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domingo, 15 de julho de 2018

A chave do céu


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 ANTIQUE KEYS
*Artigo via Vera Fidei


‘Cada vez que passava em frente ao convento dos franciscanos de sua pequena cidade, Lourenço sentia o coração bater mais forte. Gostava de ficar ouvindo do lado de fora o canto suave dos frades, vindo da igreja. Aquelas melodias angélicas, cheias de uma paz que não era deste mundo, pareciam provir do Céu. Outras vezes, ficava espiando os monges enquanto trabalhavam na horta e pensava : ‘Como eles são alegres! O irmão cozinheiro, carregando tomates, é mais feliz que os meus arrogantes companheiros se exibindo pela rua em seus ruidosos carros’.

Aos domingos, Lourenço assistia à pregação e depois meditava nas palavras do frade de feições austeras e voz possante : ‘Lembrai-vos sempre, irmãos, que mais importa guardar tesouros no Céu ao invés de multiplicá-los na Terra. O Senhor nos ensinou : ‘De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder sua própria alma?’. Vede o exemplo de nosso pai São Francisco : soube ser pobre em espírito’.

Um dia, não resistiu e perguntou a um franciscano :

– O que devo fazer para morar aqui?

O bom religioso deu-lhe uma resposta muito simples :

– Para viver abrigado por estas santas paredes é preciso desejar acima de tudo o Reino dos Céus, abraçando a pobreza em espírito, como fez Jesus.

Uma semana depois, o jovem, carregando apenas uma malinha, entrava no convento para não mais sair. Pediu para ser irmão leigo, pois queria viver só para Deus, servindo os frades.

O mestre de noviços, que passou a acompanhá-lo, se encantava com o exemplo do Irmão Lourenço. Ninguém varria o chão ou lavava os pratos com maior entusiasmo; todas as suas ações pareciam uma prece.

Um dia, Irmão Lourenço notou o hábito de um frade em mau estado, e comentou :

– Vejo que sua manga está rasgada. Quer que a costure? Senão, quando o irmão for para as missões, as pessoas vão reparar. Somos pobres, mas dignos, e não fica bem usar um hábito rasgado… Se me permitir prestar-lhe tal serviço me estará concedendo uma graça, pois sou um pecador e tenho faltas a reparar.

– Mas tu sabes costurar?

– Não muito bem… Porém, minha mãe é costureira e com ela aprendi algumas lições do ofício.

– Está bem – concluiu o frade -, vamos ver como sai o serviço.

Surpreendendo a todos, Irmão Lourenço fez um trabalho exímio. A cada ponto com a agulha tinha rezado uma jaculatória pedindo que a Santíssima Virgem de Nazaré costurasse por ele. Quando acabava a linha, rezava uma Ave-Maria. Dessa forma, cerziu a manga inteira, deixando-a como se fosse nova.


A notícia se espalhou pelo convento. Não demorou muito em aparecer o irmão cozinheiro com uma roupa queimada, quase perdida por causa de um forno muito forte. Também o irmão porteiro veio mostrar um buraco no seu hábito que, embora escondido, já estava ficando grande. Até mesmo certo frade estrangeiro, hospedado ali por alguns dias, pediu ao irmão que desse um jeitinho em sua velha vestimenta. Os hábitos voltavam cosidos, limpos e perfumados.

O superior se alegrou com a descoberta. Admirado ao ver a despretensão daquele filho, logo notou a assiduidade de suas visitas ao Santíssimo Sacramento. ‘É por isso que tudo faz com tanto primor’, pensava.

Passados alguns meses, ele percebeu que os dotes de Irmão Lourenço podiam ir além da habilidade de fazer remendos.

– Quer tentar fazer um hábito inteiro? – perguntou-lhe.

– Se com isso eu puder dar glória a Deus, perfeitamente!

A experiência foi coroada de êxito. Das mãos ‘orantes’ daquele religioso, começaram a sair maravilhas acima das expectativas. Nelas a tesoura tomava vida e corria pelo tecido marrom em traçados tão certeiros, que o melhor dos alfaiates não poderia superar. Os hábitos continuavam modestos, mas possuíam algo de especial : a marca do amor com que o irmão os fazia.

Passaram-se os anos. Por vezes, a quantidade de pedidos o levava a dormir muito pouco, a perder as horas de recreação, e ele sentia a tentação de julgar que assim também já era demais… Mas logo pensava que Deus o chamara para glorificá-Lo daquela forma, e esse motivo o levava a dedicar-se por inteiro, redobrando as orações.

Irmão Lourenço tornou-se um homem maduro e, com o tempo, um ancião. Seus cabelos ficaram prateados, mas nem por isso deixou de atender os pedidos de remendos e costuras.

A comunidade o estimava e admirava. Muitos frades famosos, pregadores em santuários e professores em universidades, gostavam de estar com ele, formando rodas animadas de conversas sobre o Seráfico São Francisco, Santa Clara e outros heróis da Ordem. Irmão Lourenço atraía a todos, falando só sobre coisas do Céu. E era para lá que caminhava…

O implacável peso dos anos trouxe-lhe uma febre incurável, que começou a consumi-lo. Pressentindo a partida desta vida, ele pediu os Sacramentos e passou a falar cada vez menos. Rezava muito e pensava no encontro com Deus.

Numa madrugada gélida de inverno, Frei Lourenço parecia não resistir mais. O sino do convento chamou a comunidade para acompanhar o querido irmão, em seus últimos momentos. Ajoelhados, rezavam a oração dos agonizantes. De repente, um fio de voz quase imperceptível foi ouvido. Era Irmão Lourenço que pedia :

– Tragam-me a chave… a chave do Céu…

Os frades não entenderam. Qual seria essa ‘chave do Céu’? Um deles saiu correndo rumo à biblioteca e voltou com um livro chamado A chave do Céu. Colocaram-no diante do moribundo, mas ele não se interessou. Apenas repetiu :

– Eu quero… a chave… a chave do Céu…

O superior mandou que trouxessem uma relíquia de São Francisco, à qual o enfermo tinha muita devoção. Mas ele seguia com seu raro pedido…

Então, a fisionomia de um irmão se iluminou. Cruzou rapidamente os corredores e voltou com a agulha de Irmão Lourenço. Ao vê-la, este esboçou um sorriso e disse :

– Sim, esta é minha chave do Céu! – e expirou.

* * *
 

Sem ser grande aos olhos do mundo, nem receber recompensa por seus serviços, Irmão Lourenço se santificara com uma agulha na mão, trabalhando por amor a Deus. Para cada um a Providência tem preparada uma ‘chave’ que lhe abrirá o Céu. Trata-se de saber cumprir sua vontade e seus desígnios. ‘Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus’ (Mt 5, 3).’


Fonte :

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

E se o céu não for uma verdade, terá valido a pena ser cristão?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  A ideia de um morar no céu é mais gnóstica do que cristã.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘É muito comum no Cristianismo evangélico e carismático se ouvir a respeito do céu. Seja nas diversas pregações, seja nos diversos hinos que se cantam, o discurso a respeito da morada celestial se faz presente em diversas cerimônias e rituais realizados nas igrejas espalhadas pelo mundo. Juntamente com o discurso a respeito da morada celestial, que, em algumas pregações, podem até variar de tamanho dependendo do quão íntimo e bom você foi nessa Terra, está também aquele que diz que é necessário fazer boas obras para poder ser galardoado no dia do julgamento final. Assim, quanto melhor você for ao mundo, melhor será sua recompensa na glória.
Esse tipo de pensamento, no entanto, nos leva a perguntar : e se o céu não for uma verdade, terá valido a pena ser cristão? A pergunta, por maior espanto que possa trazer, se justifica se assumirmos aquilo que falamos no parágrafo anterior. Afinal, toda a vida em busca de se fazer o bem, para vários cristãos, só faz sentido se após ela houver algum tipo de recompensa a ser alcançada e que, para muitos, se trata de mansões celestiais e ruas de ouro para se andar nelas.
A ideia de um morar no céu, contudo, está mais para uma ideia gnóstica do que para uma ideia cristã. O Reino de Deus, como dizem diversos textos bíblicos não é um lugar para onde se vai, antes, é algo que vem da parte de Deus, como deixa bem claro tanto o último capítulo do Apocalipse, como também a própria oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus. Dessa forma, o Reino de Deus não deve ser entendido como um lugar nas nuvens ou acima do Universo, mas sim como a nova criação de todas as coisas, onde Deus, em seu amor, reina sobre ela.
Dito isso, um discurso que se diz cristão e que se preocupa somente em ser um meio para se alcançar uma morada no céu se revela como o contrário daquilo que Jesus viveu e pregou. A vida de Jesus, que coincide com sua pregação, revela um Deus que ama e está disposto a se doar por aqueles e aquelas a quem ama. Isso nos mostra que o amor, longe de buscar uma recompensa, busca o outro pelo outro e não pelo que ele pode dar de volta. Um Cristianismo que nasce a partir dessa perspectiva deveria, então, ao invés de preocupar-se com as recompensas advindas das boas obras, mostrar que as boas obras são consequências de ter sido alcançado pelo amor do próprio Deus.
Ao fazer isso, esse Cristianismo mostra que a pregação de Jesus não tem a ver com as recompensas de uma vida digna, antes, com o amor que se doa e que se importa com as pessoas e com a criação.
Ao pensar assim, a própria ideia do céu como lugar em que se vai morar no caso de ter tido um bom comportamento se torna sem sentido e até mesmo irrelevante, uma vez que se compreende que o céu (que na tradição bíblica nada mais é que outro nome do próprio Deus) se realiza ali onde Deus é profundamente experimentado.
Se o céu é compreendido como uma recompensa pelas boas obras que se faz, então ser cristão é somente um financiamento terreno assumido por alguns, visando uma morada celestial ao final da vida.
 Se, porém, ele é compreendido como o experimentar da profunda presença de Deus que transforma vidas, ser seguidor de Cristo se torna uma possível resposta dada ao amor de Deus, pelo qual fomos alcançados, o que implica amar ao próximo e viver uma vida disposta a se doar por ele, sem esperar nenhuma recompensa por isso, como é próprio de todo amor que se revela como verdadeiro.’


Fonte :

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Céu, inferno e purgatório à luz do mistério pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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Dante e seus Poemas por Domenico di Michelino (1460)

*Artigo de Geraldo De Mori, SJ


‘A destinação final do ser humano é vista de diversas maneiras pelas religiões e pelas ciências. O cristianismo professa sua esperança na ressurreição dos mortos, baseado na proclamação da ressurreição de Jesus Cristo. Muitas igrejas cristãs, ao rezarem a cada domingo o símbolo dos Apóstolos ou símbolo de Niceia/Constantinopla, dizem crer na ‘ressurreição dos mortos e na vida eterna’ ou dizer crer ‘na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há de vir’. Baseada nessas afirmações do símbolo da fé, a teologia cristã elaborou ao longo dos séculos uma reflexão que deu origem, já nas Sumas medievais, aos artigos dedicados aos ‘novíssimos’ (as coisas novas), que na teologia atual são estudados no tratado de escatologia (as coisas últimas e definitivas).

A sistematização do que tradicionalmente foi chamado de ‘novíssimos’ é o resultado do encontro entre várias ‘representações da vida futura’, muitas delas presentes na Bíblia e outras oriundas das tradições religiosas e filosóficas de outras culturas, dentre as quais a grega. Nos textos mais antigos da Bíblia, a vida era o mais importante. Para realizar-se plenamente, o ser humano tinha que ter saúde, viver uma vida longa, ser bem sucedido do ponto de vista material, ter filhos e ver ‘os filhos dos filhos’ (Sl 128,6). Não havia esperança de uma vida após a morte, embora o Israel antigo não conhecesse a ideia de que com a morte tudo desapareceria. Para eles, os mortos iam para o xeol (Jó 14,13; Sl 6,5; 86,13;139,8; Pr 30,16; Ecl 9,4-6;.10), que era o reino das sombras, mas sobre o qual Deus reinava. Não existia a ideia de que o xeol fosse o domínio de uma força maligna, identificada em outras religiões com o diabo. Tampouco existia a ideia de que havia um paraíso para onde iriam os justos/bons. Deus mostrava, porém, misericórdia para com os justos (até a milésima geração : cf. Dt 5,10) e retribuía com o castigo os que praticavam o mal (até a terceira geração o mal : cf. Dt 5,9).

A crença de que haveria uma retribuição após a morte, com um lugar para os bons e outro para os maus, começou a surgir na literatura apocalíptica judaica, que é representada pelo livro de Daniel e por vários apócrifos (Esdras, Enoque etc.). Em parte, isso foi determinado pela morte dos justos e a constatação de que no mundo nem sempre eles eram devidamente retribuídos e os maus devidamente castigados. O capítulo 12 de Daniel é emblemático a esse respeito, pois fala que os mortos ‘acordarão’, alguns para a ‘vida eterna’ e outros para o ‘desprezo eterno’ (v. 2). O capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus também atesta a fé na ressurreição (v. 28-29).

O Novo Testamento mostra a duas perspectivas acima elencadas : a dos saduceus, para os quais não haveria ressurreição, e a dos fariseus, que nela criam (Mt 22,23-33). Aparece também a crença de um lugar para os bons (o ‘seio de Abraão’, em Lc 16,22) e um lugar para os maus (o ‘inferno’, em Lc 16,23). O lugar para os maus é denominado também ‘geena’, e ganha traços terríveis nos discursos de Jesus : lugar onde haveria ‘choro e ranger de dentes’, com ‘vermes’, ‘corrupção’ (Mt 5,22.30; 10,28; 18,9; 23,15.33 etc.). O termo ‘paraíso’ ocorre uma única vez na boca de Jesus, quando ele o promete ao bom ladrão arrependido na cruz (Lc 23,43). Jesus fala, porém, do reino de Deus como algo futuro, lugar de festa e banquete (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24). Além da ideia de ‘lugares’ para onde iriam os mortos, os textos do Novo Testamento falam ainda que Jesus ressuscitou dos mortos e apareceu a vários discípulos (1Cor 15,5s), e fundamentam nossa ressurreição na sua ressurreição, com longa reflexão sobre como ela seria (1Cor 15,12-58). Os principais textos que falam de nossa ressurreição a associam à segunda vinda de Cristo, o ‘dia do Senhor’ (1Ts 4,13-18; 1Cor 15,23-27).

Com base nesses textos e nessas ‘representações’ da vida futura, a pregação cristã e a teologia foram elaborando, em diálogo com a filosofia grega, o que, na Idade Média, foi chamado de novíssimos : céu e inferno. Em parte, essa reflexão constituiu-se como ‘topografia do além’, determinada pelas categorias a partir das quais conhecemos : espaço e tempo. O ‘mundo futuro’ tornou-se uma espécie de reprodução, mais perfeita e plena, chamada ‘céu’ ou ‘paraíso’, ou imperfeita e falha, denominada ‘inferno’. Além desses dois ‘lugares’, pouco a pouco foi surgindo um terceiro, o ‘purgatório’. Em parte, isso se deve ao dualismo antropológico grego, que via o ser humano como a conjunção de corpo (perecível) e alma (imperecível), e em parte, ao ‘atraso da parusia’, que levantava a questão do que acontecia com os fiéis que haviam dado testemunho do Cristo antes de sua segunda vinda. A crença de que no dia juízo tudo deveria ser ‘revelado’, passando pelo fogo (1Cor 3,13-15), e a prática da oração pelos ‘fiéis defuntos’, levou à elaboração da teologia do purgatório. Com a Divina comédia, de Dante, na Idade Média, e as pregações da Igreja visando à conversão, essa representação do além se popularizou, tendo ainda grande importância na linguagem.

A nova visão do mundo, dada pelas descobertas das ciências modernas, mostrou, porém, que não se pode mais pensar a esperança na ressurreição ou a ‘vida futura’ ou no ‘além’, com as categorias do nosso mundo (espaço e tempo). É difícil pensar fora do tempo e do espaço, mas isso não significa que não o possamos fazer. O único lugar para pensar isso é o próprio mistério pascal de Cristo, sua cruz e ressurreição.

Como fazê-lo? Vendo como Jesus morreu. Podemos dizer que na Cruz, Jesus nos diz primeiro o que é o inferno. Ao clamar em voz forte ‘meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’ (Mt 27,46), ele nos diz que o inferno é a separação radical da fonte de sentido, que é o Pai, o não sentir-se amparado por ele, ver a vida aniquilar-se no nada. Essa frustração radical e total da existência é a não realização da vocação à filiação, inscrita na criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus. Alguns autores pensam que Jesus fez essa experiência para que ninguém a fizesse depois dele. Outros dizem que a possibilidade do inferno é a condição de possibilidade da liberdade, ou seja, Deus nos cria para sermos filhos (as), mas não nos obriga à filiação. Por isso, a possibilidade da frustração radical da existência, que é viver fora do sentido, que é Deus. De qualquer forma, a cruz é a revelação do mal por excelência, presente na condenação do justo, e a revelação da vitória sobre este mal, pois é a expressão do dom de si de Jesus por amor até o fim, em fidelidade ao Pai. Essa fidelidade pode ser vista também como confiança, e aí aparece a experiência da vitória sobre a frustração. Nas palavras : ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23,46), Jesus mantém-se fiel àquilo que ele acreditou durante toda a vida, na ‘noite mais escura’ dos sentidos, pois aí Deus parecia ter-se ausentado. Nesta fé-confiança encontra-se o que poderíamos chamar ‘céu’, pois o céu é encontrar sentido e sentido último e definitivo para a existência, mesmo quando ela parece não ter sentido.

Perseverar na apelação filial, eis o caminho revelado por Jesus diante do nada da morte injusta que lhe foi impingida. A passagem pelo abandono pode ser vista como ‘purgatório’, ou seja, a prova final pela qual passou Jesus, e pela qual todos passamos. No fundo, diante do ‘nada’ para o qual a morte parece conduzir, e que pode ser identificado com o ‘inferno’, a fé, feita de provação, de ‘purgatório’, nos diz que a perseverança na fé-confiança é possível, e nos leva ao ‘céu’. Toda essa experiência da cruz não é feita apenas entre Jesus e o Pai. O Espírito Santo aí está, levando Jesus ao supremo despojamento, à ‘noite escura da alma’ do abandono, do inferno, arrancando-o, pelo purgatório, para o céu da fé-confiança. Nossa morte, na perspectiva cristã, também é chamada a ser vivida na perspectiva aberta por Jesus. Pela fé-confiança, passando ‘pelo vale tenebroso do abandono’, somos chamados a abandonar-nos nos braços do Pai, como o fez Jesus, movidos pela força do Espírito Santo.’


Fonte :


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O céu do monginho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Dom Mamerto Menapace, OSB

O monginho achava-se na igreja. Começava a primavera, quando o sol fica mais fraco e lá fora, tudo canta a vida. Era o início da tarde e ele se encontrava sentado num banco da igreja, entre meditando e distraído. Pela janela aberta entrava a luz, o calor e muitos seres pequeninos e vivos moviam-se no ar.

Na realidade não estava distraído, mas absorto. Havia um pensamento que o vinha perseguindo há vários dias. Talvez fosse por causa da primavera que começava. O certo é que há muitos dias vinha se perguntando sobre a eternidade do céu. Sobretudo questionava-o a idéia de uma realidade que nunca teria fim e da qual Deus o convidava a participar também.

Era um monginho ativo, cheio de vida, curioso e inteligente, esperto e sonhador. Não entendia como Deus conseguiria manter o interesse numa realidade que seria eterna. Porque ele não conseguia passar meia hora sem ter de mudar de ocupação ou de lugar. Assustava-se com a idéia de permanecer para sempre em algo eterno.

Estava pensando nisso e, adormecendo, quando de repente um pequeno pássaro que acabava de entrar pela janela chamou sua atenção. Parecia uma avezinha simples e sobretudo mansa.

Depois de um curto vôo, foi colocar-se a dois ou três bancos adiante do monginho. Não pareceu importar-se com sua presença. Após um momento de silêncio, levantou a cabecinha e deu um delicioso gorjeio que encheu de ecos o silêncio da igreja.

Quando o canto repetiu-se novamente o monginho, sem pensar no que fazia, levantou-se e se aproximou do passarinho que não demonstrou medo. Simplesmente deu outro pequeno salto e foi colocar-se no encosto do banco seguinte enquanto gorjeava novamente um trinado. Mas desta vez, o canto era modulado de maneira diferente. Parecia mais belo e mais sonoro. Além disso, ao dar o sol sobre suas penas, havia coloridos que antes não haviam aparecido. Maravilhado, nosso amigo só fez com que a avezinha repetisse seu curto vôo até outro banco mais adiante.

E assim, de vôo em vôo, de trinado em trinado, ambos foram se dirigindo até a porta da igreja. O monginho estava tão entusiasmado que nem se dava conta do que fazia. Simplesmente ia atrás da ave canora, que a cada instante mostrava um novo colorido ou exprimia uma harmonia diferente e sempre mais bela. Atravessaram a porta, cruzaram o jardim, saíram pelo grande portão que dava para o bosque do outeiro vizinho e finalmente se adentraram enel sem se dar conta de que iam se afastando cada vez mais do mosteiro. Quanto tempo transcorreu desde aquele momento não o soube então o monge. Porque, passo a passo, e indo atrás da encantadora ave, foi perdendo a noção das horas e da distância.

Mas, finalmente a avezinha deu um gorjeio como nunca havia dado, e batendo suas pequenas asas, perdeu-se entre a folhagem do bosque.

Então, subitamente, o monginho voltou a si e assustou-se ao ver que já era tarde. Voltou sobre seus passos, amedrontado por não reconhecer o caminho que o havia conduzido até ali. Mas do alto do bosque onde se encontrava, às vezes via entre a folhagem o mosteiro e assim ia se situando. O que no entanto estranhava profundamente era não conseguir encontrar a porta por onde havia saído. Ao entardecer, por mais que procurasse onde ela estaria, não pode achá-la. Contornado o mosteiro, afinal deu com a porta principal. Contudo, o que via parecia-lhe estranho. Nada era agora familiar e sentia-se como de outro mundo.

Tocou a campainha e veio atender um velho irmão porteiro com uma longa barba branca. Não o reconheceu. Inteiramente atrapalhado e temendo um equívoco, perguntou timidamente se aquele era o mosteiro de São Pantaleão. O monge porteiro respondeu-lhe que sim e perguntou, por sua vez o que desejava. Nosso monginho, perplexo, pediu que lhe abrisse a porta para voltar à sua cela e desculpar-se com o mestre de noviços. Está claro que o porteiro não entendeu nada e não sabia o que pensar. Tratar-se-ia de alguma brincadeira de um dos monges disfarçado? Ou então seria algum louco que confundia as coisas?

Não sabendo como proceder, pediu-lhe amavelmente que se assentasse esperasse o abade, a quem ia chamar em seguida. Quando este veio, tampouco reconheceu o monginho nem este o abade. Cumprimentaram-se e começaram a conversar. O noviço, aflito, contou o que lhe havia acontecido aquela tarde ou talvez – não sabia – na tarde anterior. Como abandonara a igreja e o mosteiro indo atrás daquela rara avezinha de canto e plumagem continuamente cambiante que o havia fascinado e levado atrás dela. Também abriu seu coração ao abade confessando que sentia tudo diferente ao seu redor e não conseguira reconhecer nada do que via. Nem podia reconhecer com quem estava falando.

Vocês imaginarão como estaria perplexo o abade diante daquele estranho e desconhecido monginho que contava uma história tão bela e extraordinária. Supôs que se trataria de um jovem desorientado e mentalmente enfermo que estava inventando uma história sobre sua própria vida, ainda que o fazia tão bem que não podia negar a realidade dos fatos que verdadeiramente coincidiam com as daquele velho mosteiro. Como era um homem bom e não queria ferir o jovem com o que pensava interiormente, decidiu tentar convencê-lo mediante o registro dos monges, para lhe mostrar que seu nome nunca estivera inscrito naquele mosteiro.

Trouxeram o livro de registro onde há séculos vinham anotando os monges que ali haviam vivido e, folha por folha, começando pelas últimas, foi mostrando que efetivamente ali não estava seu nome. Mas, de repente, ao folhear ao acaso o livro, seus olhos depararam com algo insólito. Uma página estava metade em branco. E para sua surpresa, ali aparecia o nome do monginho, com todos os seus dados e uma nota em vermelho que dizia simplesmente : ‘Desapareceu numa tarde no bosque sem deixar rastros’. Era uma página escrita 227 anos atrás.

Esta bela história termina assim : ‘O jovem se deu conta que sem o saber, seguira durante todos esses 227 anos a avezinha, sem se cansar nem envelhecer. E experimentou um tal desejo de ir ao céu, que ali mesmo...despertou de seu sono, no banco da igreja, naquele entardecer’.

Já era hora das Vésperas.


Fonte : 
* Dom Mamerto Menapace, OSB, abade emérito de Santa Maria de Los Toldos (Argentina); foi Presidente da Congregação Beneditina da Santa Cruz do Cono Sur.

- Artigo publicado em Cuadernos Monásticos 75 – 1985.
 
Revista Beneditina nrº 11, Julho/Agosto de 2005, traduzido do espanhol e editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.