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sexta-feira, 11 de março de 2016

'Matrimônio e família' - Quarta pregação da Quaresma de 2016

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)

Reflexão sobre o matrimônio e a família na ‘Gaudium et Spes’ e no hoje
Dedico esta meditação a uma reflexão espiritual sobre a Gaudium et Spes, constituição pastoral sobre a Igreja no mundo. Dos vários problemas da sociedade abordados neste texto conciliar – cultura, economia, justiça social, paz –, o mais atual e problemático é o do matrimônio e família. A ele a Igreja dedicou os dois últimos sínodos dos bispos. A maioria de nós aqui presentes não vive diretamente esse estado de vida, mas todos temos de conhecer os seus problemas para compreender e ajudar a grande maioria do povo de Deus que vive no matrimônio, especialmente agora que ele está no centro de ataques e ameaças de todas as partes.
A Gaudium et Spes trata a fundo da família no início da segunda parte (núm. 46-53). Não há necessidade de citar as suas declarações, que refletem a doutrina católica tradicional que todos nós conhecemos, além do novo destaque dado ao amor mútuo entre os cônjuges, abertamente reconhecido como um bem do matrimônio, também este primário, junto com a procriação.
Sobre o matrimônio e a família, a Gaudium et Spes, de acordo com o seu bem conhecido procedimento, destaca antes de tudo as conquistas positivas do mundo moderno (‘as alegrias e as esperanças’), e, em segundo lugar, os problemas e os perigos (‘as tristeza e as angústias’). Eu proponho seguir o mesmo método, tendo em conta, no entanto, as mudanças dramáticas que ocorreram neste campo ao longo do meio século transcorrido desde então. Evocarei rapidamente o desígnio de Deus sobre matrimônio e família, porque é sempre dele que nós, crentes, devemos partir, para em seguida ver o que a revelação bíblica pode trazer para a solução dos problemas atuais. Deliberadamente me abstenho de tocar alguns problemas particulares discutidos no sínodo dos bispos, sobre os quais só o Papa tem agora o direito de ainda dizer alguma palavra.

Matrimônio e família no projeto divino e no Evangelho de Cristo
O livro do Gênesis tem dois relatos diferentes da criação do primeiro casal humano, que remontam a duas tradições diferentes : a javista (século X a.C.) e a mais recente (século VI a.C.), chamada de ‘sacerdotal’. Na tradição sacerdotal (Gênesis 1, 26-28), o homem e a mulher são criados simultaneamente, não um do outro; há uma relação entre ser homem e mulher e ser à imagem de Deus : ‘Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou’. O fim primário da união entre o homem e a mulher é visto no serem fecundos e encherem a terra.
Na tradição javista, que é a mais antigo (Gn 2, 18-25), a mulher vem do homem; a criação dos dois sexos é vista como um remédio para a solidão (‘Não é bom que o homem esteja só; vou lhe dar uma ajuda que lhe seja semelhante’); mais que o fator da procriação, acentua-se o fator unitivo (‘o homem se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne’); cada um é livre diante da própria sexualidade e da sexualidade do outro : ‘ambos estavam nus, o homem e sua mulher, mas não se envergonhavam’.
A explicação mais convincente do porquê desta ‘invenção’ divina da distinção dos sexos eu encontrei não num exegeta, mas em um poeta, Paul Claudel :
O homem é um ser orgulhoso; não havia outra maneira de fazê-lo compreender o próximo senão fazê-lo vir da sua carne; não havia outra maneira de fazê-lo entender a dependência e a necessidade se não mediante a lei sobre ele deste ser diferente [a mulher], devida ao simples fato de que esse ser existe[1].
Abrir-se ao outro sexo é o primeiro passo para se abrir ao outro que é o próximo, até o Outro com letra maiúscula que é Deus. O matrimônio nasce sob o signo da humildade; é reconhecimento de dependência e, portanto, da própria condição de criatura. Enamorar-se de uma mulher ou de um homem é fazer o ato mais radical de humildade. É tornar-se mendicante e dizer ao outro : ‘Eu não basto para mim mesmo; eu preciso do teu ser’. Se, como pensava Schleiermacher, a essência da religião consiste no ‘sentimento de dependência’ (Abhaengigheitsgefühl) perante Deus, então podemos dizer que a sexualidade humana é a primeira escola da religião.
Até aqui, o projeto de Deus. Não é explicável o resto da própria Bíblia, no entanto, se, junto com o relato da criação, não se leva em conta ainda o da queda, em especial o que é dito à mulher : ‘Multiplicarei as tuas dores; na dor darás à luz os filhos. Ao teu marido se voltará o teu instinto, mas ele te dominará’ (Gn 3,16). O predomínio do homem sobre a mulher faz parte do pecado do homem, não do projeto de Deus; com aquelas palavras, Deus o prenuncia, não o aprova.
A Bíblia é um livro divino-humano não só porque tem como autores Deus e o homem, mas também porque descreve, misturadas entre si, a fidelidade de Deus e a infidelidade do homem. Isto é particularmente evidente quando se compara o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família com a sua aplicação prática na história do povo escolhido. Para ficar no livro do Gênesis, o filho de Caim, Lameque, já viola a lei da monogamia tomando duas esposas. Noé, com a sua família, se mostra uma exceção em meio à corrupção geral do seu tempo. Os mesmos patriarcas Abraão e Jacó têm filhos com mais de uma mulher. Moisés autoriza a prática do divórcio; Davi e Salomão mantêm um verdadeiro harém de mulheres.
Mais do que nas transgressões práticas específicas, o afastamento do ideal inicial é visível na concepção de fundo que se tem do matrimônio em Israel. O principal obscurecimento se refere a dois pilares. O primeiro é que o matrimônio, de fim, se torna meio. O Antigo Testamento, como um todo, considera o matrimônio como uma estrutura de autoridade patriarcal, destinada principalmente à perpetuação do clã. Neste sentido, devem ser entendidas as instituições do levirato (Dt 25, 5-10), do concubinato (Gn 16) e da poligamia provisória. O ideal de uma comunhão de vida entre o homem e a mulher, fundada em uma relação pessoal e recíproca, não é esquecido, mas passa a segundo plano em relação ao bem da prole. O segundo grande obscurecimento se refere à condição da mulher : de companheira do homem, dotada de igual dignidade, ela aparece cada vez mais subordinada ao homem e em função do homem.
Um papel importante em manter vivo o projeto inicial de Deus sobre o matrimônio é desempenhado pelos profetas, em especial Oseias, Isaías, Jeremias e o Cântico dos Cânticos. Assumindo a união do homem e da mulher como símbolo da aliança entre Deus e seu povo, eles recolocavam em primeiro plano os valores do amor mútuo, da fidelidade e da indissolubilidade que caracterizam a atitude de Deus para com Israel.
Jesus, que veio ‘recapitular’ a história humana, recapitula também o matrimônio.
Alguns fariseus se aproximaram então para testá-lo e lhe perguntaram : É lícito a um homem repudiar a sua mulher por qualquer motivo? E ele respondeu : Não lestes que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher (Gn 1, 27) e disse : Por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? (Gn 2, 24). Eles não são mais dois, e sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe’ (Mt 19,3-6).
Os adversários se situam no âmbito estreito da casuística de escola (se é lícito repudiar a mulher por qualquer motivo ou se é preciso um motivo específico e sério). Jesus responde desde o início a partir da raiz do problema. Em sua citação, Jesus se refere aos dois relatos da instituição do matrimônio, toma elementos de um e do outro, mas destaca especialmente o aspecto da comunhão das pessoas.
O que se segue no texto, sobre o problema do divórcio, também vai nessa direção; reafirma a fidelidade e a indissolubilidade do vínculo matrimonial acima do próprio bem da prole, que, no passado, fora usado para justificar poligamia, levirato e divórcio :
Eles objetaram : Por que então Moisés ordenou dar-lhe carta de repúdio e mandá-la embora? Jesus lhes respondeu : Por causa da dureza do vosso coração Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas no princípio não foi assim. Por isso vos digo que qualquer um que repudia a sua mulher, exceto em caso de concubinato, e se casa com outra comete adultério’ (Mt 19, 7-9).
O texto paralelo de Marcos mostra que, mesmo em caso de divórcio, o homem e a mulher se colocam, de acordo com Jesus, em rigoroso pé de igualdade : ‘Quem repudia a sua mulher e se casa com outra comete adultério contra ela; e se ela repudia o marido e se casa com outro, comete adultério’ (Mc 10, 11-12).
Com as palavras ‘O que Deus uniu, o homem não separe’, Jesus afirma que há uma intervenção direta de Deus em toda união matrimonial. A elevação do matrimônio a ‘sacramento’, isto é, a sinal de uma ação de Deus, não se alicerça, portanto, unicamente no frágil argumento da presença de Jesus nas bodas de Caná e no texto da carta aos Efésios que fala do matrimônio como de um reflexo da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 32); começa, implicitamente, com o Jesus terreno e faz parte da sua religação das coisas com o início. João Paulo II define o matrimônio como o ‘sacramento mais antigo’ [2].

O que o ensinamento bíblico nos diz hoje
Esta é, em resumo, a doutrina da Bíblia, mas não podemos deter-nos nela. ‘A Escritura – dizia São Gregório Magno – cresce com quem a lê’ (cum legentibus crescit) [3]; revela novas implicações à medida que novas perguntas são feitas. E, hoje, as novas perguntas, ou provocações, sobre matrimônio e família são muitas.
Estamos diante de uma contestação aparentemente global do projeto bíblico sobre sexualidade, matrimônio e família. Como comportar-se em face deste fenômeno inquietante? O concílio abriu um método novo que é de diálogo, não de confronto com o mundo; um método que não exclui a autocrítica. Devemos, penso eu, aplicar este método também à discussão dos problemas do matrimônio e da família. Aplicar este método de diálogo significa tentar ver se, mesmo no fundo das contestações mais radicais, não há uma instância positiva a ser acolhida.
A crítica ao modelo tradicional de matrimônio e família que levou às hodiernas e inaceitáveis propostas de desconstrucionismo começou com o iluminismo e o romantismo. Com intenções diversas, esses dois movimentos se expressaram contra o matrimônio tradicional visto exclusivamente nos seus ‘fins’ objetivos : a prole, a sociedade, a Igreja, e não o suficiente em si mesmo, no seu valor subjetivo e interpessoal. Tudo se exigia dos futuros cônjuges exceto que se amassem e se escolhessem livremente entre si. Ainda hoje, em muitas partes do mundo, há casais que se conhecem e se veem pela primeira vez no dia das núpcias. A tal modelo, o iluminismo opôs o matrimônio como pacto entre os cônjuges e o romantismo como comunhão de amor entre os esposos.
Mas esta crítica não vai contra a Bíblia, e sim a favor do seu sentido original! O concílio Vaticano II recebeu esta instância quando reconheceu como bem igualmente primário do matrimônio o amor e ajuda mútuos entre os cônjuges. São João Paulo II, na linha da Gaudium et Spes, em uma das suas catequeses das quartas-feiras, disse :
O corpo humano, com o seu sexo, e a sua masculinidade e feminilidade (…) é não apenas fonte de fecundidade e de procriação, como em toda a ordem natural, mas inclui, desde o início, o atributo esponsal, isto é, de expressar o amor : aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom e, através desse dom, cumpre o próprio sentido do seu ser e existir[4].
Em sua encíclica ‘Deus Caritas Est’, o papa Bento XVI foi além, escrevendo coisas profundas e novas sobre o eros no matrimônio e até nas relações entre Deus e o homem. ‘Esta estreita ligação entre eros e matrimônio na Bíblia quase não tem paralelos na literatura’, escreveu ele [5]. Um dos maiores erros que cometemos para com Deus é transformar tudo o que diz respeito ao amor e à sexualidade em uma área saturada de malícia, onde Deus não deve entrar. Como se satanás, e não Deus, fosse o criador dos sexos e o especialista no amor.
Nós, crentes – e muitos não crentes – estamos longe de aceitar as consequências que alguns tiram hoje destas premissas : por exemplo, que bastaria qualquer tipo de eros para constituir um matrimônio, inclusive o de pessoas do mesmo sexo; mas essa nossa discordância assume outra força e credibilidade quando unida ao reconhecimento da bondade de fundo da instância, e também a uma sadia autocrítica.
Não podemos silenciar a contribuição que os cristãos deram à formação dessa visão puramente objetivista do matrimônio contra a qual a cultura ocidental moderna se lançou com veemência. A autoridade de Agostinho, reforçada neste ponto por Tomás de Aquino, tinha acabado jogando uma luz negativa na união carnal dos cônjuges, considerada o meio de transmissão do pecado original e não isenta, em si mesma, de pecado ‘ao menos venial’. De acordo com o doutor de Hipona, cônjuges deveriam realizar o ato conjugal ‘com pesar’ (cum dolore) e só porque não havia outra maneira de dar cidadãos ao Estado e membros à Igreja [6].
Outra instância moderna que podemos tornar nossa própria é a da igual dignidade da mulher no matrimônio. Essa igualdade, como vimos, está no cerne do projeto originário de Deus e do pensamento de Cristo, mas foi muitas vezes desatendida ao longo dos séculos. A palavra de Deus a Eva, ‘Ao homem se voltará o teu desejo e ele te dominará’, teve cumprimento trágico na história.
Nos representantes da chamada ‘revolução dos gêneros’, esta instância levou a propostas insanas, como a de abolir a distinção dos sexos e substituí-la pela mais elástica e subjetiva distinção de ‘gêneros’ (masculino, feminino, variável), ou a de libertar as mulheres da ‘escravidão da maternidade’, prevendo outros meios, inventados pelo homem, para o nascimento dos filhos. Nos últimos tempos há uma sucessão de notícias de que homens em breve poderão ficar grávidos e dará à luz um filho. ‘Adão dá Eva à luz’, escreve-se sorrindo, quando seria de se chorar. Os antigos teriam definido tudo isso com um termo :hybris, a arrogância do homem diante de Deus.
É justamente a escolha do diálogo e da autocrítica o que nos dá o direito de denunciar estes projetos como ‘desumanos’, ou seja, contrários não só à vontade de Deus, mas também ao bem da humanidade. Traduzidos na prática em larga escala, eles poderiam levar a quedas humanas e sociais imprevisíveis. Nossa única esperança é que o bom senso das pessoas, junto com o ‘desejo’ natural do sexo oposto e com o instinto de maternidade e paternidade que Deus inscreveu na natureza humana, resista a essas tentativas de substituir Deus, ditadas mais por tardios sentimentos de culpa do homem do que por genuíno respeito e amor à mulher.

Um ideal a ser redescoberto
Não menos importante que a tarefa de defender o ideal bíblico do matrimônio e da família é a tarefa de redescobri-lo e vivê-lo plenamente como cristãos, a fim de repropô-lo ao mundo mais com fatos do que com palavras. Os primeiros cristãos, com seus costumes, mudaram as leis do Estado sobre a família; nós não podemos pensar em fazer o oposto, ou seja, em mudar os costumes das pessoas com as leis do Estado, ainda que, como cidadãos, tenhamos o dever de ajudar o Estado a fazer leis justas.
Depois de Cristo, nós lemos corretamente o relato da criação do homem e da mulher à luz da revelação da Trindade. A esta luz, a frase ‘Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou’ revela finalmente o seu significado, enigmático e incerto antes de Cristo. Que relação pode haver entre ser ‘à imagem de Deus’ e ser ‘homem e mulher’? O Deus da Bíblia não tem conotações sexuais, não é nem homem nem mulher.
A semelhança consiste nisto. Deus é amor e o amor exige comunhão, intercâmbio interpessoal; exige um ‘eu’ e um ‘tu’. Não há amor que não seja amor de alguém; onde só há um sujeito, não pode haver amor, mas egoísmo ou narcisismo. Onde Deus é concebido como Lei ou Poder Absoluto não há necessidade de uma pluralidade de pessoas (o poder pode ser exercido sozinho). O Deus revelado por Jesus Cristo, sendo amor, é único, mas não solitário; é uno e trino. Coexistem nele unidade e distinção : unidade de natureza, de querer, da intenção, e distinção de características e de pessoas.
Duas pessoas que se amam – e o caso do homem e da mulher no matrimônio é o mais forte – reproduzem algo do que acontece na Trindade. Lá, duas pessoas – o Pai e o Filho – se amam e ‘sopram’ o Espírito que é o amor que os funde. Houve quem chamasse o Espírito Santo de ‘Nós divino’, ou seja, não a ‘terceira pessoa da Trindade’, mas a primeira pessoa plural [7]. Precisamente nisto é que o casal humano é imagem de Deus. Marido e mulher são, de fato, uma só carne, um só coração, uma só alma, ainda que na diversidade de sexo e de personalidade. No casal se reconciliam entre si a unidade e a diversidade.
A esta luz, descobre-se o profundo significado da mensagem dos profetas sobre o matrimônio humano : que ele é um símbolo e reflexo de outro amor, o de Deus pelo seu povo. Isto não significava sobrecarregar de significado místico uma realidade puramente mundana. Não é apenas fazer simbolismo; é, antes, revelar a verdadeira face e o escopo último da criação do ser humano como homem e mulher.
Qual é a causa da incompletude deixada pela união sexual, dentro e fora do matrimônio? Por que esta dinâmica recai sempre sobre si própria e por que esta promessa de infinito e eterno é sempre frustrada? Para esta desilusão se tenta um remédio que, no entanto, só faz aumentá-la. Em vez de mudar a qualidade do ato, se aumenta a sua quantidade, passando-se de um parceiro a outro. Chega-se assim à destruição do dom de Deus que é a sexualidade, destruição em andamento na cultura e na sociedade de hoje.
Queremos de vez, como cristãos, procurar uma explicação para esta devastadora disfunção? A explicação é que a união sexual não é vivida do jeito e com a intenção querida por Deus. Este escopo era que, através do êxtase e da fusão de amor, o homem e a mulher se elevassem acima do desejo e tivessem certa pregustação do infinito; que se lembrassem de onde vieram e para onde eram direcionados.
O pecado, a começar pelo de Adão e Eva bíblicos, atravessou este projeto; ‘profanou’ aquele gesto, ou seja, o destituiu do seu significado religioso. Fez dele um gesto que é fim de si mesmo, conclusão em si mesmo e, portanto, ‘insatisfatório’. O símbolo foi separado da realidade simbolizada, privado de seu dinamismo intrínseco e, portanto, mutilado. Nunca como neste caso se experimenta a verdade do dito de Agostinho : ‘Fizeste-nos para ti, ó Deus, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti’. Não fomos criados, de fato, para viver num eterno relacionamento de casal, mas para viver num eterno relacionamento com Deus, com o Absoluto. Mesmo o Fausto de Goethe o descobre ao fim do seu longo vagar; repensando em seu amor por Margarida, ele exclama no final do poema : ‘Tudo o que passa é só uma parábola. Só aqui [no céu] o inatingível se torna realidade’.
No testemunho de alguns casais que fizeram a experiência renovadora do Espírito Santo e vivem a vida cristã carismaticamente, encontra-se algo do significado original do ato conjugal. Não é de admirar que seja assim. O matrimônio é o sacramento do dom recíproco que os esposos fazem de si mesmos um ao outro, e o Espírito Santo é, na Trindade, o ‘dom’, ou melhor, o ‘doar-se’ recíproco do Pai e do Filho, não um ato passageiro, mas um estado permanente. Onde chega o Espírito Santo, nasce, ou renasce, a capacidade de fazer-se dom. É assim que opera a ‘graça de estado’ no matrimônio.

Casados e consagrados na Igreja
Embora nós, consagrados, não vivamos a realidade do matrimônio, como eu disse anteriormente, nós temos de conhecê-la para ajudar os que a vivem. Adiciono outra razão : precisamos conhecê-la para ser, nós também, ajudados por eles! Falando de matrimônio e virgindade, o Apóstolo diz : ‘Cada um tem o próprio dom (chárisma) de Deus, uns de uma forma, outros de outra’ (1 Cor 7, 7); ou seja : o casado tem seu carisma e o que não se casa ‘por causa do Senhor’ tem o dele.
O carisma – diz o mesmo Apóstolo – é ‘uma manifestação particular do Espírito para o bem comum’ (1 Cor 12, 7). Aplicado à relação entre casados e consagrados na Igreja, isto significa que o celibato e a virgindade também são para os casados e que o matrimônio também é para os consagrados, ou seja, para o seu bem. Esta é a natureza intrínseca do carisma, aparentemente contraditória : algo de ‘particular’ (‘uma manifestação particular do Espírito’), mas que serve a todos (‘para o bem comum’).
Na comunidade cristã, consagrados e casados podem ‘edificar’ uns aos outros. As pessoas casadas são chamadas, pelos consagrados, ao primado de Deus e daquilo que não passa; são introduzidos no amor à Palavra de Deus que eles podem melhor aprofundar e ‘compartilhar’ com os leigos. Mas as pessoas consagradas também aprendem algo das casadas. Aprendem a generosidade, a abnegação, o serviço à vida e, muitas vezes, certa ‘humanidade’ que vem do duro contato com as realidades da existência.
Falo por experiência própria. Eu pertenço a uma ordem religiosa em que, até alguns anos atrás, nos levantávamos à noite para recitar o ofício ‘matutino’, que durava cerca de uma hora. Houve então o grande ponto de viragem na vida religiosa, resultante do concílio. Parecia que o ritmo da vida moderna – o estudo para os jovens e o ministério apostólico para os sacerdotes – não permitia mais aquele levantar-se noturno que interrompia o sono, e, pouco a pouco, ele foi abandonado, a não ser em alguns lugares de formação.
Quando, mais tarde, o Senhor me deu a conhecer de perto, em meu ministério, várias famílias jovens, descobri algo que salutarmente me sacudiu. Aqueles jovens papais e mamães tinham de se levantar não uma, e sim duas, três ou mais vezes por noite para dar de comer, dar remédios, embalar o bebê se ele chorasse, cuidar dele se estivesse com febre. E, de manhã, um dos dois, ou ambos, na hora de sempre, tinham de correr para o trabalho depois de levar a criança para a casa dos avós ou para a creche. Havia um relógio-ponto para ser batido, fizesse bom ou mau tempo, com saúde ou sem ela.
Então eu me disse : se não corrermos para nos consertar, corremos grave perigo! O nosso modo de vida, se não for regido pela observância autêntica da Regra e por certo rigor de horários e hábitos, periga se tornar uma vida mansa e nos levar à dureza do coração. O que os bons pais são capazes de fazer pelos filhos carnais, o grau de esquecimento de si mesmos a que são capazes de chegar para cuidar da saúde deles, dos seus estudos e da sua felicidade, deve ser a medida do que nós devemos fazer pelos nossos filhos e irmãos espirituais. Temos o exemplo do apóstolo Paulo, que dizia querer ‘consumir-se’ pelos seus filhos de Corinto (cf. 2 Cor 12, 15).
Que o Espírito Santo, doador dos carismas, ajudar a todos nós, casados ou consagrados, a colocar em prática a exortação do apóstolo Pedro :
Viva cada um segundo o dom recebido, colocando-o a serviço dos outros, como bons administradores da multiforme graça de Deus (…), para que em tudo seja Deus glorificado por meio de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém!’ (1 Pd 4, 10-11).

Fonte :
*Artigo na íntegra
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[1] P. Claudel, Le soulier de satin, a.III. sc.8 (ed. La Pléiade, II, Paris 1956, pág. 804).
[2] João Paulo II, Homem e mulher os criou. Catequeses sobre o amor humano, Roma 1985, pág. 365.
[3] Gregorio Magno, Moralia in Job, 20, 1, 1.
[4] João Paulo II, audiência de 16 de janeiro de 1980 (Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Libreria Editrice Vaticana 1980, pág. 148).
[5] Bento XVI, Deus caritas est, 11.
[6] Cf. Santo Agostinho, Discursos, 51, 25 (PL 38, 348).
[7] Cf. H. Mühlen , Der Heilige Geist als Person. Ich – Du – Wir, Münster in W., 1963.'

sábado, 8 de agosto de 2015

É necessário que os homens assumam de forma madura sua forma de amar, para ser pais

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém, PA


‘Jesus nos contou de forma maravilhosa que Deus é Pai. A paternidade e a maternidade estão presentes em nossa natureza humana, e toda pessoa recebe esta missão, ainda que de formas diferentes. Ninguém nasceu para a esterilidade, pois todos nascemos para gerar, e não poderia ser de outro modo, pois somos imagens e semelhança de Deus, que é Pai e Mãe, ao mesmo tempo. Deus nos pede respeitosamente nossas entranhas paternas e maternas, como pediu à Virgem Maria, para continuar a gerar a vida. E é necessário que os homens assumam de forma madura sua forma de amar, para ser pais.

No entanto a paternidade está em crise, o que leva à crise de lideranças maduras e corajosas no mundo. E quando faltam pais, idolatra-se a imagem de uma eterna juventude. Não basta ao homem gerar filhos, sem ser realmente pai. A ausência dos pais se expressa na ausência física, na ausência afetiva, com medo de expressar carinho e afeto e na ausência normativa, já que os pais devem claros em seus critérios sem receio de estabelecer limites. Sejam homens capazes de amar com vigor e ternura, para que se estabeleça o adequado equilíbrio de relações entre as pessoas, a partir da magnífica polaridade entre homem e mulher, criada pelo próprio Deus.

Nas pessoas consagradas, o caminho é peculiar. No início, encanta-os ser irmãos. Depois, alguém os vê com traços de pai, e estes entendem ter recebido também a vocação paterna. E isto dá um sentido bonito ao celibato. Para os padres, cujo dia foi celebrado há pouco, ser pai pastor é a oportunidade maravilhosa que Deus lhes presenteia para amar muitos filhos e filhas. Encanta pôr à disposição de Deus a sensibilidade, os afetos, a imaginação, a inteligência, a poesia, a beleza, a serviço do Espírito que gera vida em cada Batismo, Absolvição, Eucaristia, Confirmação, Unção, Matrimônio. Mas também para eles é longo o caminho para chegar a amar com gratuidade, pureza de mente e coração, sem pretender tomar posse e sem a rigidez que provém do medo de amar e ser amados.

No dia dos pais, com o qual se abre a Semana Nacional da Família, realizada em todo o Brasil, desejamos valorizar a vocação paterna e os muitos testemunhos encontrados em nossas Paróquias e Comunidades. Neste ano, o tema da Semana da Família é ‘O amor é a nossa missão. A família plenamente viva’. E a vitalidade da família quer ser por nós reconhecida a partir do exercício da paternidade, na vocação masculina de gerar vida, fundamental em nosso mundo e na Igreja.

Fomos todos chamados a amar. E este amor começa em Deus, que é sua fonte, sem o qual todo amor humano desfalece. Queremos convidar todos os homens a acolherem com coração aberto o fato de serem amados por Deus e por ele chamados a amar. Amar é dar a vida pelos outros, com clareza e firmeza. Não há maior manifestação possível de virilidade do que sair de si mesmos para fazer o bem, buscando corajosamente o bem dos outros, começando pela prole que os homens têm a graça de gerar, participando da obra criadora de Deus. Sua missão é feita de um olhar acolhedor para a paternidade do próprio Deus, e lhes cabe enfrentar as múltiplas dificuldades da vida com ousadia e firmeza.

O amor há de ser vivido na família, e nos voltamos hoje de modo especial para os homens que receberam a vocação da paternidade. Cabe-lhes, por fidelidade à vocação recebida, a iniciativa do amor. Dar o primeiro passo para edificar a família e buscar o trabalho que lhes possibilite prover às necessidades do lar. Para tanto, devem descobrir cada dia mais o sentido da gratuidade. Está na natureza humana a superação das relações de troca com preço. É magnífico saber que pais de verdade não cobram pagamento dos que lhes são confiados. Isso faz com que, por mais simples que sejam suas vidas, sejam pessoas totalmente entregues à missão recebida. Vivem um ofício de amor, com o qual acolhem a todos e preferem cada pessoa, conhecendo a esposa e cada um dos filhos. Permanecem no amor (Cf. Jo 15, 9-11), acompanhando cada um dos membros da família, fiéis e perseverantes. Acompanhar é permanecer no amor, prolongar no tempo e no espaço a acolhida e a animação. É a atitude de quem assume a posição de pai, com atenção e serviço.

Em Deus Pai, a acolhida é atitude permanente. Ele não só acolhe como é acolhedor. E isto aprendemos com o ensinamento e a vida de Jesus, que faz conhecer o Pai, começando dos noivos de Caná, até chegar ao bom ladrão do Calvário. Ele nos ensina a ser filhos do Pai celeste. ‘Ouvistes o que foi dito : Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo : amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5, 43-48). A Família, Igreja Doméstica, tem como vocação ser o rosto de Jesus, de braços abertos e coração palpitante, com boas vindas escrita nos umbrais da casa. E o ‘dono da casa’ é chamado a ser sinal do Pai e do Filho, conduzido pela força do Espírito Santo. A Igreja Doméstica será de verdade uma casa de acolhimento na medida em que seus moradores acreditarem na força do Espírito que a ninguém nega sua presença e que a cada um acolhe no mais íntimo do coração, como ‘doce hóspede da alma’.

Justamente porque o mundo em que vivemos é frio e calculista e são muitíssimos os que se sentem sem apoio, queremos voltar ‘para casa’, reencontrando no lar, fundado no Sacramento do Matrimônio, a fonte de realização sonhada por todos. Neste dia dos pais, olhamos com gratidão para aqueles que já vivem com intensidade sua magnífica vocação e rezamos pelos que, tendo-a recebido de graça, ainda não descobriram toda a sua grandeza. Nosso presente é dizer que são presente de Deus para nossas famílias!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/e-necessario-que-os-homens-assumam-de-forma-madura-sua-forma-de-amar-para-ser-pais

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Sínodo e a Família

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Dom Demétrio Valentini,
Bispo de Jales - SP  

‘Neste domingo dia 05, enquanto no Brasil se realizam as eleições, em Roma começa o Sínodo Extraordinário sobre a Família, convocado pelo Papa Francisco.

Nunca um sínodo suscitou tanto interesse como desta vez.

Em primeiro lugar, porque o assunto é urgente, e se reveste de dramaticidade, tal a problemática enfrentada hoje pela família.

Mas a razão do interesse não é só esta. Este Sínodo traz a marca registrada do Papa Francisco. Foi decisão sua, convocar um Sínodo Extraordinário para a Igreja se defrontar, sem rodeios nem evasivas, com a complexa realidade vivida hoje pelas famílias.

Visto na perspectiva mais ampla da conjuntura atual, este Sínodo vem completar a definição do perfil deste pontificado. É o arremate que faltava, para deixar bem desenhado o projeto que este papa acalenta. Ele deseja ver a Igreja se aproximando da sociedade, não para condená-la, mas para se colocar, solidariamente, ao lado da sociedade.

O foco desta solicitude pela família não é em primeiro lugar urgir uma visão teologicamente correta da família. Mas antes, de ir ao encontro das pessoas que se sentem envolvidas pela problemática familiar, na tentativa de lhes oferecer apoio para as opções concretas que precisam assumir.

Neste sentido, dá para transferir para a família de hoje as palavras que Cristo pronunciou a respeito da missão que ele tinha a cumprir neste mundo. ‘Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele’.

Por mais complexas que sejam as situações, vividas hoje pelas famílias, sempre é possível encontrar um terreno comum, entre Igreja e Sociedade, entre Pastoral da família e situações familiares problemáticas, e assim promover iniciativas válidas de enfrentamento das dificuldades.

Algumas insistências do Papa Francisco encontram na família a possível concretização.

Ele insiste numa Igreja misericordiosa, portadora do perdão que Deus oferece a todos, gratuitamente, propõe uma Igreja acolhedora, que não exclua ninguém de participar da comunidade e sonha com uma Igreja de portas abertas, não só para acolher bem todos que a procuram, mas também para sair e ir ao encontro de quem se encontra mais fragilizado e mais necessitado de apoio.

Pois bem, estas recomendações todas encontram concretude no contexto da realidade vivida hoje pelas famílias.

Sem deixar de apontar os valores ideais, que sempre precisam servir de referência para qualquer abordagem que se faça a respeito da família, sempre é possível promover ações solidárias em benefício das famílias, em especial as que mais necessitam de apoio.

Toda a expectativa suscitada por este sínodo, se volta para as possíveis medidas pastorais, que a Igreja poderá assumir e propor em favor das famílias.

Esperamos que estas expectativas se realizem, e não sejam bloqueadas por resistências internas que as inviabilizem.

Vale a pena continuar apostando na família!’


Fonte  :


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Construir sobre a rocha

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Eva Carreras del Rincón

‘Faz pouco mais de um ano que o meu pai faleceu e, durante a missa do funeral, enquanto nos despedíamos dele, eu senti ao mesmo tempo uma dor imensa e uma intensa alegria. Depois, conversando com as amigas que me acompanhavam, eu me lembro de ter dito que o meu maior agradecimento ao meu pai era pela fé e pela confiança na providência divina que ele tinha me transmitido. Era aquela, para mim, a herança mais preciosa. É ela que me mantém de pé sobre rocha. 

E esta é a herança que eu também quero deixar para os meus filhos, familiares e amigos. 

O primeiro passo é ser conscientes da sua importância. Podemos deixar muitas coisas para os nossos filhos: estudos, bons colégios, viagens, esporte, computadores, idiomas, cursos... Tudo isso é muito bom e necessário. Mas se nos esquecemos de ensinar a eles o imenso Amor de Deus ou o escondemos no fundo do nosso coração ou nos limitamos a uma série de costumes e tradições, vamos deixá-los indefesos diante da vida e das tormentas que os esperam. Estaremos construindo sobre areia. 

Por onde começar? Tornando-nos como crianças. Não precisamos ficar lembrando as nossas tentativas frustradas nem os bons momentos em que tudo parecia um mar de rosas, antes que os nossos filhos entrassem na adolescência, por exemplo. Temos é que olhar para frente, segurando firme na mão de Deus. 

Seria bom meditarmos e conversar com Deus para saber o que Ele quer para cada um de nós e para as nossas famílias. Nada melhor do que os exercícios espirituais para isso. E é bom fazê-los todos os anos, porque nós e as nossas famílias vamos mudando: o que é bom hoje, talvez não seja o melhor amanhã.

Comecemos por nós mesmos: renovemos o nosso amor a Deus e a nossa fé, porque ninguém dá o que não tem. Depois podemos passar para a parte prática e de organização. Quais são os tempos de oração que existem na minha casa? Cada família é única e tem que encontrar o seu próprio caminho. Mas há orações que pedem a participação da família: o santo terço, as orações da manhã e da noite, a bênção da mesa, a Santa Missa dos domingos e das festas de guarda… E cada um pode acrescentar o que quiser, para começar a sua própria tradição familiar.

Enquanto escrevo, folheio o que o papa disse na homilia deste domingo e encontro estas palavras: “As crianças são o elo de uma corrente. Vocês, pais, têm um filho ou uma filha para batizar, mas, dentro de alguns anos, serão eles que vão ter que batizar um filho ou um sobrinho. Essa é a corrente da fé! O que significa isso? Eu só queria dizer isto: são vocês que comunicam a fé, vocês são os transmissores; vocês têm o dever de comunicar a fé a essas crianças. É a herança mais bela que eles podem receber: a fé. Só isso. Levem para casa este único pensamento. Temos que ser transmissores da fé. Pensem nisso e em como transmitir a fé às crianças”.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/construir-sobre-a-rocha


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Catequese para a família : 'Qual é a nossa missão no mundo?'

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)

 
‘Nesta semana que estamos começando, o foco é a missão da Igreja no mundo, com a Jornada Mundial pela Evangelização dos Povos (Domund) e seu tema “Fé + Caridade = Missão”. O ponto de partida vem de duas constatações da Palavra de Deus: a necessidade de orar sempre (Lc 18,1-8 e Ex 17,8-13) e de proclamar a palavra, insistindo e exortando com toda a magnanimidade e de acordo com a doutrina (2 Tim 3,14-4,2).
 
Diz o papa Francisco, no nº 46 da encíclica Lumen Fidei, que os quatro elementos que contêm o tesouro de memória transmitido a nós pela Igreja são a confissão da fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do decálogo e a oração. Sobre a oração do Senhor, o Pai-Nosso, ele destaca que o cristão aprende, através dela, a compartilhar a mesma experiência espiritual de Cristo e a ver com os olhos de Cristo. A partir daquele que é luz da luz, o Filho Unigênito do Pai, também nós conhecemos a Deus e podemos acender nos outros o desejo de aproximar-se dele. O número 51 nos diz que as mãos da fé se alçam ao céu, mas, ao mesmo tempo, edificam na caridade uma cidade construída sobre relações que têm como fundamento o amor de Deus.
 
A nossa experiência, o nosso modo de presença no mundo, de cada dia, em qualquer circunstância, está de acordo com Jesus Cristo? Somos sustentados pela comoção perante o Seu olhar e a Sua voz que tanto nos correspondem, abraçam e renovam?
 
Na assembleia plenária do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, dizia também o papa Francisco que temos que “despertar no coração e na mente dos nossos contemporâneos a vida da fé. A fé é um dom de Deus, mas é importante que nós, cristãos, mostremos que vivemos a fé de modo concreto, através do amor, da concórdia, da alegria, do sofrimento, porque isto suscita perguntas, como acontecia no começo da vida da Igreja: por que eles vivem assim? O que os impulsiona? São interrogações que apontam para o coração da evangelização, que é o testemunho da fé e da caridade”.
 
Nesta semana também contamos com uma pessoa excepcional que ilumina esse caminho da nossa tarefa missionária no mundo: o bispo Santo Antônio Maria Claret (1807-1870), cuja memória celebramos na quinta-feira, dia 24. No número 264 da sua Autobiografia, ele nos fala da oração como meio do seu apostolado: “O primeiro meio de que sempre me vali e me valho é a oração. Este é o meio máximo que considero necessário… Não só orava eu, mas pedia ainda que orassem os outros”. Assim orava o sacerdote, contemplativo na ação, com a consciência plena de um autêntico missionário apostólico, ungido pelo Espírito, para falar aos pobres anunciando a eles a Boa Nova. O pe. Claret, missionário apostólico, nos mostra hoje que nós, ao ser ungidos como Cristo, devemos agir como ele, sanando, curando, consolando, sendo anúncios vivos da urgência da caridade do Senhor para cada um.
 
Assim, temos de aproveitar qualquer circunstância para comunicar o evangelho aos homens de hoje, com as nossas palavras e gestos, partindo das categorias que sejam inteligíveis, singelas, claras, de forma significativa, que tenham a ver com as preocupações, interesses e necessidades reais das pessoas. Porque só com a caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível conseguir objetivos de desenvolvimento com um carácter mais humano e humanizador (Caritas in veritate, 9). Identificando-nos com Jesus Cristo, é preciso levar hoje, a todos, a Sua presença, de uma experiência nova de afeto, apego real, a Ele, realizando a comunhão urgente em caridade com Ele e entre nós. Esta é a nossa missão.’ 


Fonte :
Artigo na íntegra de
http://www.zenit.org/pt/articles/qual-e-a-nossa-missao-no-mundo


  

sábado, 29 de dezembro de 2012

Orar no aconchego da Sagrada Família

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 Oração da Sagrada Família
 
‘Sagrada Família de Nazaré :
ensina-nos o recolhimento, a interioridade,
dá-nos a disposição de escutar as boas inspirações e
as palavras dos verdadeiros mestres;
ensina-nos a necessidade do trabalho, da preparação, do estudo,
da vida pessoal interior, da oração, que Deus vê em segredo.
Ensina-nos o que é a Família, sua comunhão de amor,

sua beleza simples e austera,

seu caráter sagrado e inviolável. Amém.’

( Papa Paulo VI )


sábado, 31 de dezembro de 2011

A SAGRADA FAMÍLIA






Dia 30 de dezembro se comemora o dia da Sagrada Família, que se compõe de Jesus Maria e José. 

Tanto se falou sobre ela, porém, nunca se esgotarão palavras e textos para enaltecer tão majestosas pessoas.
 
Alegra-te ó cheia de graça, o Senhor é contigo. Anunciando-lhe que haveria de dar à luz um filho, (concebido pelo Espírito Santo de Deus) e que se chamaria Emmanuel ( Deus conosco). Maria, exemplo de obediência plena, até o fim, disse sim para a vinda de Jesus. Também creu quando, em seu colo, reposou o corpo dilacerado e inerte do Deus homem, sem nenhum gesto de afetação, pois já guardara as palavras de Simeão quando lhe disse que a espada da dor lhe traspassaria o peito pela salvação do mundo. 

A José, da linhagem de David, fora dada a oportunidade de acreditar nas palavras de sua prometida Maria, de que estava gestando o filho de Deus por ação do Espírito Santo. A ele também fora atribuída uma oblação: a de ser pai de Jesus, crendo na sua concepção divina; nada fácil para os costumes e tradições da época, mas José obedeceu após a visita do anjo do Senhor que lhe confirma ser verdadeira a afirmação de Maria. E, sem mais desconfiança, tomou seu encargo e foi o pai humano de Jesus, certamente um bom companheiro em seu ofício de carpinteiro. 

Assim, esses dois jovens, Maria e José, escolhidos por Deus e aceitando, humildemente, seu duro encargo, presentearam os povos de todas as nações com o Menino Jesus. E, enfrentando todos os empecilhos, (desde a desconfiança que recaia sobre a fidelidade de Maria ao noivo, o nascimento de Jesus em um estábulo, porque não lhe forneceram hospedaria, na fuga do Egito, até o perigo do recenseamento, pelo Rei Herodes que mandara exterminar todas as crianças de até dois anos de idade). 

A Sagrada Família levava consigo o Filho de Deus, Jesus feito homem, que viera ao mundo para viver sob o signo da perseguição. Esse jovem casal criou nosso Salvador com obediência, fé, perseverança e confiança nos desígnios do Pai. José morre antes de ver seu filho crucificado. Maria, mais agraciada, colheu em seus braços o filho morto. Mas teve a grande ventura de vê-lo ressuscitar dos mortos para júbilo de todos. 

Essa venerável família nos ensinou a disciplina espiritual necessária, haurida pela obediência à Sagrada Palavra, para o adquirirmos conhecimento de como seguir a Cristo Jesus. Nos ensinou o imprescindível silêncio e aquietação do espírito para a oração, a simplicidade, para escutarmos e aprender como vivenciar uma vida verdadeiramente interior em família. 

A Família de Nazaré nos deixa a lição de como viver na comunhão, no amor, no trabalho simples e profícuo, com a nobreza dos escolhidos para criar o Filho de Deus. Se seguirmos os exemplos Sagrada Família, haveremos de perseverar na esperança falada pelo Papa Paulo VI, (As lições de Nazaré - pronunciada em 5 de janeiro de 1964 (In Liturgia das Horas, pg.383/383 vol.I). 

Essa é uma pequena parte da história da salvação, que com certeza não cabe nessa página, mas cabe no coração do homem de boa vontade, que aguarda a parusia, a nova vinda de Jesus, que ressurgirá em esplendor, mostrando sua face a todo o povo de Deus. E nesse dia, o homem com ele será feliz na vida eterna prometida.