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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Via da misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Esse caminho está na contramão da perversidade e da indiferença. Envolvendo corações e mentes, esses males marcam os tempos atuais com os frutos da insanidade e da ignorância, insensíveis às muitas possibilidades para os avanços humanitários, sociais e políticos. A misericórdia é, assim, remédio indispensável, lição inigualável.

Quando um coração é forjado pela misericórdia, torna-se base para uma mente límpida, orientada para a fraternidade solidária, repleta de uma luz que inspira a inteligência e a sabedoria, qualidades indispensáveis em qualquer momento da história. Afinal, a desastrosa percepção dos mais diferentes processos é um tipo de cegueira que causa confusões, leva a decisões equivocadas, à falta de senso crítico sobre as próprias atitudes.

Percorrer a via da misericórdia é necessário treinamento para se conquistar a competente compreensão a respeito de si e do outro. Permite reconhecer a vida de cada pessoa como dom. É, pois, atitude fundamental para se administrar, com equilíbrio, a própria vida. Caminho que consolida a justiça, pois conduz ao compromisso com a verdade, o bem comum, a honestidade. Quem se aproxima do amor misericordioso de Deus, revelado em Jesus Cristo, desenvolve o gosto pela honestidade, não alimenta qualquer tipo de orgulho ou ilusória concepção sobre si.

Sem a via da misericórdia, tudo se enfraquece. A religiosidade deixa de contribuir para que a sociedade alcance nova etapa de seu desenvolvimento. As famílias, que deveriam ser ambiente para muitos aprendizados, ficam desfiguradas. Buscar a misericórdia não é, pois, um passeio sem propósito. É experiência renovadora, a partir do encontro com Jesus Cristo, o rosto misericordioso de Deus-Pai. Um acontecimento capaz de corrigir muitos descompassos, a exemplo do costume de se alegrar, perversamente, com o fracasso dos outros. As lições de Jesus Cristo salvam a humanidade também de males que afligem a alma, tornando-a suscetível a sofridas depressões.  Quem segue o Mestre, rosto da misericórdia divina, não desiste de viver, pois passa a reconhecer a própria existência como dom. Cultiva especial apreço à vida de todos, acima de qualquer interesse egoísta que possa levar a disputas insanas.

Nesse horizonte, compreende-se a oportunidade singular oferecida na Semana Santa: buscar a misericórdia seguindo os passos do Mestre, na sua paixão, morte e ressurreição, a partir das celebrações e da escuta da Palavra de Deus. A Semana Santa condensa lições essenciais que, se aprendidas por todos, permitem o surgimento de uma humanidade nova, solidária. Jesus é único e seus ensinamentos são a verdadeira sabedoria. Todos aproveitem a chance de fixar o olhar em Cristo, para percorrer com Ele a via da misericórdia. Assim, cada pessoa tem a oportunidade de unir-se a Deus, abrir o próprio coração para o amor, que transforma, produz sabedoria, permite discernimentos e escolhas acertadas.

Os atos de Jesus são permeados de compaixão, que não pode ser confundida com fraqueza. Trata-se de corajosa fidelidade à verdade e ao bem de todos.  Acolher suas palavras, silenciar ante seus sofrimentos e sua morte expiatória, refletindo sobre os preciosos ensinamentos reunidos na Bíblia, a exemplo dos que estão concentrados no Sermão da Montanha, é passo importante para percorrer a via da misericórdia junto com Cristo. A humanidade precisa, com urgência, trilhar esse caminho. Seja, pois, compromisso de todos, percorrer a via da misericórdia para aproximar-se de Deus e aprender com o seu amor.’


Fonte :

sexta-feira, 23 de março de 2018

O remédio da compaixão


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  ÃƒÂ‰ preciso um remédio que tenha força de ação no coração humano.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


 ‘Causam perplexidade a crescente violência e a força destruidora das indiferenças. As perseguições e o gosto mórbido de se destruir reputações ou tratar, com espetacularização, a condição humana são graves ameaças. E diante deste turbulento cenário, ainda surgem figuras que se apresentam como a ‘força da moralização’, mas agem com truculência e se autopromovem a partir da disseminação de notícias falsas, criando confusões e semeando desarranjos. Há, assim, uma retroalimentação das hostilidades, disputas, revides e, de modo preocupante, do espírito doentio daqueles que querem ver ‘o circo pegar fogo’.

Constata-se que o coração das pessoas, projetado para ser da paz, se transforma em lugar que abriga sentimentos de vingança, de apreço ao banditismo. Distancia-se, assim, do sentido humanístico indispensável para alimentar a fraternidade e a solidariedade. O processo crescente de desumanização conduz a sociedade ao colapso. Os cenários são de guerra, o que é comprovado pelas estatísticas sobre homicídios provocados pela falta de compromisso com a sacralidade da vida do outro, que é irmão.

Na contramão da indispensável e urgente sensibilização humana, o que se verifica é um processo de petrificação dos corações, uma patologia. Afinal, quem cultiva o hábito de praticar maldades é doente. As práticas que, apesar de sedutoras, levam pessoas e instituições ao fracasso, são também indicações do grave sintoma da devastação das referências humanísticas. Há uma perda de limites : as consequências dos atos inadequados e imorais sequer são consideradas. Isso decorre da falta de compromisso com a honestidade. A probidade, que deveria ser norteadora de condutas, não tem seu valor reconhecido.

Uma sociedade vivida neste horizonte confuso não tem força para recuperar-se de crises. Carece de sabedoria para reencontrar caminhos e respostas. E as pessoas não conseguem perceber o sentido e o alcance da vida como dom. Pelo contrário, as condutas ficam emolduradas pelos estreitamentos humanísticos que levam a cidadania a ser palco de teatralizações.  Consequentemente, a vida cotidiana distancia-se da felicidade, possível quando todos se reconhecem como pertencentes a uma grande família – todos se percebendo como irmãos uns dos outros.

É preciso um remédio que tenha força de ação no coração humano. É lá que reside o problema. Chegue, pois, aos corações, o remédio da compaixão, capaz de fazê-lo sede da experiência do amor.  Os processos que tendem a brutalizar o coração humano precisam ser debelados. Isso inclui investimentos em segurança pública, legislações, infraestrutura e, principalmente, promover, no ambiente familiar, religioso, entre tantos outros, o remédio da compaixão. A compaixão permite o desenvolvimento de competências, de responsabilidades, a recuperação do sentido de irmandade, a alegria do pertencimento a um povo, o gosto de zelar por seu patrimônio e o comprometimento com aqueles que precisam de ajuda. A patologia do embrutecimento, por sua vez, leva à perda do sentido mais profundo da vida, causando sequelas e trazendo prejuízos preocupantes - mortes, suicídios, violências de todo tipo, indiferenças destruidoras. Por isso mesmo, precisa ser tratada com o remédio da compaixão.

A compaixão não é fraqueza, menos ainda conivência com os erros que requerem penas e correções. A aprendizagem e a prática da compaixão, legado próprio da espiritualidade cristã, é o remédio que trata o coração humano, fonte inesgotável para se lavar e se purificar. É preciso reconhecer-se como necessitado desse remédio. Vivenciar a Semana Santa, seguindo os passos de Jesus Cristo - a compaixão - é tomar esse remédio para curar-se de muitos males, caminho para se tornar agente construtor de uma vida nova, de um tempo novo e um exercício que permite educar o coração para reconhecer a importância do outro, principalmente de quem é pobre e indefeso.

Limpar o coração de mágoas que geram vinganças e ressentimentos. Cultivar o gosto pelo bem e pela verdade. Compreender a vida como dom. Abrir um ciclo novo para a própria vida, na vivência e celebração da Semana Maior, a Semana Santa. Eis o convite : o remédio da compaixão!


Fonte :




terça-feira, 11 de abril de 2017

A Festa da Páscoa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Jacques Goettmann,
teólogo e sacerdote cristão ortodoxo
(1921 – 2002)


‘A Grande Semana ou a Semana Santa, ressonância e réplica dos sete dias da Criação se aproxima. Se, durante estes sete dias concentrarmos nosso olhar sobre o Filho do Homem, sobre cada um dos seus gestos e palavras, de sua Paixão, e se ao mesmo temos descobrirmos em nós mesmos as atitudes contraditórias de Pedro que O negou, dos discípulos que tiveram medo, dos sacerdotes que O condenaram, dos soldados que O torturaram sem nada entender e também, de João que O seguia em silêncio, de Maria e das outras mulheres que Lhe davam sua amorosa presença, então vamos penetrar e permanecer em um espaço e em um tempo novos. Tempo e espaço do Mistério deslumbrante da Vida Nova que sai da morte amarga e velha : Mistério da transfiguração do homem e da criação.

«Destruís este Templo e em três dias eu o reconstruirei», dizia Jesus. São João comenta em seu Evangelho : «Ele falava do templo do seu Corpo... e, quando se levantou dentre os mortos, seus discípulos se recordaram de suas palavras» (Jo 2, 19-22). O templo do homem, nosso corpo, nossa alma, nosso espírito, nossa pessoa, tantas vezes «desumanizado», freqüentemente é transformado em casa de comércio ou em covas de ladrões; a arquitetura da Criação, a sinfonia do Universo, tão arruinada, tão desafinada, tão corrompida. É este o templo que Jesus Cristo está levantando conosco, seus discípulos, em três dias que são os dias mais longos e decisivos da história de nossa vida.


A Sexta Feira Santa

Cristo se enfrenta voluntariamente com a morte. Não morre por acidente ou enfermidade, por velhice ou desespero, mas por uma força maior, a força do amor. Manifestou-a algumas horas antes em sua última Ceia com palavras jamais ouvidas (Jo 13-17) e pelo dom de seu Corpo e Sangue. Não suprime nossa morte física, mas por sua vitória na Árvore da Cruz, nos dá poder sobre a morte : podemos agora encará-la de maneira nova e concebê-la como porta de um novo nascimento que já começou, abrindo-nos o caminho para uma nova vida. É o «dia das dores do parto».


O Sábado Santo

Cristo desce aos Infernos, à região dos mortos que esperam nas trevas, ao inferno de nossos terrores inconscientes, ao inferno de nosso mundo violento, angustiado e frustrado. Seu Corpo descansa silencioso no sepulcro e seu Espírito se abandona às mãos do Pai. Deste silêncio nos grita : «Venci o mundo, derrotei o Inferno e venho ressuscitar-vos comigo». É o dia da espera e da esperança.


A Noite Pascal

A Noite Pascal inaugura o Terceiro Dia, o Domingo da Páscoa. Entre todas as noites, é a noite mais misteriosa, deslumbrante e criadora : «Cristo ressuscitou! Em verdade ressuscitou!». Este grito se multiplica e repercute mil vezes entre os que se dão o beijo pascal. Tudo é perdoado, tudo é renovado, tudo é possível, pois nossa carne humana venceu a morte e recebeu já o gérmen da transfiguração na Luz Incriada. Se queremos seguir o caminho do Cristo e lhe dar nossa fé pessoal, não seremos enganados, mas transformados, e não morreremos jamais de uma morte sem saída. O Cristo volta a seu Pai e junto a Ele nos envia o Espírito Santo para nos comunicar as energias divinas, a Vida Nova.

Que esta Páscoa, estes dias de Morte e Ressurreição, esta Festa única entre todas as festas, seja para todos nós um tempo novo e novo espaço. «Este é o dia que o Senhor nos fez, dia de Alegria e de júbilo».’


Fonte :


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Perdão e Semana Santa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Artur da Távola,
advogado, jornalista, radialista, escritor, professor e político


Como é difícil perdoar!

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão. A maioria pensa que é forma de anistia do sentimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso. Este primeiro degrau do perdão já é difícil de ser galgado. E a propósito da Semana Santa, quero dizer o seguinte: O verdadeiro sentido da revolução cristã do perdão, porém, é outro, e bem mais radical: mais que ausência de ódio no coração do ofendido, o perdão é ação de amor na direção do ofensor. O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. Perdoar é per+doar, isto é, ‘doar amor através (per) do ofensor’.


Perdoar é doar amor através do ofensor

Quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, os quatro caminhos através dos quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida. Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança aferra a crueldade do ofensor e, de certa forma, fá-lo sentir-se justificado.

A doação objetiva e concreta de amor poderá não ser eficaz, adiante, porém é a única forma através da qual o ofensor tem a chance de se arrepender sinceramente e reencontrar um caminho que lhe faz falta e é a única maneira de se redimir, crescer como pessoa, transformar-se.

Ser bom, fazer-se seguidor das religiões, sentir-se justo, fraterno, solidário, honesto, tudo isso - embora exija esforços - é relativamente fácil e em geral alimenta o ego. Difícil é perdoar o ofensor, não apenas desculpando-o, mas sendo capaz de o amar na integralidade do seu ser. Por isso, aliás, o cristianismo em essência encontra tanta dificuldade de se implantar entre os homens : exige a descoberta da grandeza humana, da virtude no sentido de exercício da única força capaz de mudar o mundo : o amor real. Não há revolução maior. Quem é capaz?’


Fonte :