títulos cristológicos, ou dos diversos ambientes culturais do Novo Testamento. Pode-se, pelo contrário, partir das perguntas e dos problemas do homem de hoje, ou até mesmo da própria experiência de Cristo, e, de tudo isso, chegar à Bíblia. Todos esses são caminhos amplamente explorados.

A Tradição da Igreja elaborou, bem rápido, uma via de acesso ao mistério de Cristo, um modo seu de recolher e organizar os dados bíblicos relativos a ele, e esta via se chama o dogma cristológico, a via dogmática. Por dogma cristológico compreendo as verdades fundamentais sobre Cristo, definidos nos primeiros concílios ecumênicos, especialmente o de Calcedônia, que, em substância, se resumem nesses três pilares : Jesus Cristo é verdadeiro homem, é verdadeiro Deus, é uma só pessoa.

São Leão Magno é o Padre que eu escolhi para introduzir-nos nas profundidades deste mistério. Por um motivo bem específico. Na teologia latina estava pronta por dois séculos e meio a fórmula da fé em Cristo que se tornara o dogma de Calcedônia. Tertuliano tinha escrito : ‘Vemos duas naturezas, não confusas, mas unidas em uma pessoa, Jesus Cristo, Deus e homem (1)’. Depois de muita pesquisa, os autores gregos chegam, por conta própria, a uma formulação idêntica em substância; mas não porque eles tenham se atrasado ou perdido tempo, e sim porque só agora era possível dar àquela fórmula o seu verdadeiro significado, tendo eles evidenciado, enquanto isso, todas as implicações e resolvido as dificuldades.

O Papa São Leão Magno é aquele que gerenciou o momento em que as duas correntes do rio – aquela latina e aquela grega – se uniram e com a sua autoridade de bispo de Roma favoreceu o acolhimento universal. Ele não se contenta em simplesmente transmitir a fórmula herdada por Tertuliano e retomada por Agostinho, mas a adapta aos problemas que apareceram nesse ínterim, entre o concílio de Éfeso do 431 e aquele de Calcedônia do 451. Eis, em grandes linhas, o seu pensamento cristológico, como foi exposto no famoso Tomus ad Flavianum (2).

Primeiro ponto : a pessoa do Deus-homem é idêntica à do Verbo eterno : ‘Aquele que se fez homem, sob a forma de servo, é o mesmo que na forma de Deus criou o homem’. Segundo ponto : a natureza divina e a humana coexistem nesta única pessoa que é Cristo, sem mistura ou confusão, mas cada uma mantendo suas propriedades naturais (salva proprietate utriusque naturae). Ele começa a ser o que não era, sem cessar de ser o que era (3). A obra da redenção exigia que ‘o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, tivesse que ser capaz de morrer em relação à natureza humana e não morrer com respeito à natureza divina’. Terceiro ponto : A unidade da pessoa justifica o uso da comunicação dos idiomas, pela qual podemos afirmar que o Filho de Deus foi crucificado e enterrado, e também que o Filho do homem veio do céu.

Foi uma tentativa, em grande parte bem sucedida, de finalmente encontrar um acordo entre as duas grandes ‘escolas’ de teologia grega, a de Alexandria e a de Antioquia, evitando os respectivos erros que eram o monofisismo e o nestorianismo. Os antioquenos tinham o reconhecimento, para eles vitais, das duas naturezas de Cristo, e portanto, da plena humanidade de Cristo; os alexandrinos, apesar de algumas reservas e resistências, podiam encontrar na formulação de Leão o reconhecimento da identidade da pessoa do Verbo encarnado e aquela do Verbo eterno, que estava nos seus corações por acima de tudo.

Basta recordar o cerne da definição de Calcedônia para dar-se conta do quanto esteja presente nela o pensamento do Papa Leão :

Ensinamos por unanimidade que deve-se reconhecer o único e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e sempre o mesmo perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (...), gerado antes dos séculos pelo Pai segundo a divindade e nos últimos tempos, por nós homens e para a nossa salvação, gerado por Maria Virgem segundo a humanidade; subsistente nas duas naturezas de modo inconfuso, imutável, indivisível, inseparável, não sendo de forma alguma suprimida a diferença das naturezas por causa da união, pelo contrário, permanecendo preservada a propriedade tanto de uma quanto da outra natureza, elas combinam para formar uma só pessoa e hipóstase (4)’.

Poderia parecer uma fórmula tecnicamente perfeita, mas árida e abstrata, porém, nela se baseia toda a doutrina cristã da salvação. Só se Cristo é homem como nós, o que ele faz, nos representa e nos pertence, e somente se ele também é Deus, aquilo que faz tem um valor infinito e universal, a tal ponto que, como se canta no Adoro te devote, ‘uma única gota de sangue derramado salva o mundo todo do pecado’ (‘Cuius una stilla salvum facere totum mundum qui ab omni scelere’)

Sobre este ponto, oriente e ocidente, são unânimes. Esta era a situação da humanidade antes de Cristo, escrevem, com poucas diferenças entre eles, santo Anselmo entre os latinos e o Cabasilas entre os ortodoxos. De um lado estava o homem que tinha contraído a dívida pecando e que tinha que lutar contra satanás para livrar-se, mas não podia fazê-lo, sendo a dívida infinita e sendo ele escravo daquele que deveria ter vencido; por outro lado está Deus que podia expiar o pecado e vencer o demônio, mas não deveria fazê-lo, não sendo ele o devedor. Era preciso que se encontrassem unidos na mesma pessoa aquele que devia lutar e aquele que podia vencer, e é aquilo que aconteceu com Jesus, ‘verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em uma pessoa (5)’.


2. Jesus da história e o Cristo do dogma novamente unidos

Estas tranquilas certezas sobre Cristo, nos últimos dois séculos, foram atingidas por um ciclone crítico que tendia a tirar-lhes toda a consistência e a qualificá-las como puras invenções dos teólogos. A partir de Strauss, tornou-se uma espécie de grito de guerra entre os estudiosos do Novo Testamento : libertar a figura de Cristo dos grilhões do dogma, para reencontrar o Jesus histórico, o único real. ‘A ilusão de que Jesus possa ter sido homem no sentido pleno e que como única pessoa seja superior à toda a humanidade é a cadeia que ainda fecha a porta da teologia cristã ao mar aberto da ciência racional (6)’. E eis a conclusão à qual o estudioso chega : ‘A ideia do Cristo do dogma por um lado e o Jesus de Nazaré da história por outro estão separados para sempre’.

Declara-se sem hesitação o pressuposto racionalista desta tese. O Cristo do dogma não satisfaz as exigências da ciência racional. O ataque continuou, com soluções alternativas, quase até os nossos dias. Tornou-se ele mesmo, a seu modo, um dogma : para conhecer o verdadeiro Jesus da história é preciso prescindir da fé nele posterior à Páscoa. Neste clima proliferaram reconstruções fantasiosas da figura de Jesus a benefício do espetáculo, algumas com pretensões de historicidade, mas que na verdade se baseavam em hipóteses de hipóteses, todas respondendo a gostos ou reivindicações do momento.

Mas agora, eu acho, chegamos ao fim da parábola. É hora de tomar nota da mudança que aconteceu neste setor, a fim de sair de uma certa atitude defensiva e de vergonha que tem caracterizado os estudiosos crentes nos últimos anos, e ainda mais para fazer chegar uma mensagem a todos aqueles que nestes anos divulgaram profusamente imagens de Jesus ditadas por aquele anti-dogma. E a mensagem é que não é possível mais escrever na boa-fé ‘Investigações sobre Jesus’ que fingem ser ‘históricas’, mas prescindem, ou melhor, excluem desde o início, a fé nele.

Quem personaliza de modo mais claro a mudança em ato é um dos maiores estudiosos vivos do NT, o inglês James D.G. Dunn. Ele resumiu em um pequeno livro, intitulado ‘Mudar perspectivas sobre Jesus’, os resultados da sua monumental pesquisa sobre as origens do cristianismo (7). O autor pôs a descoberto as raízes dos dois pressupostos em que se baseiam a contraposição entre Jesus histórico e o Cristo da fé : primeiro, que para conhecer o Jesus da história é necessário prescindir da fé pós-pascal; segundo, que para conhecer o que realmente disse e fez o Jesus histórico, é preciso libertar a tradição das camadas e das adições posteriores e voltar para a camada original, ou à primeira ‘redação’, de uma determinada perícope evangélica.

Contra o primeiro pressuposto, Dunn demonstra que a fé começou antes da Páscoa; se alguns o seguiram e se tornaram seus discípulos é porque tinham acreditado nele. Trata-se de uma fé ainda imperfeita, mas de fé. Nesta fé, o evento pascal marcará certamente um salto de qualidade, mas saltos de qualidade, embora menos importantes, já tinham acontecido antes da Páscoa, em momentos particulares, como a transfiguração, certos milagres sensacionais, o diálogo de Cesaréia de Filipe. A Páscoa não é um início absoluto.

Contra o outro assunto, Dunn demonstra como, embora admitindo que as tradições evangélicas circularam por um certo tempo de forma oral, os estudiosos aplicavam sempre a tal tradição o modelo literário, como se faz hoje quando se quer voltar, de edição em edição, ao texto original de uma obra. Se levarmos em conta as leis que regularizam - até no presente, em certas culturas -, a transmissão oral das tradições de uma comunidade, veremos que não há necessidade de enxugar um dito evangélico, em busca de um hipotético núcleo originário, uma operação que abriu as portas a todo tipo de manipulação dos textos evangélicos, acabando por repetir aquilo que acontece quando se descasca uma cebola em busca do seu núcleo sólido que não existe. Algumas destas conclusões são aquelas que os estudiosos católicos desde sempre sustentaram (8), mas Dunn tem o mérito de tê-las defendido com argumentos dificilmente refutáveis a partir da mesma pesquisa histórico-crítica e com as suas próprias armas.

O rabino americano J. Neusner, com o qual Bento XVI estabelece um diálogo em seu primeiro livro sobre Jesus de Nazaré, dá por suposto este resultado. Partindo de um ponto de vista autônomo e por assim dizer neutro, ele faz notar como é vã a tentativa de separar o Jesus histórico do Cristo da fé pós-pascal. O Jesus histórico, o dos Evangelhos, por exemplo do discurso da montanha, é já um Jesus que exige a fé na sua pessoa como alguém que pode corrigir Moisés, que é senhor do sábado, pelo qual também pode-se fazer uma exceção ao quarto mandamento; em suma como alguém que se coloca em pé de igualdade com Deus. É próprio por isso, diz o rabino, que embora fascinado pela figura de Jesus, ele não poderá mais ser um dos seus discípulos.

O estudo sobre o NT termina aqui; chega a provar a continuidade entre o Jesus da história e o Cristo do querigma, não vai mais longe. Resta provar a continuidade entre o Cristo do querigma e o do dogma da Igreja. A fórmula de Leão Magno e de Calcedônia marca um desenvolvimento coerente da fé do Novo Testamento, ou representa, pelo contrário, uma ruptura com relação a ela? Este foi o meu principal interesse nos anos em que eu me ocupava de História das origens do cristianismo e a conclusão a que cheguei não difere daquela do Cardeal Newman, em seu famoso ensaio ‘Sobre o desenvolvimento da doutrina cristã (9)’. Houve certamente a mudança de uma cristologia funcional (o que Cristo ‘faz’) a uma cristologia ontológica (o que Cristo ‘é’), mas não se trata de uma ruptura porque o mesmo processo se dá já no interior do querigma, por exemplo, na passagem da cristologia de Paulo àquela de João, e em Paulo mesmo, na passagem das suas primeiras cartas àquelas da prisão, Filipenses e Colossenses.


3. Além da fórmula

Desta vez o próprio argumento exigia fixar-se um pouco mais na parte doutrinal do tema. A pessoa de Cristo é o fundamento de todo o cristianismo. ‘Se a trombeta emite um som incerto, quem se preparará para a batalha?’, dizia São Paulo (1 Cor 14, 8) : se não tem ideia clara sobre quem é Jesus Cristo, que força terá a nossa evangelização? Nos resta, no entanto, fazer agora uma aplicação prática para a vida pessoal e a fé atual da Igreja, que é o objetivo constante da nossa revisão dos Padres.

Quatro séculos e meio de formidável trabalho teológico deram à Igreja a fórmula : ‘Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Jesus Cristo é uma só pessoa’. Mais sinteticamente ainda : ele é ‘uma pessoa em duas naturezas’. A esta fórmula se aplica perfeitamente o dito de Kiekegaard : ‘A terminologia dogmática da Igreja primitiva é como um castelo encantado, onde descansam em um sono profundo os mais graciosos príncipes e princesas. Basta somente acordá-los, para que se coloquem de pé em toda a sua glória (10)’. A nossa tarefa é, portanto, a de despertar e de dar sempre nova vida aos dogmas.

A investigação sobre os Evangelhos – mesmo aquela que lembramos agora de Dunn – nos mostra que a história não nos pode levar ao ‘Jesus em si’, ao Cristo como é na realidade. O que alcançamos nos evangelhos é sempre, em todas as fases, um Jesus ‘lembrado’, mediado pela memória que dele conservaram os discípulos, embora se uma memória crente. É como a ressurreição. ‘Alguns dos nossos - dizem os dois discípulos de Emaús - foram ao túmulo e encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não o viram’ (Lc 24, 24). A história pode constatar que as coisas, com relação a Jesus de Nazaré, estão como disseram os discípulos nos evangelhos, mas ele não o vê.

O mesmo acontece com o dogma. Ele pode levar-nos a um Jesus ‘definitivo’, ‘formulado’, mas Tomás de Aquino nos ensina que ‘a fé não termina com os enunciados (enuntiabile), mas na realidade (res)’. Entre a fórmula de Calcedônia e o Jesus real existe a mesma diferença que há entre a fórmula química H2O e a água que bebemos ou na qual nadamos. Ninguém pode dizer que a fórmula H2O é inútil ou que não descreve perfeitamente a realidade; somente não é a realidade! Quem nos poderá levar ao Jesus ‘real’ que está além da história e por trás da definição?

E eis que nos deparamos com a grande notícia reconfortante. Existe a possibilidade de um conhecimento ‘imediato’ de Cristo : é aquele que nos dá o Espírito Santo enviado por ele mesmo. Ele é a única ‘mediação não-mediata’ entre nós e Jesus, no sentido que não age como um véu, não constitui um diafragma ou um trâmite, sendo ele o Espírito de Jesus, o seu ‘alter ego’, da sua mesma natureza. Santo Irineu chega a dizer que ‘o Espírito Santo é a nossa mesma comunhão com Cristo (11)’. E nisso, aquela do Espírito é diferente de qualquer outra mediação entre nós e o Ressuscitado, seja eclesial que sacramental.

Mas é a Escritura mesma que nos fala deste papel do Espírito Santo com o propósito do conhecimento do verdadeiro Jesus. A vinda do Espírito Santo em Pentecostes se traduz em uma repentina iluminação de todo o trabalho e a pessoa de Cristo. Pedro conclui o seu discurso com aquela espécie de definição ‘urbi et orbi’ do senhorio de Cristo : ‘Saiba, portanto, com certeza toda a casa de Israel que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele Jesus que vós crucificastes’ (At 2, 36).

São Paulo afirma que Jesus Cristo é revelado ‘Filho de Deus com poder pelo Espírito de santidade’ (Rm 1, 4), isto é, por obra do Espírito Santo. Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, a não ser por uma iluminação interior do Espírito Santo (cf. 1 Cor 12, 3). O Apóstolo atribui ao Espírito Santo ‘a compreensão do mistério de Cristo’, que foi dada a ele, como a todos os santos apóstolos e profetas (cf. Ef 3, 4-5). Só se forem ‘fortalecidos pelo Espírito’, - continua o Apóstolo – os crentes poderão ‘compreender a largura e o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento’ (Ef 3, 16-19).

No Evangelho de João, o próprio Jesus anuncia esta obra do Paráclito com relação a ele. Ele tomará do que é seu e o anunciará aos discípulos; recordar-lhes-á tudo o que ele disse; os conduzirá à toda verdade sobre a sua relação com o Pai; lhes dará testemunho. Exatamente isso será, de agora em diante, o critério para reconhecer se se trata do verdadeiro Espírito de Deus e não de um outro espírito : se leva a reconhecer Jesus vindo na carne (cf. 1 Jo 4, 2-3).


4. Jesus de Nazaré, uma ‘pessoa

Com a ajuda do Espírito Santo, façamos então uma pequena tentativa de ‘acordar’ o dogma. Do triângulo dogmático de Leão Magno e de Calcedônia – ‘verdadeiro Deus’, ‘verdadeiro homem’, ‘uma pessoa’ – nos limitamos a tomar em consideração somente o último elemento : Cristo ‘uma pessoa’. As definições dogmáticas são ‘estruturas abertas’, capazes de acomodar novos significados, o que é possível graças ao progresso do pensamento humano. Na sua etapa mais antiga, pessoa (do latim personare, ressoar) indicava a máscara que o ator precisava para fazer ressoar a sua voz no teatro; disso passou a indicar rosto, portanto, indivíduo, até chegar ao seu significado mais elevado de ‘ser individual de natureza racional’ (Boécio).

No uso moderno, o conceito se enriqueceu de um significado mais subjetivo e relacional, favorecido sem dúvida pelo uso trinitário de pessoa como ‘relação subsistente’. Indica, portanto, o ser humano em quanto capaz de relação, de estar como um eu diante de um tu. Nisso a fórmula latina ‘uma pessoa’ revelou-se mais fecunda do que aquela respectiva grega de ‘uma hispóstase’. Hipóstase se pode dizer de cada objeto particular existente; pessoa, somente do ser humano e, por analogia, do ser divino. Nós falamos hoje (e também os gregos falam) de ‘dignidade da pessoa’, não de dignidade da hipóstase.

Aplicamos tudo isso ao nosso relacionamento com Cristo. Dizer que Jesus é ‘uma pessoa’ significa também dizer que ressuscitou, que vive, que está diante de mim, que posso tratar-lhe por tu como ele me trata por tu. É necessário passar constantemente, no nosso coração e na nossa mente, do Jesus personagem ao Jesus pessoa. A personagem é alguém de quem se pode falar e escrever o que quiser, mas a quem e com quem, no geral, não se pode falar. Jesus, infelizmente, para a maioria dos crentes é ainda um personagem, alguém de quem se discute, se escreve muito, uma memória do passado, um conjunto de doutrinas, de dogmas ou de heresias. É um ente, mais do que um existente.

O filósofo Sartre, em uma página famosa, descreveu a emoção metafísica que produz a súbita descoberta da existência das coisas e pelo menos nisto podemos dar-lhe crédito :

Eu estava no Jardim Público. A raiz da castanheira entrava na terra, exatamente sob o meu banco. Eu não me lembrava que era uma raiz. As palavras se desvaneceram e, com elas, a significação das coisas, a maneira de empregá-las, as frágeis referências que os homens tinham traçado na sua superfície. ( ...)E depois tive aquela iluminação. Fiquei sem respiração. (...)geralmente a existência esconde-se. Está presente à nossa volta; não se podem dizer duas palavras sem falar dela, e afinal não lhe tocamos (...)E depois sucedeu aquilo : de repente, ali estava, ali estava, era claro como a água : a existência dera-se subitamente a conhecer ( 12)’.

Para ir além das ideias e palavras de Jesus e entrar em contato com ele, pessoa que vive, é necessário passar por uma experiência desse tipo. Alguns exegetas interpretam o nome divino ‘Aquele que é’, no sentido de ‘aquele que está’, que é presente, disponível, agora, aqui (13). Esta definição aplica-se perfeitamente também ao Jesus ressuscitado.

É possível ter Jesus como amigo, porque, depois de ter ressuscitado, ele está vivo, está ao meu lado, posso tratá-lo como um ser vivo a um ser vivo, um presente a um presente. Não com o corpo e nem sequer somente com a fantasia, mas ‘no Espírito’ que é infinitamente mais íntimo e real de ambos. São Paulo nos assegura que é possível fazer tudo ‘com Jesus’ : quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer outra coisa (cf. 1 Cor 10, 31; Col 3,17).

Infelizmente, raramente pensamos em Jesus como um amigo e um confidente. No subconsciente domina a imagem dele ressuscitado, ascendido ao céu, distante em sua transcendência divina, que retornará um dia, no fim dos tempos. Esquecemos que sendo, como diz o dogma, ‘verdadeiro homem’, melhor, a mesma perfeição humana, ele possui no mais alto grau o sentimento da amizade que é uma das qualidades mais nobres do ser humano. É Jesus que deseja um tal relacionamento conosco. No seu discurso de despedida, dando plena vazão a seus sentimentos , ele diz : ‘Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer todas as coisas que ouvi do meu Pai’ (Jo 15 ,15).

Já vi esse tipo de relacionamento com Jesus, não tanto nos santos, onde prevalece o relacionamento com o Mestre, com o Pastor, com o Salvador, o Esposo..., mas com os hebreus que, de modo semelhante a Saulo, chegam hoje a aceitar o Messias. O nome de Jesus, de repente, muda de uma obscura ameaça, ao mais doce e amado dos nomes. Um amigo. É como se a ausência de dois mil anos de discussões sobre Cristo jogasse a favor deles. O deles não é nunca um Jesus ‘ideológico’, mas uma pessoa de carne e sangue. Do sangue deles! Emociona ler os testemunhos de alguns deles. Todas as contradições se resolvem em um instante, todas as escuridões se iluminam. É como ver a leitura espiritual do Antigo Testamento se realizar totalmente e rapidamente sob os próprios olhos. São Paulo o compara à queda de um véu dos olhos (cf. 2 Cor 3,16).

Durante sua vida terrena, embora amando a todos sem distinção, somente com alguns – com Lázaro e as irmãs e mais ainda com João, o ‘discípulo que ele amava’ – Jesus tem um relacionamento de verdadeira amizade. Agora, porém, que ressuscitou e não está mais sujeito aos limites da carne, ele oferece a todo homem e a toda mulher a possibilidade de tê-lo como amigo, no sentido mais pleno da palavra. Que o Espírito Santo, o amigo do esposo, nos ajude a aceitar com alegria e maravilha esta possibilidade que preenche a vida.’


Fonte   :

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(1) Tertuliano, Adversus Praxean, 27, 11 (CC 2, p.1199)

(2) Leão Magno, Carta 28 (PL 54, 755 s.).

(3) Leão Magno, Sermo 27 (26),1 (PL 54, 749).

(4) Denzinger, Enchiridion Symbolorum, 301-302.

(5) N. Cabasilas, Vita in Cristo, I, 5 (PG 150, 313); Cf Anselmo, Cur Deus homo?, II, 18.20; Tomas de Aquino, Summa theologiae, III, q. 46, art. 1, ad 3.

(6) D.F. Strauss, Der Christus des Glaubens und der Jesus der Geschichte, 1865.

(7) J.D.G. Dunn,  A New Perspective on Jesus. What the Quest for the Historical Jesus Missed, Grands Rapids, Michigan 2005 (Trad. ital. Cambiare prospettiva su Gesù, Paideia, Brescia  2011).

(8) Dunn considera muito o estudo do exegeta católico alemão H. Schürmann sobre a origem pré-pascal de certos ditos de Jesus. ob.cit. p.28

(9) Cf.  o meu estudo, Dal kerygma al dogma. Studi sulla cristologia dei Padri, Vita e Pensiero, Milano 2006, pp. 11-51.

(10) S. Kierkegaard, Diario, II,A 110 (ed. a cura di C. Fabro, Brescia 1962, nr. 196).

(11) S. Ireneo, Contra as heresias, III, 24, 1

(12) J.-P. Sartre, La Nausea, Milano 1984, p. 193 s.

(13) Cf.  G. Von Rad, Teologia dell’Antico Testamento, I, Paideia, Brescia 1972, p. 212.