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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Queres ser pobre?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Marta Arrais, 
Professora


Temos cada vez mais frio. O fervilhar que nos queimava a beirinha da pele da alma, que nos fazia querer curar todas as feridas do mundo, foge-nos e arrefece-nos. Temos cada vez mais frio. Amontoam-se coisas que não precisamos nos corredores de tudo o que somos. Compramos o que não nos faz falta para sentir que conseguimos ter algo que nos pertence de verdade, que é nosso. Vamos anoitecendo e arrefecendo perante o espreitar da consciência que nos assegura que estamos cada vez mais perdidos. Ajoelhamo-nos diante do que brilha mas não tem luz. Rendemo-nos ao que nos dá uma amostra de alegria para depois perdermos o riso outra vez. Guardamo-nos de sentir e de amar para proteger as paredes do nosso coração e, com esse escudo vazio, fazemos nascer mais dor. Estamos perdidos. Olhamos como quem procura o que não pode ser visto. Sentado ao nosso lado está Jesus. Põe a mão na nossa. Esgueira o seu coração para mais perto do nosso e espera-nos. Espreita-nos. Não nos diz nada porque os grandes amigos sabem ler as entrelinhas do nosso silêncio. Enterramos a cara nas mãos sujas da tristeza que cultivamos e não encontramos Jesus. Ele, respirando as esperanças que tem em nós, coloca-se à nossa frente e acena com a mão. No centro do seu aceno está cravada a sombra da sua chaga. Atrás do Seu olhar está a luz de um dia de sol. Temos cada vez mais frio. Somos pobres e a nossa fé parece uma roupa rasgada, coçada e triste. Temos tudo e somos pobres. Estamos magros de esperança. Temos fome de luz. Estamos surdos de amor. Amputados nos gestos. Jesus quer-nos pobres de coração, mas quer que vistamos a alma de lavado. Não quer que nos arrastemos dentro das nossas faltas de tudo. Das nossas falsas riquezas. Jesus quer-nos pobres de amor, para que sintamos sempre a falta de amar melhor. Quer que voltemos a ser crianças e que tenhamos saudades do seu colo. Quer que saibamos nascer outra vez quando a vida nos despir de possibilidades e de sonhos. Tudo nos parece incrivelmente difícil. Enrolamos o corpo nas nossas dificuldades e adormecemos a pensar que Jesus fez as malas e partiu de nós. Mas Aquele que nunca desiste embala-nos num sono ausente de medos e feridas e sopra-nos aos ouvidos do coração o mais bonito de todos os segredos :

«Ser pobre é querer ser sempre mais. Ser pobre é querer ter sempre menos. Ser pobre é guardar o perdão no lugar do rancor e da vingança. Ser pobre é querer abrir os braços a quem já nos espera. Ser pobre é ser menino. Que, mesmo tendo tudo, valoriza e ama aquilo que não cabe em lugar nenhum. A alegria de quem nunca se cansa de ser alegre. Ser pobre é continuar a ser tudo mesmo quando já não se tem mais nada.»’


Fonte :
* Artigo na íntegra


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sobre Corpos e Almas (Capítulo 2 de 2)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina

‘Lembro-me, ainda em tenra idade, sentado na mesa da cozinha a fazer as tarefas de casa da escola enquanto a minha mãe lavava os pratos. Sempre que me acometia aquela preguiça, aquela dispersão própria dos estudantes, eu me queixava com a minha mãe : ‘estou com a cabeça cheia, não quero mais estudar! Não tem mais espaço no meu cérebro!’ E ela, muito sábia na sua simplicidade, respondia : ‘estude, menino! Conhecimento não ocupa espaço!

Esta é uma lembrança que resgato, às vezes, quando penso em minha própria mente como um ‘disco rígido’ de computador, que ela não é. De fato, jamais ouvi falar de um disco rígido com, digamos, dramas existenciais, tendências suicidas, ou mesmo com angústias religiosas. O mundo da informática jamais nos dará um único Kierkegaard.

... No texto anterior a este, eu mencionava a minha conversa com alguns colegas ‘materialistas’ e ‘espiritualistas’ no meu trabalho, e como a nossa falta de noção sobre dois conceitos básicos do pensamento aristotélico (matéria e forma) torna difícil e confuso falar sobre noções como alma, espírito, ser vivo, ser humano e pessoa. E como a conversa tinha sido abruptamente interrompida pelos colegas com a observação : ‘você complica demais as coisas!’. Ora, não se trata de complicar, mas de respeitar aquele sábio conselho aristotélico que constitui a primeira frase do pequeno (e magnífico) livro de Tomás de Aquino chamado ‘O Ente e a Essência’ : ‘um erro insignificante ao início pode tornar-se grande ao final’; e por isto é sempre necessário voltar ao início, aos princípios, quando se fala de grandes erros de pensamento. Sim, porque a forma com que encaramos nosso próprio corpo e nosso próprio ser faz toda a diferença com relação à forma com que vivemos.

Então vamos simplificar; ou melhor, vamos aprofundar. Tratamos ali da noção de forma e matéria, como elementos que formam os seres corporais, e como a unidade essencial dos seres corporais é às vezes confundida com simplicidade. Os seres corporais são sempre unos, indivisíveis como seres, mas nunca são simples; há, em todo ser corporal, uma composição intrínseca de forma e matéria que leva à sua identidade : é assim que da mesma matéria(por exemplo, a porcelana) posso fazer coisas de diferentes formas (por exemplo, um prato ou um vaso sanitário), e, se por um lado é a sua matéria que torna estas coisas distintas entre si, é a sua forma que tornará inteligíveis para mim as diferenças entre essas coisas. Vimos, também, que a forma dos seres vivos, aquela forma capaz de dar a uma porção de matéria a sua capacidade de ser a causa dos próprios movimentos (capacidade que chamamos de vida) faz com que tais formas sejam chamadas de alma. A mesma matéria, portanto, que um dia esteve diluída no mar, ou mesmo espalhada como poeira ou lama num campo, pode hoje compor um corpo vivo, sob uma forma animada. (anima nada mais é que a palavra latina para ‘alma’). Não há nada de esotérico aí, nada que não possa ser perfeitamente constatado empiricamente.

Há, porém, nessas formas animadas, diversos graus de animação. Não estou falando, aqui, de biologia, mas de observação livre da natureza, aquela que faz um menino curioso num dia de sol. exemplo, há coisas animadas que são capazes apenas de nutrir-se, crescer e reproduzir-se. Deste tipo de ser dizemos que apenas vegeta, ou que possui apenas as funções vegetativas. Há um uso contemporâneo deste termo quando nos referimos, por exemplo, a alguém num estado de coma profundo como uma pessoa em estado vegetativo.

Este mesmo menino observaria, no entanto, outros seres que caminham, voam ou rastejam em torno de si, que ciscam, observam, assustam-se e fogem à sua aproximação. Ele nota que esses mesmos seres animados desempenham funções mais elaboradas do que a das plantas que ele contemplou anteriormente. Além de fazer as mesmas coisas que as plantas fazem, eles são capazes ainda de perceber o estímulo ambiental, interpretá-lo e mover-se na direção do estímulo, conforme o estímulo lhes seja agradável, ou para longe dele, conforme lhes seja repulsivo. Sua forma, sua alma, portanto, concede-lhes uma aguçada capacidade sensorial aos estímulos que são apresentados aos sentidos, e concede mesmo uma capacidade de unificar estes estímulos e reagir em conformidade com esta imagem que seus sentidos lhe fornecem, estimando ademais qual a reação adequada a cada estímulo, e mesmo guardar memória deles; isto acontece, por exemplo, quando seu cachorrinho, em casa, busca sua companhia, mas foge de estranhos. A este ser, capaz de agir assim, dizemos que tem uma alma sensitiva.

Este menino, no entanto, se ainda não estiver contaminado por nenhuma dessas ‘filosofias’ monistas ou panteístas que discutimos no texto anterior, poderá contemplar-se e descobrir que ele é o único ser ali capaz de elaborar todos estes raciocínios, todas estas classificações, de perguntar-se mesmo pela estrutura da realidade que se está apresentando a ele. Ele é capaz de perguntar não somente o que é esta realidade que ele está conhecendo, mas, principalmente de perguntar quem é ele mesmo, quem é o autor de tantas perguntas que assomam em sua mente. Como dizia um querido amigo mineirinho que tenho, ele é o único ser ali que pode perguntar : ‘quemcossô, poncovô, donqueuvim e oncotô’ (se não entender estas palavras, procure um amigo de Minas Gerais para explicar).

Este exato ato de contemplar-se, de refletir, tem necessariamente que ser destituído de materialidade. Todos nós sabemos, das nossas aulas básicas de ciência, que dois corpos materiais não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. É por isso que um ser corporal com olhos jamais é capaz de olhar dentro dos próprios olhos : a matéria não pode curvar-se sobre si mesma de modo a interpenetrar-se. Para olhar os próprios olhos, um ser corporal precisa sempre de um outro objeto material que reflita sua imagem de volta para si mesmo, como um espelho. Mas aquele nosso menino é capaz de perceber-se pensando, e de refletir sobre seus próprios pensamentos, sobre sua própria imaginação e memória, e mesmo de observar-se a imaginar, a pensar e a lembrar. Sem nenhuma ajuda de um objeto material externo, como um espelho. É capaz mesmo de observar mentalmente a si mesmo enquanto reflete. Numa palavra, ele percebe que é inteligente! E que a sua inteligência, conquanto lide com dados sensoriais, dobra-se sobre estes dados de uma maneira que nenhuma dimensão material do seu corpo é capaz de fazer. A inteligência tem uma qualidade, portanto, que, se por um lado está entranhada em sua materialidade, por outro a supera, já que pode dobrar-se sobre si mesmo de um modo tal que nenhum corpo material pode fazê-lo.

E mais : é capaz de perceber em si as inclinações, os instintos, os desejos e escolher entre eles, não somente cedendo ao mais apetitoso, mas eventualmente ao que contraria aos seus apetites sensoriais. Ele colhe uma pequena fruta daquela árvore, bela, madura e suculenta, e não a come, apesar de desejá-la profundamente, a ponto de estimular sua salivação : reserva-a para levar, mais tarde, à sua vovó amada que se encontra doente num quartinho dos fundos. Ou mesmo de um pobre mendigo que senta-se na calçada de sua casa. É assim que ele descobre que ele tem uma vontade, capaz de escolher entre os diversos desejos que se lhe apresentam aos sentidos. E, uma vez que esta vontade lhe conduz além dos desejos sensoriais, percebendo que são os corpos externos a si que estimulam seus sentidos, ele poderia intuir também que esta vontade capaz de reconhecer os apetites sensoriais e escolher não satisfazê-los deve, de algum modo, ser capaz de superar a materialidade dos seus desejos, instintos, inclinações e estímulos, uma vez que pode escolher uma conduta que, embora reconhecendo-os, ignore-os todos e se dirija a um fim que é deles independente. A esta alma, capaz das mesmas funções que a alma simplesmente vegetativa, capaz ainda das mesmas funções da alma sensitiva, e ainda capaz de reflexão e escolha, chamamos de alma espiritual ou espírito – por envolver dimensões reflexivas que de algum modo superam a matéria. E aos seres capazes de reflexão chamamos de pessoas, e dessa capacidade de reflexão vem a sua dignidade. Um ser humano, por ser pessoa, tem o direito de ser mais do que vegetativo. Tem o direito de ser mais que simplesmente sensitivo e instintivo. Tem o direito de ser reflexivo no pensar e livre no escolher. Cada vez que uma pessoa está reduzida apenas aos aspectos vegetativos e sensitivos de sua alma, ele está sendo ofendido em sua dignidade humana, que se plenifica no direito de desenvolver plenamente a sua capacidade de reflexão e livre escolha – no desenvolvimento pleno da sua capacidade espiritual. Uma planta realiza-se plenamente por ser planta. Um animal tem sua dignidade, que consiste em ser mais que uma planta, e poder exercer livremente seus potenciais sensitivos. Uma pessoa humana não pode reduzir a si mesmo, ou mesmo reduzir o outro, a viver como um animal irracional, ou mesmo como uma planta, sem perder, exatamente aí, e exatamente por isso, a sua dignidade de pessoa. Mas para isso, para discutir ética, precisaríamos aprofundar a noção de ato e potência, o que somente poderá ser feito em outra ocasião...’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/sobre-corpos-e-almas-2
  

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sobre Corpos e Almas (Capítulo 1 de 2)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina,


‘Uma das discussões mais recorrentes que tenho, tanto no meu trabalho quanto nas relações pessoais, é a respeito da questão da alma. De fato, estou cercado de ‘espiritualistas’ e ‘materialistas’ que insistem em me bombardear, a todo momento, com verdadeiras ‘catequeses’ a respeito de suas posições filosóficas (seria talvez mais preciso dizer ‘religiosas’) e insistindo para que eu tome uma posição : entre corpo e alma, de que lado eu fico?


Sobre a ‘dominação mítica e as fábulas religiosas cruéis’

Este é mais um daqueles falsos dilemas em que somos, atualmente, apresentados nos debates e nas conversas, sejam as presenciais, sejam as virtuais, em redes sociais e similares. Tenho muitos amigos materialistas, ou assim declarados, que querem me convencer de que os ‘espiritualistas’ estão errados, e que simplesmente não existe e nem pode existir algo como uma ‘alminha’ que pilota o corpo humano, um ‘espírito’ que habita em nós misteriosamente e que precede, sobrevive ou mesmo independe do corpo, e que a ele se junta acidentalmente em determinado tempo. Este mito ‘metafísico’ é, dizem eles, a sobrevivência de velhos conceitos supersticiosos que precisam ser destruídos pela ciência e pela racionalidade contemporâneas. O corpo seria tudo : ‘toda física e toda metafísica, todo o sagrado e todo o profano, toda consciência e toda inconsciência’, como um deles me afirmou, categoricamente. Todo o resto, toda a metafísica que defende a existência desse ‘fantasma esotérico’ (como ele chamava a alma humana) seria simplesmente o recurso moralista daqueles que ‘odeiam o corpo, odeiam a liberdade humana’. Assim, liberdade seria simplesmente a possibilidade de dizer sim a qualquer libido, a qualquer desejo, a qualquer inclinação corporal que não implique a destruição do corpo. O mais seria mera ‘dominação mítica, fábulas religiosas cruéis’. ‘Que nos deram vocês, os espiritualistas’, disse-me este meu amigo, ‘senão a repressão injusta e detestável dos prazeres corporais, em nome das suas fraquezas metafísicas? Vocês não admitem o culto do corpo, porque amam a repressão e a morte. Que fiquem com a morte, vocês que amam o martírio. Deixem a vida para nós, que somos fortes o suficiente para viver sem as ilusões religiosas dos fracos. Renunciaremos a este dualismo medieval entre corpo e alma, quando assumirmos a realidade exclusiva do corpo e do sim a todas as suas exigências!


Espiritualistas

Que adiantaria explicar ao meu interlocutor que não sou nenhum ‘espiritualista’, no sentido dualista que ele estava colocando? A sua ‘’ materialista não admitiria nenhuma contestação. Ele chegou a me dizer : ‘Você duvida que o corpo é tudo? Experimenta passar fome, mendigar e dormir ao relento e adoecer. Você verá como mudarão seus pensamentos. Porque nossas convicções todas são apenas estados mentais, que refletem as necessidades de nosso corpo. E nossos medos e desejos são os medos e desejos de nosso corpo.’ Ele só não me explicou como chegou a descobrir isto sem ter experimentado pessoalmente (como eu sei que ele não experimentou) nenhum desses sofrimentos.

Mas os verdadeiros ‘espiritualistas’, aqueles que adotam a dualidade entre ‘corpo e alma’, não estão ausentes de nossas conversas no cafezinho. Tanto aqueles que se dizem cristãos e desprezam ‘as coisas deste mundo’, que seria o ‘mundo de Satanás’, em prol de uma salvação etérea e estritamente ‘espiritual’, que não envolverá o nosso corpo, mas apenas nossa alma enviada a um ‘paraíso’ de anjinhos e harpas, quanto aos ‘espíritas’ das mais diversas matizes, que acreditam que nós somos apenas ‘alminhas’ presas num corpo ‘grosseiro’ para fins de aperfeiçoamento e ‘evolução espiritual’; a alma e o corpo seriam, então, para estes, dois entes completamente estranhos entre si, e mais : para eles somente à alma pertence verdadeiramente a natureza humana.


O corpo não é mera extensão e a alma não é mero pensamento imaterial

Em determinado momento da conversa, eu tomei a palavra e disse : ‘Não posso concordar com a proposição de que o corpo é mera extensão, e a alma, mero pensamento imaterial. Esta, aliás, não é uma ideia medieval, mas o exato centro da filosofia cartesiana, que é moderna.’ Como notei que eles estavam atentos, prossegui : ‘Eu entendo e defendo que o corpo é uma coisa individualizada pela matéria. De fato, um boneco de pano é um corpo, e uma pessoa humana também é um corpo.O que nos torna, a nós humanos, qualitativamente diferentes de qualquer outro amontoado de matéria é a nossa forma, amigo. Um corpo é uma coisa individual com uma forma, portanto, de fato, um corpo é uma unidade, e não possui nada fora de si mesmo; portanto, de fato não há fantasminhas humanos no sentido que vocês, materialistas, combatem. Mas os seres corporais não são uma simplicidade, como sua fala materialista parece reduzir – O corpo é uma unidade de forma e matéria. Mas ser uno é diferente de ser simples.’

Como assim?’ Perguntou-me o materialista.

Fácil’, respondi. ‘Pense num carro. Convenientemente, há um automóvel que se chama 'Uno'; e, embora de fato ele seja ‘uno', ele não é simples : é composto de várias peças, partes, que, juntadas numa determinada ordem, constituem-no como carro. Esta ordem é o que chamo de forma.’

Um corpo’, prossegui, ‘é, já em si mesmo, um composto uno, individual e indivisível de matéria e forma; a forma lhe dá inteligibilidade, a matéria lhe dá alteridade ou individualidade. Matéria e forma compõem o corpo, e não existem fora dos corpos que compõem, e portanto você, no seu materialismo grosseiro, está certo em dizer que não há nada além do corpo com individualidade na realidade. Os números matemáticos, por exemplo, não têm matéria, mas existem. Existem, portanto, apenas nas mentes. Se não houvesse ninguém para pensá-los, eles não existiriam. Isto não significam que sejam irreais, mas não têm individualidade : se eu e você pensamos ao mesmo tempo no número dois, ele existe simultaneamente na minha mente e na sua; mas um ser corporal só existe em um lugar, e portanto a sua realidade é seu corpo!

O problema’, prossegui, ‘é que a forma de um corpo não é sua matéria, já que todos os corpos têm matéria; a forma especifica o corpo na sua inteligibilidade. Uma pedra não é uma formiga, e esta não é um ser humano. Um prato de almoço não é um vaso sanitário, como imagino que você já teve oportunidade de descobrir (espero que sim...). O que diferencia os dois não é a porcelana, que é a matéria que os compõem, mas a forma que têm...


A alma é a própria forma do corpo

Os seres vivos’, prossegui, ‘têm, ademais, algo em sua forma que os diferencia dos seres inertes, e isto consiste na sua capacidade de serem causa do próprio movimento. A isto se chama alma : uma forma corporal capaz de ser causa do próprio movimento. Nada esotérico, nada metafísico, nada religioso. O meu amigo 'espiritualista’ está errado, creio. A alma não é, como ele diz e você nega, um algo no corpo. Ela é a própria forma do corpo, sem a qual o corpo vivo nem seria corpo.

Continuei : ‘Dá para pensar isto até no plano estritamente empírico : se um corpo não causa seu próprio movimento, sua forma é inerte. Se causa, sua forma é ativa, e se chama alma. Ser corpo dotado de forma ativa, ou alma, é o que compartilhamos com todos os seres vivos – é a nossa natureza comum com eles’.


À forma corporal que, além de ser causa do próprio movimento, é ainda capaz de reflexão filosófica, moral e religiosa, chamamos de espírito.

Há algo, no entanto, que especifica a forma humana, frente às outras formas do gênero animal. Se de fato compartilhamos com os animais uma forma capaz de ser causa do nosso movimento, e portanto a nossa forma pode ser chamada, como a dos animais e vegetais, de alma, nós não compartilhamos com eles a nossa capacidade de reflexão, seja filosófica, seja religiosa, seja moral. Eu nunca discuti filosofia ou religião com nenhum animal que não fosse humano! À forma corporal que, além de ser causa do próprio movimento, é ainda capaz de reflexão filosófica, moral e religiosa, chamamos de espírito. Mas ele não existe na realidade que se apresenta a nós senão como forma de alguma coisa, de um ser humano real e concreto, e portanto não me peça para concordar com todos esses 'espiritualistas' e 'espíritas' que negam o valor da matéria e consideram o 'espírito' humano como um ser em si mesmo. Ele não é! Se ele subsiste ou não à morte, é algo que não está em discussão aqui.

Mas se o espírito humano fosse um ser completo em si mesmo, seria inteligível defender a existência, por exemplo, de 'almas femininas em corpos masculinos', e a necessidade de mutilação do corpo, neste caso, para supostamente adaptar o corpo, que seria inferior, à alma, como ente superior à matéria e perfeito em si mesmo, o que soaria como um absurdo filosófico a qualquer pensador que parta de onde partimos. Ora, se a alma é simplesmente a forma do corpo, então não há nenhuma coerência em nem sequer pleitear a eventual existência de uma alma que tivesse em si mesmo uma forma diversa daquela do corpo que ela constitui. Quaisquer eventuais de ajustes de identidade, aí, estariam no plano psicológico ou emocional, e não no plano do ser’.

A essa altura, ambos os debatedores entreolharam-se, e concordaram em dizer-me simplesmente  : ‘você complica demais as coisas!’ E foram discutir em outro lugar.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/sobre-corpos-e-almas
  

domingo, 1 de março de 2015

'A alegria do Evangelho enche o coração e a vida' - Primeira pregação da Quaresma de 2015

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)


Reflexões sobre a ‘Evangelii gaudium’, do papa Francisco

‘Gostaria de aproveitar a ausência do Santo Padre, nesta primeira meditação da Quaresma, para propor uma reflexão sobre a sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (EG), que eu não me atreveria a fazer em presença dele. Não será, é claro, um comentário sistemático, e sim uma reflexão em conjunto, procurando assimilar alguns dos seus pontos cruciais.

1. O encontro pessoal com Jesus de Nazaré

Escrita em conclusão do sínodo dos bispos sobre a nova evangelização, a exortação apresenta três polos de interesse interligados : o sujeito, o objeto e o método de evangelização, ou seja, quem deve evangelizar, o que se deve evangelizar e como se deve evangelizar. Sobre o sujeito evangelizador, o papa diz que se trata de todos os batizados :
Em virtude do batismo recebido, todos os membros do povo de Deus se tornaram discípulos missionários (cf. Mt 28,19). Todo batizado, seja qual for a sua função na Igreja e o nível de instrução da sua fé, é um sujeito ativo da evangelização e seria inadequado pensar num esquema de evangelização realizado por atores qualificados e no qual o resto do povo fiel fosse apenas receptor das suas ações. A nova evangelização tem de envolver um novo protagonismo de cada um dos batizados’ (nº 120).
Esta afirmação não é nova. Ela já tinha sido feita pelo beato Paulo VI na Evangelii nuntiandi e por São João Paulo II na Christifideles laici. Bento XVI também insistiu no papel especial de evangelização reservado à família (1). Antes ainda, o chamado universal a evangelizar tinha sido proclamado pelo decreto Apostolicam actuositatem, do Concílio Vaticano II. Certa vez, ouvi um leigo norte-americano começar assim um discurso de evangelização : ‘Dois mil e quinhentos bispos, reunidos no Vaticano, me escreveram pedindo para vir anunciar o Evangelho a vocês’. Todos, é claro, ficaram curiosos para saber quem era aquele homem. E ele então, cheio de bom humor, explicou que os dois mil e quinhentos bispos eram os que tinham participado do Concílio Vaticano II e escrito o documento sobre o apostolado dos leigos. Ele estava absolutamente certo : aquele documento não era genérico, mas dirigido a todos os batizados e ele o considerava justamente como dirigido a ele em pessoa.
Não é, portanto, neste ponto que se deve procurar a novidade da EG do papa Francisco. Ele apenas reitera o que seus antecessores tinham inculcado repetidamente. A novidade tem de ser buscada em outro lugar, no apelo que ele faz aos leitores no início da carta e que, penso eu, constitui o coração de todo o documento :
Convido todos os cristãos, de todo lugar e situação, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo, ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de procurá-lo todos os dias com firmeza. Não há motivo para que alguém ache que este convite não é para ele’ (EG, nº 3).
Isto quer dizer que o objetivo último da evangelização não é a transmissão de uma doutrina, mas o encontro com uma pessoa, Jesus Cristo. A possibilidade de tal encontro cara a cara depende do fato de que, ressuscitado, Jesus está vivo e quer andar ao lado de cada crente, do mesmo jeito que andou ao lado dos dois discípulos na estrada para Emaús; mais ainda, do mesmo jeito que estava presente no coração de ambos quando eles voltavam para Jerusalém, depois de recebê-lo na partilha do pão.
Na linguagem católica, o ‘encontro pessoal com Jesus’ nunca foi um conceito muito familiar. Em vez de encontro ‘pessoal’, preferia-se a ideia do encontro eclesial, que se realiza através dos sacramentos da Igreja. A expressão evocava, aos nossos ouvidos católicos, certas ressonâncias vagamente protestantes. O papa não pensa, é claro, em um encontro pessoal que substitua o eclesial; quer apenas dizer que o encontro eclesial deve ser também um encontro livre, desejado, espontâneo, não puramente nominal, jurídico ou de mero hábito.
Para entender o que significa ter um encontro pessoal com Jesus, é preciso considerar, ainda que de modo sumário, a história da Igreja. Como é que alguém se tornava cristão nos três primeiros séculos da Igreja? Com todas as diferenças de indivíduo para indivíduo e de lugar para lugar, tornar-se cristão era algo que acontecia depois de uma longa iniciação, o catecumenato, e era fruto de uma decisão pessoal e arriscada, por causa da possibilidade do martírio.
As coisas mudaram quando o cristianismo se tornou primeiramente uma religião tolerada (Edito de Constantino, em 313) e, depois, num curto espaço de tempo, uma religião favorecida, quando não, até, imposta. No início do século VI, uma lei do imperador Teodósio permitia somente aos batizados o acesso a cargos públicos. Somou-se a isto o fato das invasões bárbaras, que, rapidamente, mudaram por completo a configuração política e religiosa do império. A Europa Ocidental se tornou um mosaico de reinos bárbaros, com uma população que em alguns casos era ariana e, na maioria dos casos, pagã.
Nas regiões do antigo império (em especial no Oriente e no centro-sul da Itália) tornar-se cristão não era mais uma decisão do indivíduo, mas da sociedade, tanto mais porque o batismo tinha passado a ser administrado principalmente às crianças. Quanto aos reinos bárbaros, imperava entre a sua população o costume de seguir a decisão do chefe. Quando, na véspera do Natal de 498 ou 499, o rei franco Clóvis foi batizado em Reims pelo bispo São Remígio, todo o seu povo o seguiu (é por isso que a França ganhou o título de ‘filha primogênita da Igreja’). Começava assim a prática do batismo em massa; bem antes da Reforma protestante, vigorava a norma ‘cuius regio eius et religio’ : a religião do rei é também a do reino.
Nesta situação, a ênfase não é mais colocada no momento e na maneira de alguém se tornar cristão, ou seja, no ato de abraçar a fé, e sim nas exigências morais da fé, na mudança de costumes; em outras palavras, na moralidade. A situação, no entanto, era menos grave do que pareceria hoje, porque, apesar de todas as incoerências que conhecemos, a família, a escola, a cultura e, aos poucos, também a sociedade ajudavam, quase espontaneamente, a absorver a fé. Sem contar que, desde o início da nova situação, tinham nascido formas de vida, tais como o monacato e, depois, as várias ordens religiosas, nas quais o batismo era vivido em toda a sua radicalidade e a vida cristã era fruto de uma decisão pessoal, muitas vezes heroica.
Esta situação de ‘cristandade’ mudou dramaticamente, mas não vem ao caso, neste momento, ilustrarmos os tempos e modos dessa mudança. Basta sabermos que não é mais como nos séculos passados, quando a maioria das nossas tradições e a nossa própria mentalidade se formou. O advento da modernidade, iniciado com o humanismo, acelerado pela Revolução Francesa e pelo Iluminismo, a emancipação do Estado em relação à Igreja, a exaltação da liberdade individual e da autodeterminação e, por fim, a secularização radical que resultou desse processo, já mudaram profundamente a situação da fé na sociedade.
Daí a necessidade urgente de uma nova evangelização, isto é, de uma evangelização cuja base seja diferente das tradicionais e que leve em conta a nova situação. Trata-se, na prática, de criar para as pessoas de hoje as oportunidades que lhes permitam tomar, neste novo contexto, a decisão pessoal livre e madura que os cristãos tomavam no início, ao receberem o batismo e se tornarem cristãos reais, não apenas nominais.

2. Como responder às novas exigências?

É claro que não somos os primeiros a levantar a questão. Para não voltar ainda mais no tempo, lembremo-nos da instituição, em 1972, do Rito da Iniciação Cristã dos Adultos, que propõe uma espécie de caminho catecumenal para o batismo dos adultos. Em alguns países de religião mista, onde muitas pessoas pedem o batismo quando adultas, este instrumento se mostrou altamente eficaz.
Mas o que fazer com a massa de cristãos já batizados que vivem como cristãos apenas de nome e não de fato, completamente alheios à Igreja e à vida sacramental? A resposta para este problema veio mais de Deus mesmo do que da iniciativa humana : são os inumeráveis movimentos eclesiais, agregações de leigos e comunidades paroquiais renovadas, surgidas depois do concílio. A contribuição conjunta de todas essas realidades, apesar da grande variedade de estilos e de número, é que elas são o contexto e o instrumento que permite que tantos adultos façam uma escolha pessoal por Cristo, uma escolha de levar a sério o seu batismo, de se tornarem membros ativos da Igreja.
São João Paulo II via nesses movimentos e comunidades paroquiais vivas ‘os sinais de uma nova primavera da Igreja’. Na Novo millennio ineunte, ele escreveu :
É de grande importância para a comunhão o dever de promover as várias realidades agregadoras, que, seja nas formas mais tradicionais, seja nas formas mais novas dos movimentos eclesiais, continuam a dar à Igreja uma vivacidade que é dom de Deus e constitui uma verdadeira ‘primavera do Espírito’(2).
Bento XVI se expressou da mesma forma em várias ocasiões. Na homilia da Missa Crismal da Quinta-Feira Santa de 2012, ele disse :
Quem olha para a história pós-conciliar é capaz de reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que, muitas vezes, tomou formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que torna quase palpáveis a vitalidade inesgotável da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo’.

3. Por que o evangelho enche de alegria o coração e a vida do crente

Voltemos agora à carta do papa Francisco. Ela começa com as palavras que inspiraram o título do documento : ‘A alegria do Evangelho enche o coração e toda a vida de quem se encontra com Jesus’. Há uma ligação entre o encontro pessoal com Jesus e a experiência da alegria do Evangelho. A alegria do Evangelho só pode ser experimentada mediante o estabelecimento de uma relação íntima, de pessoa a pessoa, com Jesus de Nazaré.
Se não queremos que as palavras sejam apenas palavras, temos de nos fazer, neste momento, uma pergunta : por que o Evangelho seria uma fonte de alegria? A expressão é apenas um slogan conveniente ou é a verdade? Mais ainda : por que o Evangelho é chamado assim, euangelion, ou seja, boa notícia, alegre e jubilosa notícia? A melhor maneira de descobrir é olhar para o momento em que esta palavra faz a sua primeira aparição no Novo Testamento, nos lábios do próprio Jesus. Marcos, no início do seu Evangelho, resume em poucas palavras a mensagem fundamental que Jesus pregava nas cidades e vilas por onde passava depois do seu batismo no Jordão :
Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia proclamando o evangelho de Deus e dizendo : O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho’ (Mc 1, 14-15).
À primeira vista, não é exatamente uma notícia ‘alegre’; soa, antes, a um chamado severo, um apelo austero à mudança. É neste sentido que ele é proposto no início da Quaresma, no Evangelho do primeiro domingo e acompanhando o rito das cinzas sobre a cabeça : ‘Convertei-vos e crede no Evangelho!’. Por isso, é vital compreender o verdadeiro significado deste início do Evangelho.
Antes de Jesus, converter-se significava ‘voltar atrás’ (como indicado pelo próprio termo usado em hebraico para esta ação : shub); significava voltar à aliança rompida, mediante uma renovada observância da lei. Diz o Senhor pela boca do profeta Zacarias : ‘Convertei-vos a mim (...), voltai atrás dos vossos caminhos perversos’ (Zc 1, 3-4; cf. ainda Jr 8, 4-5). Converter-se, por conseguinte, tem um significado principalmente ascético, moral e penitencial, e é algo que se consegue através da mudança de conduta na vida. A conversão é vista como condição para a salvação; o sentido é ‘convertei-vos e sereis salvo; convertei-vos e a salvação virá para vós’.
Este é o significado predominante da palavra conversão nos lábios de João Batista (cf. Lc 3, 4-6). Mas, nos lábios de Jesus, o significado muda; não porque Jesus gostasse de mudar o significado das palavras, mas porque, com Ele, a própria realidade mudou. O significado moral passa para segundo plano (pelo menos no início da sua pregação) em comparação com um significado novo, até então desconhecido. Converter-se não significa mais voltar atrás; significa, antes, dar um salto para frente e entrar, mediante a fé, no Reino de Deus que está presente entre os homens. Converter-se é tomar uma ‘decisão propícia’ diante da realização das promessas de Deus.
Convertei-vos e crede’ não significa duas coisas diferentes e sucessivas, mas a mesma ação : convertei-vos, ou seja, crede; convertei-vos crendo! É o que também afirma Santo Tomás de Aquino : ‘Prima conversio fit per fidem’, a primeira conversão consiste em crer (3). Conversão e salvação trocaram de lugar. Não é mais pecado - conversão - salvação (‘Convertei-vos e sereis salvos : convertei-vos e a salvação virá a vós’), mas sim pecado - salvação - conversão (‘Convertei-vos porque fostes salvos, porque a salvação já veio a vós’). Os homens não mudaram, não são melhores nem piores do que antes; é Deus quem mudou e, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho para que recebêssemos a adoção como filhos (cf. Gal 4, 4).
Muitas parábolas evangélicas reiteram este feliz anúncio inicial. Uma delas é a do banquete. Um rei ofereceu um banquete pelo casamento do filho; na hora marcada, enviou os seus servos para chamar os convidados (cf. Mt 22, 1). Os comensais não tinham pagado o preço com antecedência, como nos almoços sociais; não, o banquete é gratuito. Trata-se apenas de aceitar ou recusar o convite. Outra é a parábola da ovelha perdida. Jesus a encerra com as palavras : ‘Digo-vos, pois, que há alegria diante dos anjos de Deus por um único pecador que se converte’ (Lc 15,10). Mas em que consistiu a conversão da ovelha? Ela acaso voltou ao redil pelas próprias patas? Não, foi o pastor quem foi buscá-la e a trouxe de volta ao redil em seus ombros. Dela dependeu apenas deixar-se levar sobre os ombros.
São Paulo, em sua carta aos Romanos (3, 21 e seguintes), será o anunciante indômito dessa extraordinária novidade evangélica, depois que Jesus o fez viver a dramática experiência na própria vida. Ele relembra assim o fato que mudou o curso da sua história :
Todas essas coisas (ser circuncidado, judeu, irrepreensível quanto à observância da lei), que para mim eram lucro, eu as considerei perda por causa de Cristo. Acredito, em verdade, que tudo é perda perante a sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele eu abandonei todas essas coisas e as considero lixo para ganhar a Cristo e encontrar-me nele, tendo por minha justiça não a que vem da lei, mas a que vem da fé em Cristo, a justiça que vem de Deus, baseada na fé’ (Fil 3, 7-9).
É por isso que o Evangelho se chama Evangelho e é por isso que ele é fonte de alegria. Ele nos fala de um Deus que, por pura graça, veio ao nosso encontro em seu Filho Jesus. Um Deus que ‘amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna’ (Jo 3, 16).
Do Evangelho, muitos se lembram quase apenas da frase de Jesus : ‘Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’ (Mt 16, 24), e estão convencidos de que o Evangelho é sinônimo de sofrimento e abnegação, não de alegria. Mas acaso nos aprofundamos no chamado ‘siga-me’? Até aonde? Até o Calvário, até a morte na cruz? Não! No Evangelho, esta é a penúltima etapa, nunca a última. Siga-me, por meio da cruz, até a ressurreição, até a vida, até a felicidade sem fim!

4. A fé e as obras e o Espírito Santo

Mas será que, assim, não reduzimos o Evangelho a uma única dimensão, a da fé, negligenciando as obras? E como conciliar a explicação recém-exposta com outras passagens do Novo Testamento, onde a palavra conversão é dirigida a quem já acredita? Aos apóstolos que o seguiam já fazia tempo, Jesus disse um dia : ‘Se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus’ (Mt 18,3); João, no Apocalipse, repete a cada uma das sete igrejas o imperativo ‘converte-te’ (metanoeson), cujo sentido inequívoco é ‘volta ao fervor primitivo, sê vigilante, cumpre as obras de antes, não te aninhes na ilusão de estares bem com Deus; sai da tua mornidão!’ (cf. Ap 2-3).
Isto se explica através de uma simples analogia com o que acontece na vida física. A criança não pode fazer nada para ser concebida no seio da mãe; ela precisa do amor de pai e mãe, que lhe dão a vida; mas, uma vez dada à luz, tem de acionar os seus pulmões, respirar, sugar o leite, pois, do contrário, a vida recebida se apaga. É neste sentido que deve ser entendida a frase de São Tiago ‘A fé sem obras é morta’ (Tg 2, 26), isto é : sem as obras, a fé ‘morre’.
Este é também o sentido que a teologia católica sempre deu à definição paulina da ‘fé que se torna operosa por meio da caridade’ (Gal 5, 6). Não se é salvo pelas boas obras, mas tampouco sem as boas obras : podemos resumir assim o que diz o Concílio de Trento sobre este ponto, que o diálogo ecumênico torna cada vez mais amplamente compartilhado entre os cristãos.
A exortação apostólica do papa Francisco reflete esta síntese entre a fé e as obras. Depois de começar a falar da alegria do Evangelho que enche o coração, ele recorda, no corpo da carta, todos os grandes ‘nãos’ que o Evangelho pronuncia contra o egoísmo, a injustiça, a idolatria do dinheiro, e todo grande ‘sim’ que ele nos anima a dizer ao serviço dos outros, ao compromisso social, aos pobres. É a demonstração de que o encontro pessoal com Jesus, do qual nos falava o começo da carta, é tudo menos uma experiência privatizada e individualista; ela se torna, pelo contrário, a mola mestra da evangelização e da santificação pessoal.
A necessidade de compromisso que o Evangelho envolve não atenua, no entanto, a promessa de alegria com que Jesus abre o seu ministério e o papa a sua exortação, e sim a reforça. Aquela graça que Deus ofereceu aos homens enviando o Seu Filho ao mundo, agora que Jesus morreu, ressuscitou e enviou o Espírito Santo, não deixa o crente sozinho, em luta com as exigências da lei e do dever; ela faz nele e com ele, mediante a graça, aquilo mesmo que lhe comanda : faz com que ele ‘superabunde de alegria inclusive na tribulação’ (2 Cor 7,4).
Esta é a certeza com que o papa Francisco encerra a sua exortação. O Espírito Santo, recorda ele, ‘nos assiste em nossa fraqueza’ (Rm 8,26; EG, nº 280). Ele é o nosso grande recurso. A alegria prometida pelo Evangelho é fruto do Espírito (Gl 5, 21) e não se mantém sem que seja graças a um contato permanente com Ele.
Em recente encontro com os líderes das fraternidades carismáticas, o papa Francisco usou o exemplo do que ocorre na respiração humana (4). Ela se realiza em duas fases : a inspiração, com a qual recebemos o ar, e a expiração, com que o colocamos para fora. Elas são, dizia ele, uma bela figura do que deve acontecer no organismo espiritual. Nós inalamos o oxigênio que é o Espírito Santo através da oração, da meditação da palavra de Deus, dos sacramentos, da mortificação, do silêncio; e derramamos o Espírito quando saímos ao encontro do outro, proclamando a fé e realizando as obras da caridade.
O tempo da Quaresma, que estamos apenas começando, é, por excelência, um tempo de inspiração. Respiremos, neste tempo, profundamente; enchamos do Espírito Santo os pulmões da nossa alma, e, assim, sem percebermos, o nosso alento exalará o perfume de Cristo. Boa Quaresma a todos!'

Fonte :
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(1) Bento XVI, Discurso na Plenária do Pontifício Conselho para a Família, 2011.
(2) Novo millennio ineunte, 46.
(3) S. Tomás de Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q.113,a,4.
(4) Discurso aos membros da ‘Catholic Fraternity of Charismatic Covenant Communities and Fellowships’, sexta-feira, 31 de outubro de 2014.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

São Basílio Magno e São Gregório de Nazianzo, Bispos e Doutores da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

        Basílio nasceu em Cesaréia da Capadócia, em 330, de uma família cristã; possuidor de grande cultura e muita virtude, começou a levar vida eremítica, mas em 370 foi eleito bispo de sua cidade natal. Lutou contra os arianos; escreveu excelentes obras, sobretudo regras monásticas, observadas até hoje por muitíssimos monges do Oriente. Teve grande solicitude para com os pobres. Morreu no dia 1º de janeiro de 379.


Gregório, nascido no mesmo ano de 330 nas proximidades de Nazianzo, empreendeu muitas viagens com o intuito de adquirir ciência. Acompanhou seu amigo Basílio à solidão, mas foi ordenado presbítero e bispo. Em 381 foi designado bispo de Constantinopla; contudo, devido a divisões existentes naquela Igreja, retirou-se para Nazianzo. Aí morreu no dia 25 de janeiro de 389 ou 390. Pela profundidade de sua doutrina e encanto da sua eloquência, foi cognominado ‘o teólogo’.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Basílio e
São Gregório Nazianzo, Bispos e Doutores da Igreja  :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo
(Oratio 43, in laudem Basilii Magni, 15,16-17.19-21 : PG 36,514-523)  
(Sec. IV)

Como uma só alma em dois corpos
Encontramo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo da única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões. Mas voltamos a nos reunir como se nos tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis.

Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação.

Que acontece então? Ele foi quase o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato. Este foi o prelúdio de nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo.

Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo : a filosofia era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando aos mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade.

Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável : A ciência; no entanto, não tínhamos inveja, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro.

Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos. E embora não se deva dar crédito àqueles que dizem que tudo se encontra em todas as coisas, ao nosso caso podia se afirmar que de fato cada um se encontrava no outro e com o outro.

A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro regra e o modelo para discernir o certo e o errado.

Assim como cada pessoa tem um sobrenome recebido de seus pais ou adquirido de si próprio, isto é, por causa da atividade ou orientação de sua vida, para nós a maior atividade e o maior nome era sermos realmente cristãos e como tal reconhecidos.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas I’, 1111, 1113
  

terça-feira, 16 de setembro de 2014

São Roberto Belarmino, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
   
São Roberto Belarmino, de quem desejo falar-vos hoje, leva-nos com a memória ao tempo da dolorosa cisão da cristandade ocidental, quando uma grave crise política e religiosa provocou a separação de nações inteiras da Sé Apostólica.

Nasceu a 4 de Outubro de 1542 em Montepulciano, nos arredores de Sena, e era sobrinho por parte da mãe do Papa Marcelo II. Recebeu uma excelente formação humanística antes de entrar na Companhia de Jesus, a 20 de Setembro de 1560. Os estudos de filosofia e teologia, que completou entre o Colégio Romano, Pádua e Lovain, centrados sobre São Tomás e os Padres da Igreja, foram decisivos para a sua orientação teológica. Ordenado sacerdote a 25 de Março de 1570, foi durante alguns anos professor de teologia em Lovain. Sucessivamente, tendo sido chamado a Roma como professor no Colégio Romano, foi-lhe confiada a cátedra de ‘Apologética’; na década em que desempenhou tal cargo (1576–1586), elaborou um curso de lições que depois confluíram nas Controversiae, obra que se tornou imediatamente célebre pela clareza e riqueza de conteúdo e pela sua tonalidade predominantemente histórica. O Concílio de Trento tinha terminado há pouco tempo e para a Igreja católica era necessário revigorar e confirmar a sua identidade, também em relação à Reforma protestante. A obra de Belarmino inseriu-se neste contexto. De 1588 a 1594 foi inicialmente padre espiritual dos estudantes jesuítas do Colégio Romano, entre os quais encontrou e orientou São Luís Gonzaga, e depois superior religioso. O Papa Clemente VIII nomeou-o teólogo pontifício, consultor do Santo Ofício e reitor do Colégio dos Penitenciários da Basílica de São Pedro. Ao biénio de 1597–1598 remonta o seu catecismo, Doutrina cristã breve, que foi a sua obra mais popular.

No dia 3 de Março de 1599 foi criado cardeal pelo Papa Clemente VIII e, a 18 de Março de 1602, nomeado arcebispo de Cápua. Recebeu a ordenação episcopal em 21 de Abril desse mesmo ano. Durante os três anos em que foi bispo diocesano, distinguiu-se pelo zelo de pregador na sua catedral, pela visita que realizava semanalmente às paróquias, pelos três Sínodos diocesanos e um Concílio provincial que promoveu. Depois de ter participado nos conclaves que elegeram Papas Leão XI e Paulo V, foi novamente chamado a Roma, para ser membro das Congregações do Santo Ofício, para o Índex, os Ritos, os Bispos e a Propagação da Fé. Desempenhou inclusive funções diplomáticas, junto da República de Veneza e da Inglaterra, em defesa dos direitos da Sé Apostólica. Nos seus últimos anos, compôs vários livros de espiritualidade, nos quais condensou o fruto dos seus exercícios espirituais anuais. Com a sua leitura o povo cristão ainda hoje se sente muito edificado. Faleceu em Roma, no dia 17 de Setembro de 1621. O Papa Pio XI beatificou-o em 1923, canonizou-o em 1930 e proclamou-o Doutor da Igreja em 1931.

São Roberto Belarmino desempenhou um papel importante na Igreja das últimas décadas do século XVI e do início do século seguinte. As suas Controversiae constituem um ponto de referência, ainda hoje válido, para a eclesiologia católica sobre as questões relativas à Revelação, à natureza da Igreja, aos Sacramentos e à antropologia teológica. Nelas é acentuado o aspecto institucional da Igreja, por causa dos erros que então circulavam a propósito de tais questões. Todavia, Belarmino esclareceu também os aspectos invisíveis da Igreja como Corpo místico e explicou-os com a analogia do corpo e da alma, com a finalidade de descrever a relação entre as riquezas interiores da Igreja e os aspectos exteriores que a tornam perceptível. Nesta obra monumental, que procura sistematizar as várias controvérsias teológicas dessa época, ele evita toda a abordagem polémica e agressiva em relação às ideias da Reforma, mas utilizando os argumentos da razão e da Tradição da Igreja, ilustra a doutrina católica de modo claro e eficaz.

Todavia, a sua herança consiste no modo como concebeu o seu trabalho. Com efeito, as onerosas funções de governo não o impediram de tender, quotidianamente, para a santidade com a fidelidade às exigências da própria condição de religioso, sacerdote e bispo. É desta fidelidade que provém o seu compromisso na pregação. Dado que, como sacerdote e bispo, é antes de tudo um pastor de almas, sentia o dever de pregar assiduamente. Pregou centenas de sermones — homilias — na Flandres, em Roma, em Nápoles e em Cápua, por ocasião das celebrações litúrgicas. Não menos abundantes são as suas exposições e explanações aos párocos, às religiosas e aos estudantes do Colégio Romano, que têm com frequência como objecto a Sagrada Escritura, especialmente as Cartas de São Paulo. A sua pregação e as suas catequeses apresentam aquela mesma índole de essencialidade, que tinha aprendido da educação inaciana, inteiramente destinada a concentrar as forças da alma sobre o Senhor Jesus, intensamente conhecido, amado e imitado.

Nos escritos deste homem de governo sente-se de modo muito claro, apesar da reserva por detrás da qual ele esconde os seus sentimentos, o primado que ele assegura aos ensinamentos de Cristo. Assim, São Roberto Belarmino oferece um modelo de oração, alma de todas as actividades : uma oração que ouve a Palavra do Senhor, que se satisfaz ao contemplar a sua grandeza, que não se fecha em si mesma, mas tem a alegria de se abandonar a Deus. Um sinal distintivo da espiritualidade de Belarmino é a percepção viva e pessoal da imensa bondade de Deus, pelo que o nosso santo se sentia verdadeiramente filho amado de Deus e o recolher-se com serenidade e simplicidade, em oração, em contemplação de Deus era para ele fonte de grande alegria. No seu livro De ascensione mentis in Deum — Elevação da mente a Deus — composto segundo o esquema do Itinerarium de São Boaventura, exclama : ‘Ó alma, o teu exemplar é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Eleva os olhos a Deus, em quem se encontram os arquétipos de todas as coisas e do qual, como de uma fonte de fecundidade infinita, deriva esta variedade quase infinita das coisas. Portanto, deve concluir : quem encontra Deus, encontra tudo; quem perde Deus, perde tudo’.

Neste texto sente-se o eco da célebre contemplatio ad amorem obtineundum — contemplação para alcançar o amor — dos Exercícios espirituais de santo Inácio de Loyola. Belarmino, que vive na sociedade opulenta e frequentemente malsã do último período do século XVI e do primeiro período do século XVII, desta contemplação haure aplicações práticas e projecta a situação da Igreja do seu tempo com um vigoroso ímpeto pastoral. No livro De arte bene moriendi — A arte de morrer bem — por exemplo, indica como norma segura do bom viver, e também do bom morrer, a meditação frequente e séria, de que se deverá prestar contas a Deus das próprias acções e do próprio modo de viver, e procurar não acumular riquezas nesta terra, mas viver com simplicidade e com caridade, de maneira a acumular bens no Céu. No livro De gemitu columbae — O gemido da pomba, onde a pomba representa a Igreja — exorta com força o clero e todos os fiéis a uma reforma pessoal e concreta da própria vida, seguindo aquilo que ensinam a Escritura e os Santos, entre os quais em particular São Gregório de Nazianzo, São João Crisóstomo, São Jerónimo e Santo Agostinho, além dos grandes fundadores de Ordens religiosas, como Bento, São Domingos e São Francisco. Belarmino ensina com grande clareza e com o exemplo da sua própria vida, que não pode haver uma verdadeira reforma da Igreja, se antes não houver a nossa reforma pessoal e a conversão do nosso coração.

Dos exercícios espirituais de Santo Inácio, Belarmino hauria conselhos para comunicar de modo profundo, até aos mais simples, a beleza dos mistérios da Fé. Ele escreve : ‘Se tens sabedoria, compreendes que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. Esta é a tua finalidade, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração. Por isso, considera verdadeiro bem para ti aquilo que te conduz para o teu fim, e verdadeiro mal aquilo que te priva dele. Acontecimentos prósperos ou adversos, riquezas e pobrezas, saúde e doença, honras e ofensas, vida e morte, o sábio não deve procurá-los nem rejeitá-los para si mesmo. Mas só são bons e desejáveis, se contribuírem para a glória de Deus e para a tua felicidade eterna; são maus e devem ser evitados, se a impedirem’ (De ascensione mentis in Deum, grad. 1).

Obviamente, não se trata de palavras que passaram de moda, mas palavras que hoje devemos meditar prolongadamente, para orientar o nosso caminho nesta terra. Elas recordam-nos que a finalidade da nossa vida é o Senhor, o Deus que se revelou em Jesus Cristo, em quem Ele continua a chamar-nos e a prometer-nos a comunhão com Ele. Estas palavras recordam-nos a importância de confiar no Senhor, de levar uma vida fiel ao Evangelho, de aceitar e iluminar com a fé e com a oração todas as circunstâncias e todas as obras da nossa vida, sempre orientados para a união com Ele. Amém!’

 (23 de fevereiro de 2011)

Fonte :
* Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.